03 maio 2009

SEU GUILHERME

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A carroça a quatro mãos deslizava suavemente pela alameda central do São João Batista. Sobre ela seu Guilherme viajava tranqüilo. Eu contemplava a "multidão" de cerca trinta pessoas que o acompanhava e me perguntava por que aquelas pessoas estariam ali. O meu chefe estava ali mas o meu chefe não era confiável. Ele vivia montando intrigas, no trabalho, para melhorar sua posição, destruindo os outros. Solidariedade? Com que? Com quem? Com os vivos ou com os mortos? Seria uma espécie de contrição? Os velhos amigos de seu Guilherme não estavam presentes. Estavam todos distantes, em Pernambuco, em São Paulo e na sua longínqua terra natal. Mas, os que estavam ali, por que estariam ali? Por dever imposto à sua própria alma? Ou por não terem a coragem de, simplesmente, dizer: “Funeral, eu só vou ao meu e, ainda assim, contra a minha vontade".
Seu Guilherme partiu quando estava para completar 101 anos. Apanhou-me de surpresa. Eu achava que ele não iria morrer nunca. Quatro dias antes ele estava em plena atividade, lendo seu jornal, reclamando do macarrão cozido demais, ou do vinho que havia acabado. Eu, que tantas vezes havia perdido a paciência com suas reclamações, estava ali fazendo um inventário das suas minúsculas necessidades, em comparação com a minha intolerância. A alma me doía. 
A carroça chegou, finalmente, ao seu destino final: o jazigo, ou o que quer que se chame o local que a burocracia funerária, com a qual eu não tinha a menor intimidade, lhe havia reservado. Ficava bem próximo à entrada principal, um lugar privilegiado, se não para ele, que dali não se moveria, mas para as almas caridosas que, no futuro, iriam visitá-lo. Era um buraco na parede. Retiraram o caixão da carroça e ao tentar colocá-lo no seu lugar definitivo descobriram que não cabia. Era ligeiramente mais longo, coisa de meio palmo. Um constrangimento. Consultaram-me, oferecendo duas alternativas: Levá-lo para outro jazigo, ou o que quer que se chame, bem longe, do lado oposto do cemitério, para onde iriam provavelmente os inadimplentes, ou cortar uma das extremidades do caixão. Eu teria que decidir. Obviamente não podia pedir prazo para pensar. Eu teria que decidir. A "multidão" me olhava. Eu pensava no Seu Guilherme. Em como ele venerava suas ferramentas, sua oficina nos fundos da casa uma combinação de mecânica e carpintaria, em como ele trabalhava com fúria fazendo portões de bambu, ou pequenos móveis, ou artefatos para a cozinha ou simplesmente emoldurando velhas estampas. Procurava adivinhar o que ele teria feito no meu lugar. E, perdido nos pensamentos, ouvi sua voz murmurar, num sussurro carinhoso, como nunca havia escutado em vida:
“Manda passar logo o serrote, seu salame”!
Seu Guilherme descansa  junto à entrada principal do Cemitério São João Batista.

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