07 outubro 2010

DIEGO FUENZALIDA, Esquire


Diego Fuenzalida,  Esquire

Diego era argentino, radicado no Brasil há quatro anos. Radicado é um modo de dizer porque as raízes dele não passavam de uma nesga de musgo ao redor dos pés, o que não daria para sustentar nem um pé de salsinha. Mas ele vivia aqui e apesar desse tempo todo convivendo com os nativos, não conseguiu aprender uma só palavra de português, não se sabe se por incapacidade ou por indústria.

Diego tinha tanto medo de ser considerado descendente de italianos, como é a quarta parte da população argentina, que fez juntar ao seu nome o tratamento usado pela nobreza britânica: “Esquire”. Nobre ou não, soube-se, mais tarde que, em Buenos Aires, ele era chamado simplesmente de “El Pelotudo”.

Trabalhávamos na Fábrica Bangu, a velha e então famosa fábrica de tecidos que fazia desfiles de moda no Rio e em Paris, onde apresentava seus figurinos de puro algodão, desenhados pelos melhores estilistas , e seu organdi, único no mundo. Ser técnico da Bangu, naquela época, era quase como ser artista da Globo hoje. Era nesse ambiente refinado, cruzando com lindas modelos, que Diego desfilava seu charme, maculado, era inevitável, pelo seu afetado castelhano itálico. Por isso mesmo, e apesar do Esquire que lhe chegava em toda a correspondência, ele não escapou de ficar conhecido como “Diego Papas Fritas”.
Além dos famosos tecidos, a Bangu produzia também jogos de futebol. Tinha criado o seu próprio time, sempre na primeira divisão. Tinha, também, seu próprio estádio.

À exemplo das universidades americanas, onde seus ídolos esportivos não precisam estudar para serem promovidos de ano, a Bangu dispensava do trabalho os seus craques que, claro, constavam da folha de pagamento. E foi aí que Jorge deu sua primeira mancada ou, na sua própria língua, “metió la pata”.

Três horas depois de iniciado o turno da manhã, dois fiandeiros se apresentam com um bilhetinho na mão para que ele assinasse a permissão de saída.

-- Que? Estais borrachos, vos?
-- É que nós precisamos sair para treinar. Vai ter jogo no sábado.
-- Que? Para jugar a la pelota? Coños! Que se vuelvam a su trabajo y no me vengan mas con guevadas!”

E assim os dois foram despachados de volta ao trabalho, em nome da ordem, da disciplina, da dignidade, das boas práticas administrativas, tudo de acordo com o que o estudioso Diego havia aprendido na escola. Cinco minutos depois o telefone toca. Era o diretor.

--Escuta aqui, seu portenho maluco! Você quer acabar com a minha fábrica?

Em pleno campeonato? Solta logo esses dois e apresente-se na minha sala.

A habilidade do Diego para lidar com homens e máquinas nunca foi reconhecida na Bangu. Suas verdadeiras habilidades se revelariam pouco tempo depois; a verdadeira vocação de Diego Papas Fritas, Esquire era lidar com cifrões.

Quando resolveu visitar a família em Buenos Aires, Diego fez as contas. As passagens aéreas naquela época eram caras, se comparadas aos outros meios de transporte. Assim, descobriu que fazendo o trecho Rio – São Paulo de ônibus, ele economizaria bastante. Portanto comprou a passagem São Paulo-Buenos Aires, ida e volta. Faria o resto de ônibus, embora isto lhe custasse dois dias de tempo a mais na viagem.

A ida foi normal. Na volta, o aeroporto de São Paulo estava sem teto e o avião passou direto, aterrissando no Rio. Qualquer pessoa que estivesse no lugar do Diego teria ficado feliz; ganhara uma passagem São Paulo-Rio, além do tempo correspondente à viagem de ônibus. Mas não o Diego. Começou a esbravejar ainda dentro do avião. Quando desceu, a notícia da sua fúria já havia chegado aos comissários de terra.


-- Mijones de dólares me hacen perder estos cabrones. Yo tenía que estar em San Pablo, tengo contractos para firmar. Que voy a hacer, por Dios!

-- Senhor, por favor, acalme-se. Vamos acomodá-lo em um avião que sairá dentro de uma hora, o tempo já está melhorando.

Apanhado de surpresa, Jorge não se intimidou:

-- Como? En estas condiciones? Que chiflado, este! Estoy aturdido, completamente traumatizado, no puedo viajar en estas condiciones, ustedes no tienen alma, no, no. Me pongan en um hotel, ustedes tendran por aí un Hilton qualquiera . Que? Hotel Nuevo Mundo, no, no, estás loco, por favor, yo no soy ningun epiltrafa, y a lo demás... como? Copacabana Palace? Si, esse está bien.”

E o Diego comeu e bebeu, e deitou-se nos finos lençóis de linho do Copacabana Palace às custas da Panair do Brasil e engrossou, com suas mijadas, o fluxo da cloaca massima do Rio de janeiro.

Quando Diego me contou essa história eu imaginei que, nesse ponto, ele se considerasse realizado e feliz. Nem a mente mais engenhosa conseguiria encontrar uma forma de extrair mais leite daquela pedra. Eu ainda não o conhecia. Na manhã seguinte, Diego Papas Fritas, Esquire, apresenta-se no balcão da Panair. É recebido com uma lista de vôos para que programasse a sua volta a São Paulo.

-- Che, mirà, he resolvido mis problemas por cable, anoche. Perdi um montón de plata y ahora tengo que quedar-me acá . Ustedes me emiten un boleto Rio- San Pablo com fecha abierta y todo queda arreglado. Como? Hablar com el jefe? Si, como no! Si, si está bien, muchas gracias, saludos a todos.

E Diego saiu com um bilhete em aberto, acrescentando mais alguns trocados ao seu patrimônio, quando nem Belzebu imaginaria que isso fosse possível.

Eu sei que o que vou dizer agora não tem nada a ver com o meu amigo Diego, mas não quero perder a oportunidade: sempre achei que o Brasil deveria invadir a Argentina para seqüestrar o queijo parmesão deles. É muito melhor do que o nosso. E mais barato.


Luigi Spreafico

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