07 outubro 2010

DIEGO FUENZALIDA, Esquire


Diego Fuenzalida,  Esquire

Diego era argentino, radicado no Brasil há quatro anos. Radicado é um modo de dizer porque as raízes dele não passavam de uma nesga de musgo ao redor dos pés, o que não daria para sustentar nem um pé de salsinha. Mas ele vivia aqui e apesar desse tempo todo convivendo com os nativos, não conseguiu aprender uma só palavra de português, não se sabe se por incapacidade ou por indústria.

Diego tinha tanto medo de ser considerado descendente de italianos, como é a quarta parte da população argentina, que fez juntar ao seu nome o tratamento usado pela nobreza britânica: “Esquire”. Nobre ou não, soube-se, mais tarde que, em Buenos Aires, ele era chamado simplesmente de “El Pelotudo”.

Trabalhávamos na Fábrica Bangu, a velha e então famosa fábrica de tecidos que fazia desfiles de moda no Rio e em Paris, onde apresentava seus figurinos de puro algodão, desenhados pelos melhores estilistas , e seu organdi, único no mundo. Ser técnico da Bangu, naquela época, era quase como ser artista da Globo hoje. Era nesse ambiente refinado, cruzando com lindas modelos, que Diego desfilava seu charme, maculado, era inevitável, pelo seu afetado castelhano itálico. Por isso mesmo, e apesar do Esquire que lhe chegava em toda a correspondência, ele não escapou de ficar conhecido como “Diego Papas Fritas”.
Além dos famosos tecidos, a Bangu produzia também jogos de futebol. Tinha criado o seu próprio time, sempre na primeira divisão. Tinha, também, seu próprio estádio.

À exemplo das universidades americanas, onde seus ídolos esportivos não precisam estudar para serem promovidos de ano, a Bangu dispensava do trabalho os seus craques que, claro, constavam da folha de pagamento. E foi aí que Jorge deu sua primeira mancada ou, na sua própria língua, “metió la pata”.

Três horas depois de iniciado o turno da manhã, dois fiandeiros se apresentam com um bilhetinho na mão para que ele assinasse a permissão de saída.

-- Que? Estais borrachos, vos?
-- É que nós precisamos sair para treinar. Vai ter jogo no sábado.
-- Que? Para jugar a la pelota? Coños! Que se vuelvam a su trabajo y no me vengan mas con guevadas!”

E assim os dois foram despachados de volta ao trabalho, em nome da ordem, da disciplina, da dignidade, das boas práticas administrativas, tudo de acordo com o que o estudioso Diego havia aprendido na escola. Cinco minutos depois o telefone toca. Era o diretor.

--Escuta aqui, seu portenho maluco! Você quer acabar com a minha fábrica?

Em pleno campeonato? Solta logo esses dois e apresente-se na minha sala.

A habilidade do Diego para lidar com homens e máquinas nunca foi reconhecida na Bangu. Suas verdadeiras habilidades se revelariam pouco tempo depois; a verdadeira vocação de Diego Papas Fritas, Esquire era lidar com cifrões.

Quando resolveu visitar a família em Buenos Aires, Diego fez as contas. As passagens aéreas naquela época eram caras, se comparadas aos outros meios de transporte. Assim, descobriu que fazendo o trecho Rio – São Paulo de ônibus, ele economizaria bastante. Portanto comprou a passagem São Paulo-Buenos Aires, ida e volta. Faria o resto de ônibus, embora isto lhe custasse dois dias de tempo a mais na viagem.

A ida foi normal. Na volta, o aeroporto de São Paulo estava sem teto e o avião passou direto, aterrissando no Rio. Qualquer pessoa que estivesse no lugar do Diego teria ficado feliz; ganhara uma passagem São Paulo-Rio, além do tempo correspondente à viagem de ônibus. Mas não o Diego. Começou a esbravejar ainda dentro do avião. Quando desceu, a notícia da sua fúria já havia chegado aos comissários de terra.


-- Mijones de dólares me hacen perder estos cabrones. Yo tenía que estar em San Pablo, tengo contractos para firmar. Que voy a hacer, por Dios!

-- Senhor, por favor, acalme-se. Vamos acomodá-lo em um avião que sairá dentro de uma hora, o tempo já está melhorando.

Apanhado de surpresa, Jorge não se intimidou:

-- Como? En estas condiciones? Que chiflado, este! Estoy aturdido, completamente traumatizado, no puedo viajar en estas condiciones, ustedes no tienen alma, no, no. Me pongan en um hotel, ustedes tendran por aí un Hilton qualquiera . Que? Hotel Nuevo Mundo, no, no, estás loco, por favor, yo no soy ningun epiltrafa, y a lo demás... como? Copacabana Palace? Si, esse está bien.”

E o Diego comeu e bebeu, e deitou-se nos finos lençóis de linho do Copacabana Palace às custas da Panair do Brasil e engrossou, com suas mijadas, o fluxo da cloaca massima do Rio de janeiro.

Quando Diego me contou essa história eu imaginei que, nesse ponto, ele se considerasse realizado e feliz. Nem a mente mais engenhosa conseguiria encontrar uma forma de extrair mais leite daquela pedra. Eu ainda não o conhecia. Na manhã seguinte, Diego Papas Fritas, Esquire, apresenta-se no balcão da Panair. É recebido com uma lista de vôos para que programasse a sua volta a São Paulo.

-- Che, mirà, he resolvido mis problemas por cable, anoche. Perdi um montón de plata y ahora tengo que quedar-me acá . Ustedes me emiten un boleto Rio- San Pablo com fecha abierta y todo queda arreglado. Como? Hablar com el jefe? Si, como no! Si, si está bien, muchas gracias, saludos a todos.

E Diego saiu com um bilhete em aberto, acrescentando mais alguns trocados ao seu patrimônio, quando nem Belzebu imaginaria que isso fosse possível.

Eu sei que o que vou dizer agora não tem nada a ver com o meu amigo Diego, mas não quero perder a oportunidade: sempre achei que o Brasil deveria invadir a Argentina para seqüestrar o queijo parmesão deles. É muito melhor do que o nosso. E mais barato.


Luigi Spreafico

22 setembro 2010

DE APLAUSOS E DE VAIAS



O aplauso do blogueiro é o comentário.
Num teatro onde se representa qualquer coisa a platéia costuma se manifestar aplaudindo, quando gosta, ou vaiando, quando não gosta, o que vê. Tem sido assim desde a tragédia grega até os cantadores do Nordeste. Em muitos casos, o público alcança um grau tal de entusiasmo que aplaude em cena aberta, obrigando os atores a suspender a representação, mantendo-se congelados em suas posições. Na ópera isto é muito comum quando o tenor ou a soprano terminam uma ária mais difícil. Dependendo da intensidade dos aplausos e dos gritos de bis...bis... o cantor retribui com uma repetição da ária.

Mas nem sempre há aplausos. Também há desaprovações. Muitos tenores foram vaiados em cena aberta por desafinarem e disto não escapou nem o grande Pavarotti num dia em que sua goela o traiu, no Scala de Milão.

Os aplausos e as vaias são, para os atores, a bússola que os orienta e os incentiva a prosseguir – ou não – no seu trabalho. Pessoalmente sou contra os apupos e vaias. Pode-se deixar de aplaudir algo de que não se goste mas vaiá-lo é uma violência que desonra o ser humano..

Para o blogueiro que transpira na labuta quotidiana extraindo das entranhas palavras e pensamentos na esperança de levar ao seu leitor um pouco de qualquer coisa que o faça pensar, rir, chorar, sonhar, dormir, xingar, lamentar ou seja lá o que for, merece também um aplauso, uma desaprovação, ou seja lá o que for.

Porque o aplauso do blogueiro é o comentário

Mas não se assuste caro colega se os comentários que você receber nem sempre lhe forem favoráveis Vou mostrar-lhe o que Millor Fernandes, o grande Millor, recebeu quando estreou a peça “Um Elefante no Caos”, em Julho de 1960:

1 - “Um Elefante no Caos”, simplesmente não é teatro” - Van Jafa, no Correio . da Mãnhã

2 – “Millor é um individualista pré marxista, preso a um sistema ético-familiar.” – . Paulo Francis, no Diário de Notícias.

3 – “O enredo nada tem de interessante.” – Brício de Abreu, no Diário da Noite.

4 – “Conseguiu Millor Fernandes uma coisa dificílima; transportou para o palco . sua seção humorística de “O Cruzeiro”. – Zora Seljan, O Globo

Acho, também, que você não deve se amofinar por ter escrito, alguma vez, alguma bobagem. Grandes escritores já escreveram grandes bobagens. Console-se, por exemplo, com esta pérola escrita pelo admirável Oscar Wilde:

“Não gosto dos atuais livros de memórias. Em geral são escritos por pessoas que esqueceram completamente tudo o que viveram ou então não fizeram nada digno de lembrança”

Quanto a mim, estou orgulhoso. Soltei as amarras. Comecei minha carreira de crítico descendo o sarrafo no Oscar Wilde.
Finalmente, considerando que nos dias de hoje todo mundo anda extremamente ocupado, resolvi apresentar uma coleção de comentários pré-fabricados que facilitarão o leitor, anônimo ou não, a fazer sua crítica. Não precisa nem ler a matéria. Muitos deles se ajustam a qualquer tema. È rápido. Basta clicar: Copiar / Colar.

Estão separados em duas categorias: na primeira estão comentários já usados, extraídos de blogs existentes, portanto autênticos. Destes, alguns foram recondicionados ou receberam pequenos reparos, outros apenas retoques de pintura.

A segunda categoria apresenta comentários novinhos em folha – para quem não gosta de mercadoria usada.

COMENTÁRIOS SEMI-NOVOS

1 - Será que crônica tem a ver com a indignação do cronista?

2 - Gostei do seu texto!

3 - Seu texto está muito bem escrito mas não me parece uma crônica.

4 - Desculpe, senhor cronista, mas o senhor é um chato.

5 - Somente, do meio para o fim é que achei que estava lendo uma crônica.

6 - Bem escrito mas completamente fora do tema.

7 - Parece que tem o dom de descrever o universal, mas ficou confuso.

8 - Estava gostando muito no início mas quando comecei a ver a série de . . . palavras terminadas em “inhos e inhas” cortou o meu baratinho.

COMENTÁRIOS NOVOS EM FOLHA

1 – Sua crônica é chocha mas bem escrita.

2 – Li, pacientemente, a sua crônica.

3 – Parabéns! Tente novamente.

4 – Caro cronista: você diz que é um incompreendido. Já tentou escrever para os internos de um manicômio?

5 – Gostei da sua crônica. Ela me faz rir.

6 – Nunca li um parvo. Abri uma exceção para você.

7 – Escrevi um comentário tão maluco quanto a sua crônica. Por isso não ouso publicá-lo.

8 – Linda, a sua crônica, lembra-me o quadro “Guernica”, de Picasso..

9 – Sua crônica está saborosa. Vou comê-la com meus amigos, acompanhada de muita cerveja e batatas fritas.

10 – Absit injuria verbis.

11 – Fui induzido a ler os seus Hái- Kais. Comparo o suplício a que fui submetido com o de uma galinha condenada a bicar micro-partículas de fubá em lugar de grãos de milho.

16 setembro 2010

BEM ESTÁ O QUE BEM ACABA

Do alto da Vila Maria até a margem do rio Tietê caminhava-se meia hora. Alcançava-se, pela margem direita, à montante do rio, um lugar onde se formava uma pequena enseada. A areia acumulada pela correnteza na curva do rio sugeria uma pequena praia, abruptamente interrompida por um barranco com cerca dois metros de altura. Nesse ponto o rio era profundo e ali fazíamos nossos mergulhos e “saltos ornamentais” dos quais saíamos, freqüentemente, com os costados em brasa. De vez em quando escapávamos todos de casa - éramos uma patota de cerca 15 moleques entre os 8 e os 14 anos - e íamos tomar banho no rio sem avisarmos nossas mães, obviamente. Não é preciso dizer que tomávamos banho completamente pelados. Em ambas as margens do rio o matagal era denso. Deixávamos a nossa roupa amufumbada no meio das moitas. Cada um sabia exatamente qual era sua posição. Um dia foi muito especial no nosso balneário. Fizemos apostas para ver quem teria a coragem de atravessar o rio, sabendo que a volta também teria que ser a nado. Ninguém se atreveu. Eu andava aí pelos onze anos. Não queria fazer feio. Demorei para tomar a decisão. Era preciso avaliar a força da correnteza para calcular onde eu iria parar na outra margem e, a partir daí, escolher o ponto de saída. Atirei-me. Alcancei a outra margem no lugar previsto, mas não esperava encontrar uma macega de juncos que me dificultava o acesso à terra firme. Faltava menos de dois metros e eu não conseguia me desembaraçar. O pavor, talvez, da morte, deu-me alento e, num impulso desesperado, alcancei o solo. Exausto, ofegante, enquanto descansava, fiquei observando aquela correnteza que poderia ter levado consigo o meu triunfo. Fiquei com medo de voltar. O tempo passava e eu sonhava. E o tempo passava. Não havia saída. A volta ao bairro pela outra margem era impensável. Fiquei olhando os garotos do outro lado, esperando deles uma palavra de apoio. Imaginei que o meu heroísmo desencadearia gestos de solidariedade, gritos de incentivo, apelo aos santos, qualquer sinal de vida. Estavam todos entretidos em seus mergulhos, rindo, gritando e muitos retornando, sem olhar para trás. Nada. Ninguém sequer me notava. Abandonado! Lancei-me na água com toda a fúria e consegui alcançar a outra margem no centro exato da enseada. Quando cheguei não havia mais ninguém na pequena praia. Ainda vi, pelas costas, o último menino enveredando pela trilha que conduzia ao centro do bairro. Contemplei, triunfante, o rio Tietê, com um misto de medo, orgulho e imensa alegria. Fui em busca da minha roupa. Encontrei o lugar vazio. Entrei em desespero. Não podia atravessar o bairro nu em pelo. Eu nada podia fazer a não ser chorar. E foi entre soluços que consegui divisar a silhueta de um dos meninos, meu vizinho de casa, que se aproximava. Trazia umas cartas de baralho na mão. - Luis, estas cartas não são tuas? As que a gente usa pra jogar? Eu encontrei espalhadas no caminho. E, vendo-me nu: - Roubaram a tua roupa, è ? Foi por isso que jogaram as cartas fora! - Toninho, que sorte que você voltou! Corre lá em casa e pede a minha mãe pra mandar uma roupa. O Toninho se aproximou da casa cheio de precauções e encontrou minha mãe no portão da rua, aflita, olhando o infinito, à espera do filho. Aproxima-se, hesitante, e gagueja: - Dona Terezinha... Dona Terezinha... né... o Luis... né... foi tomar banho no rio...né... Dona Terezinha desabou no chão de terra. Toninho deixou minha mãe entregue aos cuidados do meu irmão mais velho, sob os impropérios deste, e trouxe-me as roupas que me aqueceram a alma. E eu atravessei o bairro, altivo e exultante, sem me dar conta do desespero que havia criado em casa. Quando cheguei encontrei minha mãe sentada na sua cadeira, imóvel, seus grandes olhos negros fixos no espaço. Sem desviar o olhar ou dizer uma só palavra puxou-me pelos ombros e apertou-me com força contra seu peito. E eu senti a dor do amor. Uma dor que eu sinto até hoje. Luigi Spreafico

04 setembro 2010

SEVERINO MANDACARU



















CARUARU - Pernambuco








SEVERINO MANDACARU

por Luigi Spreafico

Eu canto eu faço verso
Eu canto até mi sguelá
Eu rimo no desafio
Acompanho no ganzá
Eu canto glosa e repente
E galope à beira mar...


Severino Mandacaru é uma contrafação de si mesmo. É uma vida em conflito. Um retirante às avessas.
Remando contra a corrente, Severino abandona São Paulo em busca de Toritama onde irá conhecer os frutos da caatinga: caveiras de gado calcinadas pelo sol, protegidas pelos espinhos do mandacaru.
Aos doze anos de idade, em São Paulo, Severino enfrenta, todas as manhãs, a garoa fria que lhe congela a alma. Desce do alto da Vila Maria e percorre, a pé, os três quilômetros que o separam do ponto final do bonde 34. Vila Maria!
Viaja sempre no estribo. O bonde dispara, corta a várzea com seus campos de futebol, atravessa a pequena ponte de madeira, sobe a Rua Catumbi, dobra na Celso Garcia, atravessa o Belenzinho e monta sobre a Avenida Rangel Pestana. Está na Praça da Sé. Severino se encaminha para o seu trabalho. Reduz os passos. Detêm-se, pensativo, observando os artesãos portugueses esculpindo nas pedras o que um dia será a catedral de São Paulo. Na vastidão da praça vazia, parece-lhe contemplar uma cena do Paraíso. Colunas, capitéis, volutas, troncos de anjo, formas mágicas, harmoniosas, construídas apenas com um martelo e uma talhadeira. Assombra-se. São todos Michelangelos, são enviados de Deus! Alguns são seus vizinhos no Alto da Vila Maria. Ajuda-os a construir suas casas pisando o barro que rejuntará os tijolos. Severino aprendeu a falar o português do Além Tejo, de Trás os Montes, da Cabidela. Divide com eles o caldo verde.
Encaminha-se para o escritório onde trabalha. Imprime no mimeógrafo as cartas que deverá entregar. Coloca-as, cuidadosamente, nos envelopes e parte para a jornada que o deixará com os pés em brasa. Nunca voltou uma carta sequer.


Já viajei por muitas terra
Já chupei muito cajá
Namorei loura e mulata
Branca preta e sarará
Mulhé nenhuma eu enjeito
Basta sabê me agradá

O pau de arara que transportou Severino na sua invertida retirada era um navio da Costeira. Parte de um comboio de oito navios cargueiros, quatro corvetas de guerra e sobrevoado por um dirigível, levou dezoito dias entre Santos e Recife. No porto, Severino não entende a língua que falam, mas tem sua atenção atraída pela balaustrada do cais: enormes blocos de mármore português, de um vermelho intenso entrecortado por veios lilases. Nota os sinais da erosão produzida pela brisa marinha através dos séculos.

Escola e trabalho foram moldando aquele sertanejo improvisado que não tinha, evidentemente, nem a energia nem a perseverança dos nativos, qualidades que viria a desenvolver com o tempo, à custa de muito esforço. Trabalho penoso nas fábricas, conflitos de cultura, o calor insano a causticar-lhe a pele, o pôr-do-sol no cais de Santa Rita, a lua cheia no Cais do Apolo, a poesia de Ascenço Ferreira, os frevos de Capiba, as peças de Ariano Suassuna, as palavras incentivadoras de Francisco Brennand, o chope no bar Savoy em companhia de Carlos Pena Filho foram consolidando um Severino empenhado em viver a vida como a vida lhe era oferecida.
Em Fazenda Nova, não distante de Caruaru, Severino conhece os escultores que moldam a cidade de Nova Jerusalém. Novo encantamento. Como os Michelangelos da Praça da Sé, matutos analfabetos, sem ajuda de qualquer instrumento que não seja o martelo e a talhadeira, extraem da rocha esferas com precisão milimétrica, estátuas de santos e de pecadores, madonas e bambinos, onças , macacos, araras, - e a imagem do Padre Cícero.

Severino viaja. Em Codó, no interior do Maranhão, apaixona-se pela trapezista de um circo mambembe que ancora na praça da Igreja. Contemplando seu corpo escultural, pensa: Trapezista? Deve ser aquela moça que desfila de maiô no começo e no fim do espetáculo. Rufar de tambores: ela aparece, toma o trapézio, é elevada a uma altura de quinze metros e dá um salto triplo – sem rede de proteção. Severino contrai os esfíncteres e desmaia.
Um jovem atirador de facas dispara seus dardos contornando a silhueta de uma bela mulher encostada a um biombo, com os braços abertos em forma de cruz. É sua mãe. Um palhaço acaba de levar uma martelada no dedo quando se prepara para entrar em cena. O pranto que simula na comédia que representa é autêntico.
O convívio com o circo ensinou a Severino como a vida pode ser bela. E cruel. Os deslocamentos por estradas lamacentas do interior, caminhões atolados, o sanfoneiro que tomou um porre e não apareceu, os cuidados do pai com a segurança da filha. Um mundo complexo que não encontrava nos manuais escolares.

Moço distinto se achegue
Meu canto é pra si iscutá
Mostre que tem coração
Ajude um pobre a cantá
Tire do bolso um trocado
E bote no meu borná

Em Teresina - PI Severino entra na fábrica rigorosamente às 5:30 da manhã. Sai às 8:00 da noite. Seu jantar é um litro de sorvete de bacuri. Dorme na rede molhada para suportar o calor no quarto do hotel que o abriga construído antes da invenção do ar condicionado. Nas manhãs de domingo frequenta a praia formada pela coroa de areia na margem do preguiçoso Rio Parnaíba. A praia denomina-se “ Praia da Croa”. Seguindo a tradição local, Severino funda o “Croa Crawl Crube”, no qual espera treinar as nadadoras de canelas finas com seus lamentavelmente pouco decotados maiôs.
O escasso lazer do domingo não esconde a amargura que o aflige. A penúria das condições de trabalho na indústria e na lavoura levam-no a reflexões insensatas. Um dia tudo há de mudar.

Fortaleza é um mundo diferente. Severino pratica halterofilismo nas areias da praia de Iracema, já comprometida pelo avanço do mar. Almoça lagosta no restaurante do François, não porque fosse fanático por esse prato mas porque não havia outra coisa. Nas noites de boemia, como o bom frade que leva o evangelho para as suas paroquianas, Severino recita poesias para as mariposas no meretrício da Rua Major Facundo. Em surdina, boleros de roedeira completam o quadro romântico.
O contato com a miséria no bairro do Pirambu abala ainda mais as suas combalidas convicções políticas. Sente-se um covarde, um cúmplice, um acobertador. Não pode enclausurar-se. É preciso buscar.

Pernambuco, década de 60. As Ligas Camponesas incendeiam canaviais. Greves nas fábricas tumultuam o setor produtivo. Emboscadas matam gentes.
O golpe militar interrompe os estudos já tardios de Severino. O uivo das sirenes dos carros militares na caça às bruxas torna-se insuportável.
Severino emigra. Leva consigo pouca coisa: um pôr de sol do Rio São Francisco, o cheiro dos oitis nas manhãs úmidas da Boa Vista, o apito de uma fábrica, uma tapioca da dona Joana, o choro sufocado do menino Ambrósio, um disco de Volta Seca e uma garrafinha de licor de genipapo.
Deixa muitas saudades.

Si o que eu to vendo é verdade
Si num mi falha os olhá
Tanto dinheiro na cuia
Nunca mais hei de juntá
Moço distinto obrigado
Deus lhe há de arrecompensá


Faltando poucos meses para completar oitenta anos de idade, Severino está renascendo. E deve o seu retorno à vida aos colegas da Oficina e ao menino Felipe Pena, seu professor, competente e magnânimo.
À Roberta Bomtempo e ao Miranda, Severino deve tudo isso e muito mais. Porque, com seu carinho e seu apreço, despertaram nele emoções há muito esquecidas e o impregnaram de uma energia mágica: a energia que move o sol e todas as estrelas: a sensação de estar vivo.


Notas:
1- As expressões “retirante às avessas” e “remando contra a corrente” são versos de João Cabral de Melo Neto em “ Morte e Vida Severina”.
2- Os versos do cantador foram escritos há alguns anos e fazem parte de um conto chamado “A Centenária”
3- Toritama é a cidade do interior de Pernambuco para onde se dirige Severino de Maria quando encontra o corpo de Severino Lavrador, que morreu de morte matada. De “Morte e Vida Severina”
4- A frase “energia que move o sol e todas as estrelas” é uma adaptação dos versos de Dante, na Divina Comedia: “L’amor che tutto muove. L’amor che muove Il sole e le altre stelle”

24 agosto 2010

CRÔNICA PARA UM ENFERMO

No final do ano passado participei de uma oficina de crônicas ministrada pelo Professor Felipe Pena na qual os alunos escreviam sob pseudônimo, forma adotada para evitar inibições nas críticas aos trabalhos apresentados em aula. Foi uma experiência muito rica, tanto em termos do aprendizado na arte de rabiscar como, e principalmente, pelas emoções vividas no convívio com os colegas. Por isto devo ao Professor Pena uma renovação de forças e aos colegas Miranda, Noronha e Claudia Bontempo a chama da inspiração que eu não conhecia quando capengava em busca de recordações da infância. Foi lá que, com o pseudônimo de Severino Mandacaru, escrevi esta CRÔNICA PARA UM ENFERMO Fiquei sabendo, pela caneta da nossa eficiente Roberta, que o “nosso querido mestre encontra-se acamado”. E que acamou-se sob o nome de Emanuel Villanova. Fiquei preocupado e disparei alguns telefonemas para tentar saber de detalhes. Queria saber se era grave, se estava sendo bem assistido. Teria família ou não teria família?. Teria amigos ao seu lado? Queria levar-lhe alguma ajuda, por modesta que fosse. Eu já me encontrei em situação semelhante, isolado do meu mundo, esquecido em um hospital frio, cheirando a clorofórmio, sem uma palavra de consolo, sem alguém que me pudesse estender uma colher com uma sopinha quente, um biscoito mergulhado num café com leite. Sei como é duro sobreviver quando se está só e abandonado. Não obtive resultado com os telefonemas. Fiquei absorto em meus pensamentos vendo a situação agravar-se e eu aqui sem fazer nada. Horrorizado. Finalmente pensei: mas se o Mestre teve forças para escolher um pseudônimo, o mal não deve ser assim tão grave! E passei a concentrar-me no verdadeiro problema. Como foi que a Roberta descobriu que Villanova era o mestre? Há quanto tempo já saberia? Quem mais saberia? Por que é que eu não sabia? Eu, que passei semanas debruçado sobre listas, tabelas e gráficos tentando descobrir o que era o que e quem era quem. Eu, que não prestava atenção nas aulas para observar sinais e gestos, analisar sorrisos, contrações de lábios, levantar de sobrancelhas, ligar o não sei quem com o não sei qual para descobrir qual seria o quem e quem seria o qual? Vem a Roberta e , com um estalar de chicote, desvenda o mistério. Mas vejo que fugi ao meu escopo. Minha intenção era levar conforto ao nosso querido mestre. Espero que ele já se encontre junto aos seus e que esteja junto a nós na próxima quinta feira. E com isto espero também ter atendido à sugestão da Roberta – que para mim é uma ordem- de preparar uma crônica inter-semanal e fazer com que o mestre se orgulhe da laboriosidade dos seus alunos. Brava, Roberta! Severino Mandacaru

09 agosto 2010

MADONNA ESTÁ NO RIO. MADONNA MIA!

Na mesa com Madonna” – Jornal O Globo, - Rio Show de 20/11/09 “Como a Madonna”. Com este subtítulo, um trocadilho chulo e canhestro, começa a reportagem que pretende mostrar o que a diva, rainha do pop, andou comendo nos restaurantes do Rio durante sua recente passagem pela cidade. Um trocadilho que, sem dúvida, revela um velho – e espero já ultrapassado – preconceito que existe em relação às mulheres que atuam nas artes cênicas, tanto no teatro de prosa como nas revistas musicais: São todas piranhas. Esta classificação daria aos galãs de plantão o direito de gorjear suas cantadas em cima das jovens artistas. Não há, na reportagem, nenhuma foto da Madonna, seja comendo, cumprimentando um chef, visitando cozinhas, dizendo se gostou ou não da macaxeira, da casquinha de siri, do suco de maracujá ou do sarapatel. A figura da Madonna, ali, é apenas um mito, uma concepção cósmica que pretende levar-nos a orgasmos organolépticos. Mas estão lá, isto sim, as fotos dos pratos que lhe foram oferecidos, com os respectivos preços, preste atenção! Na reportagem, não sei se é esse o nome, ficamos sabendo que: “Para abrir os trabalhos” ( linda expressão, a pobre Madonna, tinha acabado de sair deles), “ sem que fosse pedido” ( queria o que? Que ela entrasse gritando: cadê o meu pirão?) “ foi servido um sushi de peixe-manteiga com ovo de codorna e azeite trufado (R$18 cada peça), especialidade da casa... que a cantora até elogiou. Em seguida, a própria cantora pediu várias coisinhas: (eu pensei logo em agulha, linha e botões, mas era comida mesmo) chips de batata doce (céus!) com tartare de peixe branco e miniagrião ( você conhece alguma folha menor do que a do agrião?) (R$ 13), spicy tuna maki (R$ 13 seis peças), aspargo salmão roll, um uramaki com aspargo empanado, salmão e abacate (R$ 21 oito peças), edamane, um tipo de vagem japonesa ( R$ 19), sashimi de agulhão (R$ 19 cinco peças) sashimi de atum e salmão (R$ 12 cinco peças)” . Caceta! Será que alguém sobrevive a isso? A descrição segue dizendo que “ contrariando o mito de que não bebe álcool a diva mandou para dentro ( artista não bebe, mandapradentro) um copinho do melhor sakê da casa, o japa Junmai Daí Ginjo (R$ 49 uma única taça e espantosos 250 a garrafa)” Espantosos 250 ?. Isso é uma merreca! Em Tókio, para tomar o melhor sakê de qualquer casa ela não pagaria menos de 600 dólares por uma garrafa. No Imperiaro Hotero ela pagaria o dobro. Vou continuar a leitura: “No dia seguinte, talvez cansada da viagem na véspera, (claro, não podia ser no mês passado) ela foi levada para jantar em outro restaurante onde, desta vez, a privacidade foi total. A cantora se instalou em uma mesa protegida por cortinas de linho branco que não permitem que se veja quem está dentro” E eu que sempre pensei que a opacidade fosse uma característica inerente a qualquer cortina para que ela pudesse cumprir a sua função. Justifica-se o cuidado. Pois não é que me contaram que existe uma casa na Barra da Tijuca onde as cortinas são dotadas de lentes de aumento para que as pessoas que passam na rua possam identificar, sem equívoco, quem está lá dentro! Nada disso, porém, me faz inveja. No mocambo onde eu morei, no bairro do Pirambu, perto de Fortaleza, eu também tinha uma cortina de caroá que não deixava ver quem estava lá dentro. Ela me protegia quando eu comia meu sanduiche de mortadela. Eu não queria que os mais pobres me vissem comendo semelhante iguaria. A reportagem - será que é esse o nome - prossegue numa descrição cheia de detalhes do que aconteceu durante o novo jantar. Com medo de que a diva pudesse rebelar-se contra o deglutório que lhe seria imposto, e levando em consideração as origens calabresas da primadonna serviram-lhe uma Salada Caprese (R$48) e atum em crosta de pão com creme de feijão branco e cebola roxa (R$78) Nada mais mediterrâneo. Madonna escapou do sushi. Dão-lhe tempo para que se recomponha. “Na quarta-feira o jantar de Madonna teve um “que” de surpreendente: comeu shiitake recheado com salmão (R$ 28), sakura mango sushi (com nori de manga e tartare de salmão (R$23), dupla de água viva (R$ 18) e ussuzukuri (semelhante ao sashimi só que mais fino, que vem sobre pedras de gelo, de R$ 45 a R$ 56 dependendo do peixe.” Óh! que surpresa! Pareceu-me ver a pobre Madonna debatendo-se na dúvida atroz entre poupar ou esbanjar, pedindo explicações ao maitre sobre como era cada tipo de peixe para poder decidir se sacrificava o seu paladar pedindo a versão mais barata (afinal, havia uma diferença de 11 reais), ou se onerava seu orçamento e pedia a versão mais cara para fazer melhor figura. Uma coisa é certa: depois de fustigada por sushis e sashimis a torto e a direito, a Norte e a Sul, a Leste e a Oeste, à esquerda e à direita, arriba y abajo, Madonna saiu, alegre e saltitante, soltando flatos em japonês. Diz a notícia que esse jantar, servido para 30 pessoas, custou R$ 3.444,54 o que dá exatos R$ 114,82 por cabeça, arredondando-se para maior a segunda casa decimal. Outra merreca! Eu mesmo, para impressionar uma namorada, jantei num renomado restaurante do Rio de Janeiro e gastei muito mais do que isso. De inicio, só para criar um clima, tomamos uma Grappa Dicciotto Lune, um nectar feito com uvas Verdicchio na costa do Adriático, nas colinas que circundam Ancona, na Itália (R$ 70 uma dose). Como entrada, um “Funghi al Cartoccio”, preparado pelo chef Flamínio, uma explosão de aromas (R$ 48). Como prato principal “Ossobuco com Fettuccine de Espinafre” (R$ 96), que chamou a atenção das mesas vizinhas. Para sobremesa: “Ravioli dolci bianco- neri al Ciocolatto”, - outra criação mágica do chef - (R$ 36). Durante esse longo percurso fomos acompanhados por um “Brunello di Montalcino – 1998”, (R$ 680) que quase não deu para os dois. Com isso, ofereci à minha namorada um jantar que custou R$ 590 por nuca, contra os miseráveis 114 que ofereceram à Madonna. Desculpe-me Madonna, mas acho que você pode melhorar a sua coreografia se me acompanhar no que come e, principalmente, no que bebe. Eu gosto de comida japonesa e freqüento restaurantes japoneses com regularidade. Mas o que eu não entendo é porque cevaram a pobre cantora com sushis e sashimis, coisa que se encontra hoje em qualquer fim de mundo, como se no Brasil não houvesse nada de original para se comer. Por que não a levaram para o Buraco da Gia, em Goiana, Pernambuco, quase chegando na fronteira da Paraíba, onde se come o melhor guaiamum do Nordeste e onde ela poderia ter deixado o seu autógrafo numa casquinha de siri patola que seria afixada na parede ao lado de nomes famosos, inclusive o meu? Por que não a levaram para conhecer a Galinha de Cabidela da Otilia, a palafita espetada no Cais da Rua da Aurora, à jusante do Rio Capibaribe, no Recife, onde Alcide De Gasperi ( que Deus o tenha, o bom homem), presidente da Republica Italiana, que após a primeira garfada estalou a língua, e exclamou: “Domine non sum dignus!”, pediu outra caipirinha e voltou a comer? E o Peixe da Comadre, no porto de Maceió para saborear uma bicuda tirada do mar e colocada no mesmo instante na panela com óleo dendê? E a lagosta ao coco do Ramirez, que era comandante da Ibéria quando desceu em Natal por causa de uma greve e nunca mais saiu? E a Cartola do Restaurante Leite, no Recife, com seus noventa e cinco anos de existência? Meu Deus, quanto desperdício! Mas, “bem está o que bem acaba”, ensina a peça de Shakespeare. No fim, todos saíram lucrando: 1º- Madonna economizou em comida no Rio. 2º - Os restaurantes divulgaram os preços dos seus pratos mostrando que são comidos por gente fina, a preços supostamente acessíveis, visando atrair clientes entre os deslumbrados. 3º - O jornal faturou alguns trocados com a divulgação do monumental evento e a publicação dos anúncios marginais, quero dizer, à margem. 4º - Os leitores, aqueles atenciosos, tiveram a oportunidade de conhecer alguns desvãos da Gastronomia carioca e aprenderam como é possível tornar complicada uma das coisas mais simples da vida: comer. Soube também que a Madonna abocanhou 10 milhões de dólares entre os empresários locais para matar a fome das crianças na África. Nada mais nobre. Espero que na sua próxima turnê pela África a Madonna consiga amealhar outros 10 milhões entre o extratores de diamantes ( ingleses, belgas, holandeses) para aplacar a fome das crianças do Nordeste. Pelo menos manteria a miséria equitativamente distribuída. Severino Mandacaru

04 agosto 2010

MEU BANCO É (QUASE) PERFEITO

                                                   Gastão esperando pelo rendimento dos seus fundos 


                                  Esta é uma edição revista e atualizada de "Meu Banco é Perfeito" 

Ninguém vive hoje sem um banco. É o que me dizem. De fato, como poderia eu pagar contas e taxas, declarar imposto de renda, receber meu salário, administrar um cartão de crédito sem a magnânima ajuda de um Banco? Impossível. Por outro lado, para usufruir dos generosos serviços que um banco lhe presta você precisa ter talento administrativo e esperteza suficiente para não ser dessangrado.
 
O fato é que o mundo moderno se estruturou sobre um sistema financeiro diabólico no qual os bancos funcionam como capetas melífluos a distribuir benesses que terão, como único resultado, o aumento do seu próprio patrimônio às custas, é claro, da ingenuidade dos  correntistas. Exagero? Possivelmente. Os bancos inventaram o crédito, através do qual passaram a emprestar dinheiro, primeiro o próprio, e, esgotado este, o recolhido de - também emprestadores - menos avisados. A recompensa pelo empréstimo são os juros. Os juros são as células cancerígenas do sistema, coisa que ocorre em qualquer organismo vivo. Esses empréstimos eram zelosamente anotados em folhas e mais folhas de papel e, agora, em telas e mais telas de computador.
 Dois ou três anos atrás os maiores bancos do mundo perderam o controle – por incompetência ou por indústria – e passaram a emprestar dinheiro que não existia de verdade, isto é, só existia nas telas do computador. Como o dinheiro não existia de fato, os mutuários não conseguiram pagar seus débitos.  Então, a economia mundial entrou em colapso. Não foi isso o que aconteceu com o sistema de crédito imobiliário nos Estados Unidos? E, como os capetas trabalham em rede, a praga alastrou-se pelo mundo inteiro. Esta é uma visão simplória, admito. Mas se aprofundarmos a visão entraremos numa zona escura e não enxergaremos mais nada. De qualquer modo, não podemos nos livrar dos bancos. É até bom passar lá de vez em quando e tomar um cafezinho. Mas nunca tomar dinheiro emprestado.

Os bancos se modernizam a cada dia. Dá gosto acompanhar a evolução tecnológica do sistema bancário, impulsionada pelo uso cada vez mais fácil do computador, o que deveria encurtar as filas nos caixas. Encurtaram? Não. Elas são pré-determinadas. Quando as filas encurtam, retiram um caixa do guchê e elas voltam ao normal. Basta observar.

Com a finalidade de transferir para o correntista todo e qualquer custo operacional, os bancos criaram os terminais eletrônicos, colocados prudentemente do lado de fora da área de atendimento pessoal. Com isto pouparam o tempo do funcionário a quem caberia fazer os lançamentos de saque, extratos, pagamentos, etc. Pelo menos esperava-se que as coisas andassem mais depressa. Andaram? Não, porque ao criarem os terminais eletrônicos, os bancos também criaram as filas dos terminais eletrônicos - e tudo ficou na mesma. Na mesma, propriamente, não, porque criaram também a curiosa figura da funcionária que percorre a fila dos caixas  com a penosa missão de deslocar o cliente dali para o lado de fora.

-- Posso ajudar, o senhor vai fazer algum pagamento ou depósito? Por que não usa o terminal eletrônico?
-- Porque a fila de lá está maior do que esta.

Cansado de dar explicações sobre as minhas preferências  no que se refere ao sofrimento humano, decidi livrar-me do incômodo daquelas perguntas de uma vez por todas:

-- Posso ajudar, vai fazer algum pagamento? Por que não usa o terminal ?
-- Só respondo na presença do meu advogado!

Certa vez descobri que podia dar uma contribuição ao Departamento de Marketing do meu banco. Eu estava no balcão, esperando ser atendido, quando a gentil moça que sempre me atendia aproximou-se, prancheta na mão:

-- Senhor Severino, que bom encontrá-lo! Eu vi que o senhor não tem um seguro com a gente. O senhor precisa fazer um seguro.
--  E por que eu deveria fazer um seguro?
--  Ora, porque se o senhor vier a faltar... que Deus o livre, os seus filhos ficarão protegidos
--  E como é que eles vão ficar protegidos se eu não vou estar aqui para protegê-los?
-- Veja: o senhor paga um seguro mensalmente, de tanto, e se o senhor vier a falecer, que Deus o livre, os seus filhos vão receber tanto e tanto pelo seguro. Entendeu?
-- Não. Deixe-me ver. Eu pago, mensalmente, um tanto, durante tanto tempo, e, pelo tanto que eu ainda pretendo viver vou ter que desembolsar um tanto considerável da minha magra aposentadoria justamente quando, pelas deficiências da idade, mais preciso dela. E aí, quando eu morrer, eles vão receber essa bolada toda e gozar a vida? Não, decididamente tem alguma coisa errada nisso.
-- Mas é assim que funciona, Seu Severino!
-- Não, não. Se você quiser fazer um seguro comigo, você tem que fazê-lo em nome do meu pai. E, nesse caso, eu pagarei a mensalidade, não ele. Aí, sim, quando ele morrer eu é que entro na bolada. É justo. Fui eu que paguei por ela. Dessa forma eu faço o seguro.

Os olhos da moça brilharam. Logo puxou um formulário e começou:

-- Perfeito! Como é o nome dele?
-- Roberto Mandacaru.
-- Casado ou solteiro?
-- Viúvo.
-- Local de nascimento?
-- Campina Grande, Paraíba
-- Data de Nascimento?
-- 28 de Janeiro de 91.
-- Como 91 !!?
-- Ah! Desculpe, 1891.
-- Como assim, 1891? Quantos anos ele tem?!
-- Deixe-me ver... noventa e cinco.
-- Ah! Mas assim não pode...
-- Por que não pode? Eu não pedi nada. Foi você quem me ofereceu um seguro. Se o banco resolver, telefone-me... antes que meu pai morra.

Registrei esta pequena história porque me lembrei do meu amigo Agildo Mielli, grande trovador, que teve seu patrimônio garfado por alguém que usou um banco como ferramenta de trabalho. Ironicamente o Agildo havia escrito, anos antes, uma de suas melhores trovas:

“Gastão, rei dos vagabundos,
Não teme crise ou desgraça.
Só deposita seus fundos
No melhor banco da praça.”

Severino Mandacaru

31 julho 2010

O CORONEL E EU

Quem percorresse a pequena estrada de terra batida que ligava Recife a Olinda, chegando ao Varadouro, seria surpreendido pelo cheiro pungente de goiabas e cajus. Ali, bem cedo, caboclos curtidos pelo sol, sentados junto aos seus balaios, esperavam que a Fábrica de Doces abrisse as portas para entregar sua mercadoria. O amarelo vibrante das goiabas e o vermelho sanguíneo dos cajus lembravam um quadro de Van Gogh. O forte aroma das frutas na manhã úmida inundava o quarteirão e embriagava os sentidos para o resto do dia. Ao cair da tarde, um outro cheiro, ainda mais forte, emanava do prédio da fábrica indicando que a goiabada estava pronta. E este perfume, este sim, ficaria impregnado pelo resto da vida. No Varadouro a estrada embicava para a esquerda, tornando-se estreita, e partia em direção à cidade de Paulista. Um nome simplório, para a cidade que era: duas grandes fábricas de tecidos, duas longas chaminés enfeitiçando o céu. A Igreja, a Maternidade, o Hospital, a Funerária, o Cemitério. Doze mil operários. Quatro teares por tecelã. E um dono: o Coronel. O Coronel tinha muitas esposas e cada esposa tinha muitos filhos. O Coronel a todos provia e de todos cuidava, porque todos constituíam a sua família. Os filhos estudavam na Suíça ou na Alemanha conforme o gosto de cada um. O Coronel construíra um império empresarial que não se limitava àquelas duas fábricas. Tinha também fábricas na Paraíba e em Minas Gerais, todas gigantescas. E duas redes enormes de comércio varejista: As Casas Pernambucanas no Sul e as Lojas Paulista no Nordeste. As terras do Coronel ocupavam municípios inteiros, tanto em Pernambuco como na Paraíba. Nelas eram cultivadas extensas florestas de eucaliptos que forneciam o combustível necessário para movimentar as turbinas geradoras de energia elétrica para as fábricas e para toda a cidade. Estradas de ferro serpenteavam por dentro daquelas matas. Lembro-me, com saudades, do apito dolente da locomotiva, quando, no meio da noite, se aproximava da cidade. O Coronel tinha também uma fábrica de pólvora que supria as necessidades do Exército Brasileiro e uma escuderia, onde criava cavalos de corrida. Quem não se lembra da égua Tirolesa, muitas vezes campeã, que se tornou mais célebre que a Greta Garbo? Os cavalos eram alimentados com aveia e puro mel, extraído dos apiários que circundavam as matas de eucaliptos. Toda a cidade – e sua população – dependiam do Coronel. E o Coronel era magnânimo e justo. Cada operário tinha casa, dotada de todos os serviços, com área proporcional ao tamanho da família. As casas dos gerentes eram maiores e dispunham de um jardim e um quintal com muitas fruteiras. Meu pai era gerente das oficinas mecânicas, o que incluía a caldeiraria e as turbinas de energia elétrica. Nossa casa era mobiliada e, como parte disso, recebíamos, duas vezes por ano, um jogo de roupas de cama e mesa. Eram lençóis e toalhas estampadas com motivos florais, de cores alegres e brilhantes, que traziam o perfume do algodão puro, o barulho das máquinas, a voz das tecelãs e o apito da chaminé. Uma vez por semana recebíamos em casa lenha e carvão para a cozinha e, diariamente, uma caçamba de gelo para abastecer a “geladeira”, o refrigerador da época. A poucos metros da nossa casa ficava a “Casa Grande”, residência do Coronel. Era um palacete de três andares em tijolo aparente, linda arquitetura, no centro de um parque, cheio de árvores e bichos. Não longe da minha casa morava uma das esposas do Coronel. Tinha duas filhas: a Linda e a Mais Velha. Tinha também uma filha de criação, a Moreninha. Minhas irmãs fizeram amizade com elas brincando juntas desde pequenas, amizade essa que atravessou a adolescência. Aos dezessete anos eu acabei me envolvendo nessa amizade e comecei a freqüentar a casa atraído, devo confessar, mais pelo olhar sedutor da Moreninha do que pelo bolo Souza Leão que lá se preparava. Os saraus se tornaram freqüentes e eu comecei a perceber que Linda se aproximava de maneira cativante. Conversávamos muito, às vezes em companhia da mãe que me perguntava como andava nos estudos. Muito afetiva, ela sempre encontrava uma palavra de incentivo. Um dia Linda me convidou para ir ao cinema. Aceitei. Na tarde seguinte um automóvel preto de dimensões extravagantes parou à minha porta. Cine São Luiz, no Cais da Rua da Aurora, aos pés da Ponte Duarte Coelho. O cinema está lá até hoje e, se procurarem bem, vão encontrar resquícios do suave perfume que ela usava. Surgiu um namoro. Não sei como, porque só me dei conta disso quando começou a correr a notícia e todos aplaudiam o feliz encontro. Nessa altura eu havia completado vinte anos e estava prestes a terminar o curso técnico de indústria têxtil que fazia no Rio. Portanto passava o ano inteiro fora de casa para onde voltava nas férias longas de fim de ano, já que nas férias de Junho me trancava nas oficinas da escola para montar e desmontar máquinas. Com o tempo notei que alguma coisa não encaixava. Eu não sentia encantamento naquele namoro. Apesar da longa ausência não sentia saudades. Sentia um apreço muito grande pela menina, seu olhar meigo, seus gestos lentos, sua conversa inteligente, mas aquela centelha que gera labaredas e devora os sentidos, essa não aparecia. Naquele ano eu andava concentrado nos estudos e não podia imaginar um namoro que terminasse em casamento, por maiores que fossem as perspectivas de uma vida confortável à sombra do Coronel. No Rio de Janeiro, fora os estudos, minha ocupação era aprimorar biografia com idas cada vez mais freqüentes ao Mangue. O Mangue! A cidade profana que não tinha dia nem noite. Ali aprendi muito. Na voragem do desejo eu via o sofrimento; na subjugação do sexo eu via a humilhação; numa palavra de carinho eu via o alento aflorar na expressão contraída de um rosto sem esperanças. Novamente de férias e o namoro continuou molenga, insípido, sem promessas. Procurei dar a entender à Linda que eu me achava muito jovem para assumir qualquer compromisso sério. Esperei que a minha frieza pusesse fim a tudo sem causar maior sofrimento. Foi quando um dia, pela manhã bem cedo, o mesmo carrão preto parou novamente à porta, numa viagem que não tinha sido combinada. -- O Coronel mandou dizer que gostaria de falar com o senhor. O senhor pode ir agora? Vesti-me às pressas, alisei os cabelos com meu pente Guarany e embarquei. Alcancei o terceiro andar do palacete numa viagem que parecia interminável . Cheguei a uma sala vazia que me pareceu do tamanho de um campo de futebol. Bem no fundo uma mesa de reuniões. Sentado à cabeceira, o Coronel, de terno e gravata. Eram sete horas da manhã. -- Muito prazer. Sente-se por favor. O Coronel olhou-me fixamente. Encarei o seu olhar com serenidade. -- Eu soube que o senhor está noivo da minha filha. Vamos marcar a data do casamento... 20 de Janeiro, está bem para o senhor? Antes que eu pudesse responder qualquer coisa ele continuou: -- O senhor está fazendo um curso de indústria têxtil no Rio, não é mesmo? Falta pouco para terminar, eu sei. Eu quero que o senhor visite a minha fábrica na Paraíba e me dê a sua opinião. O motorista vai pegá-lo amanhã às sete horas. Prazer em conhecê-lo, senhor Luigi. Pensei esconder da minha mãe, que me esperava ansiosa, o que havia acontecido, mas não foi necessário porque eu só viria a recuperar a fala muitas horas depois. Na fábrica fui recebido pelo diretor, que transbordava uma alegria mal explicada: -- Bem-vido à família, meu caro Luigi! Vamos jantar na Casa Grande. Mandei preparar o seu quarto, espero que descanse bem. Se faltar alguma coisa é só tocar a campainha, o Mustafá fica de plantão a noite inteira. Amanhã eu lhe mostro a fábrica. Você pode perguntar o que quiser, para você não há segredos. Na quinta feira vamos fazer um passeio de iate. O Coronel mandou organizar um passeio de três dias, só para a família. Você vai conhecer os coqueirais, as plantações de caju, os eucaliptos, as oficinas das locomotivas, tudo. E também muita gente da família. O passeio foi feito. Depois vieram as visitas às escuderias, à fábrica de pólvora, aos matadouros. E as corridas de cavalos, nas manhãs ensolaradas do Hipódromo, com champanhe, ternos de linho branco, saias curtas e chapéus coco. E os almoços. E os jantares. Era tudo fascinante, mas comecei a sentir que o chão me faltava sob os pés. Eu não cabia naquele mundo, porque aquele mundo era grande demais para mim. Eu havia aprendido a trabalhar duro desde os doze anos de idade, pendurado no estribo de um bonde debaixo da garoa fria de São Paulo, escondido dentro de um capote muito maior do que eu e tendo como almoço café com pão ou, excepcionalmente, um sanduiche de mortadela, retirados da máquina do “Bar Automático“ , por alguns tostões, na Avenida São João, bem perto do Edifício dos Correios. Decididamente aquele não era o meu mundo. Eu ali seria uma fraude. Marquei um último cinema com Linda. Na saída tomamos um sorvete no Gemba, e nos sentamos no Cais da Rua da Aurora, de onde podíamos contemplar o rio. Não fiz nenhum preâmbulo. Expliquei-lhe que não me considerava maduro para um casamento e não queria deixá-la esperando pelo meu amadurecimento, que poderia demorar muito. Seria injusto para ela e cruel para ambos. Por maior que fosse o seu sofrimento aquela era a única coisa honesta que eu poderia fazer. Algumas lágrimas, contidas com esforço, escaparam-lhe e rolaram pelo seu rostinho ingênuo. Minha alma sangrava. Entramos no carro e voltamos em silêncio. E em silêncio ficamos pelo resto da vida. Logo depois escrevi ao Coronel. Numa longa carta expliquei porque estava “abandonando o iate”. Nosso relacionamento fora extremamente curto. Esperava não deixar mágoas. Não recebi resposta. Nem eu a merecia. No dia seguinte embarquei num ônibus capenga que percorreu os quinze quilômetros de estrada de barro até a Praia da Conceição, uma praia deserta onde havia uma colônia de pescadores e mais nada. Eu já havia estado ali antes. Dormia num mocambo coberto com folhas de coqueiro e comia lagosta. Não porque tivesse o paladar refinado mas simplesmente porque não havia outra coisa para comer. Fiquei ali totalmente só, em recolhimento , até o fim das férias.
E voltei ao Mangue aos prantos mas com a consciência tranqüila de que não me havia aproveitado de ninguém.

26 julho 2010

A SUA BOLSA NO TWITTER

Ou seria “O Twitter na sua Bolsa?” Tanto faz. Acabo de descobrir uma nova aplicação para essa maravilhosa ferramenta que é o Twitter. A notícia esta lá: "O Globo", 12 de Julho, 2010 : “No Twiter, mais de 50 mil seguidores do lucro – Investidores criam redes de troca de informações pelo microblog. Corretoras e empresas também usam site”. Em breve estaremos lendo divertidas histórias de investidores arruinados por aplicações feitas em Bolsa de Valores baseadas em dicas obtidas no Twitter. Vai ser moleza. Informações relativas ao comportamento das ações na Bolsa serão postadas com a rapidez que se espera de uma sociedade cibernética. Empresas, corretoras e investidores darão suas notícias, opiniões e dicas, nessa ordem, e sem palavreado inútil posto que o tweet está limitado a sei lá quantos “toques”. Com alguns clics você vai conhecer as empresas que vão bem, as que vão mal, as que não vão e as que já foram. Não haverá mais “inside information” porque todos ficarão sabendo de tudo a todo instante. Essa é a essência do Twitter que , segundo leio, tem ganho até eleições. O aplicador principiante poderá beneficiar-se com as dicas generosamente divulgadas pelo veterano matreiro. O veterano matreiro, que não precisa de ninguém, poderá rir das perguntas ingênuas dos novatos. As corretoras ficarão sabendo o que pensam os investidores – quando eles forem sinceros, obviamente – e aperfeiçoarão seus métodos de caça ao cliente. Uma festa! Mas, atenção! A notícia informa ainda que: “ ... as dez corretoras brasileiras mais ativas no Twitter têm boa influencia e popularidade no mundo dos microblogs ... mas ainda são muito limitadas quando se trata de interagir com os seguidores”. É compreensível. O novo filão do mundo financeiro acabou de ser descoberto – ou inventado. Levará algum tempo para mostrar que é muito divertido. Ou talvez esse tempo não seja necessário se prestarem atenção às advertências contidas na própria noticia. O Diretor de uma prestigiada corretora ... “lembra, no entanto, que existem certas limitações para as corretoras atuarem no Twitter. Há regras de divulgação de informações que precisam ser respeitadas, o que limita a interação. ... Os investidores usam nossas informações para tomar decisões sobre investimentos”. Assim é fácil. Com laptop, uma conexão Wy Fi e o Twitter, debaixo do seu “ombrellone” na praia ou no deck da piscina do seu clube, você poderá expedir ordens de compra e venda de ações, encher a cara, e acordar no dia seguinte para recolher os lucros – ou prejuízos. Para terminar, uma pequena nota da CVM – Comissão de Valores Mobiliários: A instituição informa que não tem Twitter “mas já pediu cautela sobre o fluxo de informações na ferramenta”. Eu sei o que você vai me dizer. Que muita gente já fez fortuna com aplicações em bolsa. Concordo. Mas esses é porque nasceram com o calcanhar virado pra lua. E, falando francamente, se você nasceu com o calcanhar virado pra lua, pra que você precisa do Twitter?

AO TWITTER, COM CARINHO

Não sabia que o twitter era tão importante. Procurei incorporar-me a esse universo de pessoas quando vi que podiam comunicar-se entre si e espalhar notícias com a velocidade do relâmpago. Mas quando percebi o tempo que eu gastava garimpando notícias que pudessem servir para alguma coisa, desanimei. A maior parte delas ou eram bobagens tipo “hoje acordei cedo para lavar a roupa mas faltou água na minha casa”, ou eram notas pessoais de autoglorificação. Até hoje não consigo entender a importância sócio-econômico-filosófica desse instrumento de comunicação que se alastra como fogo morro acima. Por causa disso desenvolvi um complexo de inferioridade que tento superar através da leitura dos tweets que são publicados na imprensa escrita, partindo do principio que, se ocupam o precioso espaço de jornais e revistas, é porque são importantes. O meu complexo só aumentou. Perseverante, tratei de associar-me ao sistema tornando-me também um twitador, o que me fez mergulhar em profunda depressão, visto que, por incompetência minha, eu não conseguia alcançar um número expressivo de seguidores. Meus amigos aconselharam-me a não dar importância a isso: eu deveria me transformar em seguidor e acompanhar o twitter dos famosos, que iam desde o Obama até o Berlusconi e da Xuxa à Madonna. Foi quando descobri que, tal como no Orkut, no Facebook e nas Instituições de Caridade, havia twitters fake fazendo-se passar por gente famosa. Foi aí que me senti um verdadeiro palhaço. Mas agora descobri o quanto eu estava errado. A colega Cora Rónai em sua crônica “ A Pátria de Notebook” (O Globo, 1 de Julho, 2010), uma preciosa meia página no lugar mais destacado do Segundo Caderno, traz esclarecedoras informações sobre a atividade twiteira. Discorrendo sobre a importância do twitter na torcida da Copa do Mundo, explica: “Lá estavam brasileiros twitando de todas as partes do mundo, do coleguinha Jorge Pontual ... ao presidente da Microsoft para Ásia e Pacífico, Emilio Umeoca, que mora em Cingapura ... Claro que a “multidão” de cada um depende do número de pessoas seguidas. A esta altura todo mundo sabe, mas não custa repetir, que cada um vê, na sua tela inicial do Twitter, os comentários daqueles a quem segue. O pobre do Eike Batista tem uma vida muito solitária quando abre sua twit-janela, que só dá vista para os manda-chuvas da Rússia e dos Estados Unidos, para o Luciano Huck, para o Kaká e para um fake da chanceler alemã, Angie Merkel. Já pensaram o que é assistir à Copa nessa companhia?! Coisa de cortar os pulsos.” Para ilustrar a beleza e a importância do mundo twiteiro na Copa, metade da meia página da crônica transcreve uma seleção de tweets indicando os respectivos endereços. Vou reproduzir uns poucos, para não abusar do espaço, mas recomendo a leitura de todos. São pérolas literárias que induzem a uma introspecção filosófica: “A moça que trabalha na minha casa não curte jogo mas não pode ir para casa pq não tem ônibus. Beira ao ridículo essa paralisação.” “Técnico do Chile preocupadíssimo. Se ficar no 0x0 e tiver prorrogação, capaz de eles perderem o vôo.” “Aqui em casa eu me emociono quando ouço a galera gritando gol. E depois me emociono quando vejo.” “Tá bom, Kaká. A gente já entendeu que você não é a Sandy. Agora, calma, tá? Francamente, não sei, mas acho que se o tempo e a energia gastos no twitter fossem aplicados na fabricação de cestos de palha, tigelas de barro e bonecas de pano teríamos uma sociedade, não mais rica, mas, certamente, mais feliz. No fundo, no fundo, talvez tudo isto não passe de uma grande inveja minha. De qualquer modo, como vou pro inferno mesmo, deixem-me falar mal dos outros enquanto estou vivo.

30 junho 2010

Congresso de Técnicos Texteis em Poços de Caldas

Aos meus colegas de turma e a todos os alunos que se formaram na CETIQT nos 59 anos que se sucederam: Esta foto foi tirada durante o congresso dos técnicos têxteis que se realizou em Poços de Caldas no ano de 1976. Nela estão oito alunos da primeira turma da escola, formada em 1951. Perdeu-se-me, na memória, o nome de dois deles, justamente os que estou abraçando. Os outros são, da esquerda para a direita: Henrique Nishida; Luis Bueno; Cláudio Vieira; ?; Luigi Spreafico; ?; Luiz Gonzaga Lopes; José Augusto dos Santos. A primeira turma iniciou as aulas com o prédio ainda em construção. Não havia portas nem janelas. No inverno o frio congelava as orelhas. O barulho das betoneiras muitas vezes impedia que se ouvisse o professor. O regime era severo: quatro horas de aulas teóricas pela manhã e quatro horas à tarde, de aulas práticas, nas oficinas. À noite, estudo obrigátório de duas horas, diligentemente fiscalizado pelo Militão, o inspetor que viera da Escola Técnica do Recife. As máquinas da "sala de abertura" da fiação, fabricadas pela Saco Lowell, foram montadas pelos alunos. O terno de formatura, uma gabardine de pura lã, foi tecido pelos alunos no tear "Crompton and Knowles". O tingimento, em azul marinho, foi feito no Lanifício Alto da Boa Vista e pago com uma vaquinha. Que saudades!

28 março 2010

CARNAVAL, EU TE SUPLICO

Tu, que entraste na minha vida sem ser chamado. Tu, que vieste perturbar a minha paz e o meu sustento. Tu que zombas do meu afã, da minha lida.
 Suspende agora teus desvarios e dedica-me um minuto de atenção: Rendo-me aos teus encantos, abraço-te amorosamente e te suplico:

Ajuda-me a atravessar teus dias incólume, isento de culpas e de remorsos.
Porque quero fugir do quotidiano, quero esquecer as mágoas que me perseguem, quero alimentar esperanças, sonhar novos amores, viver vidas já vividas.

Quero recuperar saudades e chorar novamente o pranto do desespero.
Quero reparar os males que fiz, as dores que causei, as traições que cometi.

Quero mergulhar na voragem do prazer, quero perder-me na volúpia dos sentidos.
Quero embriagar-me com o veneno que circula por teus becos e vielas. Quero fecundar as flores que desabrocham ao som dos teus tamborins.

Quero amar a plebe rude que salta e canta com teus ritmos. Quero amalgamar o meu suor com o suor das tuas deusas.
Quero afogar em lágrimas o palco das esperanças que um dia me abandonaram, sem deixar rastros.
Quero dormir em campo aberto, absorver o brilho das estrelas, despertar coberto de orvalho, ofuscar-me com a luz da alvorada.

Quero encontrar em minha amada a alegria dos teus folguedos, quero sentir o calor que do seu peito estua, sorver de seus lábios a seiva do feitiço. Quero aplacar em seus braços a dor que me consome.
Quero arder no fogo-fátuo que emana dos cadáveres insepultos das minhas memórias.
Quero ser Carnaval.

02 janeiro 2010

DOS DELITOS DA INFÂNCIA

 Recebi um comentário à crônica “ O Patinete” que parece ter vindo de alguém que me é muito caro pois, fazendo ironia, brinca com a minha insistência em confessar delitos, sem ao menos mostrar arrependimento. Sabendo que se encontra ainda nos dez anos de idade, é facil imaginar o que viria pela frente. Comecei então a preparar uma resposta sem ter a certeza de que iria publicá-la. Eu mesmo queria entender melhor o assunto. Acontece que essa resposta ficou longa demais para o espaço permitido pelos comentários, porisso resolvi publicá-la aqui mesmo. Alinhei as minhas justificativas onde elas cabiam. Onde não, assumi, sem tergiversar. Não sei se resultou convincente, mas que ficou divertido, ficou.
Caro amigo Obrigado pelo seu comentário. O fato de saber que alguém já leu três crônicas minhas me enche de felicidade. O fato de saber que você lê minhas crônicas me enche de orgulho. Você tem razão, agora nem sequer mostro arrependimento. É que, contando as histórias, cheguei à conclusão de que na maior parte dos casos em que crianças de tenra idade cometem falhas, os verdadeiros responsáveis por esses delitos são os adultos. Veja bem: no caso de "O Falsário" o delinqüente não era o menino e sim a sociedade mercantilista em que ele vivia. Submeter uma criança à tortura da espera de uma figurinha que nunca sairá, forçando-a a consumir um produto além de suas necessidades, minando as economias da sua família na ilusão de que um dia irá receber uma retribuição justa pelo que gastou, é imoral, é obsceno, é criminoso. No caso de "A Velha" foi a indignação pela maneira com um filho, homem feito, tratava sua própria mãe. Foi compaixão pelo sofrimento de uma pobre velha abandonada em condições insalubres, tratada pior do que os próprios cachorros que lhe faziam companhia. Viciada pelo álcool devido à falta de uma alimentação adequada, pela ausência de uma nesga de carinho, ela se viu condenada a viver da piedade de uma criança, único ser humano com o qual tinha contacto. Aos 10 anos eu mal sabia o que era cachaça, mas sabia que era alguma coisa condenável porque, na Vila Maria, eu ouvia as mulheres reclamarem dos maridos que se detinham no botequim a bebê-la. Lembro-me bem da face crispada da pobre velha, do seu olhar esgazeado, de sua expressão de angústia, da ânsia com que ela esperava pela minha resposta temendo que fosse negativa. Foi o quadro mais comovente que vi em toda minha vida. Do outro lado havia um padre rubicundo que extraia tostões de adultos incautos usando como fórceps inocentes crianças, garantindo, com isso, o jerez que emborcava durante e depois da missa. Como mínimo, a cachaça dele era de melhor qualidade. Não hesitei um só momento. “Roubei de um padre para dar a extrema unção a uma velha” Quanto ao “O Patinete” não tenho desculpas. Ali foi delito mesmo, espontâneo, premeditado. Como atenuante só tenho mesmo o fato de que se tratava de meu próprio irmão, era tudo em família, não havia dano a terceiros e que, além do mais, ele me dava tantos cascudos que, feita a contabilidade, ele ainda saiu na vantagem.

30 dezembro 2009

DELITOS DA INFÂNCIA - O PATINETE

 Antes da invenção dos ridículos joguinhos de computador, agora em processo de metástase para telefones celulares, a gente brincava de patinete. Brincava, não. Praticava o esporte do. E o sonho de qualquer criança era ter seu próprio patinete. Na Vila Maria todos tinham o seu. Aos dez anos de idade, eu ainda não tinha o meu. Meu irmão, oito anos mais velho que eu, era mecânico e tinha em casa uma verdadeira oficina. Entre ferramentas, instrumentos de medição, peças usadas e sucata de toda espécie, existia a parte essencial do patinete: a rolimã. Muitas rolimãs! Se eu tirasse duas, só duas, daquela promiscuidade de formas e tamanhos, ele não perceberia. Separei as duas que precisava, de tamanho compatível com a minha infância. Eram de diâmetros diferentes, mas isto não seria problema. Naquela manhã, antes da hora do almoço, eu já estava com meu patinete montado. Deslizei por Seca e Meca até que, no fim do dia, encostei-o, triunfante, junto à porta da cozinha. Eu estava orgulhoso. Eu o havia feito. No fim do dia meu irmão volta do trabalho. -- Oi, você ganhou um patinete? -- É... ganhei. Ele deitou o veículo, observou-o atentamente e recolocou-o na posição que estava, sem dizer palavra. Preparei-me para o pior. Percebi que ele tinha reconhecido as rolimãs. --O sujeito que fez esse patinete é muito burro. Ele colocou a roda maior na frente. Devia ter feito o contrário. Com a roda menor na frente o impulso é maior e o patinete rompe a inércia com mais energia, facilitando a partida. Explica isso pro teu amigo. No dia seguinte desmanchei o patinete e coloquei de volta as rolimãs . Penitenciei-me do meu delito, não tanto pelo remorso do furto cometido mas pela humilhação de ter sido incompetente.

16 dezembro 2009

O MEU RIO DE JANEIRO

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O velho DC3 desabou sobre a pista e caminhou, trôpego, até alcançar a estação de passageiros do antigo Galeão. Visto com os olhos de hoje aquele avião não passava de um calhambeque mas aos olhos de um garoto de 18 anos era um bólido espaçoso e confortável. A Real Transportes Aéreos mandara uma limusine apanhar-me em casa, na cidade de Paulista, pouco distante do Recife, para conduzir-me até ao aeroporto. Em 1948 viajar de avião era um luxo. A minha emoção, ao desembarcar no Rio de Janeiro, era tão grande que mal pude registrar a paisagem que se descortinou durante o percurso entre o aeroporto e o meu destino final: um sóbrio casarão na Rua Bela, em São Cristóvão, o alojamento da escola que iria me abrigar por quatro anos durante os quais eu me amalgamaria com a cidade do Rio de Janeiro. Percebi que o Rio de Janeiro começava a penetrar na minha alma e tive disso a confirmação quando, na manhã do dia seguinte, depois de uma noite repleta de sonhos, ainda na cama, chegou-me até as narinas o aroma penetrante do café que estava sendo coado na cozinha. O Rio que me recebia era aristocrático. Seu Alfredo, embalsamado dentro de uma espécie de fraque “risca de giz” e gravata borboleta, servia o almoço com a austeridade de um garçom londrino. A vida, no internato, era espartana: oito horas de aula durante o dia e sessão de estudo, à noite, obrigatória. Não sobrava tempo para devaneios. Mas, aos poucos, fui descobrindo a cidade, completamente envolvido pelo seu fascínio. Eu observava o trejeito das pessoas, como falavam, como riam, como se comportavam dentro dos bondes, como se sentavam nos bancos dos jardins. Eu percorria as livrarias deslumbrado e namorava com a estátua da Primavera na Praça da República. Ao domingos eu lia “O Jornal”, considerado o melhor jornal do Brasil, embora o “Jornal do Brasil” se considerasse o melhor jornal, segundo um trocadilho bobo que corria na época. Aos domingos havia também, pela manhã, os recitais de órgão no Mosteiro de São Bento onde eu chegava de bonde, depois de duas baldeações. Aos sábados o bonde 34 “Alegria” me levava até a Praça Tiradentes onde, numa rua transversal, o Cine Dom Pedro exibia os filmes do neo-realismo italiano, que tanto me marcaram. Na Cavê tomei meu primeiro chá. Na Spaghettilandia comi meus primeiros espaguetes e na City Rio minha primeira pizza. Nos Esquilos tomei meu primeiro conhaque. No Bola Preta, pulei meu primeiro carnaval. E o que dizer do Samba Danças, bem ao lado do Palácio Monroe, onde as “táxi-girls” perfuravam meus cartões com uma volúpia que não demonstravam durante a dança? Foi ali que assisti o Jamelão, cantar e o Grande Otelo dar grandes gargalhadas. E o Mangue ? O Mangue, a cidade proibida, a cidade do pecado... O Mangue fervilhava de gente vinte e quatro horas por dia. No Mangue não havia descanso. O Mangue não podia parar. O Mangue era a turbina que proporcionava a energia para o Rio funcionar. O Mangue aliviava tensões, apaziguava discórdias, equilibrava emoções, saciava desejos, alimentava sonhos. O Mangue fazia do carioca um ser equilibrado. O enorme gasômetro ao lado, com sua cúpula que subia e descia sobrepondo-se ao casario baixo da área, criava um cenário de atividade industrial. A sua população deslocava-se com rapidez como operários saindo das fábricas. Um delicado cheiro de gás ocupava todos os espaços, fixava-se nas narinas e no cérebro, e se tornaria, com o tempo, um eficiente afrodisíaco. A laranjada no Tabuleiro da Baiana... o chop no bar da Brahma, bem ao lado... os ônibus “Camões”, caolhos de nascença... Cacilda Becker... Alda Garrido... o Hamlet do Sergio Cardoso... Era o Rio de Janeiro... O meu Rio de janeiro... O Rio de Janeiro modernizou-se. Eu, amadureci. Caminhamos, ambos, à procura um do outro.

14 dezembro 2009

DELITOS DA INFÂNCIA - A VELHA

- Oh, Maria! Lavar a cona! Seu Jorge dirigia-se à própria mãe, estendida num leito, inválida. Eu tinha oito anos. Seu Jorge era meu vizinho. Era português como a maioria dos meus vizinhos na Vila Maria. Além da mãe, moravam com seu Jorge uns 40 cachorros que ficavam presos na sala. Eu nunca soube o que eles faziam lá. Para mim eram apenas moradores. O seu Jorge havia me pedido para ir uma vez por dia à sua casa e ver se a velha sua mãe precisava de alguma coisa. Ele passava o dia no trabalho. Saía de manhã cedo, como todo o mundo na Vila Maria, e só voltava à noite. As necessidades da velha eram poucas. Lavar a cona, alertada ou não pelo filho, era uma tarefa muito pessoal. A mim, vez por outra, pedia para ir comprar alguns biscoitos, ou pão, ou mortadela. Queijo, pouco. Era o seu almoço. Esse era o meu trabalho. Eu não sei quem limpava a bosta dos cachorros. Só me lembro que a casa era um fedor só. Um dia a velha, sentando-se na cama com muito esforço, tirou de um móvel junto à cabeceira, que na época se chamava “criado mudo”, uma garrafinha. Acariciando-a, colocou-a nas minhas mãos e apertando fortemente tudo, garrafa e mãos, disse-me, suplicante: -Oh, Luis, meu p’quenino. Tu que és tão bom, não me conseguirias um pouco de pinga? Sei que é difícil mas tua alma pura há de conseguir esta graça. Bastam duzentos réis mas eu não os tenho. Anda a ver se consegues um fiado lá no armazém. Me farás isto? Diz-me q’sim!. Aos oito anos eu pertencia à Cruzada Infantil, ligada a São Tarcísio não sei bem com que amarras, na Igreja da Vila Maria. Semanas antes o padre havia reunido a Cruzada Infantil, distribuído um cartão cheio de quadradinhos e despachado os cruzados para angariar fundos destinados a não-sei-o-que. Abordaríamos as pessoas na rua e pediríamos a esmola. Com uma agulha, parte inseparável do cartão, perfuraríamos tantos quadrados quantos tostões tivéssemos recebido. Eu havia arrecadado meio cartão e estava com as moedas no bolso. Não hesitei um só minuto. Corri para o armazém e mandei encher a garrafinha. Entreguei-a, orgulhoso para a velha. Seu olhar de gratidão me dá calafrios até hoje. Cometi um crime? Sim. Roubei um padre para dar a extrema unção a uma velha.

12 dezembro 2009

AS VOZES DO ALÉM

Nas freqüentes viagens que fazia do Rio de Janeiro para Tókio, eu precisava pernoitar em Los Angeles ou em San Francisco, na Califórnia. Sempre que podia, eu optava por San Francisco. “Frisco”, como a chamavam os americanos, com seu lindo sol e suas chuvas inesperadas tinha, para mim, um encanto particular. Vez por outra eu arranjava um modo de permanecer mais de uma noite para cumprir os dois programas que mais me fascinavam: Contemplar a ilha de Alcatraz a partir da amurada do continente, onde eu ficava estudando fugas heróicas e mirabolantes, e dar umas voltas no clássico bondinho, o cartão postal da cidade.

 O passeio de bonde subindo e descendo aquela colina no centro da cidade tinha, para mim, um encanto especial. Levava-me de volta aos meu doze anos no bonde da Vila Maria, com todas as suas recordações, o vento frio no estribo, o trabalho árduo, as longas caminhadas pelas estradas de terra, a vida dura na penúria da família. San Francisco era uma cidade mágica. Numa dessas viagens não foi possível pernoitar lá
. A Japan Airlines informou, de última hora, que faríamos a conexão em Los Angeles. Embarquei meio acabrunhado. Mas ao chegar ao hotel, em Tókio, o Imperiaro Hotero me reservara uma surpresa.

 Eu já estava acostumado às monumentais exposições que o hotel preparava em seus amplos salões, mas com essa eu não contava.
 No espaçoso saguão que precede o restaurante onde é servido o café da manhã – é bom saber que o Imperial Hotel tem 4200 apartamentos – haviam instalado nada mais nada menos que um exemplar do bondinho de San Francisco, autêntico, montado sobre trilhos de verdade. Naquela manhã eu havia acordado com excelente disposição para o trabalho, estava desligado de qualquer preocupação.

 Eram seis horas da manhã, não havia uma alma. Ainda no salão, próximo ao bonde, sentei-me num banco de madeira igual àqueles que se encontram nos pontos de parada em San Francisco. Fiquei contemplando, deslumbrado, o meu bonde.
 Depois de algum tempo subi e ocupei meu lugar na mesma posição de sempre. Fechei os olhos e comecei a imaginar o bonde despencando ladeira abaixo até parar, suavemente, na parte plana da cidade.

Foi quando comecei a ouvir as vozes. A principio em tom baixo, como em surdina, elevando-se aos poucos, inconfundíveis no seu sotaque californiano. O que estaria acontecendo? A voz do condutor que alertava os passageiros, “watch your steps, watch your steps”, vozes de crianças nos bancos traseiros, um senhor que diz a alguém – provavelmente conduzindo um guarda chuva – “expecting rain, my dear?”, o blém... blém da sineta anunciando a saída , novamente a voz do condutor “be seated all of you, we are leaving!”.
No meu enlevo eu sentia a felicidade invadir-me. Eu me perguntava como é que aquilo poderia estar acontecendo comigo. Eu estava vivendo, certamente, um fenômeno psicofônico, como o chamam os espíritas.
As ondas do cosmos são, efetivamente, um grande mistério mas naquele momento eu entendi que havia alguma coisa além desta vida. Vozes humanas que um dia, quem sabe há quanto tempo, ecoaram através daqueles bancos e agora se materializavam para dar testemunho de que a vida, o sopro vital, não se extingue.

Estupefato, desci do bonde e sentei-me novamente no banco de espera. As vozes cessaram. Continuei no meu enlevo dando graças a Deus por ter-me contemplado com aquela experiência. Voltei a subir no bonde.
 As vozes voltaram, de pessoas diferentes, o mesmo blém... blém da sineta. Era espantoso. A partir daquele momento eu não seria mais o mesmo.
 Eu teria que mudar muitas coisas no meu comportamento e preparar-me para o que, certamente, viria pela frente.
 Eu teria que me transformar numa pessoa melhor, mais tolerante, mais disponível. Eu teria que livrar-me das mesquinharias, da arrogância, dos pequenos preconceitos.

Resoluto, preparei-me para descer. Antes, porém, em pleno êxtase, levantei os olhos para o céu agradecendo a Deus por aquela experiência que me tocara tão profundamente transformando-me num ser diferente, privilegiado e, conseqüentemente, mais responsável.

 No teto do bonde entre lâmpadas, balões e buquês de flores, escamoteadas entre as flores, duas caixinhas acústicas da Sony me traziam de volta à terra. A partir daí não foi difícil descobrir a célula fotoelétrica colocada no estribo do bonde, que registrava a subida e descida dos passageiros.
 Esses japoneses...!

03 maio 2009

SEU GUILHERME

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A carroça a quatro mãos deslizava suavemente pela alameda central do São João Batista. Sobre ela seu Guilherme viajava tranqüilo. Eu contemplava a "multidão" de cerca trinta pessoas que o acompanhava e me perguntava por que aquelas pessoas estariam ali. O meu chefe estava ali mas o meu chefe não era confiável. Ele vivia montando intrigas, no trabalho, para melhorar sua posição, destruindo os outros. Solidariedade? Com que? Com quem? Com os vivos ou com os mortos? Seria uma espécie de contrição? Os velhos amigos de seu Guilherme não estavam presentes. Estavam todos distantes, em Pernambuco, em São Paulo e na sua longínqua terra natal. Mas, os que estavam ali, por que estariam ali? Por dever imposto à sua própria alma? Ou por não terem a coragem de, simplesmente, dizer: “Funeral, eu só vou ao meu e, ainda assim, contra a minha vontade".
Seu Guilherme partiu quando estava para completar 101 anos. Apanhou-me de surpresa. Eu achava que ele não iria morrer nunca. Quatro dias antes ele estava em plena atividade, lendo seu jornal, reclamando do macarrão cozido demais, ou do vinho que havia acabado. Eu, que tantas vezes havia perdido a paciência com suas reclamações, estava ali fazendo um inventário das suas minúsculas necessidades, em comparação com a minha intolerância. A alma me doía. 
A carroça chegou, finalmente, ao seu destino final: o jazigo, ou o que quer que se chame o local que a burocracia funerária, com a qual eu não tinha a menor intimidade, lhe havia reservado. Ficava bem próximo à entrada principal, um lugar privilegiado, se não para ele, que dali não se moveria, mas para as almas caridosas que, no futuro, iriam visitá-lo. Era um buraco na parede. Retiraram o caixão da carroça e ao tentar colocá-lo no seu lugar definitivo descobriram que não cabia. Era ligeiramente mais longo, coisa de meio palmo. Um constrangimento. Consultaram-me, oferecendo duas alternativas: Levá-lo para outro jazigo, ou o que quer que se chame, bem longe, do lado oposto do cemitério, para onde iriam provavelmente os inadimplentes, ou cortar uma das extremidades do caixão. Eu teria que decidir. Obviamente não podia pedir prazo para pensar. Eu teria que decidir. A "multidão" me olhava. Eu pensava no Seu Guilherme. Em como ele venerava suas ferramentas, sua oficina nos fundos da casa uma combinação de mecânica e carpintaria, em como ele trabalhava com fúria fazendo portões de bambu, ou pequenos móveis, ou artefatos para a cozinha ou simplesmente emoldurando velhas estampas. Procurava adivinhar o que ele teria feito no meu lugar. E, perdido nos pensamentos, ouvi sua voz murmurar, num sussurro carinhoso, como nunca havia escutado em vida:
“Manda passar logo o serrote, seu salame”!
Seu Guilherme descansa  junto à entrada principal do Cemitério São João Batista.

10 fevereiro 2009

OS BONDES DO VERISSIMO

No Domingo 28 de Setembro de 2008 embarco na Estação Rodoviária Novo Rio com destino a Nova Friburgo. Como de hábito, a Viação 1001 me oferece os jornais do dia. Apanho o primeiro que me aparece. É “O Estado de São Paulo”. A Primavera já começara, mas só no calendário. Uma neblina espessa induzia ao devaneio. A viagem se arrastava melancólica. Entediado, resolvo passar os olhos pelo jornal. Abro o Caderno de Cultura e vejo, com espanto:
"Veríssimo Mais bondes"
O que teria Luis Fernando Veríssimo escrito sobre bondes, com aquele seu estilo inconfundível, sua lucidez na apreciação dos fatos, sua ironia ferina? Comecei a ler sua crônica com sofreguidão comparando palavra por palavra, gesto por gesto, os bondes de Porto Alegre com os da Vila Maria da minha infância em São Paulo. E, claro, não pude deixar de evocar “Seu Albano, o Salvador” postado à poucas páginas daqui em (felizmente) 28 de Novembro de 2006. Com a sabedoria que Deus lhe deu e que aprimorou com o suor do seu rosto, Veríssimo extrai, de seus bondes da juventude, ensinamentos sobre formação do caráter, definição de personalidade e autoestima . Reportando-se a uma sua crônica anterior, ainda sobre bondes, Veríssimo diz que...
“Sem querer perfurei um veio de saudades. Muita gente manifestou as mesmas lembranças afetuosas, que talvez sejam apenas saudade não dos bondes mas do que nós éramos. Acima de tudo, mais jovens.”
Logo me veio à mente a euforia com que eu, já perto dos dezoito anos, me sentava no banco de um bonde com um livro recém comprado e puxava do bolso traseiro um pente de ebonite, marca "Guarani", para cortar as folhas da brochura confeccionada em papel pardo, do qual emanava um aroma quase afrodisíaco. Veríssimo continua sua análise:
“Os bondes ensinavam destreza, coragem e autoconfiança. Um dos períodos mais importantes da minha vida foi dedicado à preparação psicológica para a minha primeira ( e, pensando bem, última) grande prova de bravura, subir no estribo com o bonde andando. Correspondia ao encontro solitário de um guri pré-histórico com o seu primeiro bisão. Depois disso você era um homem. Não precisava ter ninguém olhando. Subir no bonde em movimento era um triunfo pessoal e particular. Você se provava para você mesmo.”
Na Vila Maria nós fazíamos o contrário, pulávamos do bonde em movimento, competindo até que saísse o campeão, aquele que descesse por último. Mas Veríssimo, tem um conceito diferente e arrasa com o nosso heroísmo:
“Descer com o bonde em movimento não era nada, uma menina conseguiria. Bastava continuar correndo depois de tocar com os pés no chão. E pular para a calçada antes que o carro que viesse atrás fizesse você voar."
Não sei não... era tudo uma questão de velocidade. Se, ao subir, a velocidade estivesse acima do que você podia suportar você arrebentaria os maxilares na balaustrada do bonde. Ao descer, você planaria como um hidroavião no asfalto e estouraria a cabeça no primeiro poste. Seja como for, conclui o grande mestre:
“Devo às viagens no veículo o que me sobra de equilíbrio e introspecção filosófica. Volta e meia falam na volta dos bondes. Sou a favor. Não sei se eles melhorariam o nosso trânsito, mas certamente melhorariam o nosso caráter.”
Devo ao Veríssimo muito equilíbrio e um pouco de introspecção filosófica, não tanto pelos bondes da minha infância mas, principalmente, pela leitura de sua crônica.

27 janeiro 2009

ENCONTRO ou DESENCONTRO?




.POEMINHA QUASE ERÓTICO
- Eu sou distímico
- E daí ?
- Você é distímica
- E daí ?
- Nós vamos brigar
- E daí ?
- Você vai chorar
- E daí ?
- Você vai sofrer
- E daí ?
- Eu não vou te amar
- E daí ?
- É muita distimia
- E daí ?
- Então tira a roupa.

25 janeiro 2009

DEUS ME LIVRE DE SER O AMBRÓSIO

“ Ambrósio, me traz as chinelas”! È a voz da Velha. Ouço o rangido das molas da cama e os passos do Ambrósio. Imagino-o caminhando iluminado pela pálida luz da lua que filtra pela clarabóia. Dirige-se ao banheiro e recolhe as chinelas com respeito. Vai até o quarto da Velha e deposita, silenciosamente, as chinelas aos pés de sua protetora. Olho para o relógio. São duas da madrugada. Bocejo, espanto um mosquito e tento dormir novamente. Disseram-me, há muitos anos, que se todos os homens do mundo fossem convidados a colocar a sua cruz em uma grande praça para que, depois, cada um escolhesse a que mais lhe agradasse, cada um, depois de experimentar todas as cruzes, acabaria escolhendo a sua própria. Não sei se isto aconteceria realmente. Mas de uma coisa estou certo. Com a do Ambrósio ninguém ficaria. E quando penso que essa pobre criatura mal venceu doze anos da sua amarga existência fico imaginando o que mais lhe poderá reservar o futuro se nada acontecer que o liberte do jugo da Velha. Magro, esfarrapado e descalço, consegue-se ver a palidez da pele onde não a encobre a sujeira. Seus olhos parecem duas lamparinas alimentadas a óleo de babaçu. Não faíscam, como nas descrições clássicas. Apenas bruxuleiam, com o brilho triste da chama que se extingue. Ambrósio é fogoió, fruto da intemperança de algum descendente de holandeses perdido no meio da caatinga com uma cafuza. Nunca troquei com ele uma palavra. Nunca lhe ouvi a voz. Ambrósio não fala. Ambrósio só obedece. “Ande, moleque, se avexe”! A minha casa, meia parede com a da Velha, fez-me espectador involuntário do drama que é a vida do Ambrósio. Do meu quarto posso ouvir desde as pragas trovejantes da Velha até os soluços mais abafados do menino. Entendi, com o passar do tempo, que ele fora adotado aos cinco anos de idade e, desde então, presta seus serviços à Velha, única moradora da casa. A Velha acorda cedo e, enquanto aquece os pulmões para o esbravejar do dia, escarra como um tuberculoso dos velhos tempos. Era a hora em que eu saia para a Fábrica e sentia engulhos, mal conseguindo engolir a tapioca do magro café da manhã que os meus vinte e cinco anos me permitiam. “Ambrósio, limpa esse chão, Ambrósio, lava essa pia, Ambrósio, você ainda não deu banho no cachorro? Anda, menino, já é quase meio dia e eu hoje quero comer vatapá. Ah!, eu hoje vou comer vatapá! Meu Deus, que macaxeira horrorosa e a trinta cruzeiros o quilo! Onde você comprou essa macaxeira, Ambrósio? Você não presta atenção nas coisas, moleque! Ai, que trabalho me dá esse menino! Eu não posso fazer nada, tenho que andar o dia inteiro atrás dele, só me dá trabalho. Trabalho e despesa! Anda, vai lavar a escada que de repente chega alguma visita, vai ali e compra um maço de coentro na barraca do Biu, corre, recolhe essa roupa que está no varal, olha que sujeira que está esse fogão, Ambrósio! Ambrósio não responde. Desloca-se de um lado para outro como fogo fátuo. Movimenta-se com espantosa agilidade, impulsionado pelos cascudos que recebe ou pela habilidade com que os evita. Chocado pela crueldade com que era tratada a pobre criança, recusei-me a travar conhecimento com a Velha. Frequentemente a encontrava a espiar-me, da pequena varanda da sua casa, quando eu voltava da Fábrica, no verão em que o sol se punha tarde e enchia de cores berrantes o baixo firmamento dos Afogados, quando o Recife ainda era cheio de poesia. Eu fingia estar distraído e respondia com um educado Boa Tarde. Quanto ao Ambrósio, eu o via regularmente nos fins de semana, no cumprimento de alguma missão, sempre correndo, em silêncio, ignorante da existência de um mundo à sua volta, ao qual ele talvez nunca teria acesso. Numa tarde de sábado, não encontrando cigarros em casa, tive de sair para comprá-los e, mal cheguei ao portão, fui cercado pela Velha que, num milagre de intuição feminina, adivinhou-me as intenções: “O senhor vai comprar alguma coisa? Ora, não se preocupe, eu mando o Ambrósio. Ele vai. Ele vai rapidinho, o senhor não precisa se cansar, não, não. Ambrósio, ó Abrósio, corre aqui moleque. Anda, vai ali na venda comprar... o que é que o senhor quer mesmo, heim? ... diga a ele, diga, ele volta logo, ele... Ah, é cigarro, não é? É cigarro, Ambrósio. Ele sabe até a sua marca. Ele achou um maço que o senhor perdeu perto do portão. Ele fumou escondido, o danado, mas eu peguei e dei uma surra nele. O senhor precisa tomar mais cuidado, viu? O senhor... devia... Eu não ouvia mais nada. Imaginava o pobre Ambrósio escondido atrás de uma mangueira saboreando o fruto do meu desleixo sem imaginar o castigo que aquilo lhe custaria. Mas quando o vi na minha frente com um sorriso de anjo maior do que o seu rosto mal alimentado percebi que ele estava feliz naquele momento. Feliz por prestar-me um serviço, a mim, que nunca lhe pedira nada. Tomou-me o dinheiro das mãos e com seus passinhos miúdos partiu em direção à venda, vagarosamente, como se quisesse perpetuar aquele momento. Havia um buraco nas suas calças. Fiquei contemplando aquela imagem que foi se diluindo, diluindo, até se dissipar completamente, envolvida por duas lágrimas. Lembrando-me da história das cruzes eu apenas murmurava:
“Ambrósio, Ambrósio! deixa-me ser o teu Simão!”