24 janeiro 2011

Segurança, Televisão e Ingenuidade

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A segurança pública é um assunto que me interessa na medida em que sou afetado tanto pela ação dos marginais como da polícia. De segurança pública nada entendo. Nem ao menos sei quando estou lidando com a polícia militar, com a polícia civil ou com a polícia municipal. Aliás, nunca entendi por que são necessárias três polícias para garantir a minha sobrevivência. No Chile, onde vivi por algum tempo, havia os “carabineiros” e eles eram suficientes. Nunca vi nenhum barrigudo entre eles, é bom registrar. Portanto não pretendo - nem poderia - falar sobre segurança pública. Mas quero contar o que eu senti quando os “poderes públicos” – acho que é a melhor forma de não excluir ninguém – resolveram desencadear uma guerra para acabar de vez com o tráfico. E, também, porque não quero passar por ingênuo.

Ao findar o ano de 2010 o governo do Estado do Rio de Janeiro reuniu as polícias militar e civil apoiadas pelo Exército e a Marinha com seus carros blindados, tanques de guerra e veículos de assalto, para um ataque decisivo ao crime. A Aeronáutica perscrutava os céus para fornecer informações sobre o inimigo. As forças oficiais ocupariam as favelas, expulsariam os traficantes e a partir daí o combate ao crime seria permanente.

É preciso enaltecer a bravura com que soldados e civis se conduziram no desempenho de sua missão. A televisão mostrou cenas convincentes da coragem e desprendimento com que cumpriam ordens. Mas o que não ficou claro foi o “conceito” da operação. Teria sido planejada com base numa política de segurança pública? O estado dispunha de uma política de segurança pública? Não parece. Do contrário o tráfico não teria alcançado o poder que tem hoje e as milícias não se teriam criado.

Sejamos francos. Essa operação não foi mais do que uma resposta ao gesto insensato dos traficantes que, num surto de burrice, resolveram sair pela cidade incendiando carros e ônibus. Apenas uma represália ao governo pela transferência de presídio de alguns chefes do tráfico. Uma demonstração de força que humilhou governantes e cidadãos. Ou não foi isso que aconteceu? Era preciso conter o vandalismo nas ruas e dar uma resposta à opinião pública. E sem a ajuda do Exército o Estado seria derrotado.

As televisões, ficaram 24 horas no ar, glorificando a ação, dando-nos a entender que o combate ao crime agora é pra valer. Balela. Em nenhum momento se questionou se aquilo levaria a algum lugar. Nenhuma palavra sobre as milícias, os acordos espúrios, os conflitos entre os diversos órgãos e seu espírito de corpo.

Escrevi tudo isto por dois motivos: primeiro, porque gostaria de me ver contestado; segundo, porque encontrei um bom motivo para divulgar o comentário escrito naquela ocasião por Luiz Eduardo Soares*. Este sim que deveria ser lido por todo o telespectador, isto é, todo o mundo.


O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de Novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro com a farsa.”
                                                                                               Luiz Eduardo Soares

*Luiz Eduardo Soares escreveu o livro “Meu Casaco de General”, que deveria ser leitura obrigatória para todos os eleitores deste país.

21 janeiro 2011

FRIBURGO DEVASTADA

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Não me atrevi a escrever sobre Nova Friburgo. Passados dez dias daquela manhã infausta em que acordei sem ao menos perceber que havia chovido, ainda perambulo pela cidade recusando-me a acreditar no que vejo. E, no entanto, a desgraça está ali e só a vejo aos pedaços à medida em que caminho, rua após rua, casa após casa, alma após alma. Eu nada sofri. Minha casa está inteira, minha família está inteira, a luz voltou, a água voltou e o jornal já esta sendo entregue. E quando vejo a destruição à minha volta eu me envergonho. O que foi que eu fiz para merecer tanta clemência?


QUATRO DIAS NA VIDA DE CARLOS HENRIQUE PASSOS MARTINS

Carlos Martins é um jovem de pouco mais de vinte anos, meu amigo aqui de Nova Friburgo. Ele escreveu o relato que segue, sobre a desgraça que assolou a cidade no dia 11 de Janeiro de 2011. Ele descreve uma pequena parte da tragédia, a parte que envolve a sua família, a sua casa e os seus vizinhos. A força da sua narração, com a dor que ela transmite, é suficiente para imaginar como está o resto da população. Carlos redigiu o seu texto no próprio celular, sob pressão dos acontecimentos, para enviá-lo ao Luciano Pires, do Café Brasil, pedindo-lhe que divulgasse um apelo de ajuda, no que foi logo atendido.


“Luciano, a correria aqui está sinistra. Vou escrever rapidamente aquilo que lembro, não vou me preocupar com o português e nem com nenhuma revisão para não tomar tempo... me desculpe pelo improviso fique a vontade para efetuar correções pertinentes... um abraço.”

Quarta – feira , 12 de janeiro de 2011.

Acordo assustado com um grande estrondo causado por um raio, vou até a janela do quarto e me deparo com um verdadeiro breu esporadicamente cortado pela claridade dos raios formados pela tempestade que caia. Do pouco que se enxergava dava para perceber que aquela chuva não era normal, volto então a dormir.

Às 6:00 da manhã minha esposa, grávida de 8 meses, levanta para ir ao banheiro e quando chega à janela me chama aos berros transtornada com aquilo que via. Logo depois, lembro-me bem do silêncio perturbador que era cortado por gritos de desesperos ouvidos aqui e acolá. A rua estava coberta por água.

Apesar de morarmos nas mediações do rio Bengalas, nunca as águas das enchentes haviam invadido a garagem do prédio, porém, desta vez, os carros ficaram inundados até a janela.

Ao olhar pela janela pude contar pelo menos 20 pontos de deslizamentos de terra, neste momento a maior preocupação era de se comunicar com familiares e conhecidos. Até às 7:30 da manhã ainda era possível usar o celular, todavia a única operadora que ainda funcionava só efetuava ligação para alguns telefones. Consegui contato com meu pai e com alguns clientes que relataram os problemas em seus bairros, a partir dai ficamos isolados sem energia elétrica, água e comunicação.

Depois que o volume da água do rio diminuiu foi possível andar pelas ruas tomadas pela lama. Peguei um par de botas “ 7 léguas” de um amigo vizinho e sai pelo bairro na tentativa de achar a família de minha esposa, que tem residência praticamente às margens do rio. Até chegar ao destino pude visualizar cenas de enorme destruição. A lojas à margem do rio foram devastadas, a locadora, padaria, posto de gasolina e concessionárias de veículos estavam completamente reviradas pelas águas e cobertas por lama. Ao chegar na rua onde mora a família de minha esposa me deparei um uma enorme árvore trazida pelas águas. É impossível descrever a cena. A árvore se encontrava sem a casca e seu tronco daria para construir o alicerce de uma ponte. Meus sogros estavam vivos, ainda desorientados só queriam saber como estava minha esposa, eles estavam imundos de lama e perderam tudo dentro de casa, quando digo tudo não é apenas uma maneira de dizer, a casa foi coberta pela água e nem as roupas do meu bebe que estavam lá escaparam.

Logo constatei que o bairro estava isolado e, como a maioria das lojas havia sido devastada, eu e meu vizinhos decidimos sair a procura de água e alimentos para fazer uma espécie de kit de sobrevivência. Juntamos o dinheiro em espécie que tínhamos, pegamos duas mochilas grandes de camping e saímos às compras. Nos únicos mercados que ainda estavam funcionando as filas eram enormes, velas e água eram artigos de luxo, compramos o possível e voltamos para casa.

O transito só foi liberado mais tarde e a partir daí sirenes e buzinas passaram a ser o som predominante durante muito tempo.

Angustiados com falta de comunicação arrumei uma maneira de ligar um radio em uma bateria de carro e foi nesse momento que conseguimos percebe o tamanho da gravidade que enfrentávamos.

Nesta noite com a sala iluminada por leds e velas recebemos um grupo de pessoas desabrigadas, eram umas vinte pessoas todas sem casa ou com lares interditados pela defesa civil. Na sala estava a irmã de minha amiga, que é minha vizinha, e seus amigos vizinhos. Improvisamos um jantar e fomos dormir.

Quinta feira dia 13

Ao amanhecer decidi ir a procura de minha mãe que mora em um bairro vizinho, no caminho para o seu bairro percebi que tudo o que tinha visto era ainda muito pequeno em relação a toda destruição da cidade. A parte baixa do bairro foi dizimada pela enxurrada, carros amontoados, casas completamente destruídas. Em uma dela 8 pessoas da mesma família perderam suas vidas. Minha mãe por morar em um condomínio um pouco mais alto deu sorte e com ela nada aconteceu. Quando a encontrei ele me contara chorando como havia sido terror a noite anterior. Disse-me o quanto é ruim ouvir pessoas pedindo ajuda e não poder fazer nada.

O clima de desespero esteve estampado em todas as faces durante todo o dia. Qualquer chuva um pouco mais forte era motivo de alarde. O cenário era de muita tristeza e incerteza. Ao voltar para casa encontrei um sujeito chorando que caminhava sem destino pelas ruas, fui ao seu encontro e ele me disse: - “Ela estava viva, eu tirei ela com vida, eu a beijei antes de morrer”. Ele se referia a sua mãe. Não tive palavras para aquele homem. Naquele momento apenas agradeci por ter encontrado a minha mãe com vida.

Sexta feira dia 14

Eu ainda não havia encontrado minha irmã que estava em um bairro mais afastado, consegui uma moto e fui ao encontro dela ainda sem saber se estava bem. A caminho de sua casa me deparei com o transito mais caótico que presenciei até hoje. Voluntários tentavam organizar a bagunça, que era generalizada. Havia uma trilha, entre o tumulto, reservada para as ambulâncias e carros de emergência. O restante era uma confusão só. No ar, a quantidade de helicópteros assustava.

A rua onde mora minha irmã estava interditada pela queda de uma barreira. Consegui passar com dificuldade ao chegar a sua casa chamei pelo seu nome e ninguém atendeu. Olhei pela garagem e visualizei seu carro completamente cheio de lama e ao lado sacolas plásticas com lixo das coisas inundadas pela enchente que invadiu a garagem. Fiquei aliviado pois com certeza ela não estava ali mas se teve como embalar o lixo é porque estava bem.

Fui ao centro da cidade procurá-la e fiquei boquiaberto com a destruição da cidade. Ali descobri que um amigo meu perdera a vida tentando ajudar outras pessoas.

Encontrei minha irmã que estava em segurança e voltei para casa.

Cansado, por volta de 15:00 horas decidi tirar um sono com minha esposa. O descanso não durou muito. Fomos acordados por minha amiga vizinha aos berros gritando, - vamos sair, vamos sair! Acordei assustado peguei a mochila coloquei o que deu dentro, e na escada em meio ao caos perguntei o que estava havendo. Disseram que uma barragem teria estourado e que iria inundar toda a parte baixa da cidade. Naquele momento na escada mesmo tentei tranquilizar minha esposa que quase entrou em trabalho de parto pelo susto. Eu sabia que não existia barragem nem represa na cidade capaz de causar esse estrago. Voltamos para o apartamento e ficamos vendo as pessoas na rua desesperadas ainda por algum tempo.

O povo estava assustado vários boatos corriam na cidade, tudo para deixar o clima ainda mais tenso.

A noite ainda sem luz e comunicação improvisamos um banho ao melhor estilo caneca e balde. Jantamos e dormimos.

Sábado 15 -01

A energia elétrica foi restabelecida e com ela comunicação e água começam a funcionar. A vida nem de longe volta ao normal. A única coisa que importa agora é ajudar a quem precisa e tentar reerguer a cidade.Os hospitais estão lotados, e para as pessoas desabrigadas falta de tudo.”


Carlos Henrique Passos Martins
Datatreya Tecnologia e Gestão Ltda
Nova Friburgo - RJ

20 janeiro 2011

Os Desaforismos do Severino

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Sou distímico. Acho isso muito engraçado.

 Já estou auferindo lucros com a minha escrita: estou me tornando um leitor melhor.

De tanto ouvir falar que meus textos são longos demais chego à conclusão de que o padrão de beleza na literatura contemporânea é o Tweet.

Da precariedade da existência: Não se esqueça: um espirro pode salvar sua vida. Um mosquito pode acabar com ela.

Com freqüência me perguntam por que escrevo. E eu respondo: escrevo porque não sei desenhar.

A leitura é aquela atividade através da qual você se renova: a cada hora, a cada dia; a cada página, a cada livro. Você não morre nunca. Até que, um dia, você deixará de ler.


• Você diz que escreve porque não sabe desenhar. Concordo. Mas quem lhe disse que você sabe escrever?


• Estranha é a engenharia rodoviária em nosso país. É o único lugar do mundo - e olhe que eu já virei a metade dele – onde uma rodovia, ao encontrar um pontilhão, em lugar de alargar-se, fica mais estreita. Como diria o pai do Severino: “É tudo engenheiro!”.

São Paulo não tem mais garoa. Estudo do Impe revelou que o clima de São Paulo mudou tanto que a cidade deixou definitivamente de ser a terra da garoa.” (notícia de O Globo de 8 de Dezembro de 2010). Quem não conheceu a garoa de São Paulo não sabe o que é nostalgia.

O número de acidentes na Ponte Rio-Niteroi está aumentando. A ponte foi projetada para 3 pistas e um acostamento com largura confortável e segura para a circulação dos veículos, o que incluía ônibus e caminhões. E assim operou por muitos anos. A atual Concessionária, com o beneplácito das autoridades, resolveu dividi-la em 4 pistas onde, obviamente, só cabiam 3, dando a entender que os engenheiros do projeto original eram uns idiotas. Com isso, ônibus e caminhões de bunda larga, que mal cabem dentro das faixas, obrigam os automóveis a se equilibrarem dentro do espaço que lhes sobra. O número de acidentes aumentou. Num cálculo simplório e enganador, os administradores alegam que, com a pista adicional, o fluxo aumentou em 18 por cento. Enganador, porque só beneficiou a Concessionária, com o aumento da arrecadação, e deixou o usuário com o aumento de acidentes e os congestionamentos antes e depois da ponte.

 Estamos em plena Copa do Mundo. Nunca entendi por que, na partida final, quando está em jogo não somente o prestigio de cada seleção mas também a honra da Pátria, havendo empate, vai-se para a prorrogação e, continuando o empate, a partida é decidida por pênaltis. Os jogadores, cansados à exaustão e emocionalmente desequilibrados, não reúnem mais o seu potencial de desempenho, incapazes que estão de exibir sua habilidade na prática do esporte. O mais sensato seria repetir o jogo em outra data. Sei que isso é impossível pois arruinaria as televisões, a imprensa escrita, os patrocinadores e os próprios espectadores, que teriam de arcar com mais gastos de hotel. Mas será justo colocar nos pés de um só jogador o troféu e a honra da Pátria? Execra-se o infeliz que errou o chute, glorifica-se o goleiro que, numa cagada, segurou a bola (porque sabe-se que é impossível defender um pênalti por habilidade. A distância e a velocidade da bola não o permitem. Sejamos sensatos. Para decidir uma partida nessas condições dando oportunidades iguais aos contendores e respeitar suas habilidades, bastaria abrir a barra do gol em, digamos, meio metro, e continuar o jogo. Se, após um certo tempo o empate continuar, abre-se o gol em mais meio metro. Em algum momento alguém marcaria o gol da vitória. Que seria conquistado em igualdade de condições de um jogo normal, com a capacidade de cada um. Vão me dizer que é muito difícil, tecnicamente, abrir a barra do gol. Bobagem. Qualquer serralheiro de subúrbio é capaz de criar uma engenhoca para abrir as traves de um campo de futebol

 Se você vai sair para matar o tempo, ande depressa. Senão você não vai ter tempo para matar.
 
Ser pontual não é chegar na hora. Ser pontual é chegar cinco minutos antes da hora.

Meu caminho é iluminado. O problema é quando acaba a bateria.

Pernas, para que vos quero? Para caminhar.

Não estou nem aí ! Não faz mal, eu te espero.

As mulheres dizem: todos os homens são iguais. Eu sou homem. Eu sou igual.

Os homens dizem: todas as mulheres são iguais. Não. Você é diferente.

Absit Injuria Verbis”,  “Que não haja ofensa em minhas palavras”, diziam os romanos. È o que eu digo, sempre que falo besteiras.

Não pense que você me engana. Eu estou desenganado.

Quero ser feliz. Mesmo que isso me custe a felicidade. (será que já ouvi isso em algum lugar?)

Sou presunçoso, mas ninguém me acredita.

A gente só faz as coisas quando não tem tempo.

O metrô inventou os bancos xifópagos. São azuis. Estão no Largo do Machado.

O pior cego é aquele que não quer ouvir. Além de cego é surdo.

Grite um impropério. Você ouvirá o eco.

Quando não souber o que dizer, não diga nada.

Quero morrer enquanto estou vivo.

“Morreu porque amava” , leio num epitáfio. Ora, se o amor o levou à morte, pra que serviu?

“Morreu de amor” diz o poeta. É melhor do que morrer atropelado, digo eu.




                                                                                                             Severino Mandacaru