19 junho 2017

O Presidente Eventual



Sou totalmente ignorante em matéria de política. Bem que tentei, no meu tempo de estudante, meter-me nas discussões, participar de comícios, opinar sobre isto e aquilo. Cheguei a ler Marx e Engels. Nada dava certo. Não demorei a entender que, com a cara e o nome que eu carregava, ninguém me levava a sério. Então, limitei-me a cuidar das minhas tapiocas.
No entanto, isso não quer dizer que não me interessasse pelos destinos do meu país e do seu comandante maior: o Presidente. Houve uma época em que eu lia três jornais todos os dias.: O “Correio da Manhã , “O Jornal” e o “Jornal do Brasil”.

Ora, se deu que, em 1954, o Presidente se suicidou. Comoção geral. O povo foi às ruas, não para quebrar coisas mas para prantear o seu Presidente. O lugar foi ocupado pelo seu herdeiro natural mas depois, seguiu-se uma longa discussão sobre se isso era legítimo ou não. Discussão da qual eu nada entendi. Sucederam-se vários presidentes, sempre com muita discussão e muita briga. Entre os últimos, creio que ainda estávamos no século passado, teve um que se mandou sem dizer água vai. Alegou que havia forças ocultas que não o deixavam trabalhar. No lugar dele entrou seu herdeiro, que deu muito trabalho porque muita gente não gostava dele. Até houve um plebiscito para saber se o povo gostaria que ele ficasse como pau mandado, mas o povo disse que não. Ele era muito querido pela população e fez um comício que ficou na História, o famoso comício da Central. Eu assisti a esse comício, não porque me interessasse por política, obviamente, mas porque eu desembarcara no aeroporto do Galeão, vindo de Montes Claros, e o motorista do taxi me comunicou que o trânsito estava bloqueado perto da Central do Brasil, por causa do comício. Já que eu não podia chegar ao hotel, pedi ao motorista que me deixasse perto do comício. E lá fiquei eu, em pé, bem próximo ao palanque, ouvindo os discursos. Foram muitos discursos. Quando tudo acabou eu, leigo que sou, disse pra mim mesmo: “Isso vai dar merda”.

 Porque de repente chegou um pessoal saído dos quarteis, metralhadora na mão, dizendo : “agora quem escolhe presidente é a gente”. E assim foi por muitos anos. Quando eles se cansaram de escolher presidentes, entregaram o trono a um civil dizendo:  “daqui pra frente é com vocês”.
Aí, não sei bem como, foi escolhido um novo presidente. E aí aconteceu um novo infortúnio:  Antes mesmo de tomar posse este presidente adoeceu e foi levado para um hospital. Foi empossado lá mesmo e, no dia seguinte, veio a falecer.
Foi substituído pelo seu eventual, um nordestino tranquilo, de bigode imponente, o qual, findo o mandato, passou o cargo para outro nordestino, eleito pelo povo. Este não era nada tranquilo, ao contrário, era brabo e saiu brigando com todo o mundo. Além de brabo, era meio tan-tan  pois saiu catando o dinheiro de todo o mundo com a promessa de que iria devolver tudo depois, e com lucro. Não sei se ele devolveu porque, no banco, eu só tinha mesmo os boletos das contas,  que eram pagas com a mesada que recebo da aposentadoria. Diziam, também, que entre as patifarias ele praticava, havia recebido um presente considerado muito suspeito: Uma Fiat Elba. Um vexame!
Então resolveram tirá-lo, e eu não sei bem como isso foi feito, porque, nessa altura, eu já andava tão cansado que parei de ler jornais e fui cuidar do meu reumatismo.

E aí veio um período tranquilo em que os presidentes, todos eleitos pelo povo, passaram a trabalhar com grande empenho, embora  nem todos concordassem com eles, fosse quem fosse o presidente. Normal, porque isso é próprio do sistema democrático. Pelo menos foi isso que pensei porque eu, leigo total em política, andava cuidando apenas do meu laburo e do meu reumatismo. Pois não é que, de novo, resolveram tirar o Presidente da vez? Acharam que este Presidente, mais exatamente, uma Presidenta, estava trabalhando mal e resolveram mandá-la embora. Isto, para muitos, foi considerado um golpe. O fato é que no seu lugar entrou o seu substituto eventual, tudo dentro da lei, segundo diziam os jornais, o que, obviamente, não correspondeu à opinião daqueles que o consideraram   golpista.  Pois agora, golpista ou não, estão dizendo que este é igualzinho ou pior do que  anterior e, por isto, vão mandá-lo embora também. Nada mais justo, até aí eu entendo.

 Já expliquei que, em matéria de política, sou completamente leigo mas, que diabos, leigo também tem alma! Pois agora vou dar minha opinião de leigo e pouco me importa o que vão fazer com ela. Porque achei curiosa a maneira com isto está sendo feito.
Acontece que, fosse lá por que motivo fosse, atribuíram, esta tarefa a um dos Poderes da República: o Poder Judiciário. O Judiciário é formado por vários Tribunais, cada um identificado com uma sigla própria. Não sei se existe diferença hierárquica entre eles, tipo, um pai e muitos filhos, sendo o Tribunal filho um complemento do Tribunal pai, ao qual deve dar satisfação das estrepolias  que pratica, o que faria deste o Judiciário de verdade, a menos que o filho, quando menor, tenha sido emancipado pelo pai, não precisando, assim,  dar satisfações ao pai. Não importa, até aqui tudo bem, sabendo que o Tribunal filho que está no jogo é aquele que cuida das eleições.  

Tudo bem, mas nem tanto. Porque agora, acabo de descobrir que os Juízes dos Tribunais, tanto o pai como o filho - ou qualquer que seja o seu parentesco - são nomeados pelo Presidente da República, e a ele, é de se esperar, devem fidelidade. Vão dizer que um juiz é um Juiz e que ele está acima dos interesses terrenos, portanto é imparcial. Ótimo, foi para isso que ele estudou tanto e até fala latim.  Absit injuria verbis.
E aqui entra uma grande confusão. Alguns juízes pertencem simultaneamente a um tribunal filho e ao tribunal pai. Outros só ao pai. Tem mais, alguns juízes foram nomeados pelo presidente escorraçado, outros pelo presidente que chegou ao cargo por herança. Será difícil conseguir coerência nesse caleidoscópio de interesses. Prova disso são as suas reuniões, longas e patéticas, enfadonhas, enfeitadas pelo tratamento de Vossa Excelência e enriquecidas por elogios recíprocos, datas vênias, ad perpetuam rei memoriam, ipsis verbis, causa finita, isto para não mencionar os floreios de linguagem jurídica, repetidos à exaustão para que se tornem válidos, nem os arroubos de histeria dignos de uma prima donna contrariada, para dominar o palco e comover os colegas e o público. Afinal, os Juízes, ainda que cobertos pelo manto negro da toga, são seres humanos.

 Alguma coisa está errada. No centro dessa discussão está a definição de quem é o autêntico presidente: se aquele que foi eleito pelo povo ou aquele que ocupa o posto por herança. E quem vai resolver isso são os Juízes indicados pelos presidentes envolvidos. Portanto, esses juízes não foram escolhidos pelo povo, como acontece com os presidentes. Decididamente, alguma coisa está errada. É preciso inverter a coisa. O povo é que deve escolher os juízes. E os juízes indicarão o presidente. Com uma condição: os Juízes removeriam aquele medonho manto fúnebre e seriam reincorporados à espécie humana.

-- E então?
-- Que então?
-- Então!
-- Então? ...  então ...  vamos todos para a praia!

FINIS

n.b.  ( nota bene )
Transcrevo o parágrafo introdutório do artigo publicado pelo mestre Nelson Mota no “O Globo”  de 16 de Junho de 2017 , na  página dos editoriais:

Há juízes bons e maus, preparados e incompetentes, burros e inteligentes, honestos e desonestos, embora todos, ou quase, se considerem num patamar acima do cidadão comum, pelo poder de decidir a vida e a morte de quem transgride  a lei.” 

25 maio 2017

O SENSO DO DEVER



Uma história da vida real

Rio Branco Fabril S.A. é uma empresa têxtil de médio porte. Como a maior parte das empresas do ramo têxtil no Brasil, é uma empresa de estrutura familiar. É dirigida por um Conselho Administrativo formado por três irmãos, um dos quais, na realidade, é uma irmã:  Mafalda. Ela é Presidente do Conselho. Enérgica, autoritária e de poucas palavras, ela é responsável pela área técnica e dirige o seu setor com mão- de- ferro.  Sob seu comando direto está o Roberto que exerce o cargo de Diretor Técnico. É ele quem organiza a estrutura das gerências em que se divide a fábrica: Produção, Vendas, Compras, Pessoal, Fiação, Tecelagem, Acabamento, Expedição e muitos etcetras.  Por fim,  temos o Arthur, que comanda uma dessas Gerências. Sem grandes brilhos, é um funcionário dedicado, pontual e muito apreciado por seus colegas.
Como qualquer empresa do ramo, das chamadas  “ mão-de-obra intensiva”, a Rio Branco trava uma batalha diária na luta pela competitividade: reduzir custos. É deles que depende a sobrevivência da empresa. E essa é a principal responsabilidade do diretor técnico: o nosso Roberto.
Roberto é um executivo exemplar. Ele sabe que precisa de pulso firme se quiser obter resultados. Do faxineiro ao gerente, todos os dependentes devem ser treinados, orientados, motivados e ...  fiscalizados.  Para deixar claro o seu papel, Roberto criou um mote, que alardeia por entre as máquinas, a título de advertência: “Empresa não tem alma”.  Quando reunia seus  gerentes, ele começava:

 Roberto –“ Não se iludam, companheiros, empresa não tem alma. Prestem atenção ao serviço! Tem que trabalhar direito! Empresa não tem coração, empresa só tem cérebro.”

Pois um dia, o dia chegou. A fábrica perdia competitividade. As vendas caiam. Os concorrentes começavam a incomodar. Era preciso fazer uma reestruturação. Roberto reformulou produtos, simplificou operações, remanejou funções. Resultado: sobraram gerências. O que significava extingui-las. Demitir gerentes. É assim mesmo.  “Empresa não tem alma”.
Entre elas está a gerência do Arthur. Roberto o conhece bem. Funcionário  exemplar,  competente,  afável  no trato com os companheiros, não havia nada que pudesse justificar sua demissão.  Mas a gerência dele não existe mais.  Ele está sobrando, ponto final. Tem que ser demitido. Arthur chegou aos 48 anos, idade na qual, segundo a tradição administrativa que herdamos dos norte-americanos, o executivo deve ser defenestrado. ( ao contrário do Japão onde, nas empresas, “ninguém é nada antes dos sessenta anos” ). O executivo que perder o emprego perto dos cinquenta anos de idade terá que sair à cata de outro com o cuidado de não dizer “estou   desempregado”. Ele terá que dizer:  “estou no mercado”. 
Arthur se notabilizara não só pela sua competência  técnica mas também pela fertilidade de sua esposa  que correspondera à pujança do marido contemplando-o com oito filhos. Oito! Uma escadinha etária cujo primeiro degrau beira os seis anos e o último alcança os umbrais da universidade.

Um sentimento de piedade começa a abalar o nosso valente Roberto. Aquelas oito almas não lhe saem da cabeça. O que seria daquela família com o pai desempregado? Ainda mais um técnico que só sabe fazer pano?  Roberto começa a fraquejar. Seu conflito aumenta.  Se não demitisse o gerente esvaziado estaria traindo a empresa a que serve e isto o deixaria desonrado profissionalmente. Sentia-se mal até porque o posto que ocupava era um posto de confiança. Roberto brigava com a razão. Mas o coração prevaleceu. Não iria deixar oito almas desamparadas. E resolveu o problema de forma que lhe pareceu racional: criou um apêndice junto à gerência de controle de qualidade, mantendo, portanto o seu status, com o título de “Setor de Acompanhamento de Atividades E1speciais”, reportando-se diretamente ao Diretor Técnico.

Em paz com a sua consciência, nessa noite, Roberto dormiu o sono dos justos.  No dia seguinte chamou o Arthur e,  para não lhe criar criar um constrangimento, não falou em demissão mas apenas em  “ remanejamento “.
Roberto – “Arthur, com a reorganização da fábrica a tua gerência foi extinta. Você passa para um setor especial com todos os teus direitos garantidos, inclusive teu status hierárquico”. 
Arthur – “ Ainda bem, né, chefe. Não se fala de outra coisa a não ser das demissões”.
Roberto --  “Aqui está o teu novo “job  description” . Se tiver alguma dúvida me procure. Ah, mais uma coisa, você continua na mesma sala, viu? Isso vai evitar fofocas.”
Missão cumprida e bem executada. A paz invade o coração de Roberto, orgulhoso de sua boa ação embora tendo cometido um pequeno arranhão na fidelidade que deve à sua empresa.
Passaram-se os tempos, mas não muitos. O trabalho seguia, em plena harmonia, perseguindo seu objetivo primordial: cortar custos. Um dia nosso generoso Diretor Técnico é chamado ao gabinete do Conselho Administrativo. É recebido por Mafalda, Presidente.  Curto e grosso:
Mafalda – “Senhor Roberto! Fique sabendo que a minha empresa não está aqui para sustentar vadios. O Arthur veio aqui me dizer que está se sentindo ocioso no lugar que ocupa. Que diabo você andou fazendo?
Perplexo, Roberto começa a gaguejar:
Roberto – “Mas, como? ... O Arthur?...  O que acc...acccc...aconteceu?  O Arthur...  a  reestrut.... eu fiz uma reorg ... Ele disse isso?”
Mafalda – “Eu não quero explicações. Eu quero soluções! E rápido. Pode sair”.
 Roberto saiu cabisbaixo, trêmulo, tropeçando nos próprios sapatos. Não podia acreditar. O Arthur! Oito filhos. Chegando aos cinquenta anos.  Fazendo pano. Aquela anta! Roberto chegou na sua sala e desabou na cadeira. Estava lívido, de uma lividez transparente pela qual se podia ver a sua alma sofredora. Mandou chamar o Arthur.
Roberto --  “Arthur... Arthur... como é possível ... você Arthur... você ocioso... Foi dizer isso para minha chefe, Arthur?  Que está ocioso, Arthur? Foi dizer isso pro patrão, Arthur?.  Ficou maluco?  Com cinquenta anos? Com oito filhos,... onde você está com a cabeça, Arthur,... fazer  uma besteira dessas  Arthur, o errado aqui sou eu, você não tinha nada a ver, .... nem a hierarquia você respeitou....  Arthur, que diabo você fez, Arthur ......  Onde já se viu ?!!!  Oito filhos!!!!  Fala, Arthur! ...  Fala, ... fala... fala, ... abre a  boca,  infeliz! ...  ... ...
  Arthur? ... Arthur?.....  Você está demitido ... Arthuuuuur.”


07 agosto 2016

Harmonia no Vale, Harmonia nas Almas



Desde o início o grupo se mostrou coeso e harmônico. Bem acomodados  na compacta aeronave especialmente projetada para  manter o calor humano -  aquecei-vos uns aos outros - , despegamos do chão sob o manto da “FLAJUR – Turismo de Aventura : Aprendendo com o cliente”. A missão era perscrutar a bem sedimentada produção de vinhos na Serra Gaucha aprendendo como associar o vinho à culinária. Para alegria dos principiantes, o grupo incluía também  quatro experientes chefes, oriundos de outra Serra, a  Serra do Mar, no Estado do Rio, que contribuiriam para enriquecer o nosso aprendizado.
Porto Alegre nos recebeu com sua clássica temperatura de inverno, um friozinho sem exageros. Embarcados na Nave Mãe, que nos aguardava no aeroporto, partimos para Caxias do Sul ponto inicial das nossas visitas.
Depois de perambular através de ruas e ruelas dobrando esquinas sem cessar, ora à esquerda, ora à direita, para melhor aproveitar o silêncio da noite invernal que chegava, fizemos uma parada técnica num hotel tipo  “entre-cidades”  para tomar uns tragos.  Era um bar luxuoso, muito bem provido, e aí pudemos recarregar nossas baterias. Os que não bebiam puderam desfrutar do conforto das poltronas no amplo lobby, bem junto ao bar. Tão logo chegou a informação de “operação realizada com sucesso” iniciamos a retirada em marcha atlética, para gáudio da administração do hotel.
De volta à Nave Mãe ocupamos  nossos confortáveis assentos, guardando um respeitoso silêncio.
A noite prosseguiu com um “city by night” pela ruas e atalhos ondulantes de Caxias, iluminados por uma fulgurante lua cheia e, por fim, chegamos ao nosso destino: The Personal Royal Hotel.
Amplo, moderno e confortável. Atendentes solícitos e simpáticos, tudo muito acolhedor. Passamos no bar para dar início aos trabalhos com uma grappa  da Valduga. Nossos chefes e outros interessados em gastronomia saíram para conhecer restaurantes locais. Eu e minha mulher que sempre me acompanha nas horas difíceis, preferimos jantar no próprio hotel. Para encorajar  os petiscos  servidos  abrimos um alentado Extra Brut da Cave Geisse. Terminamos com um excelente  Villa Lobos da Valduga.

Manhã de esplendor  sob os céus de Bento Gonçalves. O sol explode no firmamento e espalha tintas como um pintor desastrado. O frio chega na medida certa. Nosso alvo?  Casa Valduga, no Vale dos Vinhedos, onde nos espera um mundo de conhecimentos e prazeres. Guiados pelo mago Tasso, enólogo da Casa e provável reencarnação de Torquato, o poeta latino, percorremos todo o processo de produção, descrito com grande competência e salpicos de poesia. Depois de uma longa degustação, onde desfilaram os melhores vinhos da Casa, foi exibido um filme que mostra a historia da família Valduga, chegada ao Rio Grande do Sul com os primeiros imigrantes Vênetos. No almoço somos brindados com a companhia de Juarez Valduga, um dos três irmãos que comandam a Vinícola. De uma simplicidade exemplar, o grande empresário nos explica porque e como expandiu suas instalações e ampliou sua produção sem perder as características e a qualidade típica dos vinhos de produção limitada. Com emoção, explicou as dificuldades que teve de encarar na tomada de decisão em cada etapa do projeto, especialmente na diversificação dos produtos. Depois de brandy, grappa sucos e geleias, Valduga  agora  se prepara para lançar uma linha de chás. Sem dúvida um belo exemplo de um grande empresário.

À tarde, corrida  para a Vinícola Dal Pizzol, um simpático ambiente que reúne história e pesquisa. Em meio a um museu de antigos apetrechos usados pelos primeiros colonos Vênetos na fabricação do vinho encontra-se uma cantina, embutida em um velho forno de cerâmica. Nela encontram-se os vinhos, alguns velhíssimos, com os quais o Sr. Antônio Dal Pizzol estuda o processo de amadurecimento. Ao lado começa um extenso vinhedo onde estão  plantadas, pelo menos um exemplar,  quase todas as castas do mundo.
 Fomos recebidos pelo Sr. Antonio com a simplicidade e cortesia típicas dos velhos vinhateiros da Serra Gaucha. No jantar que nos ofereceu, com pratos da típica cozinha Vêneta, proporcionou-nos um exercício interessante:
Primeiro provamos um vinho raro da sua coleção, um Cabernet  Sauvignon, safra 1995. Em seguida cinco Tannat: safras 2004-05-09-10-12. Cada participante atribuiu uma nota aos vinhos. Tirou-se a média das notas dos participantes, a qual foi comparada com a nota atribuída pelo Sr. Antonio, sommelier da Vinícola. Ao cabo de cada degustação ele tecia comentários específicos sobre cada safra. Fiquei orgulhoso pelo nosso grupo pois as médias encontradas ficaram muito próximas das notas do nosso grande mestre, Antonio Dal Pizzol.

Segunda feira tenebrosa na Serra Gaúcha. Ao acordar, relâmpagos, trovões e chuva em catadupa. O dia nem parecia ter chegado, tal era a escuridão nos céus. Precisávamos ir a Pinto Bandeira, no topo da montanha, por uma estrada pouco gentil. Mas a habilidade até então ignorada do nosso cinesíforo, estimulada pela veia irônica dos passageiros, levou-nos a bom termo.
Lá no fundo da Nave alguns gritavam: “Abre ozarrrrrrr!”.......”Abre  oz arrrrrr!”...... Outro profetizava: Hoje é sábado!....  Hoje é sábado! E o sábado feliz perpetuou-se até o fim da viagem.
Em resposta, nosso condutor fazia gestos com a mão e acenos com a cabeça mas nunca descobri se por consentimento ou desolação.
Não levou muito e chegamos ao topo da colina.

 Visita ao Santuário dos espumantes: a Cave Geisse, criação do enólogo Mario Geisse que veio do Chile para implementar a Casa Chandon e acabou  descobrindo  o terroir  onde criaria seus espumantes hoje premiados em vários países do mundo, inclusive na França. Voltou para o Chile como enólogo da Casa Silva deixando seus filhos na administração da Cave Geisse, na Serra Gaucha. Entre eles está o Daniel, que nos recebeu. Velho amigo da FLAJUR, Daniel esmerou-se no atendimento, colocando sua cozinha à disposição dos nossos chefes. Depois de um longo percurso entre tonéis e garrafas para aprender como é feito o espumante, passamos a uma detalhada degustação e, em sequência, ao almoço e... surpresa! Um cozido à moda da Serra tendo como epicentro os defumados produzidos  por Jurandyr, o Mago,  no seu mosteiro de Nova Friburgo.
Acompanha o cozido um psicodélico pirão que foi disputado a facadas....
......epa! eu quis dizer.... a colheradas, pela turma que, em bloco, o circundava. Nesse momento, não pude deixar de lembrar-me do meu amigo Severino Mandacaru, meu companheiro na roça de macaxeira em Cabaceiras, na Paraíba,  que dizia: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

O momento que se seguiu foi sublime. Jurandyr, o Bom dirigiu-se ao Daniel para felicitá-lo pelo eficiente trabalho desenvolvido à frente da Cave Geisse e agradecer-lhe a  calorosa acolhida que nos proporcionara. Então, estalando os dedos, materializou uma bicicleta de bambu informando que era um presente do grupo para o nosso querido anfitrião. Para quem não sabe, Jurandyr, entre uma fumaça e outra, produz bicicletas cujos quadros são feitos de bambu no lugar dos convencionais canos metálicos. Uma preciosa contribuição para tornar este mundo em decomposição um pouco mais saudável. Daniel, incrédulo e contente, a acariciava, narrando os passeios que costumava fazer em bicicleta percorrendo seus vinhedos.
Terça feira e o sol volta a brilhar. Visita a Lidio Carraro em Bento Gonçalves. Uma detalhada explicação sobre o conceito da vinícola: produzir vinhos amadurecidos em garrafas, sem uso de madeira. Degustação completa e farta, como sempre. Almoço na estrada, com cappelletti in brodo, polenta, radicchio, galeto e... sagu ao vinho. Ah! Esses venezianos... ainda bem que a sobremesa é à base de macaxeira. Findo o almoço, direto para a hospedaria.
A feliz combinação de montanha, sol de inverno, as plantações em curvas de nível, o estilo rústico dos chalés construídos em rocha de basalto, criou uma atmosfera de conto de fadas. O Borghetto Sant’Anna, no Vale dos Vinhedos, é mais do que uma simples pousada. É um Templo. É um centro para introspecção. Para repouso e meditação. Para intercâmbio de amor e sentimentos. Para distribuir sorrisos, doar gargalhadas, chorar de alegria.
Os chalés construídos em pedra bruta, com seus quartos que invadem a rocha ou a rocha que invade a sala, reportam-nos às cavernas dos trogloditas provocando instintos primitivos.  O despertar, nesse ambiente, é uma ressurreição. E, aí, lembramo-nos o que havia acontecido na vida anterior: havíamos sido surpreendidos com um jantar preparado pela imprevisível FLAJUR que, mais uma vez, tirava da cartola  ingredientes trazidos de outras Serras. Queijo de Nova Friburgo que se transformaria num delicioso fondue, complementado com um fondue de carne, mas não o gorduroso burghignonne e sim o chabu chabu da cozinha oriental. Ambos fartamente irrigados com brancos e tintos.
Fim da aventura. Dia seguinte, retorno aos pagos. Curtir as lembranças, a saudade, alimentar as novas amizades. Por isso conclamo a todos para que nos encontremos em uma taverna, não uma taverna qualquer, mas a taverna dos nossos corações. E faremos isso ao som de “In taberna quando sumus”, trecho da cantata “Carmina Burana”  de Carl Olff.  Um brinde a todos!


10 fevereiro 2016

Quando eu ficar bem velhinho


Roubei do brilhante sociólogo  ROBERTO  DAMATTA  o título “Quando eu for bem velhinho”, de sua crônica publicada  no jornal de hoje. Porque acabo de sair de uma experiência  que , por pouco,  não me tira a oportunidade de vir a ficar  “bem velhinho”.  Vi a morte de frente.
Dentro de um ônibus de turismo, no meio da madrugada, eu me encontrei  mergulhando num precipício esperando apenas achatar-me lá no fundo.
Depois de uma freada violenta, o ônibus começou a derrapar de um lado para o outro da estrada e, entrando numa curva, levantou as rodas do lado esquerdo e, aí, percebi que ia capotar. O resto eu já podia imaginar. Lembro-me, com horror, dos gritos desesperados dentro do veículo. Alguns passageiros, que não haviam colocado o cinto de segurança, foram jogados para fora de suas poltronas. A poucos graus do ângulo fatal o ônibus recuperou o seu equilíbrio. Descobrir a causa do acidente foi fácil. Fiz as contas: o motorista estava dirigindo há, exatamente, 15 horas contínuas.

Assim que clareou o dia,  comecei a providenciar o nosso retorno por avião. Eu estava com minha filha e duas netas. Continuar naquele ônibus seria um suicídio e um assassinato.
Não vou mencionar o nome da empresa criminosa. Não quero que se pense que pretendo tirar proveito da mesma, até porque nenhuma compensação pecuniária poderá apagar a sensação de estar diante da morte.

Por outro lado, esta experiência  levou-me a refletir sobre como eu gostaria de ser quando ficar “bem velhinho”.
 Primeiro quero ampliar meu círculo de amigos. São eles que nos mantêm jovens. Claro que, para isso, é preciso encontrar pessoas, velhas ou jovens, que tenham paciência com velhos, principalmente quando desatam a contar suas experiências  passadas, como eu estou fazendo agora. Sabem o que dizia Gabriel Garcia Marques? Ele escreveu: “Sabemos que estamos ficando velhos quando, em uma roda de bate-papo, para cada assunto tratado, nós temos um exemplo para servir de ilustração”.

Não quero usar bengala  e sair espantando mosquitos à minha frente. Se não puder usar as minhas próprias pernas para caminhar, ainda que tropegamente, ficarei em casa.  Nela  usarei um pedaço de bambu que cortei do meu bambuzal em  Friburgo e nele me apoiarei curtindo as gratas recordações que me trará.

Não quero usar cadeira de rodas para ir às ruas. Nunca vi nada mais triste do que um velhinho desfilando numa calçada numa cadeira empurrada por uma criatura que antigamente se chamava mucama, a face estática descolorida pelo tempo, o olhar fixo, vítreo, fitando o infinito, como uma imagem congelada na tela de uma televisão enguiçada. E a pobre mucama, de cara sofrida, cabeça inclinada para  a frente, medindo os passos para não sacudir o seu conduzido,  mais parece estar cumprindo uma pena imposta pela Santa Inquisição.

Não quero ser mantido vivo com a ajuda de aparelhos.  Não quero estar em uma UTI, o que quer que essas letras signifiquem, ligado  a uma bomba que insufla ar sintético nos meus pulmões. Não quero estar plugado a uma mangueira espetada no rabo ou onde quer que seja, uma cloaca que deveria envergonhar a ciência médica. Não quero que me deem comida através de sondas. Como vou poder sentir o sabor do vinho que me chega ao estômago através de vias clandestinas?  Vá lá que eu seja obrigado a comer papinhas e banana amassada desde que seja com minha própria boca.
Se eu não puder me alimentar com os meios que Deus me deu, deixai-me quieto. E eu me deixarei esvair como se esvai a espuma que coroa  as ondas na praia.

E quando tudo estiver terminado, quando não houver mais eu, coloquem esta minha roupagem sobre as chamas para que o fogo renovador me conduza ao espaço sideral onde possa iniciar vida nova e retribuir tudo o que fizeram por mim, dar-lhes tudo o que lhes neguei nesta vida por ignorância, preguiça, incapacidade ou simples avareza.

N.B. Se quiser rir um pouco leia “A Pena da Morte”. Clique no nº 52 da lista aqui ao lado.


Quero pedir desculpas aos meus parcos leitores. Terminei a crônica sugerindo que lessem o poeminha "A Pena da Morte" para rir um pouco. Mas esqueci que eu havia mudado a última estrofe. Vou reproduzir a versão original e, com ela, espero que riais. Se não rirdes, avisai-me, pois quem vai rir sou eu. Nem que seja da conjugação do verbo.


Aqui jaz o bobão que achava
Que em sonho morreria
E bobão ele era
Porque morto já estava e não sabia

21 dezembro 2015

Natal Tropical


O Natal chegou. É preciso comemorar. O trânsito já está confuso. Gente apressada correndo de um lado para outro. Comprar presentes, visitar amigos e parentes que ficaram esquecidos o ano inteiro, reservar ceias em restaurantes lotados, levar as crianças ao shopping para tirar fotos no colo do Papai Noel, “aquele barbudo embalsamado dentro de um macacão  vermelho”, como diria o Severino Mandacaru.   E isto a quarenta graus celsius. Credus!  A televisão nos incita e nos deixa com sentimento de culpa. Como, ... você não vai festejar?

Vou festejar sim, e quero ter minha família e meus amigos comigo. Mas, este ano, quero uma festa diferente. Quando, ao descer a serra, vejo aquela neve de algodão flutuando sobre galhos de pinheiro que nunca vi, ao sol de quarenta graus, aquele gorducho com olhar desapontado   porque não encontra em mim o deslumbramento consumista que faria a alegria do seu patrocinador, sinto-me encurralado. Nada tenho contra os festejos do Natal tradicional, enlatado, com seus panettones, seus vinhos espumantes e seus perus recheados. Mas este Natal quero que seja diferente: quero festeja-lo com um bolo tropical que adaptarei  de um doce muito conhecido no Nordeste, feito de massa puba.

 E darei ao meu Natal a cor verde do mar do Cabo de Santo Agostinho, o vermelho do pôr de sol no Rio São Francisco e o prateado da lua refletida no Cais do Apolo. E quero compartilhar com meus amigos e meus incautos leitores o conceito de Natal proposto pelo meu amigo poeta Wanderlino Teixeira Netto:



“NOEL TROPICAL”
                                                     Wanderlino Teixeira Netto


“Enfeitarei com bolas de bexiga meu pé de angico
plantado lá no fundo do quintal.
Não virá, neste Natal, Noel, aquele tal:
gordo, patusco, bem nutrido .

O que há de vir é nanico, endividado, sofrido,
sem gorro na cabeça chata,
de bermuda, camiseta e alpercata.
Em vez da alva barba, a boca em caco
e um balaio, não o saco.

Haverá Sol em lugar da neve de algodão
e os sinos não badalarão neste Natal:
os sons serão de berimbau!

Nada de castanhas, nozes, avelãs e vinhos de outros cais,
apenas aguardente e frutos tropicais!”
Vejam só: Noel virá de jegue, não de trenó!

Até nem será Noel quem virá neste Natal,
mas Severino e Ribamar, e Juvenal e Zé...
que hão de dispensar a sorrateira chaminé!”




19 julho 2015

Reformas e Crises



Reformas e Crises

                                                                                     Gastão, rei dos vagabundos
                                                                                     Não teme crise ou desgraça
                                                                                     Pois só deposita seus fundos
                                                                                     No melhor banco da praça

                                                                                                                  Orlando Brito                                                                                                                                                                                                                      
                                                                            
Gastamos rios de tinta e toneladas de papel – para não falar dos milhões de bites e baites que são evaporados nas telas dos computadores – para discutir a reforma política no País.  A reforma política não vai mudar nada. Nas condições em que estamos, o Brasil precisa de uma reforma administrativa. O que vemos hoje é uma degradação contínua nos serviços da administração pública e uma deterioração crescente na produtividade da empresa privada.
A complexidade da legislação tributária, das normas ambientais, das normas para o comércio exterior, das regras de postura, da legislação trabalhista e da necessária, porém precipitada “inclusão digital”, afetam seriamente a produtividade da economia como um todo. Um emaranhado de leis herméticas que mudam a toda hora, afeta seriamente a gestão no setor privado, sobretudo na pequena empresa. Perguntem a qualquer quitandeiro quanto ele gasta na compra do “software” que é obrigado a usar  para atender  ao controle fiscal, quanto paga para atualizá-lo, quanto paga pela licença de operação e quanto paga   pela banda larga,  ridícula até no nome, pela estreiteza dos seus serviços. Pergunte, também,  se o seu Contador consegue se manter em dia com as tabelas do imposto – o ICM, a substituição tributária e o escambau - que a birosca  deve recolher.

É sabido que administrar um país envolve, entre outras coisas, definir  prioridades entre os setores da economia que o levarão a alcançar um determinado  produto  -  que os economistas chamam de “interno” e “bruto”. Nessa definição haverá conflito de interesses entre os diversos segmentos da sociedade. Portanto, será preciso partir de regras pré-estabelecidas, fixadas pelos poderes Legislativo e Executivo que, por sua vez, deverão contar com pessoas  de bom senso,  competência técnica e retidão moral para definir o que é de quem.

Então vejamos um pouco do que foi feito: nossas cidades estão entupidas de automóveis que são utilizados por pessoas  para os mais diversos fins: trabalhar, levar crianças à escola, ir à praia no domingo, ao hotel fazenda no fim de semana ou tomar sorvete na esquina. Um  carro médio  pesa novecentos quilos. Daí que precisamos gerar energia suficiente para deslocar novecentos quilos e,  com essa energia, transportar de oitenta a, no máximo, trezentos quilos de gente. O trânsito, em qualquer cidade grande,  é caótico e os engarrafamentos  além de representarem um custo elevado pela perda de tempo  estão produzindo cidadãos neuróticos e famílias desequilibradas. E o que fez o Governo?  Concedeu isenções fiscais à indústria automobilística e reteve o preço dos combustíveis.  Ao mesmo tempo, estimulou o crédito para a compra de carros novos com taxa de juros zero. O automóvel que temos hoje, sedutor com sua curvas sensuais e parafernália eletrônica, é, na realidade, um meio de transporte obsoleto.  No entanto, todo o esforço do Governo foi dirigido para a produção de combustíveis fósseis e pouco se fez na pesquisa de fontes alternativas de energia.

E, por falar em crédito, convém examinar como funciona essa grande  praga da economia, imanente ao sistema capitalista. É obvio que o crédito ao consumidor estimula o consumismo desenfreado. Estava certo o Carlinhos Marx quando previu que o exacerbado consumismo do sistema capitalista levaria  a desordens sociais. E quem chamou a atenção para isso, algum tempo atrás,  foi  ninguém menos do que o sociólogo Zygmunt Bauman  ao analisar os violentos  distúrbios ocorridos na outrora disciplinada cidade de Londres. Segundo noticiaram os jornais, Bauman afirmou  que  “as imagens de caos na capital britânica nada mais representam que uma revolta motivada pelo desejo de consumir, e não por qualquer preocupação maior com mudanças na ordem social.  Londres viu os distúrbios do consumidor  excluído e insatisfeito”. Foi o que ele disse.
Mas, e o crédito? O que tem a ver com as crises? Todos se lembram da enrascada em que se meteram os Estados Unidos poucos anos atrás com a crise do setor imobiliário.  As vendas de imóveis financiados disparou e o sistema, descontrolado, entrou em colapso.

Como dizia o meu amigo Severino Mandacaru, diferentemente do crédito que se concede ao investimento, o crédito ao consumo permite que se coma a macaxeira antes de ser plantada. Através de cartões de crédito, carnês, cheques pré-datados, empréstimos bancários, notas promissórias, cadernetas do armazém e fios de bigode as pessoas vão comendo aquilo que ainda não foi produzido. Com um agravante.  Por esse “empréstimo”, o consumidor terá de pagar uma remuneração – os juros – que será agregada ao total devido. Os juros são um bem metafísico, que não tem contrapartida no sistema produtivo. Portanto, não contribuirão para a  produção da macaxeira. O crédito vicia  e vicia como qualquer droga química. Pior ainda, porque não deixa sinais exteriores. Muitas crises econômicas, em muitos países, foram geradas  sem que se percebesse,  porque a sociedade, como um todo, começou a comer aquilo que ainda não havia sido produzido.
 Quando inventou  o  crédito bancário na forma que aí está, o capitalismo não se deu conta que de que aquilo não teria fim, e começou a distribuir bens em troca de papéis que constituíam apenas uma promessa de pagamento devidamente acompanhada, é claro, dos respectivos  juros, isto é, dinheiro imaginário  -  hoje nem papel se usa mais, apenas telas de computador, cruz credo - e assim, quando os americanos foram procurar o seu “fried chicken”,  os alemães suas batatas, os italianos sua polenta e os franceses  seu  camembert,  só encontraram papel.  E explicações melosas em telas de computador.

 Por ocasião da crise americana quem falou sério, mostrando coragem e bom humor, escancarando a verdade, foi o economista francês Jacques Attali que declarou:  “Nos Estados Unidos as moratórias do setor privado já começaram e que um calote da dívida pública americana só não ocorrerá graças à impressão de dólares”. O que significa mais papel.  Atalli disse mais: “ O mestre dos Estados Unidos não é nem Keynes nem Schumpeter,  é Madoff e sua capacidade de construir dívidas”.  Madoff,   vocês se lembram,  foi o espertalhão que deu um golpe de 65 bilhões de dólares no mercado financeiro americano.  Adotando um sistema de venda de quotas de fundos em forma de pirâmide, criado por um tal de Ponzi, um imigrante italiano que teve muito sucesso nisso até ir para a cadeia.  Madoff  arrecadou dinheiro no mundo inteiro, até a pirâmide ruir. Foi condenado a 150 anos de prisão como se o fato de cumprir a pena na sepultura pudesse restituir o dinheiro que roubou dos incautos.
“... E la nave va. "  como diria Felini.

Não  adianta.  Reforma política não mudará nada. Basta ver o que se discute no Congresso Nacional e como se comportam seus habitantes. O que precisamos é de uma reforma administrativa do Estado. E será bom, também, começar a aperfeiçoar o Capitalismo. Os outros ismos não deram certo. Tratemos de salvar este, que já está obsoleto. Como os carros. O face book  acabará por desmoralizá-lo.

Esqueçamos a reforma política. Façamos a reforma administrativa e rezemos para que dê certo. Caso contrário, seremos obrigados  a pensar na reforma do ser humano.


Em tempo: Na sua página de hoje, 3 de Agosto de 2015,  Ancelmo Gois publica a seguinte nota:

Pós-capitalismo
“A Companhia das Letras comprou os direitos de “Pós-capitalismo”, livro do jornalista inglês Paul Mason, que vem causando polêmica na Inglaterra. Segundo ele, o capitalismo como o conhecemos está no fim, por causa das mudanças tecnológicas dos últimos 25 anos, que reduziram de forma drástica a necessidade do trabalho.”

Obrigado, Ancelmo.