23 agosto 2017

O Presidente Eventual



Sou totalmente ignorante em matéria de política. Bem que tentei, no meu tempo de estudante, meter-me nas discussões, participar de comícios, opinar sobre isto e aquilo. Cheguei a ler Marx e Engels. Nada deu certo. Não demorei a entender que, com a cara e o nome que eu carregava, ninguém me levava a sério. Então, limitei-me a cuidar das minhas tapiocas.
Isso não quer dizer que não me interessasse pelos destinos do meu país e do seu comandante maior: o Presidente. Houve uma época em que eu lia três jornais todos os dias.: O “Correio da Manhã" , “O Jornal” e o “Jornal do Brasil”.

Ora, se deu que, em 1954, o Presidente se suicidou. Comoção geral. O povo foi às ruas, não para quebrar coisas como é comum em nossos dias, mas para prantear o seu Presidente. O lugar foi ocupado pelo seu herdeiro natural mas depois, seguiu-se uma longa discussão sobre se isso era legítimo ou não. Discussão da qual eu nada entendi.
Sucederam-se vários presidentes, sempre com muita discussão e muita briga. Entre os últimos, creio que ainda estávamos no século passado, teve um que se mandou sem dizer água vai. Alegou que havia forças ocultas que não o deixavam trabalhar. No lugar dele entrou seu herdeiro, que deu muito trabalho porque muita gente não gostava dele. Até houve um plebiscito para saber se o povo queria que ele ficasse como pau mandado, mas o povo disse que não.
Ele era muito querido pela população e fez um comício que ficou na História, o famoso comício da Central. Eu assisti a esse comício, não porque me interessasse por política, obviamente, mas porque eu desembarcara no aeroporto do Galeão, vindo de Montes Claros, e o motorista do táxi me comunicou que o trânsito estava bloqueado perto da Central do Brasil, por causa do comício. Já que eu não podia chegar ao hotel, pedi ao motorista que me deixasse perto do comício. E lá fiquei eu, em pé, bem próximo ao palanque, ouvindo os discursos. Foram muitos discursos. Quando tudo acabou eu, leigo que sou, disse pra mim mesmo: “Isso não vai acabar bem”.

 Porque de repente chegou um pessoal saído dos quarteis, metralhadora na mão, dizendo : “agora quem escolhe presidente é a gente”. E assim foi por muitos anos. Quando eles se cansaram de escolher presidentes, entregaram o trono a um civil dizendo:  “daqui pra frente é com vocês”.
Aí, não sei bem como, foi escolhido um novo presidente. Então, aconteceu um novo infortúnio:  Antes mesmo de tomar posse esse presidente adoeceu e foi levado para um hospital. Foi empossado lá mesmo e, no dia seguinte, veio a falecer.
Foi substituído pelo seu eventual, um nordestino tranquilo, de bigode imponente, o qual, findo o mandato, passou o cargo para outro nordestino, eleito pelo povo. Este não era nada tranquilo, ao contrário, era brabo e saiu brigando com todo o mundo. Além de brabo, era meio tan-tan  pois saiu catando o dinheiro de todo o mundo com a promessa de que iria devolver tudo depois, e com lucro. Não sei se ele devolveu mesmo porque, no meu banco, eu só tinha boletos de contas  que eram pagas com o suor do meu rosto.
Disseram também que entre as patifarias que praticou, este jovem presidente havia recebido um regalo considerado muito suspeito: Uma Fiat Elba,  zero quilômetro.  Um vexame!
Então resolveram tirá-lo, e eu nem sei bem como isso foi feito, porque, nessa altura, eu já andava tão cansado que parei de ler jornais e fui cuidar do meu reumatismo.

E aí veio um período tranquilo em que os presidentes, todos eleitos pelo povo, passaram a trabalhar com grande empenho, embora nem todos agradassem a todo mundo, fosse quem fosse o presidente. Normal, porque isso é próprio do sistema democrático. Pelo menos foi isso que pensei porque eu, leigo total em política, andava cuidando apenas do meu laburo. Pois não é que, de novo, resolveram tirar o Presidente da vez? Acharam que este Presidente, mais exatamente, uma Presidenta, estava trabalhando mal e resolveram mandá-la embora. Isto, para muitos, foi considerado um golpe. O fato é que no seu lugar entrou o seu substituto eventual, tudo dentro da lei, segundo diziam os jornais, o que, obviamente, não correspondeu à opinião daqueles que o consideraram   golpista.  Pois agora, golpista ou não, estão dizendo que este é igualzinho ou pior do que anterior e, por isto, vão mandá-lo embora também. Até aí eu entendo. Mas ficou-me uma dúvida.

 Já expliquei que, em matéria de política, sou completamente leigo mas, que diabos, leigo também tem alma! Pois agora vou dar minha opinião de leigo e pouco me importa se me internarem num manicômio. Porque achei  esquisita  a  maneira como tudo isto está sendo feito.
Acontece que, fosse lá por que motivo fosse, atribuíram, esta tarefa a um dos Poderes da República: o Poder Judiciário. O Judiciário é formado por vários Tribunais, cada um identificado com uma sigla própria. Não sei se existe diferença hierárquica entre eles, tipo, um pai e muitos filhos, sendo o Tribunal filho um complemento do Tribunal pai, ao qual deve dar satisfação das estrepolias  que pratica, o que faria deste o Judiciário de verdade, a menos que o filho, quando menor, tenha sido emancipado pelo pai, não precisando, assim,  dar satisfações ao pai. Não importa, até aqui tudo bem, sabendo que o Tribunal filho que está no jogo é aquele que cuida das eleições.  

Tudo bem, mas nem tanto. Porque agora acabo de descobrir que os Juízes dos Tribunais, tanto o pai como o filho, são nomeados pelo Presidente da República, e a ele, é de se esperar, devem fidelidade. Podemos dizer que um juiz é um Juiz e que ele está acima dos interesses terrenos, portanto é imparcial. Ótimo. É assim que deve ser.

 No centro dessa discussão está a definição sobre quem é o autêntico presidente: se aquele que foi eleito pelo povo ou se aquele que ocupa o posto por herança ou se nenhum dos dois. E quem vai resolver isso é o Congresso a pedido - ou por sugestão, não sei bem como é - dos Juízes. Será que isso vai dar certo?


  ABSIT  INJURIA  VERBIS.







25 maio 2017

O SENSO DO DEVER



Uma história da vida real

Rio Branco Fabril S.A. é uma empresa têxtil de médio porte. Como a maior parte das empresas do ramo têxtil no Brasil, é uma empresa de estrutura familiar. É dirigida por um Conselho Administrativo formado por três irmãos, um dos quais, na realidade, é uma irmã:  Mafalda. Ela é Presidente do Conselho. Enérgica, autoritária e de poucas palavras, ela é responsável pela área técnica e dirige o seu setor com mão- de- ferro.  Sob seu comando direto está o Roberto que exerce o cargo de Diretor Técnico. É ele quem organiza a estrutura das gerências em que se divide a fábrica: Produção, Vendas, Compras, Pessoal, Fiação, Tecelagem, Acabamento, Expedição e muitos etcetras.  Por fim,  temos o Arthur, que comanda uma dessas Gerências. Sem grandes brilhos, é um funcionário dedicado, pontual e muito apreciado por seus colegas.
Como qualquer empresa do ramo, das chamadas  “ mão-de-obra intensiva”, a Rio Branco trava uma batalha diária na luta pela competitividade: reduzir custos. É deles que depende a sobrevivência da empresa. E essa é a principal responsabilidade do diretor técnico: o nosso Roberto.
Roberto é um executivo exemplar. Ele sabe que precisa de pulso firme se quiser obter resultados. Do faxineiro ao gerente, todos os dependentes devem ser treinados, orientados, motivados e ...  fiscalizados.  Para deixar claro o seu papel, Roberto criou um mote, que alardeia por entre as máquinas, a título de advertência: “Empresa não tem alma”.  Quando reunia seus  gerentes, ele começava:

 Roberto –“ Não se iludam, companheiros, empresa não tem alma. Prestem atenção ao serviço! Tem que trabalhar direito! Empresa não tem coração, empresa só tem cérebro.”

Pois um dia, o dia chegou. A fábrica perdia competitividade. As vendas caiam. Os concorrentes começavam a incomodar. Era preciso fazer uma reestruturação. Roberto reformulou produtos, simplificou operações, remanejou funções. Resultado: sobraram gerências. O que significava extingui-las. Demitir gerentes. É assim mesmo.  “Empresa não tem alma”.
Entre elas está a gerência do Arthur. Roberto o conhece bem. Funcionário  exemplar,  competente,  afável  no trato com os companheiros, não havia nada que pudesse justificar sua demissão.  Mas a gerência dele não existe mais.  Ele está sobrando, ponto final. Tem que ser demitido. Arthur chegou aos 48 anos, idade na qual, segundo a tradição administrativa que herdamos dos norte-americanos, o executivo deve ser defenestrado. ( ao contrário do Japão onde, nas empresas, “ninguém é nada antes dos sessenta anos” ). O executivo que perder o emprego perto dos cinquenta anos de idade terá que sair à cata de outro com o cuidado de não dizer “estou   desempregado”. Ele terá que dizer:  “estou no mercado”. 
Arthur se notabilizara não só pela sua competência  técnica mas também pela fertilidade de sua esposa  que correspondera à pujança do marido contemplando-o com oito filhos. Oito! Uma escadinha etária cujo primeiro degrau beira os seis anos e o último alcança os umbrais da universidade.

Um sentimento de piedade começa a abalar o nosso valente Roberto. Aquelas oito almas não lhe saem da cabeça. O que seria daquela família com o pai desempregado? Ainda mais um técnico que só sabe fazer pano?  Roberto começa a fraquejar. Seu conflito aumenta.  Se não demitisse o gerente esvaziado estaria traindo a empresa a que serve e isto o deixaria desonrado profissionalmente. Sentia-se mal até porque o posto que ocupava era um posto de confiança. Roberto brigava com a razão. Mas o coração prevaleceu. Não iria deixar oito almas desamparadas. E resolveu o problema de forma que lhe pareceu racional: criou um apêndice junto à gerência de controle de qualidade, mantendo, portanto o seu status, com o título de “Setor de Acompanhamento de Atividades E1speciais”, reportando-se diretamente ao Diretor Técnico.

Em paz com a sua consciência, nessa noite, Roberto dormiu o sono dos justos.  No dia seguinte chamou o Arthur e,  para não lhe criar criar um constrangimento, não falou em demissão mas apenas em  “ remanejamento “.
Roberto – “Arthur, com a reorganização da fábrica a tua gerência foi extinta. Você passa para um setor especial com todos os teus direitos garantidos, inclusive teu status hierárquico”. 
Arthur – “ Ainda bem, né, chefe. Não se fala de outra coisa a não ser das demissões”.
Roberto --  “Aqui está o teu novo “job  description” . Se tiver alguma dúvida me procure. Ah, mais uma coisa, você continua na mesma sala, viu? Isso vai evitar fofocas.”
Missão cumprida e bem executada. A paz invade o coração de Roberto, orgulhoso de sua boa ação embora tendo cometido um pequeno arranhão na fidelidade que deve à sua empresa.
Passaram-se os tempos, mas não muitos. O trabalho seguia, em plena harmonia, perseguindo seu objetivo primordial: cortar custos. Um dia nosso generoso Diretor Técnico é chamado ao gabinete do Conselho Administrativo. É recebido por Mafalda, Presidente.  Curto e grosso:
Mafalda – “Senhor Roberto! Fique sabendo que a minha empresa não está aqui para sustentar vadios. O Arthur veio aqui me dizer que está se sentindo ocioso no lugar que ocupa. Que diabo você andou fazendo?
Perplexo, Roberto começa a gaguejar:
Roberto – “Mas, como? ... O Arthur?...  O que acc...acccc...aconteceu?  O Arthur...  a  reestrut.... eu fiz uma reorg ... Ele disse isso?”
Mafalda – “Eu não quero explicações. Eu quero soluções! E rápido. Pode sair”.
 Roberto saiu cabisbaixo, trêmulo, tropeçando nos próprios sapatos. Não podia acreditar. O Arthur! Oito filhos. Chegando aos cinquenta anos.  Fazendo pano. Aquela anta! Roberto chegou na sua sala e desabou na cadeira. Estava lívido, de uma lividez transparente pela qual se podia ver a sua alma sofredora. Mandou chamar o Arthur.
Roberto --  “Arthur... Arthur... como é possível ... você Arthur... você ocioso... Foi dizer isso para minha chefe, Arthur?  Que está ocioso, Arthur? Foi dizer isso pro patrão, Arthur?.  Ficou maluco?  Com cinquenta anos? Com oito filhos,... onde você está com a cabeça, Arthur,... fazer  uma besteira dessas  Arthur, o errado aqui sou eu, você não tinha nada a ver, .... nem a hierarquia você respeitou....  Arthur, que diabo você fez, Arthur ......  Onde já se viu ?!!!  Oito filhos!!!!  Fala, Arthur! ...  Fala, ... fala... fala, ... abre a  boca,  infeliz! ...  ... ...
  Arthur? ... Arthur?.....  Você está demitido ... Arthuuuuur.”