26 julho 2010

AO TWITTER, COM CARINHO

Não sabia que o twitter era tão importante. Procurei incorporar-me a esse universo de pessoas quando vi que podiam comunicar-se entre si e espalhar notícias com a velocidade do relâmpago. Mas quando percebi o tempo que eu gastava garimpando notícias que pudessem servir para alguma coisa, desanimei. A maior parte delas ou eram bobagens tipo “hoje acordei cedo para lavar a roupa mas faltou água na minha casa”, ou eram notas pessoais de autoglorificação. Até hoje não consigo entender a importância sócio-econômico-filosófica desse instrumento de comunicação que se alastra como fogo morro acima. Por causa disso desenvolvi um complexo de inferioridade que tento superar através da leitura dos tweets que são publicados na imprensa escrita, partindo do principio que, se ocupam o precioso espaço de jornais e revistas, é porque são importantes. O meu complexo só aumentou. Perseverante, tratei de associar-me ao sistema tornando-me também um twitador, o que me fez mergulhar em profunda depressão, visto que, por incompetência minha, eu não conseguia alcançar um número expressivo de seguidores. Meus amigos aconselharam-me a não dar importância a isso: eu deveria me transformar em seguidor e acompanhar o twitter dos famosos, que iam desde o Obama até o Berlusconi e da Xuxa à Madonna. Foi quando descobri que, tal como no Orkut, no Facebook e nas Instituições de Caridade, havia twitters fake fazendo-se passar por gente famosa. Foi aí que me senti um verdadeiro palhaço. Mas agora descobri o quanto eu estava errado. A colega Cora Rónai em sua crônica “ A Pátria de Notebook” (O Globo, 1 de Julho, 2010), uma preciosa meia página no lugar mais destacado do Segundo Caderno, traz esclarecedoras informações sobre a atividade twiteira. Discorrendo sobre a importância do twitter na torcida da Copa do Mundo, explica: “Lá estavam brasileiros twitando de todas as partes do mundo, do coleguinha Jorge Pontual ... ao presidente da Microsoft para Ásia e Pacífico, Emilio Umeoca, que mora em Cingapura ... Claro que a “multidão” de cada um depende do número de pessoas seguidas. A esta altura todo mundo sabe, mas não custa repetir, que cada um vê, na sua tela inicial do Twitter, os comentários daqueles a quem segue. O pobre do Eike Batista tem uma vida muito solitária quando abre sua twit-janela, que só dá vista para os manda-chuvas da Rússia e dos Estados Unidos, para o Luciano Huck, para o Kaká e para um fake da chanceler alemã, Angie Merkel. Já pensaram o que é assistir à Copa nessa companhia?! Coisa de cortar os pulsos.” Para ilustrar a beleza e a importância do mundo twiteiro na Copa, metade da meia página da crônica transcreve uma seleção de tweets indicando os respectivos endereços. Vou reproduzir uns poucos, para não abusar do espaço, mas recomendo a leitura de todos. São pérolas literárias que induzem a uma introspecção filosófica: “A moça que trabalha na minha casa não curte jogo mas não pode ir para casa pq não tem ônibus. Beira ao ridículo essa paralisação.” “Técnico do Chile preocupadíssimo. Se ficar no 0x0 e tiver prorrogação, capaz de eles perderem o vôo.” “Aqui em casa eu me emociono quando ouço a galera gritando gol. E depois me emociono quando vejo.” “Tá bom, Kaká. A gente já entendeu que você não é a Sandy. Agora, calma, tá? Francamente, não sei, mas acho que se o tempo e a energia gastos no twitter fossem aplicados na fabricação de cestos de palha, tigelas de barro e bonecas de pano teríamos uma sociedade, não mais rica, mas, certamente, mais feliz. No fundo, no fundo, talvez tudo isto não passe de uma grande inveja minha. De qualquer modo, como vou pro inferno mesmo, deixem-me falar mal dos outros enquanto estou vivo.

Um comentário:

  1. Gino

    eu adorei!
    e me reconheci nessa reflexão sobre o twitter, pois eu sinceramente ainda não entendo como o ser humano pode usar o seu tempo dizendo para o mundo que, por exemplo... comeu uma salada de abacaxi?
    Genial!.
    Abraços, Ana Alice Spreafico

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