05 novembro 2014

Y a Chile nos fuimos

O turista desavisado que chegasse ao Vale do Curicó encontraria uma paisagem árida, sem cor, sem atrações. Em pouco tempo descobriria que estava enganado. Na terra aparentemente seca e áspera extensos vinhedos se multiplicam, simétricos, intermináveis, mimetizados em sua cor pardacenta. O nosso turista mudaria de opinião ao contemplar os troncos retorcidos e secos das videiras centenárias. Aí ele descobriria a mágica que se esconde nessa paisagem aparentemente monótona  que produz  um dos maiores milagres da natureza: o vinho.
E era de vinho que iríamos tratar. Conduzidos por dois “chiflados” aventureiros, chegamos ao Vale em uma linda e ensolarada manhã. O nome do hotel - Raices - completava o quadro. Uma construção baixa, de estilo colonial, sem escadas, elevadores, corredores sem fim. Atendidos por funcionários eficientes e discretos, o hotel nos proporcionava o ambiente descontraído e discreto para que nos pudéssemos concentrar naquilo que realmente contava: o vinho. A primeira visita foi à Casa Silva, vinícola que produz vinhos premiados em muita exposições internacionais. O responsável por esse sucesso é o enólogo Mario Geisse, que, junto com os filhos Daniel e Rodrigo, fundou a Cave Geisse, na Serra Gaúcha, que também vem conquistando prêmios no exterior. Na degustação, além dos famosos tintos, destacamos um vinho branco: o Sauvignon Gris. No vinhedo desta uva, próximo ao prédio principal, uma placa nos informa:

“Sauvignon Gris  -  Ano do plantio: 1912 -  Espaçamento:1,0 x 1,5 m

No dia seguinte visitamos a Miguel Torres, prestigiosa vinícola que produz o Manso de Velazco e o Superunda, onde recebemos um tratamento especial e, no almoço, fomos brindados com uma original “cozinha participativa”. Fomos divididos em grupos de três e cada  grupo, sob o comando de um chef,  observou a elaboração de um prato. Em seguida cada participante elaborava , por sua vez, o mesmo prato o qual seguiria para ser servido no almoço. Tudo sincronizado à perfeição, uma insuperável aula de gastronomia ministrada pelos chefs da Miguel Torres. Vale destacar que o restaurante da Miguel Torres é considerado  o melhor do país, dentro de uma vinícola.
Sucederam-se as visitas à Baron Philippe Rotschild, produtora do famoso Escudo Rojo,  emblema da tradicional família de banqueiros e, em seguida, à Almaviva, outro ponto alto da nossa expedição. Em ambas fomos recebidos com muito carinho e atenção, o que fez com que nos sentíssemos velhos amigos. Em todas elas as degustações foram generosas e a exposição dos processos de produção sempre franca e totalmente aberta, o que mostra o prestígio e a confiança de que a corajosa Flajur Turismo desfruta junto às vinícolas chilenas.
Do ponto de vista gastronômico – recreativo,  a expedição nos reservaria um programa surpresa que, posso dizer foi um dos mais emocionantes que passei em toda a minha vida. Em Santiago: “Um dia na Cordilheira” A longa subida até três mil metros de altura, por uma estrada tortuosa, entre picos e abismos, pontilhada por placas de neve que ainda resistiam ao abrasador sol do quase verão, foi de tirar o fôlego. Literalmente. Porque todos sabem que nessa altura  sobre o nível do mar, qualquer movimento do corpo equivale a um esforço dobrado. Chegados ao topo, a visão dos penhascos oferecia um espetáculo deslumbrante, que conduzia a um estado contemplativo. Fazia-se mister encontrar um lugar adequado para repousar a carcaça já combalida pelas atividades precedentes e, não menos importante, fazer chegar ao estômago algo que o tranquilizasse posto que o relógio, de há muito, havia batido as 2 horas da tarde. Enquanto aguardava, meu olhar percorria  a gigantesca montanha, com suas escarpas íngremes e pedregosas, cheias de mistério. Não soprava mais o vento gelado do inverno. O sol era abrasador. Pensativo, veio-me à memória a canção que costumava ouvir em outras épocas:

                    Que sabes de cordillera
                    Si tu nasciste tan lejos
                    Hay que conocer la piedra
                    Que corona el ventisquero
                    Hay que recorrer callando
                    Los atajos del silencio
                    Y cortar por las orillas
                    De los lagos cumbrereños...
                    Mi padre anduvo su vida
                    Por entre piedras y cerros...

O tempo passava.  Eu estava esfomeado.  A vista ficando turva.  Por momentos pensei em ficar ali e deixar-me petrificar  entre as placas de neve que ainda resistiam em algum flanco da encosta. A canção produzira seu efeito. Consciente, recuperei-me e me lembrei de que aquilo era somente um passeio. Um passeio? Foi o que pensei mas logo descobriria que aquilo não era simplesmente um passeio.
Depois de alguma caminhada chegamos, finalmente, a um patamar esculpido na encosta onde três ou quatro abrigos ofereciam mesinhas e bancos talhados na pedra. À volta tudo era sol. Sentei-me num deles e fechei os olhos com a intenção de repousar. Mais uma vez o tempo passou. Voltei à mim e mal pude acreditar no que via. Em um abrigo próximo,  a dupla de  “chiflados”  montava o seu templo gastronômico. Um fogão, extraído das entranhas da terra, apareceu por encanto sobre a mesinha de pedra. Sobre ele, uma enorme panela. Facas, tábuas e apetrechos diversos saiam de bornais nunca antes vistos. Polvos, lulas, centollas e mariscos de todo o tipo eram limpos e esmiuçados pelas facas habilmente brandidas. Um aroma de mar inebriava o ambiente ... a três mil metros de altura!

Logo começaram a chegar à nossa mesa as primeiras iguarias, acompanhadas do inseparável companheiro: o vinho. Eu espiava tudo, sem acreditar. Jurandyr  agitava os braços brandindo as armas, esticava o pescoço, gritava ordens, virava sobre os calcanhares, executando uma coreografia diabólica. Terminada a pajelança, declarou  pronto o panelão,  para que fosse servido. Eu, restaurado moral e fisicamente,
recuperei a confiança na humanidade.

Nova experiência eletrizante nos aguardava ainda em Santiago. Chegamos ao hotel, uma construção convencional sem maiores atrativos se não fosse o seu ar majestático e sua decoração  no melhor estilo hindu. Situado em pleno centro, o que significa estar próximo à Plaza  de Armas e ao Palacio de La Moneda. Tratava-se,  portanto, de uma ótima localização para políticos e homens de negócios. Aparte o fascínio exercido pela decoração hindu, à qual se somava o delicioso cheiro de  curry que exalava do seu restaurante, não dava para entender a sua localização. Soube depois que a escolha resultara de uma falha ocorrida durante a operação de magia que pautava o processo decisório. Não se sabe como, a fada que deveria dar o toque final com sua varinha mágica foi substituída por uma bruxa má.
E deu no que deu.

Entrei no meu quarto. Era minúsculo e, portanto, acolhedor. E foi suficiente para abrigar as malas debaixo da cama e colocar o relógio e o celular sobre a mesinha de cabeceira. Outra coisa boa: não havia, no banheiro, aqueles malditos mini sabonetes que só fazem atrapalhar. No seu lugar um lindo provedor de sabão líquido colado junto à pia. Ademais, fomos regalados pela  “Fla Jur Turismo”  com um rico sabonete de tamanho normal, acompanhado de uma linda saboneteira. Quem estava sozinho no quarto, obviamente recebeu meio sabonete , prova de que a Flajur aplica seus recursos  de maneira consciente.
Procurei uma janela para ver o que havia à minha volta. Eu tinha notado que, existia, bem na frente do hotel, um movimentadíssimo  ponto de ônibus e estava curioso para ver como a galera santiagueña se virava na hora do “rush”.
Encontrei a janela, era bem grande, fechada por uma cortina, dessas de correr, vertical. Levantei a cortina, surgiu uma grande parede de vidro e, do outro lado ... surpresa! uma linda sala de estar, com mesinhas, poltronas e quadros na parede. Entusiasmado com a engenhosidade do arquiteto, procurei o caminho para chegar a ela mas não o encontrei. Achei bom pois, assim, eu não precisaria dividir com ninguém a linda paisagem que eu contemplava da minha janela. Orgulhoso com as minhas descobertas, chamei a atenção da minha esposa para a majestade do nosso hotel e mostrei o nosso quarto como exemplo bem sucedido de minimalismo, tão de moda em nossos dias.

“In vino veritas” , queridos amigos. Este não faltou. Foram sete dias alegres, bem vividos, onde aprendemos muito e de tudo, onde aprendemos a cultivar a convivência, o relacionamento fraternal, praticando a tolerância e a solidariedade, o respeito às ideias conflitantes, a criar a verdadeira amizade, incondicional. Parabéns a todos. Parabéns ao Fla, ao Jur, e à “Fla Jur Turismo”. Parabéns às Vinícolas, às videiras  e seus frutos e .... ao Vinho!

Lembrete: “ Se você busca aventuras procure a “Fla Jur Turismo”




2 comentários:

  1. Fomos...
    e voltamos!

    Sãos e salvos, e mais felizes e mais experientes também.

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