30 dezembro 2009

DELITOS DA INFÂNCIA - O PATINETE

 Antes da invenção dos ridículos joguinhos de computador, agora em processo de metástase para telefones celulares, a gente brincava de patinete. Brincava, não. Praticava o esporte do. E o sonho de qualquer criança era ter seu próprio patinete. Na Vila Maria todos tinham o seu. Aos dez anos de idade, eu ainda não tinha o meu. Meu irmão, oito anos mais velho que eu, era mecânico e tinha em casa uma verdadeira oficina. Entre ferramentas, instrumentos de medição, peças usadas e sucata de toda espécie, existia a parte essencial do patinete: a rolimã. Muitas rolimãs! Se eu tirasse duas, só duas, daquela promiscuidade de formas e tamanhos, ele não perceberia. Separei as duas que precisava, de tamanho compatível com a minha infância. Eram de diâmetros diferentes, mas isto não seria problema. Naquela manhã, antes da hora do almoço, eu já estava com meu patinete montado. Deslizei por Seca e Meca até que, no fim do dia, encostei-o, triunfante, junto à porta da cozinha. Eu estava orgulhoso. Eu o havia feito. No fim do dia meu irmão volta do trabalho. -- Oi, você ganhou um patinete? -- É... ganhei. Ele deitou o veículo, observou-o atentamente e recolocou-o na posição que estava, sem dizer palavra. Preparei-me para o pior. Percebi que ele tinha reconhecido as rolimãs. --O sujeito que fez esse patinete é muito burro. Ele colocou a roda maior na frente. Devia ter feito o contrário. Com a roda menor na frente o impulso é maior e o patinete rompe a inércia com mais energia, facilitando a partida. Explica isso pro teu amigo. No dia seguinte desmanchei o patinete e coloquei de volta as rolimãs . Penitenciei-me do meu delito, não tanto pelo remorso do furto cometido mas pela humilhação de ter sido incompetente.

16 dezembro 2009

O MEU RIO DE JANEIRO

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O velho DC3 desabou sobre a pista e caminhou, trôpego, até alcançar a estação de passageiros do antigo Galeão. Visto com os olhos de hoje aquele avião não passava de um calhambeque mas aos olhos de um garoto de 18 anos era um bólido espaçoso e confortável. A Real Transportes Aéreos mandara uma limusine apanhar-me em casa, na cidade de Paulista, pouco distante do Recife, para conduzir-me até ao aeroporto. Em 1948 viajar de avião era um luxo. A minha emoção, ao desembarcar no Rio de Janeiro, era tão grande que mal pude registrar a paisagem que se descortinou durante o percurso entre o aeroporto e o meu destino final: um sóbrio casarão na Rua Bela, em São Cristóvão, o alojamento da escola que iria me abrigar por quatro anos durante os quais eu me amalgamaria com a cidade do Rio de Janeiro. Percebi que o Rio de Janeiro começava a penetrar na minha alma e tive disso a confirmação quando, na manhã do dia seguinte, depois de uma noite repleta de sonhos, ainda na cama, chegou-me até as narinas o aroma penetrante do café que estava sendo coado na cozinha. O Rio que me recebia era aristocrático. Seu Alfredo, embalsamado dentro de uma espécie de fraque “risca de giz” e gravata borboleta, servia o almoço com a austeridade de um garçom londrino. A vida, no internato, era espartana: oito horas de aula durante o dia e sessão de estudo, à noite, obrigatória. Não sobrava tempo para devaneios. Mas, aos poucos, fui descobrindo a cidade, completamente envolvido pelo seu fascínio. Eu observava o trejeito das pessoas, como falavam, como riam, como se comportavam dentro dos bondes, como se sentavam nos bancos dos jardins. Eu percorria as livrarias deslumbrado e namorava com a estátua da Primavera na Praça da República. Ao domingos eu lia “O Jornal”, considerado o melhor jornal do Brasil, embora o “Jornal do Brasil” se considerasse o melhor jornal, segundo um trocadilho bobo que corria na época. Aos domingos havia também, pela manhã, os recitais de órgão no Mosteiro de São Bento onde eu chegava de bonde, depois de duas baldeações. Aos sábados o bonde 34 “Alegria” me levava até a Praça Tiradentes onde, numa rua transversal, o Cine Dom Pedro exibia os filmes do neo-realismo italiano, que tanto me marcaram. Na Cavê tomei meu primeiro chá. Na Spaghettilandia comi meus primeiros espaguetes e na City Rio minha primeira pizza. Nos Esquilos tomei meu primeiro conhaque. No Bola Preta, pulei meu primeiro carnaval. E o que dizer do Samba Danças, bem ao lado do Palácio Monroe, onde as “táxi-girls” perfuravam meus cartões com uma volúpia que não demonstravam durante a dança? Foi ali que assisti o Jamelão, cantar e o Grande Otelo dar grandes gargalhadas. E o Mangue ? O Mangue, a cidade proibida, a cidade do pecado... O Mangue fervilhava de gente vinte e quatro horas por dia. No Mangue não havia descanso. O Mangue não podia parar. O Mangue era a turbina que proporcionava a energia para o Rio funcionar. O Mangue aliviava tensões, apaziguava discórdias, equilibrava emoções, saciava desejos, alimentava sonhos. O Mangue fazia do carioca um ser equilibrado. O enorme gasômetro ao lado, com sua cúpula que subia e descia sobrepondo-se ao casario baixo da área, criava um cenário de atividade industrial. A sua população deslocava-se com rapidez como operários saindo das fábricas. Um delicado cheiro de gás ocupava todos os espaços, fixava-se nas narinas e no cérebro, e se tornaria, com o tempo, um eficiente afrodisíaco. A laranjada no Tabuleiro da Baiana... o chop no bar da Brahma, bem ao lado... os ônibus “Camões”, caolhos de nascença... Cacilda Becker... Alda Garrido... o Hamlet do Sergio Cardoso... Era o Rio de Janeiro... O meu Rio de janeiro... O Rio de Janeiro modernizou-se. Eu, amadureci. Caminhamos, ambos, à procura um do outro.

14 dezembro 2009

DELITOS DA INFÂNCIA - A VELHA

- Oh, Maria! Lavar a cona! Seu Jorge dirigia-se à própria mãe, estendida num leito, inválida. Eu tinha oito anos. Seu Jorge era meu vizinho. Era português como a maioria dos meus vizinhos na Vila Maria. Além da mãe, moravam com seu Jorge uns 40 cachorros que ficavam presos na sala. Eu nunca soube o que eles faziam lá. Para mim eram apenas moradores. O seu Jorge havia me pedido para ir uma vez por dia à sua casa e ver se a velha sua mãe precisava de alguma coisa. Ele passava o dia no trabalho. Saía de manhã cedo, como todo o mundo na Vila Maria, e só voltava à noite. As necessidades da velha eram poucas. Lavar a cona, alertada ou não pelo filho, era uma tarefa muito pessoal. A mim, vez por outra, pedia para ir comprar alguns biscoitos, ou pão, ou mortadela. Queijo, pouco. Era o seu almoço. Esse era o meu trabalho. Eu não sei quem limpava a bosta dos cachorros. Só me lembro que a casa era um fedor só. Um dia a velha, sentando-se na cama com muito esforço, tirou de um móvel junto à cabeceira, que na época se chamava “criado mudo”, uma garrafinha. Acariciando-a, colocou-a nas minhas mãos e apertando fortemente tudo, garrafa e mãos, disse-me, suplicante: -Oh, Luis, meu p’quenino. Tu que és tão bom, não me conseguirias um pouco de pinga? Sei que é difícil mas tua alma pura há de conseguir esta graça. Bastam duzentos réis mas eu não os tenho. Anda a ver se consegues um fiado lá no armazém. Me farás isto? Diz-me q’sim!. Aos oito anos eu pertencia à Cruzada Infantil, ligada a São Tarcísio não sei bem com que amarras, na Igreja da Vila Maria. Semanas antes o padre havia reunido a Cruzada Infantil, distribuído um cartão cheio de quadradinhos e despachado os cruzados para angariar fundos destinados a não-sei-o-que. Abordaríamos as pessoas na rua e pediríamos a esmola. Com uma agulha, parte inseparável do cartão, perfuraríamos tantos quadrados quantos tostões tivéssemos recebido. Eu havia arrecadado meio cartão e estava com as moedas no bolso. Não hesitei um só minuto. Corri para o armazém e mandei encher a garrafinha. Entreguei-a, orgulhoso para a velha. Seu olhar de gratidão me dá calafrios até hoje. Cometi um crime? Sim. Roubei um padre para dar a extrema unção a uma velha.

12 dezembro 2009

AS VOZES DO ALÉM

Nas freqüentes viagens do Rio de Janeiro para Tókio eu precisava pernoitar em Los Angeles ou em San Francisco, na Califórnia. Sempre que podia, eu optava por San Francisco. “Frisco”, como a chamavam os americanos, com seu lindo sol e suas chuvas inesperadas tinha, para mim, um encanto particular. Vez por outra eu arranjava um modo de permanecer mais de uma noite para cumprir os dois programas que mais me fascinavam: Contemplar a ilha de Alcatraz a partir da amurada do continente, onde eu ficava estudando fugas heróicas e mirabolantes, e dar umas voltas no clássico bondinho, o cartão postal da cidade. O passeio de bonde subindo e descendo aquela colina no centro da cidade tinha, para mim, um encanto especial. Levava-me de volta aos meu doze anos no bonde da Vila Maria, com todas as suas recordações, o vento frio no estribo, o trabalho árduo, as longas caminhadas pelas estradas de terra, a vida dura na penúria da família. San Francisco era uma cidade mágica. Numa dessas viagens não foi possível pernoitar lá. A Japan Airlines informou, de última hora, que faríamos a conexão em Los Angeles. Embarquei meio acabrunhado. Mas ao chegar ao hotel, em Tókio, o Imperiaro Hotero me reservara uma surpresa. Eu já estava acostumado às monumentais exposições que o hotel preparava em seus amplos salões, mas com essa eu não contava. No espaçoso saguão que precede o restaurante onde é servido o café da manhã – é bom saber que o Imperial Hotel tem 4200 apartamentos – haviam instalado nada mais nada menos que um exemplar do bondinho de San Francisco, autêntico, montado sobre trilhos de verdade. Naquela manhã eu havia acordado com excelente disposição para o trabalho, estava desligado de qualquer preocupação. Eram seis horas da manhã, não havia uma alma. Ainda no salão, próximo ao bonde, sentei-me num banco de madeira igual àqueles que se encontram nos pontos de parada em San Francisco. Fiquei contemplando, deslumbrado, o meu bonde. Depois de algum tempo subi e ocupei meu lugar na mesma posição de sempre. Fechei os olhos e comecei a imaginar o bonde despencando ladeira abaixo até parar, suavemente, na parte plana da cidade. Foi quando comecei a ouvir as vozes. A principio em tom baixo, como em surdina, elevando-se aos poucos, inconfundíveis no seu sotaque californiano. O que estaria acontecendo? A voz do condutor que alertava os passageiros, “watch your steps, watch your steps”, vozes de crianças nos bancos traseiros, um senhor que diz a alguém – provavelmente conduzindo um guarda chuva – “expecting rain, my dear?”, o blém... blém da sineta anunciando a saída , novamente a voz do condutor “be seated all of you, we are leaving!”. No meu enlevo eu sentia a felicidade invadir-me. Eu me perguntava como é que aquilo poderia estar acontecendo comigo. Eu estava vivendo, certamente, um fenômeno psicofônico, como o chamam os espíritas. As ondas do cosmos são, efetivamente, um grande mistério mas naquele momento eu entendi que havia alguma coisa além desta vida. Vozes humanas que um dia, quem sabe há quanto tempo, ecoaram através daqueles bancos e agora se materializavam para dar testemunho de que a vida, o sopro vital, não se extingue. Estupefato desci do bonde e sentei-me novamente no banco de espera. As vozes cessaram. Continuei no meu enlevo dando graças a Deus por ter-me contemplado com aquela experiência. Voltei a subir no bonde. As vozes voltaram, de pessoas diferentes, o mesmo blém... blém da sineta. Era espantoso. A partir daquele momento eu não seria mais o mesmo. Eu teria que mudar muitas coisas no meu comportamento e preparar-me para o que, certamente, viria pela frente. Eu teria que me transformar numa pessoa melhor, mais tolerante, mais disponível. Eu teria que livrar-me das mesquinharias, da arrogância, dos pequenos preconceitos. Resoluto, preparei-me para descer. Antes, porém, em pleno êxtase, levantei os olhos para o céu agradecendo a Deus por aquela experiência que me tocara tão profundamente transformando-me num ser diferente, privilegiado e, conseqüentemente, mais responsável. No teto do bonde entre lâmpadas, balões e buquês de flores, escamoteadas entre as folhas, duas caixinhas acústicas da Sony me traziam de volta à terra. A partir daí não foi difícil descobrir a célula fotoelétrica colocada no estribo que registrava a subida e descida dos passageiros. Esses japoneses...!

03 maio 2009

SEU GUILHERME

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A carroça a quatro mãos deslizava suavemente pela alameda central do São João Batista. Sobre ela seu Guilherme viajava tranqüilo. Eu contemplava a "multidão" de cerca trinta pessoas que o acompanhava e me perguntava por que aquelas pessoas estariam ali. O meu chefe estava ali mas o meu chefe não era confiável. Ele vivia montando intrigas, no trabalho, para melhorar sua posição, destruindo os outros. Solidariedade? Com que? Com quem? Com os vivos ou com os mortos? Seria uma espécie de contrição? Os velhos amigos de seu Guilherme não estavam presentes. Estavam todos distantes, em Pernambuco, em São Paulo e na sua longínqua terra natal. Mas, os que estavam ali, por que estariam ali? Por dever imposto à sua própria alma? Ou por não terem a coragem de, simplesmente, dizer: “Funeral, eu só vou ao meu e, ainda assim, contra a minha vontade".
Seu Guilherme partiu quando estava para completar 101 anos. Apanhou-me de surpresa. Eu achava que ele não iria morrer nunca. Quatro dias antes ele estava em plena atividade, lendo seu jornal, reclamando do macarrão cozido demais, ou do vinho que havia acabado. Eu, que tantas vezes havia perdido a paciência com suas reclamações, estava ali fazendo um inventário das suas minúsculas necessidades, em comparação com a minha intolerância. A alma me doía. 
A carroça chegou, finalmente, ao seu destino final: o jazigo, ou o que quer que se chame o local que a burocracia funerária, com a qual eu não tinha a menor intimidade, lhe havia reservado. Ficava bem próximo à entrada principal, um lugar privilegiado, se não para ele, que dali não se moveria, mas para as almas caridosas que, no futuro, iriam visitá-lo. Era um buraco na parede. Retiraram o caixão da carroça e ao tentar colocá-lo no seu lugar definitivo descobriram que não cabia. Era ligeiramente mais longo, coisa de meio palmo. Um constrangimento. Consultaram-me, oferecendo duas alternativas: Levá-lo para outro jazigo, ou o que quer que se chame, bem longe, do lado oposto do cemitério, para onde iriam provavelmente os inadimplentes, ou cortar uma das extremidades do caixão. Eu teria que decidir. Obviamente não podia pedir prazo para pensar. Eu teria que decidir. A "multidão" me olhava. Eu pensava no Seu Guilherme. Em como ele venerava suas ferramentas, sua oficina nos fundos da casa uma combinação de mecânica e carpintaria, em como ele trabalhava com fúria fazendo portões de bambu, ou pequenos móveis, ou artefatos para a cozinha ou simplesmente emoldurando velhas estampas. Procurava adivinhar o que ele teria feito no meu lugar. E, perdido nos pensamentos, ouvi sua voz murmurar, num sussurro carinhoso, como nunca havia escutado em vida:
“Manda passar logo o serrote, seu salame”!
Seu Guilherme descansa  junto à entrada principal do Cemitério São João Batista.

10 fevereiro 2009

OS BONDES DO VERISSIMO

No Domingo 28 de Setembro de 2008 embarco na Estação Rodoviária Novo Rio com destino a Nova Friburgo. Como de hábito, a Viação 1001 me oferece os jornais do dia. Apanho o primeiro que me aparece. É “O Estado de São Paulo”. A Primavera já começara, mas só no calendário. Uma neblina espessa induzia ao devaneio. A viagem se arrastava melancólica. Entediado, resolvo passar os olhos pelo jornal. Abro o Caderno de Cultura e vejo, com espanto:
"Veríssimo Mais bondes"
O que teria Luis Fernando Veríssimo escrito sobre bondes, com aquele seu estilo inconfundível, sua lucidez na apreciação dos fatos, sua ironia ferina? Comecei a ler sua crônica com sofreguidão comparando palavra por palavra, gesto por gesto, os bondes de Porto Alegre com os da Vila Maria da minha infância em São Paulo. E, claro, não pude deixar de evocar “Seu Albano, o Salvador” postado à poucas páginas daqui em (felizmente) 28 de Novembro de 2006. Com a sabedoria que Deus lhe deu e que aprimorou com o suor do seu rosto, Veríssimo extrai, de seus bondes da juventude, ensinamentos sobre formação do caráter, definição de personalidade e autoestima . Reportando-se a uma sua crônica anterior, ainda sobre bondes, Veríssimo diz que...
“Sem querer perfurei um veio de saudades. Muita gente manifestou as mesmas lembranças afetuosas, que talvez sejam apenas saudade não dos bondes mas do que nós éramos. Acima de tudo, mais jovens.”
Logo me veio à mente a euforia com que eu, já perto dos dezoito anos, me sentava no banco de um bonde com um livro recém comprado e puxava do bolso traseiro um pente de ebonite, marca "Guarani", para cortar as folhas da brochura confeccionada em papel pardo, do qual emanava um aroma quase afrodisíaco. Veríssimo continua sua análise:
“Os bondes ensinavam destreza, coragem e autoconfiança. Um dos períodos mais importantes da minha vida foi dedicado à preparação psicológica para a minha primeira ( e, pensando bem, última) grande prova de bravura, subir no estribo com o bonde andando. Correspondia ao encontro solitário de um guri pré-histórico com o seu primeiro bisão. Depois disso você era um homem. Não precisava ter ninguém olhando. Subir no bonde em movimento era um triunfo pessoal e particular. Você se provava para você mesmo.”
Na Vila Maria nós fazíamos o contrário, pulávamos do bonde em movimento, competindo até que saísse o campeão, aquele que descesse por último. Mas Veríssimo, tem um conceito diferente e arrasa com o nosso heroísmo:
“Descer com o bonde em movimento não era nada, uma menina conseguiria. Bastava continuar correndo depois de tocar com os pés no chão. E pular para a calçada antes que o carro que viesse atrás fizesse você voar."
Não sei não... era tudo uma questão de velocidade. Se, ao subir, a velocidade estivesse acima do que você podia suportar você arrebentaria os maxilares na balaustrada do bonde. Ao descer, você planaria como um hidroavião no asfalto e estouraria a cabeça no primeiro poste. Seja como for, conclui o grande mestre:
“Devo às viagens no veículo o que me sobra de equilíbrio e introspecção filosófica. Volta e meia falam na volta dos bondes. Sou a favor. Não sei se eles melhorariam o nosso trânsito, mas certamente melhorariam o nosso caráter.”
Devo ao Veríssimo muito equilíbrio e um pouco de introspecção filosófica, não tanto pelos bondes da minha infância mas, principalmente, pela leitura de sua crônica.

27 janeiro 2009

ENCONTRO ou DESENCONTRO?




.POEMINHA QUASE ERÓTICO
- Eu sou distímico
- E daí ?
- Você é distímica
- E daí ?
- Nós vamos brigar
- E daí ?
- Você vai chorar
- E daí ?
- Você vai sofrer
- E daí ?
- Eu não vou te amar
- E daí ?
- É muita distimia
- E daí ?
- Então tira a roupa.

25 janeiro 2009

DEUS ME LIVRE DE SER O AMBRÓSIO

“ Ambrósio, me traz as chinelas”! È a voz da Velha. Ouço o rangido das molas da cama e os passos do Ambrósio. Imagino-o caminhando iluminado pela pálida luz da lua que filtra pela clarabóia. Dirige-se ao banheiro e recolhe as chinelas com respeito. Vai até o quarto da Velha e deposita, silenciosamente, as chinelas aos pés de sua protetora. Olho para o relógio. São duas da madrugada. Bocejo, espanto um mosquito e tento dormir novamente. Disseram-me, há muitos anos, que se todos os homens do mundo fossem convidados a colocar a sua cruz em uma grande praça para que, depois, cada um escolhesse a que mais lhe agradasse, cada um, depois de experimentar todas as cruzes, acabaria escolhendo a sua própria. Não sei se isto aconteceria realmente. Mas de uma coisa estou certo. Com a do Ambrósio ninguém ficaria. E quando penso que essa pobre criatura mal venceu doze anos da sua amarga existência fico imaginando o que mais lhe poderá reservar o futuro se nada acontecer que o liberte do jugo da Velha. Magro, esfarrapado e descalço, consegue-se ver a palidez da pele onde não a encobre a sujeira. Seus olhos parecem duas lamparinas alimentadas a óleo de babaçu. Não faíscam, como nas descrições clássicas. Apenas bruxuleiam, com o brilho triste da chama que se extingue. Ambrósio é fogoió, fruto da intemperança de algum descendente de holandeses perdido no meio da caatinga com uma cafuza. Nunca troquei com ele uma palavra. Nunca lhe ouvi a voz. Ambrósio não fala. Ambrósio só obedece. “Ande, moleque, se avexe”! A minha casa, meia parede com a da Velha, fez-me espectador involuntário do drama que é a vida do Ambrósio. Do meu quarto posso ouvir desde as pragas trovejantes da Velha até os soluços mais abafados do menino. Entendi, com o passar do tempo, que ele fora adotado aos cinco anos de idade e, desde então, presta seus serviços à Velha, única moradora da casa. A Velha acorda cedo e, enquanto aquece os pulmões para o esbravejar do dia, escarra como um tuberculoso dos velhos tempos. Era a hora em que eu saia para a Fábrica e sentia engulhos, mal conseguindo engolir a tapioca do magro café da manhã que os meus vinte e cinco anos me permitiam. “Ambrósio, limpa esse chão, Ambrósio, lava essa pia, Ambrósio, você ainda não deu banho no cachorro? Anda, menino, já é quase meio dia e eu hoje quero comer vatapá. Ah!, eu hoje vou comer vatapá! Meu Deus, que macaxeira horrorosa e a trinta cruzeiros o quilo! Onde você comprou essa macaxeira, Ambrósio? Você não presta atenção nas coisas, moleque! Ai, que trabalho me dá esse menino! Eu não posso fazer nada, tenho que andar o dia inteiro atrás dele, só me dá trabalho. Trabalho e despesa! Anda, vai lavar a escada que de repente chega alguma visita, vai ali e compra um maço de coentro na barraca do Biu, corre, recolhe essa roupa que está no varal, olha que sujeira que está esse fogão, Ambrósio! Ambrósio não responde. Desloca-se de um lado para outro como fogo fátuo. Movimenta-se com espantosa agilidade, impulsionado pelos cascudos que recebe ou pela habilidade com que os evita. Chocado pela crueldade com que era tratada a pobre criança, recusei-me a travar conhecimento com a Velha. Frequentemente a encontrava a espiar-me, da pequena varanda da sua casa, quando eu voltava da Fábrica, no verão em que o sol se punha tarde e enchia de cores berrantes o baixo firmamento dos Afogados, quando o Recife ainda era cheio de poesia. Eu fingia estar distraído e respondia com um educado Boa Tarde. Quanto ao Ambrósio, eu o via regularmente nos fins de semana, no cumprimento de alguma missão, sempre correndo, em silêncio, ignorante da existência de um mundo à sua volta, ao qual ele talvez nunca teria acesso. Numa tarde de sábado, não encontrando cigarros em casa, tive de sair para comprá-los e, mal cheguei ao portão, fui cercado pela Velha que, num milagre de intuição feminina, adivinhou-me as intenções: “O senhor vai comprar alguma coisa? Ora, não se preocupe, eu mando o Ambrósio. Ele vai. Ele vai rapidinho, o senhor não precisa se cansar, não, não. Ambrósio, ó Abrósio, corre aqui moleque. Anda, vai ali na venda comprar... o que é que o senhor quer mesmo, heim? ... diga a ele, diga, ele volta logo, ele... Ah, é cigarro, não é? É cigarro, Ambrósio. Ele sabe até a sua marca. Ele achou um maço que o senhor perdeu perto do portão. Ele fumou escondido, o danado, mas eu peguei e dei uma surra nele. O senhor precisa tomar mais cuidado, viu? O senhor... devia... Eu não ouvia mais nada. Imaginava o pobre Ambrósio escondido atrás de uma mangueira saboreando o fruto do meu desleixo sem imaginar o castigo que aquilo lhe custaria. Mas quando o vi na minha frente com um sorriso de anjo maior do que o seu rosto mal alimentado percebi que ele estava feliz naquele momento. Feliz por prestar-me um serviço, a mim, que nunca lhe pedira nada. Tomou-me o dinheiro das mãos e com seus passinhos miúdos partiu em direção à venda, vagarosamente, como se quisesse perpetuar aquele momento. Havia um buraco nas suas calças. Fiquei contemplando aquela imagem que foi se diluindo, diluindo, até se dissipar completamente, envolvida por duas lágrimas. Lembrando-me da história das cruzes eu apenas murmurava:
“Ambrósio, Ambrósio! deixa-me ser o teu Simão!”