19 julho 2015

Reformas e Crises



Reformas e Crises

                                                                                     Gastão, rei dos vagabundos
                                                                                     Não teme crise ou desgraça
                                                                                     Pois só deposita seus fundos
                                                                                     No melhor banco da praça

                                                                                                                  Orlando Brito                                                                                                                                                                                                                      
                                                                            
Gastamos rios de tinta e toneladas de papel – para não falar dos milhões de bites e baites que são evaporados nas telas dos computadores – para discutir a reforma política no País.  A reforma política não vai mudar nada. Nas condições em que estamos, o Brasil precisa de uma reforma administrativa. O que vemos hoje é uma degradação contínua nos serviços da administração pública e uma deterioração crescente na produtividade da empresa privada.
A complexidade da legislação tributária, das normas ambientais, das normas para o comércio exterior, das regras de postura, da legislação trabalhista e da necessária, porém precipitada “inclusão digital”, afetam seriamente a produtividade da economia como um todo. Um emaranhado de leis herméticas que mudam a toda hora, afeta seriamente a gestão no setor privado, sobretudo na pequena empresa. Perguntem a qualquer quitandeiro quanto ele gasta na compra do “software” que é obrigado a usar  para atender  ao controle fiscal, quanto paga para atualizá-lo, quanto paga pela licença de operação e quanto paga   pela banda larga,  ridícula até no nome, pela estreiteza dos seus serviços. Pergunte, também,  se o seu Contador consegue se manter em dia com as tabelas do imposto – o ICM, a substituição tributária e o escambau - que a birosca  deve recolher.

É sabido que administrar um país envolve, entre outras coisas, definir  prioridades entre os setores da economia que o levarão a alcançar um determinado  produto  -  que os economistas chamam de “interno” e “bruto”. Nessa definição haverá conflito de interesses entre os diversos segmentos da sociedade. Portanto, será preciso partir de regras pré-estabelecidas, fixadas pelos poderes Legislativo e Executivo que, por sua vez, deverão contar com pessoas  de bom senso,  competência técnica e retidão moral para definir o que é de quem.

Então vejamos um pouco do que foi feito: nossas cidades estão entupidas de automóveis que são utilizados por pessoas  para os mais diversos fins: trabalhar, levar crianças à escola, ir à praia no domingo, ao hotel fazenda no fim de semana ou tomar sorvete na esquina. Um  carro médio  pesa novecentos quilos. Daí que precisamos gerar energia suficiente para deslocar novecentos quilos e,  com essa energia, transportar de oitenta a, no máximo, trezentos quilos de gente. O trânsito, em qualquer cidade grande,  é caótico e os engarrafamentos  além de representarem um custo elevado pela perda de tempo  estão produzindo cidadãos neuróticos e famílias desequilibradas. E o que fez o Governo?  Concedeu isenções fiscais à indústria automobilística e reteve o preço dos combustíveis.  Ao mesmo tempo, estimulou o crédito para a compra de carros novos com taxa de juros zero. O automóvel que temos hoje, sedutor com sua curvas sensuais e parafernália eletrônica, é, na realidade, um meio de transporte obsoleto.  No entanto, todo o esforço do Governo foi dirigido para a produção de combustíveis fósseis e pouco se fez na pesquisa de fontes alternativas de energia.

E, por falar em crédito, convém examinar como funciona essa grande  praga da economia, imanente ao sistema capitalista. É obvio que o crédito ao consumidor estimula o consumismo desenfreado. Estava certo o Carlinhos Marx quando previu que o exacerbado consumismo do sistema capitalista levaria  a desordens sociais. E quem chamou a atenção para isso, algum tempo atrás,  foi  ninguém menos do que o sociólogo Zygmunt Bauman  ao analisar os violentos  distúrbios ocorridos na outrora disciplinada cidade de Londres. Segundo noticiaram os jornais, Bauman afirmou  que  “as imagens de caos na capital britânica nada mais representam que uma revolta motivada pelo desejo de consumir, e não por qualquer preocupação maior com mudanças na ordem social.  Londres viu os distúrbios do consumidor  excluído e insatisfeito”. Foi o que ele disse.
Mas, e o crédito? O que tem a ver com as crises? Todos se lembram da enrascada em que se meteram os Estados Unidos poucos anos atrás com a crise do setor imobiliário.  As vendas de imóveis financiados disparou e o sistema, descontrolado, entrou em colapso.

Como dizia o meu amigo Severino Mandacaru, diferentemente do crédito que se concede ao investimento, o crédito ao consumo permite que se coma a macaxeira antes de ser plantada. Através de cartões de crédito, carnês, cheques pré-datados, empréstimos bancários, notas promissórias, cadernetas do armazém e fios de bigode as pessoas vão comendo aquilo que ainda não foi produzido. Com um agravante.  Por esse “empréstimo”, o consumidor terá de pagar uma remuneração – os juros – que será agregada ao total devido. Os juros são um bem metafísico, que não tem contrapartida no sistema produtivo. Portanto, não contribuirão para a  produção da macaxeira. O crédito vicia  e vicia como qualquer droga química. Pior ainda, porque não deixa sinais exteriores. Muitas crises econômicas, em muitos países, foram geradas  sem que se percebesse,  porque a sociedade, como um todo, começou a comer aquilo que ainda não havia sido produzido.
 Quando inventou  o  crédito bancário na forma que aí está, o capitalismo não se deu conta que de que aquilo não teria fim, e começou a distribuir bens em troca de papéis que constituíam apenas uma promessa de pagamento devidamente acompanhada, é claro, dos respectivos  juros, isto é, dinheiro imaginário  -  hoje nem papel se usa mais, apenas telas de computador, cruz credo - e assim, quando os americanos foram procurar o seu “fried chicken”,  os alemães suas batatas, os italianos sua polenta e os franceses  seu  camembert,  só encontraram papel.  E explicações melosas em telas de computador.

 Por ocasião da crise americana quem falou sério, mostrando coragem e bom humor, escancarando a verdade, foi o economista francês Jacques Attali que declarou:  “Nos Estados Unidos as moratórias do setor privado já começaram e que um calote da dívida pública americana só não ocorrerá graças à impressão de dólares”. O que significa mais papel.  Atalli disse mais: “ O mestre dos Estados Unidos não é nem Keynes nem Schumpeter,  é Madoff e sua capacidade de construir dívidas”.  Madoff,   vocês se lembram,  foi o espertalhão que deu um golpe de 65 bilhões de dólares no mercado financeiro americano.  Adotando um sistema de venda de quotas de fundos em forma de pirâmide, criado por um tal de Ponzi, um imigrante italiano que teve muito sucesso nisso até ir para a cadeia.  Madoff  arrecadou dinheiro no mundo inteiro, até a pirâmide ruir. Foi condenado a 150 anos de prisão como se o fato de cumprir a pena na sepultura pudesse restituir o dinheiro que roubou dos incautos.
“... E la nave va. "  como diria Felini.

Não  adianta.  Reforma política não mudará nada. Basta ver o que se discute no Congresso Nacional e como se comportam seus habitantes. O que precisamos é de uma reforma administrativa do Estado. E será bom, também, começar a aperfeiçoar o Capitalismo. Os outros ismos não deram certo. Tratemos de salvar este, que já está obsoleto. Como os carros. O face book  acabará por desmoralizá-lo.

Esqueçamos a reforma política. Façamos a reforma administrativa e rezemos para que dê certo. Caso contrário, seremos obrigados  a pensar na reforma do ser humano.


Em tempo: Na sua página de hoje, 3 de Agosto de 2015,  Ancelmo Gois publica a seguinte nota:

Pós-capitalismo
“A Companhia das Letras comprou os direitos de “Pós-capitalismo”, livro do jornalista inglês Paul Mason, que vem causando polêmica na Inglaterra. Segundo ele, o capitalismo como o conhecemos está no fim, por causa das mudanças tecnológicas dos últimos 25 anos, que reduziram de forma drástica a necessidade do trabalho.”

Obrigado, Ancelmo.  




01 julho 2015

Um estilo de Vida


POUSADA PARAÍSO
O conceito de Pousada que serve de base para esta crônica é real. Foi concebido e desenvolvido por Flamínio Spreafico que o aplicou na implantação da  “Pousada do Cônego”,  no bairro de mesmo nome, em Nova Friburgo. Ali ficamos em atividade por mais de quatro anos, numa experiência das mais gratificantes. O que segue é um resumo do texto que  Flamínio  redigiu  para a apresentação da Pousada  no site que havia criado para divulgá-la. Foram quatro anos de trabalho árduo na defesa de um ideal. O reconhecimento, por parte daqueles que por lá passaram, compensou nosso esforço e a alegria que nos proporcionaram ficará para sempre na nossa memória. Este texto é dedicado àqueles que, como nós,   apesar dos dias conturbados  que estamos vivendo, acreditam que um estilo de vida mais simples ainda é possível. Mais simples no modo de se vestir, de comer, de se divertir, repousar e conviver. Longe da sociedade consumista, da propaganda enganosa, do crédito desvairado, da administração venal. E, quando possível, dos “Call Center”. Oremus.

Pousada do Cônego
O resgate dos sentidos
A vida nas grandes cidades está levando o ser humano a um desgaste físico e emocional sem precedentes. A insalubridade pela contaminação do ar, o barulho do trânsito, as sirenes e alarmes de todo o tipo, a dependência da televisão, com seu noticiário estressante, ou novelas lacrimogêneas e programas deformadores de comportamento, a alimentação baseada em produtos refinados repletos de gorduras saturadas, conservantes e aditivos químicos  de toda a espécie,  são apenas alguns dos fatores que estão afetando a qualidade de nossas vidas e, pior, a vida de nossos filhos. Para fugir a esses efeitos muitas pessoas procuram sair da cidade grande, nos fins de semana, em busca de um hotel fazenda para descansar e distrair a criançada.

Para isso criamos a  “Pousada do Cônego”
Você já visualizou um lindo lugar com vaquinhas pastando, porquinhos fazendo honk... honk... crianças alegres e ruidosas jogando totó, longos passeios de charrete, lago com pedalinho, quadra poliesportiva, sala de jogos  e um enorme salão para o buffet self-service com 54 tipos de comida.  Pois nós não temos nada disso. Porque é de um lugar assim que você volta ainda mais estressado.
Ao criar a “Pousada do Cônego”,  no verdejante vale que antecede o pico da Caledônia,  palco de  ricas experiências, queremos lhe proporcionar um lugar que  permita retomar o contato com a natureza, reeducar seus hábitos alimentares e refazer as energias físicas e mentais preparando-o, assim, para a sua volta ao trabalho. Este é um lugar diferente.

 Para começar, você não precisa acordar às seis horas da manhã  para assistir a ordenha das vacas. Nós não temos vacas. Você pode  acordar à hora que quiser, tomar café à hora que quiser e ficar na cama ouvindo o canto dos pássaros.
 Nós não temos charrete, nem passeio a cavalo. Nós preferimos caminhar com nossas próprias pernas para exercitar o corpo e a mente.
Nós não temos quadra poliesportiva.  Nós pisamos na grama descalços para restaurar  o contato com a terra perdido há anos, colhemos ervas aromáticas em nossa horta, conversamos e rimos o tempo todo, um riso espontâneo e sadio, resgatando um relacionamento humano já esquecido.

Nós não temos salão de jogos com sinuca, totó e ping-pong para você passar o tempo depois do almoço. Depois do almoço nós nos reunimos para um bate papo agradável, com troca de experiências ou simplesmente tiramos um bom e restaurador cochilo embalados pelo canto dos sabiás.
Nós não temos self service com 54 tipos de comida ao qual você chega, disciplinadamente, em fila, torcendo para que as bandejas não se esgotem antes de você chegar lá e, lá chegando, comer o máximo que pode, estragando sua saúde, só para justificar o seu investimento. Nós lhe oferecemos um cardápio perfeitamente ajustado às suas necessidades, servido sobre toalhas brancas de puro algodão e com luz abundante para que você possa ver e degustar com tranquilidade o que está comendo.

Nós não temos shows de música ao vivo. Para você ter uma ideia nós não temos nem televisão nos quartos! Depois do jantar nós nos sentamos em volta da lareira para degustar um bom vinho ou projetamos um filme com um tema instigante, que será sucedido por um debate, visando melhorar  o nosso comportamento diante dos conflitos quotidianos. Aqui, sim, você vai descansar.

Bom fim de semana para todos.”

30 junho 2015

Conversa

-- Tudo bem ?
-- Tudo...
-- Sente-se, por favor.
-- Ah.
-- Está quente, né ?
-- É.
-- É muito calor, né?
-- É.
-- Em São Paulo choveu muito.
-- É ?
-- Aqui não choveu.
-- Não.
-- Eu não gosto quando chove.
-- Não ?
-- Não. O senhor gosta ?
-- Não.
-- Mas a roça precisa de chuva.
-- É.
-- Semana passada minha rua alagou.
-- Foi ?
-- Foi. É um perigo, né ?
-- É.
-- Também, ninguém faz nada!
-- Não.
-- Mas é sempre assim, não é mesmo ?
-- É.

Barbeiro chato! Ou será que o chato sou eu?





30 maio 2015

Cem mil livros

“Livraria Leonardo da Vinci anuncia fechamento”

A notícia de quinta feira, 29 de Maio de 2015, ocupava meia página do jornal. O negócio tornara-se comercialmente inviável. Na matéria, os jornalistas Mateus Campos e Maurício Meireles fizeram um excelente retrospecto da atividade da Livraria destacando a importância de sua participação no mundo literário. Entre outros aspectos, ressaltaram:

“Nas estantes da Leonardo Da Vinci ainda repousam livros cujo preço original era cotado em pesetas espanholas e francos, da França, por exemplo. As obras, que fazem parte de um estoque estimado em mais de cem mil exemplares, foram compradas antes do surgimento do euro, em 2002 e esperam até hoje para serem vendidas.”

Cem mil livros!
Nunca fui um frequentador assíduo da Leonardo. De vez em quando passava por lá e comprava um par de livros, principalmente quando procurava algo em italiano ou espanhol. Conheci Dona Giovanna, que me encantava mais pelo seu sotaque do que pelo conteúdo de nossas conversas posto que, por  timidez minha, falávamos pouco: tem, não tem, é bom, não é, tá esgotado, vai chegar...  Era assim.
Mas ocorreu que, certa ocasião, eu precisei visitar a Da Vinci durante cinco dias corridos e desta vez eu não comprei nada. Apenas percorria os corredores das salas, cabeça baixa, meditativo. Fazia uma pausa, olhava para o alto, e prosseguia. Eu precisava saber quantos livros havia dentro da Livraria. Isso foi no mês de Maio de 2011. Obviamente, eu não podia perguntar à Dona Giovanna qual era o estoque de sua livraria. Então contei os livros. E constatei que, dentro daquelas salas, haveria, pelo menos, um total de 86.400 livros. Agora o jornal nos informa que há, hoje, “um estoque estimado em mais de cem mil exemplares.”  Uma diferença de 13.600 livros, isto é, apenas 13,6 por cento.
Errei feio? Não. Principalmente se levarmos em conta o tempo atual - Maio de 2015 - e o tempo da minha contagem  - Maio de 2011 - um lapso de quatro anos, durante os quais a livraria continuou crescendo, ampliando seu estoque.
Bem, acho que chegou a hora de explicar  por que eu fui contar os livros nas prateleiras da Livraria  Da Vinci e como foi que  consegui chegar ao fabuloso número de 86.400.

No dia 14 de Maio de 2011 eu publiquei  no “Memórias de Um Vago” uma crônica com o título de  “ESCREVER”. Nesses dias eu passava por uma angústia muito grande, debatendo-me entre o escrever e o ler, a palavra e a imagem, o papel e a tela do computador e, acreditem, entre a carta de papel com selo do correio e o e-mail. Para atenuar meu sofrimento, resolvi discutir o assunto com o Severino Mandacaru, meu amigo das horas incertas. Se quiser conhecer o teor da conversa, o meu incauto leitor poderá clicar na crônica  “Escrever” , que tem o número 61 no Índice que se encontra na coluna esquerda da página de abertura do blog. Para os mais ocupados  transcrevo apenas a parte que explica a metodologia que usei para encontrar o número que buscava.
Poderá ser útil a livreiros, bibliófilos  e curiosos. E para quem gosta de aventuras.

Eu disse para o Severino:
“-- Você certamente conhece a Livraria Leonardo Da Vinci. Sabe quantos livros tem lá dentro?
-- Não, por que? Você sabe?
-- Sei. Eu contei.
-- Impossível, você está maluco. Ninguém conseguiria fazer isso. Você perguntou pra Dona Giovanna?
-- Não. Não me atrevi, seria indiscreto. ela poderia achar que sou um concorrente... sei lá... mas eu calculei. São 86.400 livros, com pequena margem de erro.
-- Nem vou lhe perguntar como você conseguiu fazer isso.
-- Veja bem, vou simplificar:  a livraria tem 5 salas com estantes que vão até o teto. Cada estante é dividida em compartimentos, todos iguais, graças ao bom senso do marceneiro. Achar o total de compartimentos foi fácil. Contei o numero de livros que existe em cada compartimento e chequei, por amostragem, com alguns outros, pois nem todos os livros têm a mesma espessura. Assim cheguei a um valor médio representativo, com boa margem de segurança, de todo o conjunto. Os compartimentos que armazenam dicionários e livros de arte, que são notadamente mais grossos, foram tratados em separado e receberam um coeficiente de correção. No piso da loja também há livros, distribuídos em gôndolas, cuja quantidade pode ser facilmente calculada tomando-se o número de livros por metro quadrado. O meu passo é bastante regular e com ele posso medir qualquer distancia com erro menor do que dois por cento. Determinada a área de cada sala tem-se o total de livros, com o cuidado, naturalmente, de descontar o espaço ocupado pelas vias de acesso, escadas, mesas e cadeiras da administração, coletores de lixo, e onde ...”


A cidade inteira está pranteando o desenlace da Leonardo da Vinci. Hoje, 1º  de Junho, foi a vez do Joaquim Ferreira dos Santos chorá-la:
 “Em mais uma pá de cal...    ... a cidade sem letras sepulta a Leonardo da Vinci na caverna onde já estava moribunda, nas catacumbas insalubres do Marquês do  Herval” diz Joaquim, na sua brilhante crônica do Segundo Caderno.

Para mim é mais uma alma que se vai, deixando-me um remorso por não tê-la amado mais, não ter-lhe sido mais assíduo, não tê-la assistido melhor, como merecia. 
Alivia-me a culpa ter-lhe contado os livros.







10 abril 2015

E se não houver amanhã ?



                                                                “Pelo menos, agora, tenho um motivo
                                                       para acordar no dia seguinte,”
                                                                                                               Anne Frank


Tenho medo de acordar no dia seguinte. Leio os jornais todas as manhãs. As manchetes são desoladoras. Os editais, assustadores. Discutem temas escabrosos e revelam conflitos insuperáveis. Deixam a impressão de que o mundo se tornou ingovernável. O ser humano desandou. A corrupção ocupa a maior parte do espaço nos jornais, numa avalanche incontrolável. Espalha-se por capilaridade. Do ministro e do alto executivo chegou ao quitandeiro e ao guarda da esquina.
Seguem-se as notícias policiais, os acidentes nas estradas, incêndios, desabamentos e enchentes. Assaltos, roubos, assassinatos e balas perdidas. Conflitos entre traficantes e policiais. Pais que matam filhos e filhos que matam pais. Tudo é morte. Greves, agitações populares e invasões de terras. Os governantes não se entendem. Partidos políticos disputam o poder pelo poder. Não se nota um interesse legítimo por um mundo melhor.

Da televisão, desisti. Nos seus duzentos canais repete, à exaustão, as mesmas notícias, intercaladas por longos comerciais que glorificam o consumo exacerbado de produtos supérfluos, dispensáveis e até nocivos à saúde. Existem bons programas, sem dúvida. Mas até chegar a eles gastou-se um tempo enorme, precioso, sem falar que o expectador incauto perde-se no caminho, vítima de sua própria ingenuidade. Volto os olhos para o Exterior e o quadro é ainda mais desanimador. Guerras fratricidas, ataques terroristas, conflitos étnicos, intolerância religiosa, fanatismo político. Mortes. Tudo é morte.

Procurei uma notícia que me desse um motivo para acordar no dia seguinte.
Encontrei-a na forma de um poema, um verdadeiro hino à esperança. Foi escrito por Antonio Roberto Fernandes, um modesto poeta do interior. Ele me deu a certeza de que haverá um amanhã. É meu dever transcrevê-lo.


Mas
                                                                          Antonio Roberto Fernandes

E eu que achei que a lua não brilhasse
 sobre os mortos no campo da guerrilha,
sobre a relva que encobre a armadilha
 ou sobre o esconderijo da quadrilha,
 Mas brilha.

 E achei que nenhum pássaro cantasse
se um lavrador não mais colhe o que planta,
se uma família vai dormir sem janta
com um soluço preso na garganta.
 Mas canta.

 Também pensei que a chuva não regasse
 a folha  cujo leite queima e cega
 a carnívora flor que o cego inseto pega
 ou o espinho oculto na macega,
 Mas rega.

 Pensei também que o orvalho não beijasse
 a venenosa cobra que rasteja
 no silêncio da noite sertaneja
 sobre a ruína de esquecida igreja,
 Mas beija.

 Imaginei que a água não lavasse
 o chicote que em sangue se deprava
 quando, de forma monstruosa e brava,
 abre trilhas de dor na carne escrava
 Mas lava.

 Apostei que nenhuma borboleta
 ­por ser um vivo exemplo de esperança
dançaria contente, leve e mansa
sobre o túmulo em flor de uma criança,
Mas dança.

 Por isso achei que eu não mais fizesse
 poema algum após tanto embaraço,
 tanta decepção, tanto cansaço
 e tanta espera, em vão, por teu abraço,
 Mas faço.





25 janeiro 2015

Mergulhar no Espaço Sideral


Minha alma vagava  em desatino
Negando-se  a cumprir o seu destino:
Mergulhar no Espaço Sideral  que eterno dura
Onde pudesse encontrar vida mais pura
                               (Severino Mandacaru – em “A pena da Morte” – Março 2011)


Encontrei no Mahabaharata, o grande livro religioso do hinduísmo, uma pergunta que me causou efeito:  “ Qual é a coisa mais assombrosa do mundo, Yudhisthira? ” E o sábio líder dos hindus respondeu:
“ A coisa mais assombrosa do mundo é que ao redor de nós as pessoas podem estar morrendo e não percebemos que isso pode acontecer conosco.”

É difícil imaginar que alguém, aos trinta anos de idade, venha a se preocupar com uma coisa dessas. Mesmo tendo alcançado a chamada “meia idade” que ninguém sabe direito o que é, as pessoas ainda estão empenhadas em melhorar de vida lutando contra quilinhos a mais, falta de espaço nas praias,  restaurantes caros, filhos ingratos, vizinhos safados e, suprema desgraça, um chefe escroto.
Mas imaginem como seria diferente este nosso mundo se  as pessoas dessem importância ao  Mahabaharata e  lembrassem que também  morrerão  um dia.
A começar pelos motoristas de ônibus no Rio de Janeiro que se glorificam por derrubar passageiros, com suas freadas e acelerações violentas. Ao pensar nisso, mudariam a maneira de conduzir seus veículos pois se dariam conta de que, a cada freada, não só os passageiros mas também eles, estariam mais próximos da morte.
Bem, este é apenas um exemplo simples, mas é fácil imaginar como se comportariam os ocupantes de cargos nas diversas categorias sociais – no serviço público, serviços financeiros, escolas, hospitais, na política, igrejas de qualquer espécie, vendedores do comércio varejista e ... cruz credo ... atendentes dos “Call Center”. Garanto que este mundo - do qual todos serão aliviados um dia – seria frequentado por gente civilizada e a vida transcorreria do modo bem mais alegre. Porque, sabemos todos, a vida de que estamos falando termina aqui. Mas a outra,  a do Severino e seu espaço imenso, continua. Então, por que não nos prepararmos desde cedo para esta espécie de aposentadoria... quero dizer... passagem para a outra vida?

Quando me dei conta de que comecei a perder colegas de escola, amigos que eu encontrava na padaria e escritores que admirava, percebi que nossos velhos estão morrendo. Deixemos que partam, e alegremo-nos, pois foram cumprir a missão para a qual foram chamados. Contudo, estas últimas viagens – refiro-me aos escritores - me pareceram precipitadas. Pra que essa pressa, um atrás do outro, diferenças de semanas ou poucos meses?
Nossos velhos estão morrendo, está bem, mas não precisamos ajudá-los a morrer. Não?

Pois não é bem assim que pensa o ministro Taro Aso, titular das Finanças do Japão. Ele declarou, no início do ano passado, que  “Os idosos doentes deveriam apressar-se a morrer. Deus me livre de ser obrigado a viver se quisesse morrer” disse ele num encontro do Conselho Nacional de Seguridade do Japão.
Suas palavras causaram indignação em todo o mundo e ele logo se desculpou, explicando que estava impressionado com o impacto dos gastos de saúde com idosos nas contas públicas. E continuou: “Eu acordaria me sentindo cada dia pior sabendo que o tratamento foi todo pago pelo governo”. No seu pedido de desculpas o Ministro Taro Aso concluiu:
“Disse o que eu acredito pessoalmente e não o que deveria ser o sistema de cuidados médicos para  doentes terminais. É importante que você seja capaz de gastar os últimos dias de sua vida pacificamente”.

Sou obrigado a concordar com o Ministro. Ele se referia, obviamente, aos métodos artificiais de prolongamento de uma  vida já sem perspectivas e que constituem uma tortura para os que partem e os que ficam. O filme de Marco Bellocchio, (2012) “ Bella Addormentata” – creio que foi traduzido para “A Bela que dorme” - trata desse assunto. É baseado na história real de Eluana Englaro, uma italiana que viveu 17 anos em estado vegetativo, durante os quais sua família lutou para que a justiça autorizasse o desligamento dos aparelhos. O filme, polêmico, discute os aspectos morais e religiosos que envolveram o caso, bem como suas implicações políticas.
Não tenho opinião formada sobre a eutanásia. Mas de uma coisa estou certo: gostaria de morrer em bom estado.

Para quem viu “A Balada de Narayama”, o filme japonês  premiado em Cannes, em 1983, uma história verídica sobre a viagem final de que estamos falando, será mais fácil entender o Ministro. Até fins do Século XIX existia, em algumas partes do Japão, uma estranha tradição. Devido a penúria e escassez de alimentos em que vivia a população, quando o idoso chegasse ao ponto em que não podia mais prover o seu sustento, era levado pelo filho mais velho até o topo da montanha de Narayama, considerada sagrada, e ali o deixaria, sentado, até se extinguir. Na história uma velha mãe, apesar de ainda em boa forma, mas sabendo que uma boca a menos para alimentar seria importante para a família obriga o filho a levá-la.

Bem, no mundo de hoje não temos do que nos queixar. Reclamar porque o reajuste das aposentadorias dos super-velhos  não acompanha a inflação, não faz sentido depois do que disse o Ministro Taro Aso. Seus apelos estão sendo atendidos  de maneira discreta, na medida em que os planos de saúde são reajustados acima da taxa de inflação embora remunerem os médicos
de maneira ignóbil. Sem falar na contribuição dada pelo aumento do preço dos remédios. Mas, pelo menos, ainda resta uma coisa boa. Nossos velhinhos podem viajar de graça nos ônibus. É só aguentar as freadas.




05 dezembro 2014

Crônica da despedida

Estou aqui para fazer uma despedida. Portanto, serei breve.
Nossos grandes escritores estão morrendo.  E todos de uma vez.
Como dizia um colega meu, sergipano, “Deus quando manda, manda de ruma”.  Comecei a tomar consciência disso quando perdemos o Chico Anysio. Não sei se os críticos literários o consideram grande escritor ou apenas um humorista mas, para mim, ele era ambas as coisas. Assisti a alguns espetáculos dele, inclusive um em Manaus, imaginem, onde a plateia delirou. Por que em Manaus? Porque ele estava lá e eu também.

Depois veio o... - veio, não, foi-se - o Millôr Fernandes que  não só  foi  grande escritor mas também teatrólogo, poeta, caricaturista e, sobretudo, um grande filósofo. O meu primeiro encontro com Millôr foi uma piada. Eu estava em Natal, para a inauguração de uma fábrica. Amparados pela  sombra de cajueiros, os convidados tomavam aperitivo enquanto aguardavam a hora do almoço. Eu me aproximei de uma mesa onde estavam sentados alguns colegas de trabalho. Um deles não me pareceu muito familiar, mas me lembrava  alguém. Despejei-lhe um tapão nas costas e disse:  “Nossa! Como você é parecido com o Millor”.
Ele apontou o dedo indicador da mão direita para o meu nariz, enquanto afagava, com a mão esquerda, a parte dolorida do ombro, e disse:  “Eu sou o Millor” !

Seguiu-se o João Ubaldo, prematuramente. Foi difícil de acreditar. Eu me acordava cedo, todos os domingos, só para ler suas crônicas. Ficou a saudade da Ilha de Itaparica e seus personagens folclóricos.

Agora, Ariano Suassuna. Quem poderia imaginar! Eu o ouvia, extasiado, quando ele contava suas histórias de Taperoá  ou quando citava  Inocêncio Bico Doce para alguma tirada cômica. Para não falar de suas presepadas do tempo de estudante,  como quando foi preso porque estava tomando banho nu no Rio Capibaribe. Levado à presença do delegado, este passou-lhe  uma reprimenda: “Então, o senhor estava tomando banho nu, não é, seu moleque?”  E Ariano, impávido: “Por que, seu Delegado, o senhor toma banho vestido, é? Uma vez, quando acabava de lançar seu Movimento Armoral,  Ariano mandou chamar três de seus amigos para uma reunião, talvez a mais curta da história: Francisco Brennand,  José Laurênio  de Melo e Gastão de Holanda, que participava, junto com Ariano e Laurênio, do “Gráfico Amador`”, a valorosa editora artesanal: -  “Chamei vocês aqui pra lhes dizer que vocês estão proibidos de morrer”. E despachou-os.

Sempre achei que os grandes escritores não morreriam nunca.  Descobri que estava enganado, e me conformo. E só não digo que serei o próximo da fila porque não quero parecer presunçoso.


27 novembro 2014

Ruim de vida



Raimundo Nonato mal completou quinze anos de idade. Acorda cedo. Naquela manhã fresca e úmida percorre  a longa alameda que o separa da escola,  serpenteando por entre os oitizeiros. Da calçada coberta pelos frutos maduros,  levanta-se o  cheiro dos oitis, inundando o ar. É um cheiro acre, pungente, desagradável.  Causa-lhe náuseas. Vez por outra Raimundo interrompe sua caminhada para ouvir o canto de um pássaro, contemplar as gotas de orvalho que ainda cobrem as folhas nos jardins ou examinar uma teia de aranha que se destaca no contra luz do sol.
Raimundo sente-se angustiado. Por mais bucólica que fosse aquela manhã não consegue liberar-se das inquietações que o perseguem. Não vislumbra um  futuro.  Estará aprendendo alguma coisa? Como será o amanhã?  E  se não houver amanhã?  E esse maldito cheiro de oitis que não termina nunca?

A rotina era estafante: chegada na escola, ginástica, café da manhã, aulas práticas nas oficinas, almoço, aulas teóricas durante toda a tarde. E a volta pela longa alameda com o cheiro nauseabundo dos oitis.
Hoje é sábado, não haverá aula. Raimundo não sabe por que resolveu  fazer a caminhada. Quando se deu conta já estava no meio da alameda chutando oitis, marcando gols nos buracos das grades que cercam os jardins. Consolou-se. Seria interessante observar o velho prédio da escola pendurado sobre a margem do rio; as barcaças carregadas de areia, rio abaixo, levadas pela correnteza e rio acima, vazias, empurradas pelo varejão, a longa vara de pau que o remador apoia no ombro, caminhando pelo costado da embarcação. Com o prédio deserto, o cenário era de paz. Mas Raimundo sente-se intranquilo. Olha para o lado oposto. A poucos metros, dali, bem colado ao rio, encontra-se um velho tambor de caldeira que não teria mais do que um metro de diâmetro, sombreado por uma tamarineira.
Ali mora Zé da Cuia, um indigente que vive de magras contribuições em troca de pequenos serviços. Não aceita esmolas. Alimenta-se na escola com as sobras do café da manhã e do almoço.
Zé estava pescando, como fazia quase todas as manhãs. Raimundo puxa conversa.
- E aí, Zé, pescando?
- Não, rezando.
-Ahâ...
Raimundo resolve passar para o outro lado e atravessa por cima da vara de pescar que se encontra apoiada na terra.
- Não faça isso! Você não sabe que dá azar? Espanta os peixes.
- Desculpa. Você já comeu hoje?
- Já. Guardei de ontem. Tinha munguzá e tapioca.
Estimulado pelo interesse do rapaz, Zé da Cuia começou a falar um pouco de sua vida. Falou das dificuldades pelas quais tinha passado, do sofrimento e das agruras que o atormentaram por muito tempo.
- Não tinha onde dormir. Comida  eu catava nos baldes  que os restaurantes jogavam fora. Pra me vestir catava roupa no lixo...
Zé fez um longo silêncio, fitando o chão. E concluiu:
- É, meu amigo, eu já andei ruim de vida.
Ruim de vida!
 As palavras não saiam da cabeça de Raimundo. “O sofrimento relativo”.
Zé da Cuia vivia o sofrimento relativo. Portanto, havia alcançado a “felicidade relativa”. Nossa insatisfação cresce continuamente. Ansiamos ter. E quanto mais temos, mais queremos. E assim vamos ao encontro da infelicidade.
Raimundo Nonato contemplou demoradamente o rio. As barcaças de areia desciam levadas pela corrente e subiam levadas pelo homem. Despediu-se de Zé da Cuia com um beijo na testa.
E percorrendo o caminho de volta pela longa alameda, saltitava  por entre as árvores aspirando o aroma delicioso e inebriante dos oitis maduros.


05 novembro 2014

Y a Chile nos fuimos

O turista desavisado que chegasse ao Vale do Curicó encontraria uma paisagem árida, sem cor, sem atrações. Em pouco tempo descobriria que estava enganado. Na terra aparentemente seca e áspera extensos vinhedos se multiplicam, simétricos, intermináveis, mimetizados em sua cor pardacenta. O nosso turista mudaria de opinião ao contemplar os troncos retorcidos e secos das videiras centenárias. Aí ele descobriria a mágica que se esconde nessa paisagem aparentemente monótona  que produz  um dos maiores milagres da natureza: o vinho.
E era de vinho que iríamos tratar. Conduzidos por dois “chiflados” aventureiros, chegamos ao Vale em uma linda e ensolarada manhã. O nome do hotel - Raices - completava o quadro. Uma construção baixa, de estilo colonial, sem escadas, elevadores, corredores sem fim. Atendidos por funcionários eficientes e discretos, o hotel nos proporcionava o ambiente descontraído e discreto para que nos pudéssemos concentrar naquilo que realmente contava: o vinho. A primeira visita foi à Casa Silva, vinícola que produz vinhos premiados em muita exposições internacionais. O responsável por esse sucesso é o enólogo Mario Geisse, que, junto com os filhos Daniel e Rodrigo, fundou a Cave Geisse, na Serra Gaúcha, que também vem conquistando prêmios no exterior. Na degustação, além dos famosos tintos, destacamos um vinho branco: o Sauvignon Gris. No vinhedo desta uva, próximo ao prédio principal, uma placa nos informa:

“Sauvignon Gris  -  Ano do plantio: 1912 -  Espaçamento:1,0 x 1,5 m

No dia seguinte visitamos a Miguel Torres, prestigiosa vinícola que produz o Manso de Velazco e o Superunda, onde recebemos um tratamento especial e, no almoço, fomos brindados com uma original “cozinha participativa”. Fomos divididos em grupos de três e cada  grupo, sob o comando de um chef,  observou a elaboração de um prato. Em seguida cada participante elaborava , por sua vez, o mesmo prato o qual seguiria para ser servido no almoço. Tudo sincronizado à perfeição, uma insuperável aula de gastronomia ministrada pelos chefs da Miguel Torres. Vale destacar que o restaurante da Miguel Torres é considerado  o melhor do país, dentro de uma vinícola.
Sucederam-se as visitas à Baron Philippe Rotschild, produtora do famoso Escudo Rojo,  emblema da tradicional família de banqueiros e, em seguida, à Almaviva, outro ponto alto da nossa expedição. Em ambas fomos recebidos com muito carinho e atenção, o que fez com que nos sentíssemos velhos amigos. Em todas elas as degustações foram generosas e a exposição dos processos de produção sempre franca e totalmente aberta, o que mostra o prestígio e a confiança de que a corajosa Flajur Turismo desfruta junto às vinícolas chilenas.
Do ponto de vista gastronômico – recreativo,  a expedição nos reservaria um programa surpresa que, posso dizer foi um dos mais emocionantes que passei em toda a minha vida. Em Santiago: “Um dia na Cordilheira” A longa subida até três mil metros de altura, por uma estrada tortuosa, entre picos e abismos, pontilhada por placas de neve que ainda resistiam ao abrasador sol do quase verão, foi de tirar o fôlego. Literalmente. Porque todos sabem que nessa altura  sobre o nível do mar, qualquer movimento do corpo equivale a um esforço dobrado. Chegados ao topo, a visão dos penhascos oferecia um espetáculo deslumbrante, que conduzia a um estado contemplativo. Fazia-se mister encontrar um lugar adequado para repousar a carcaça já combalida pelas atividades precedentes e, não menos importante, fazer chegar ao estômago algo que o tranquilizasse posto que o relógio, de há muito, havia batido as 2 horas da tarde. Enquanto aguardava, meu olhar percorria  a gigantesca montanha, com suas escarpas íngremes e pedregosas, cheias de mistério. Não soprava mais o vento gelado do inverno. O sol era abrasador. Pensativo, veio-me à memória a canção que costumava ouvir em outras épocas:

                    Que sabes de cordillera
                    Si tu nasciste tan lejos
                    Hay que conocer la piedra
                    Que corona el ventisquero
                    Hay que recorrer callando
                    Los atajos del silencio
                    Y cortar por las orillas
                    De los lagos cumbrereños...
                    Mi padre anduvo su vida
                    Por entre piedras y cerros...

O tempo passava.  Eu estava esfomeado.  A vista ficando turva.  Por momentos pensei em ficar ali e deixar-me petrificar  entre as placas de neve que ainda resistiam em algum flanco da encosta. A canção produzira seu efeito. Consciente, recuperei-me e me lembrei de que aquilo era somente um passeio. Um passeio? Foi o que pensei mas logo descobriria que aquilo não era simplesmente um passeio.
Depois de alguma caminhada chegamos, finalmente, a um patamar esculpido na encosta onde três ou quatro abrigos ofereciam mesinhas e bancos talhados na pedra. À volta tudo era sol. Sentei-me num deles e fechei os olhos com a intenção de repousar. Mais uma vez o tempo passou. Voltei à mim e mal pude acreditar no que via. Em um abrigo próximo,  a dupla de  “chiflados”  montava o seu templo gastronômico. Um fogão, extraído das entranhas da terra, apareceu por encanto sobre a mesinha de pedra. Sobre ele, uma enorme panela. Facas, tábuas e apetrechos diversos saiam de bornais nunca antes vistos. Polvos, lulas, centollas e mariscos de todo o tipo eram limpos e esmiuçados pelas facas habilmente brandidas. Um aroma de mar inebriava o ambiente ... a três mil metros de altura!

Logo começaram a chegar à nossa mesa as primeiras iguarias, acompanhadas do inseparável companheiro: o vinho. Eu espiava tudo, sem acreditar. Jurandyr  agitava os braços brandindo as armas, esticava o pescoço, gritava ordens, virava sobre os calcanhares, executando uma coreografia diabólica. Terminada a pajelança, declarou  pronto o panelão,  para que fosse servido. Eu, restaurado moral e fisicamente,
recuperei a confiança na humanidade.

Nova experiência eletrizante nos aguardava ainda em Santiago. Chegamos ao hotel, uma construção convencional sem maiores atrativos se não fosse o seu ar majestático e sua decoração  no melhor estilo hindu. Situado em pleno centro, o que significa estar próximo à Plaza  de Armas e ao Palacio de La Moneda. Tratava-se,  portanto, de uma ótima localização para políticos e homens de negócios. Aparte o fascínio exercido pela decoração hindu, à qual se somava o delicioso cheiro de  curry que exalava do seu restaurante, não dava para entender a sua localização. Soube depois que a escolha resultara de uma falha ocorrida durante a operação de magia que pautava o processo decisório. Não se sabe como, a fada que deveria dar o toque final com sua varinha mágica foi substituída por uma bruxa má.
E deu no que deu.

Entrei no meu quarto. Era minúsculo e, portanto, acolhedor. E foi suficiente para abrigar as malas debaixo da cama e colocar o relógio e o celular sobre a mesinha de cabeceira. Outra coisa boa: não havia, no banheiro, aqueles malditos mini sabonetes que só fazem atrapalhar. No seu lugar um lindo provedor de sabão líquido colado junto à pia. Ademais, fomos regalados pela  “Fla Jur Turismo”  com um rico sabonete de tamanho normal, acompanhado de uma linda saboneteira. Quem estava sozinho no quarto, obviamente recebeu meio sabonete , prova de que a Flajur aplica seus recursos  de maneira consciente.
Procurei uma janela para ver o que havia à minha volta. Eu tinha notado que, existia, bem na frente do hotel, um movimentadíssimo  ponto de ônibus e estava curioso para ver como a galera santiagueña se virava na hora do “rush”.
Encontrei a janela, era bem grande, fechada por uma cortina, dessas de correr, vertical. Levantei a cortina, surgiu uma grande parede de vidro e, do outro lado ... surpresa! uma linda sala de estar, com mesinhas, poltronas e quadros na parede. Entusiasmado com a engenhosidade do arquiteto, procurei o caminho para chegar a ela mas não o encontrei. Achei bom pois, assim, eu não precisaria dividir com ninguém a linda paisagem que eu contemplava da minha janela. Orgulhoso com as minhas descobertas, chamei a atenção da minha esposa para a majestade do nosso hotel e mostrei o nosso quarto como exemplo bem sucedido de minimalismo, tão de moda em nossos dias.

“In vino veritas” , queridos amigos. Este não faltou. Foram sete dias alegres, bem vividos, onde aprendemos muito e de tudo, onde aprendemos a cultivar a convivência, o relacionamento fraternal, praticando a tolerância e a solidariedade, o respeito às ideias conflitantes, a criar a verdadeira amizade, incondicional. Parabéns a todos. Parabéns ao Fla, ao Jur, e à “Fla Jur Turismo”. Parabéns às Vinícolas, às videiras  e seus frutos e .... ao Vinho!

Lembrete: “ Se você busca aventuras procure a “Fla Jur Turismo”




22 maio 2014

A Grande Receita


Rigatoni com carvoezinhos de carne e sálvia


         Preparei "a grande receita" mas resolvi que só a publicaria depois que alcançasse, pelo menos, 80 por cento de aprovação numa pesquisa feita entre os meus incautos leitores. Já alcancei 9 por cento. Estou pensando em ampliar o universo da pesquisa, mas, com quem? 

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Passados alguns dias preparei-me, como disse, para ampliar o universo da  minha  pesquisa  buscando  melhorar o índice de aprovação à minha grande receita, que só havia alcançado 9 por cento. Para meu espanto, 7 por cento haviam desaparecido, mas eu ainda continuava com 2 por cento. Não desanimei. Resolvi publicar a receita assim mesmo, sempre inspirado  naqueles cientistas geniais que acabam inventando coisas uteis porque o que estavam fazendo dava  errado. Você conhece as histórias: a descoberta da borracha para pneus, a invenção do velcro, do papelzinho de recados que cola, descola, e cola, etc.  etc.

Não sou muito de ver televisão mas disseram-me que ali são frequentes os programas de culinária que ensinam a aproveitar sobras das refeições do dia a dia para fazer pratos deliciosos. Procurei na geladeira o que havia sobrado da noite anterior. Nada de volumoso ou coisa que me permitisse efetuar grandes elaborações. Apenas um prato de carpaccio, você sabe, aquela carninha cortada com o micrótomo e que se come crua. Imaginei utilizá-lo, não como carpaccio, por natureza cru, mas como carne cozida. Picado e refogado na manteiga, adicionado de salvia, eu teria um molho para um prato de massa. Esta seria o rigatoni, uma massa curta, e eu teria, assim um prato clássico que na Itália recebe o nome de  “Alla Bergamasca”.

Piquei a carne com cuidado pois a espessura das lâminas não permitia exageros. Coloquei a manteiga para aquecer e prestei muita atenção à sua temperatura para não queimar aquelas micro partículas de carne. Tudo funcionou como podia ter sido previsto. Ao dar a primeira volta com a colher de pau minhas ricas partículas de carne haviam se transformado em ricos grânulos de carvão. Um prato singelo, de valor estético inestimável. O contraste dos pontinhos pretos envolvendo o tubo branco do rigatone era, realmente, uma coisa nova e difícil de obter. Fiquei contemplando a minha obra e cheguei à conclusão de que havia criado algo digno da cozinha molecular. Quando li o livro do Hervè This, há um par de anos,  sobre cozinha molecular,  não pensei que um dia chegaria tão perto de criar uma coisa do gênero. Eu tratei desse assunto muitas crônicas atrás em  “O sabor oculto das coisas”, creio que foi em Novembro de 2012. Não sei como as coisas evoluíram de lá pra cá.  Mas fiquei muito orgulhoso com a minha invenção.  Inventar é muito bonito. Duro é comer o fruto da invenção.

Já sei, você está dizendo que roubei o título do Paolo Sorrentino "La Grande Bellezza". Roubei mesmo. E você, já viu o filme? Não perca.






25 abril 2014

Cabeça dura


Passei a vida ouvindo dos meus amigos que eu era um cabeça dura. Nunca concordei. É verdade que, ainda na tenra idade, por volta dos oito anos, minha mãe já sentenciava:
 “Esse menino é cabeça dura. Vai dar trabalho aos professores na escola, à esposa quando se casar e aos médicos pelo resto da vida”.

Não nego que sempre defendi com tenacidade exacerbada algumas ideias que considerava inovadoras como por exemplo quando, no alvor da juventude, após devorar a história dos grandes convertidos começando por Santo Agostinho, Tomas Merton, Saint Exupery, Paulo Setubal e não sei quantos mais, eu mesmo me desconverti e me declarei ateu. Também não posso esconder que, logo depois, assustado com um temporal que disparava raios que só podiam ser mandados por Deus, amoleci a cabeça e, prudentemente, mudei para agnóstico. Nunca se sabe, vai que...

Outro exemplo do denodo com que defendi minhas ideias foi quando tentei convencer minha noiva de que o casamento era uma instituição falida e que o negócio era a amigação. Nisto eu não estava sendo original. Acabava de ler Bertrand Russel e ele mostrava isso. Minha noiva deu uma gargalhada e disse que eu era muito engraçado. Interpretei isso como um elogio e casei-me na Igreja. Para não perder a dignidade, contei com a  intervenção do meu amigo Valfrido Salmito que me dizia: “Galego, você é o ateu mais cristão que eu conheço. Vai casar na Igreja, sim.”
Agora, passados cinquenta anos, vocês concordarão comigo Eu estava certo. Não preciso entrar em detalhes. Examinem os casais à sua volta, consultem as estatísticas e vocês me darão razão.

Mas isto foi apenas uma digressão. Minha intenção é cuidar de outro assunto. A ciência nos ensina que a cabeça é composta de duas partes: o miolo e a casca. Por princípio, o miolo é mole e a casca é dura. Mas, vejam só, a expressão “cabeça dura” se aplica ao miolo e não à casca pois define o individuo que é teimoso ou, com um pouco de boa vontade, àquele que é tenaz na defesa de suas ideias. O miolo que defende a amigação dos casais é protegido pela casca. Não sabemos, até agora, se o grau de rigidez da casca é direta ou inversamente proporcional à dureza do miolo, mas que existe uma relação não há dúvida.
Uma experiência vivida há poucos dias demonstrou-me isto e devo dizer que, lamentavelmente, prevaleceu a segunda hipótese.

Eu caminhava com desenvoltura pela casa no cumprimento de tarefas inadiáveis de quem não tem o que fazer quando, inesperadamente, algo interrompeu o meu caminho. Dei de cara, quero dizer, de cabeça com uma pesada viga de madeira que cumpria o seu dever de sustentar o teto. Um estrondo e um relâmpago. Percebi que eu tombava, e para traz. Durante o percurso pensei: vou cair de costas, não tenho como apoiar-me com as mãos, espero cair sentado. Foi o que aconteceu. O impacto dos grandes glúteos com o solo não teve maiores consequências mas a energia cinética armazenada no primeiro estágio da queda fez com que o tronco continuasse o seu caminho em direção ao solo. Desta vez foi um estalo seco como o de um raio quando parte uma árvore ao meio. Um clarão enorme. Não sei quanto tempo fiquei deitado mas quando levantei o tronco, ainda sentado, apalpei a cabeça. Um galo havia se formado na base da nuca. Não havia sangue.
Olhei para traz. No percurso havia partido o canto de uma mesa de mármore com dois centímetros de espessura.  Descartei os estilhaços e recolhi o pedaço maior, que guardo comigo.  Levo-o  no bolso sempre que saio para caminhar. É o meu GPS.
Agora todo o mundo me chama de miolo mole.