RECIFE, ENTRE PONTES E FANTASMAS
Recife me
recebeu como quem oferece sombra num dia sem árvore. Cheguei com a alma
ressecada de concreto, arrastando uma mala que fazia mais barulho que sentido.
Severino Mandacaru, meu amigo invisível e ausente existencial, apareceu na
saída do aeroporto , parado ao lado de um vendedor de passaporte falso, coçando
o queixo inexistente e sussurrando:
“Chegamos,
cabra.”
Recife é uma
cidade que transpira pelas paredes. As casas têm o hálito doce da maresia e uma
melancolia que parece estar sempre à espreita nas esquinas.
Andamos
pelas ruas de paralelepípedo do Recife Antigo como dois personagens fora do
tempo – eu suando e tentando encontrar poesia nos buracos da calçada e ele
firme como uma metáfora espinhosa, admirando os casarões como quem revê parentes
mortos.
No Marco
Zero, Severino parou, olhou o mar com olhos que não existem e disse: “Aqui é
onde tudo começa e tudo acaba, dependendo de quem conta.”
Eu perguntei
se ele estava se referindo à cidade ou à vida.
“À vida,
claro. Recife é só uma desculpa bonita.”
Depois
caminhamos até uma feira onde comprei uma tapioca com queijo de coalho e ele,
obviamente, não comprou nada mas reclamou mesmo assim: “Nada disso tem gosto de Sertão. É gostoso mas
é outro idioma.”
À noite,
sentamos num boteco em Casa Amarela, entre um sanfoneiro e um poeta que falava
mais com o copo do que com as pessoas. Severino bebia saudade em silêncio. Eu
bebia uma cerveja morna.
Ele contou de um amor que teve por uma moça de
Olinda: - era invisível também mas
dançava frevo como ninguém. Tentei imaginar dois fantasmas se esbarrando no
Carnaval. Rimos, como quem sabe rir. É mais um jeito de lembrar do que esquecer.
Recife não
me explicou nada mas, também, não me cobrou respostas. É uma cidade que aceita
metáforas.
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