13 junho 2020

Meus Irmãos em Penitência



 Queridos irmãos.
Muito tempo atrás escrevi “O Colaminho”. Era a história de um casal que, por causa de um colaminho, meteu-se numa discussão inicialmente civilizada mas que, aos poucos, foi-se tornando cruenta, redundou em briga feroz e terminou em separação. E ambos foram infelizes para sempre. E tudo por causa de um colaminho !

Eu não vim aqui hoje recontar essa história, mas para   estabelecer um paralelo com os dias que estamos vivendo.
Em estado de contrição, engolfados nessa penitência austera que nos foi imposta pelas iniquidades que cometemos, nos arrastamos entre as quatro paredes que o destino, a nossa laboriosidade o nosso sacrifício ou a nossa ganância, nos reservou.
Apelei para o diálogo que levou à separação do casal para dar um exemplo de como as pessoas, sob o efeito dessa “Pandemonia” sem acento, perdem a noção espaço/tempo e embaralham seus sentimentos tornando-se impacientes, rancorosos, intolerantes, transformando-se em alguém a ser evitado. Um ser estressado e deprimido, esse é o protótipo para o qual tende o cidadão confinado de nossos dias.

ORATE FRATES. Orai irmãos é o que vos peço.  

E quem o pede é alguém que nunca orou. Deve ter sido erro de fabricação. Mas essa foi uma prática que eu nunca consegui incorporar e, para justificar-me, eu dizia que a minha oração era o trabalho. Com isso, fui engabelando os devotos amigos que me toleraram e, apiedados, certamente rezaram por mim.
Mas devo dizer que ímpio não sou. Porque um dia, muito tempo depois, para minha surpresa, encontro em um texto qualquer que lia por acaso, as seguintes palavras:  . . .  “a melhor forma de oração é o trabalho”.

Precisamos nos acostumar. O isolamento está aí e não sabemos quando irá terminar nem como irá terminar. Temos que
nos adaptar ao novo sistema de vida, limitado em sua amplitude e aliviado com os novos meios de comunicação – e aqui me refiro principalmente àqueles que ainda usam lápis e papel para se fazerem entender. Precisamos inventar o que fazer para dissipar esse tempo exasperador que se recusa a passar. É preciso criar,  fazer o bestunto funcionar para que possa inventar coisas.

E aqui uma delas já me vem à cabeça: o Silêncio.
Aprenda a ficar em silêncio!
Você não terá obrigação de responder perguntas e, mais importante, você não irá mais falar besteiras. Se for preciso pendure no pescoço uma plaquinha dizendo “Em Voto de Silêncio”. Mas, cuidado! Dependendo do seu temperamento o silêncio pode ser traiçoeiro, e você acaba ficando mais deprimido ainda. Então fale suas besteiras à vontade, e aguente as consequências.

Cabe-me agora uma digressão. Devo contar uma experiencia que vivi quando ainda era bem jovem, no meu amado Recife, e que tem a ver com o silêncio. Uma vez por ano eu costumava fazer um retiro espiritual. O período era o Carnaval ou a Semana Santa e o local mais importante era um convento de frades.
Outro local, usado no período de férias escolares, era uma barraca com teto de palha de coqueiro na Praia do Ó, a 13 quilômetros  da cidade de Paulista, um reduto onde morava apenas um grupo de pescadores de lagosta.
No caso que vou relatar eu estava no Convento de Frades. Creio que eram Maristas e ficava na Praia da Piedade, logo depois de Boa Viagem. O Convento estava plantado em plena praia, de frente para o mar. O retiro durava seis dias e obedecia à uma regra geral: Silêncio absoluto! Ninguém podia falar. Durante o evento eram proferidas palestras e prédicas religiosas, bem como orações, sempre por parte dos frades. Instruções ligeiras aos fiéis emanavam dos religiosos, de forma rápida e sintética. Não eram admitidas perguntas. Nas horas de folga era facultado o banho de mar, vigiado por um frade, para garantir o silêncio dos fiéis.
O resultado dessa experiência foi assombroso. Seis dias sem falar.
Ao recuperar a voz, eu tive a sensação de estar ressuscitando. Parecia-me descobrir um mundo novo. Ao despedir-me dos frades minha voz parecia estar descendo das nuvens.

Mas voltemos ao nosso trabalho: descobrir o que fazer e como fazer, para cumprir nossa Penitência.
Para completar fui à procura de métodos e sugestões e, não me avexo de confessar, andei fuçando nos livros de auto ajuda. Não vou conseguir citar as fontes, em primeiro lugar pela sua extensão e depois, porque não tenho certeza se elas vão auto ajudar mesmo. Mas fiquem tranquilos: estarão devidamente entre aspas.

“Cuide da postura corporal.
  Durma sem travesseiro.
  Experimente não usar o encosto da cadeira.
  Não reclame das contrariedades que ouve.
  Não assista TV.
  Fuja dos Tizapps e Facebuques.
  Pare de falar mal dos outros.
  Pare de falar bem de você.
  Coma muita saladinha. E coma sem tempero.”

Para concluir, devo dizer que estou cansado. Trabalhei muito na vida. Construí fábricas, dei aulas, dirigi empresas, escrevi teses e fiz teatro nas horas vagas. E agora, quando planejo o meu futuro, tudo o que tenho a oferecer é . . .  um passado.      





04 junho 2020

Domiciana - A Iluminada




Parece exagero, mas não é. O título é justo.
 Domiciana estava “acima do entendimento humano”.
Domiciana, negra, pobre, analfabeta, sozinha no mundo, tinha todas as características para ser vítima de todos os preconceitos do mundo. Mas Domiciana levitava sobre eles, singrando através  das núvens do Olimpo. Domiciana era pura.

Foi descoberta por Dorotéa, minha esposa, na fila de um Banco. Tinha ido fazer seu recadastramento no INSS, procedimento com o qual a burocracia, aliada à “inclusão digital”, maltrata o cidadão comum, ou seja, aquele ingênuo trabalhador que ainda usa lápis, papel e a voz humana, para se comunicar. Domiciana tinha que preencher um formulário, mas não sabia escrever. Dorotéa prontificou-se a ajudá-la. Enquanto trabalhavam, deu-se o seguinte diálogo:

- Onde é que você mora ?
- Eu moro na Rua do Catete. Divido o quarto com três amigas.
- E o que é que você faz ?
- Eu sou faxineira, trabalho na diária. Já tenho quase todos os dias ocupados, só tenho um dia livre.
- Não, você não tem mais um dia livre. Prepare-se porque você vai trabalhar lá em casa.

E assim foi. Depois de algum tempo cumprindo o seu dia semanal, Domiciana foi devidamente entronizada no Castelo do Cosme Velho. Ocupou seu quarto com banheiro privativo nos 107 metros quadrados que compõem o nosso apartamento, podendo usufruir da deslumbrante vista do Cristo Redentor e contemplar a horta de 2,2 metros quadrados que tenho pendurada em forma de jardineira, nas minhas janelas. Aí planto rúcola e ervas aromáticas para tempero.

Domiciana cuidava da casa, fazia limpeza, lavava a roupa e preparava os deliciosos pratos italianos que Dorotéa lhe ensinava, num verdadeiro sincretismo culinário afro-italiano.

Os anos passavam.  Do ano de 1997, quando a admitimos, já havíamos chegado a 2004. Nossa admiração por ela aumentava a cada dia. Duas qualidades, aparentemente conflitantes, em Domiciana, nos impressionavam: sua ingenuidade e sua sagacidade. O que vou contar explica bem isso.

Certa ocasião um primo meu, italiano, veio visitar-nos. Chamava-se Biggio, uma forma carinhosa de tratar os Luigi, comum na Itália. Muito brincalhão, ele tentava aprender com Domiciana algumas palavras em português. Mas ela não tinha paciência e preferia comunicar-se por meio de mímica. Para isso havia criado uma coreografia própria. Gesticulava tanto que parecia estar dançando um  Maracatu de Luanda.

Um dia tivemos que sair cedo, Dorotéa e eu. O Bíggio ainda dormia. Instruímos Domiciana para que lhe servisse o café da manhã quando se levantasse.
Assim que voltamos percebi que Domiciana, olhando-me de soslaio, atraia Dorotéa para um canto da sala. Afastei-me para não criar embaraço. Ela falava a meia voz:

- “Dona Dorotéa, esse primo do seu Luis é doido. Completamente maluco. Olha só, ele me perguntou se eu não tinha um burro! Eu não respondi, e ele ficou repetindo: Burro! Burro! Burro!  e me mostrava um pedaço de pão. Burro nem come pão. Como é que eu ia ter um burro aqui? E se tivesse, como é que ele ia subir no elevador?”
Burro, em italiano, é manteiga.  Ah, esses falsos cognatos !

Biggio encantou-se com a Domiciana e sucumbiu aos seus quitutes. Num almoço de sábado, em plena feijoada, ele resolveu elogiá-la:

-  “Tu sei brava, Domicciana” !
 E disse isso com o mesmo fervor com que teria aplaudido o Pavarotti no Scala de Milão.

-  “O que? O que que ele disse? Brava? Sou brava sim.”
-  “Come? Come?” repetia o Bíggio, sem entender.
-  “Sou brava mesmo. Eu sou fogo, Eu sou foguinho.
-  “Come? Come?”, continuava ele, atordoado.
Domiciana foi até a cozinha e voltou com uma caixa de fósforos. Tirou um palito e acendeu-o. O Biggio, fingindo-se     assustado, exclamou:
- “Vuoi brucciarmi ?”  (você quer me queimar?)  
Domiciana continuou:
- “Charme? Sim. Tenho muito, muito charme, olha,  olha”  E empinando a bunda, mãos na cintura, começou a imitar as poses da Carmen Miranda e a rebolar.
Foi muito divertido.

Tendo começado a trabalhar conosco em 1997, ao chegar Janeiro de 2004, Domiciana completava sete anos de bons serviços. Em Janeiro de 2005 quis o destino que fôssemos, Dorotéa e eu, morar em Nova Friburgo, com seu aprazível clima de montanha. Levaríamos  Domiciana, obviamente mas, para nossa surpresa, ela não aceitou. Explicou que não suportava o frio, que o lugar seria muito diferente, e coisa assim.
Dorotéa, preocupada, começou a procurar um lugar para alojá-la adequadamente aqui no Rio. Foi quando a Domiciana informou que tinha uma amiga que dispunha de um quarto para alugar. Dorotéa foi em busca da tal amiga. Dona Maria, de Mesquita, era uma ótima pessoa.  

 A partir de então, Dona Maria revelou-se uma excelente guardiã e protetora de sua inquilina.
 Domiciana foi instalada em um quarto externo da casa. Dispunha de banheiro, fogão e pia de modo que podia preparar sua própria comida. Dorotéa assumiu o aluguel e as despesas, bem como manteve o seu salário, para completar a mísera aposentadoria burocrática.

Embarcamos para Friburgo e começamos vida nova. Por volta de 2011, Dorotéa iniciou a busca de um lugar definitivo e adequado para hospedar Domiciana, a esta altura com quase 90 anos e precisando, já, de atenção e cuidados especiais.
Foi quando se chegou ao LAJE – Lar Abrigo Amor a Jesus, uma  instituição modelar de Nova Friburgo, dedicada  ao cuidado de idosos, mantida a custa de doações, eventos sociais de caridade  e. sobretudo, da abnegação e sacrifício dos seus funcionários e administradores.
Feita a inscrição, era preciso aguardar uma vaga.

Sempre que íamos ao Rio, fazíamos uma visita a Domiciana.
Era preciso prepará-la para a mudança. Dorotéa começou a explicar-lhe que se tratava de um  parque, cheio de árvores, pássaros, lugares lindos onde poderia passear e conversar com seus amigos hóspedes. Que havia um refeitório grande e confortável com cinco refeições diárias. Que havia uma enfermaria e médico caso precisasse. Que havia cabelereiro e manicure. Que havia um lavanderia que lhe restituiria suas roupas limpas e cheirosas. E que, acima de tudo isso, ela contaria com o cuidado, o carinho, o amor e a dedicação de todos os enfermeiros, assistentes, administradores e ajudantes daquele mundo complexo que, num  trabalho incógnito e desinteressado, cuidava de idosos.

Em 12 de Maio de 2012, Domiciana recebeu sua vaga. Era preciso transferi-la. Seria um dia muito especial. Sempre que a visitávamos, quando falávamos no assunto, podíamos notar uma mudança no semblante que denotava a nostalgia da partida. Eu temia uma reação descontrolada. Então, me preparei.
Fomos recolhê-la em Mesquita. A primeira coisa que fiz foi sentá-la ao meu lado no banco do carro. Dorotéa ficou atrás, evitando assim que uma conversa entre ambas viesse perturbar a concentração da nossa protegida. Partimos. Durante um longo percurso eu mantive um silêncio respeitoso. Eu espiava Domiciana com o rabo do olho e compreendia sua angústia. Ser extirpada do ninho, arrancada de suas coisas, sua cama aconchegante, seu fogão, e até sua frigideira preferida, era aterrador.
Quando alcançamos a subida da Serra, achei que era chegado o momento de falar.

- “Domiciana, você está indo para um lugar muito especial. Ali você terá todo o conforto e segurança, e  Dorotéa e eu estaremos por perto, visitaremos você e . . .  bla . . .  bla . . . “
Expliquei-lhe tudo o que eu escrevi aí acima. Domiciana não deu uma palavra. Ora olhava a paisagem, ora o teto do carro.
Foi então que resolvi disparar a flecha definitiva:

- “Domiciana, esse lugar que você vai é tão  bom, mas tão bom, que eu mesmo também vou pra lá. Já pedi uma reserva e . . .”
Não pude continuar.

- “É mesmo ? Então o senhor vai no meu lugar ! Não,  Não, o senhor vai no meu lugar, eu posso esperar . . . “

 Domiciana chegou, instalou-se e em poucos dias já era conhecida de todos, dava palpite em tudo e estava ajudando nos trabalhos da lavanderia. O primeiro socorro que ela recebeu foi a ajuda de um enfermeiro que teve que retirá-la de um barranco onde havia caído quando fora colher abacates.
Nós íamos visitá-la com regularidade e cada visita era um divertimento. Ela conhecia a biografia de todo o mundo. Um dia, estávamos conversando no pátio quando um enfermeiro passou.

- “Vocês estão vendo esse aí ?  Ele não usa cueca !
- “Mas como é que você sabe, Domiciana ?
- “Ora, não tá vendo a calça dele afundada no rego da bunda? Aquilo é falta de cueca.”

O tempo passava. Um dia Dorotéa precisou fazer uma cirurgia. Ficou internada apenas três ou quatro dias, mas precisou ficar em repouso um par de semanas, o tempo suficiente para que Domiciana notasse a falta das nossas visitas Assim que pudemos, fomos lá. Não pude estacionar perto da entrada principal, então pedi a Dorotéa que entrasse e localizasse a Domiciana. Quando cheguei, estavam ambas no pátio, conversando animadamente. Cumprimentei Domiciana efusivamente. E ela, com a solenidade de quem vai revelar o segredo do Santo Graal, disse:

- “Oh, Seu Luis, a Dona Dorotéa me contou que fez uma operação pra tirar os ovários. Então o senhor vai ter que cortar o saco.”

Domiciana ! Domiciana !


Chegamos a 2020. Mês de Maio. Dia 17 último, recebemos um telefonema do LAJE com a notícia  de que Domiciana  tinha sido internada para um tratamento intensivo. Durante os dias subsequentes, Dorotéa tentou falar com ela. Não conseguiu. Estava inconsciente. Ficamos em contrição.

 No dia 27 de Maio Domiciana nos deixou. Foi singrar entre as núvens do Olimpo.

Requiem aeterna
dona eis Domine
et lux perpetuam
luceat eis
requiescat in pace
Amen


Repouso eterno
Dai-lhes Senhor
E a luz perpétua
os ilumine
Descansem em paz
Amém





29 maio 2020

A PANDEMONIA



 Medo e Desespero

Criei um neologismo. Sem acento e sem compromisso.  E o criei porque fazia falta. E fazia falta porque, em pleno cumprimento de uma penitência, cuidávamos de atender às obrigações que nos eram impostas. E não conseguiamos saber por que nos eram impostas.  

Uma pestilência desabou sobre nossas cabeças.
Pelo nosso comportamento.  Pelos nossos malfeitos. Pelas nossas iníquas ações. Pela nossa ganância.  Deram-lhe um nome: PANDEMIA. Recolhido entre as quatro paredes que cercam o meu quarto, tive que enfrentar dois sentimentos. O Medo e o Desespero.

Medo por não poder vislumbrar um futuro qualquer, próximo ou remoto que fosse. Por não saber se valeria a pena acordar no dia seguinte. Por não saber  se os meus amigos e parentes ainda reconheceriam o meu semblante esquálido carcomido pelos sulcos da tristeza.

Desespero porque, encontrando-me em condições privilegiadas de acomodação, podendo tomar banho duas vezes por dia, fazer três refeições e dormir o tempo que quiser dia após dia, olho à minha volta e o que vejo ?
Milhões de pessoas – sim, eu disse milhões -  que não têm sequer um balde de água para lavar-se, um catre miserável para dormir e o essencial para alimentar-se.

Pandemias existiram muitas através dos séculos. Entre elas aparecem a Gripe Espanhola, a Peste Bubônica e a Tuberculose para citar apenas algumas entre aquelas que ficaram famosas. Mas a nossa pandemia se destaca e assume o vulto de um pandemônio. Porque nas precedentes, toda a sociedade se empenhava para entender o mal e curar os seus doentes enquanto na nossa pandemia doméstica a atividade principal é a discussão, a briga, a disputa o confronto e os impropérios. Entidades públicas, líderes governamentais, chefes políticos, empresários, advogados e donos de padaria se empenham em conflitos de liderança para decidir quem manda.
Enquanto isso os doentes, infectados, moribundos, desenganados e esperançosos entopem os corredores dos hospitais.

É deprimente. Mas, como numa democracia, você pode escolher seu líder e terá a liberdade de ir à praia, passear com o cachorrinho na praça ou comer seu cachorro quente  na padaria.
Para os que ficaram em casa e tinham como se manter, a vida começou a correr frouxa. Tempo sobrando para tudo. Lavar a louça, organizar velhas fotografias, brincar com os gatinhos, comer , beber e dormir.
Mas . . .  e aqueles que foram obrigados a ficar em casa ?  Aqueles que perderam o emprego ? Aqueles que nunca tiveram um emprego ?

Independentemente de uma análise completa sobre os efeitos da pandemia no ser humano, uma constatação pode ser feita: o relacionamento entre as pessoas não é mais o mesmo. Começaram a surgir sinais de depressão e transtornos diversos como medo, raiva, rejeição e sei lá mais o quê.

Espero que, a esta altura, o meu incauto leitor já se tenha conformado com o meu neologismo e perdoado a minha petulância. Porque agora quero mostrar como foi estudado este problema muitos anos atrás. Anos, não. Séculos. Em plena Idade Média.

Foi no ano de 1343, por ocasião da Peste Bubônica, mais conhecida como Peste Negra. Durante cerca de dez anos a Peste Negra sacrificou um terço da população europeia. A doença era causada por uma bactéria e os sintomas eram febre, calafrios e dores musculares.

Em 1348, Giovanni Boccaccio, escritor florentino, começou a escrever sua monumental obra Il Decamerone, um livro para contar histórias. É através dele que vamos conhecer um pouco do que foi a vida em tempos de Pandemia naquela época.

“ Naquela cidade de Florença cuidado algum valeu nem importou qualquer providência humana. Proibiu-se a entrada nela de qualquer enfermo. Muitos conselhos se distribuíram para a conservação do estado sanitário.
No tratamento das referidas enfermidades, nem conselho de médico, nem virtude de remédio algum, parecia proporcionar cura, nem proveito. Ao contrário.
Esta peste foi de grande violência porque ela se lançava contra os sãos partindo dos enfermos, desde que enfermos e sãos ficassem juntos.”

“Deixemos de lado a circunstância de um cidadão ter repugnância de outro; de quase nenhum vizinho  prestar cuidados a outro; de os parentes, juntos, raras vezes, ou nunca, se visitarem; e, quando se visitavam, ainda assim, só fazerem de longe. Esta atribulação tinha entrado, com tamanho espavento no peito dos homens e das mulheres, que um irmão abandonava o outro; o
tio abandonava o sobrinho; a irmã, a irmã; e, com frequência, a esposa desertava de seu marido. Os pais e as mães sentiam repugnância de visitar e
de servir os seus filhos, como se esses não fossem seus (e esta é a pior coisa, quase inacreditável),”

Século XIV . . .   Parece que foi escrito ontem !


Nota: Quero fazer um agradecimento especial à minha filha Flávia e seu marido Estevão. Foram eles que, em boa hora, me enviaram de presente o Decamerão  cujos trechos transcrevo. Sem o régio presente esta crônica não teria sido escrita.







20 maio 2020

A Penitência Universal


Em dezembro de 2009 escrevi “As vozes do Além” (Crônica Nº 16), na qual relato as vicissitudes pelas quais passei numa viagem de trabalho ao Japão. Eu estava detalhando com a  Shikishima Spinning a construção da  fábrica de tecidos Seridó, no Estado do Rio Grande do Norte  Nas viagens para Tokio, frequentemente passava por São Francisco da Califórnia, onde pernoitava um ou dois dias. Em Tokio, ficava sempre hospedado no Imperial Hotel, ou “Imperiaro Otero” como eles pronunciavam.
Nessa manhã, eu havia acordado cedo e o imenso lobby do hotel estava deserto. E eu, mergulhado nos meus pensamentos, através de um sopro misterioso, fui informado de que a minha vida iria mudar. E para sempre. Não vou aqui deter-me nos detalhes mas quem leu “As vozes do Além” sabe o que passei.
Desfeito o sortilégio, voltei ao mundo dos cautos . . .

. . . para descobrir, tantos anos depois, este mundo destroçado em que estamos vivendo. Que força maligna, que desígnio superior, que conluio de deuses enfurecidos se espalharam pelo universo para nos submeterem a esta penitência sem previsão de tempo para cumpri-la.
Alguém decidiu fazer justiça na terra, não há dúvida. “O saber supremo, a  podestade divina  e o primeiro amor” , como dizia Dante, baixaram à terra e aplicaram o castigo devido: A Penitência Universal.

Olhemos à nossa volta. O que vemos?  O desarranjo total do ser humano. A desorganização total da sociedade. A degradação total do caráter. O aviltamento dos valores morais.

Guerras entre países, lutas internas, rebeliões civis, conflitos entre raças e
violência decorrente de preconceitos, tudo isso ornamentado por teses estapafúrdias baseadas em ideologias, crenças religiosas ou simples preconceitos.
Hipocrisia, egoísmo, suspeição, ganância, traições. O contato humano virou fantasia.
Preparemo-nos. Temos uma penitência a cumprir. E cada um prestará contas ao seu Deus. Ou à Divina Podestade.

09 maio 2020

Confissão





Triste é você descobrir que o computador virou o melhor amigo do homem.

Triste é você acabar escravo dos “tizapps” da vida e, na ânsia frenética de dar respostas, descobrir que seu dedo aperta 3 letras ao mesmo tempo. Você  leva mais tempo para corrigir do que levaria para escrever. Não se faz mais dedos como antigamente !

Triste é você descobrir que a bengala virou o móvel mais importante da sua casa.

Triste é você não poder tirar aquele livrinho da estante mais alta da sua biblioteca porque não pode mais subir os degraus daquela escadinha de meio metro de altura.

Triste é não poder mais ler bula, plaquinha, aviso, coluna de jornal e o que mais for, porque as letras ficaram misteriosamente miúdas e você precisa de uma lupa para enxergá-las.

Triste é você descobrir que o nível do chão  ficou mais baixo do que era antes, e que o mesmo sofá no qual se sentou toda sua a vida ficou mais longe e agora você desaba nele como um saco de batatas.

Triste é quando você conta aos seus amigos que votou no Bode Cheiroso, e eles  dizem que você  é o responsável pela desgraça que desabou sobre suas cabeças.

Triste é que, quando eu for reler este mísero texto, manuscrito que foi, eu não vou conseguir entender nem a metade das palavras que escrevi.

Mas . . . Triste mesmo será quando eu não tiver mais motivos para ficar triste. Porque aí, eu me darei conta de que era feliz e não sabia.




28 abril 2020

Os Brennand


 Brennand   I. O Magnífico  -  II. O Mágico

Ricardo Brennand, O Magnífico
Um pernambucano genuíno. Um empresário exemplar. Um pai amoroso.

Francisco Brennand, O Mágico
O Feiticeiro das Artes. Pintor, Escultor, Escritor.  Um pensador incomum.

Ricardo Brennand implantou um gigantesco parque industrial em São João da Várzea, nos arredores do Recife, onde produzia cerâmica, cimento, azulejos, vidros e outros materiais de construção. Posteriormente, criaria o seu fabuloso museu.  Foi como empresário que o conheci.

Estávamos no início da década de sessenta. Eu vivia mergulhado no meu trabalho de elaborar projetos para fábricas de tecido, especialidade à qual   eu havia chegado por força do destino.
Numa certa manhã recebo um recado: “O Dr. Ricardo deseja lhe falar. Pediu que fosse até a Várzea.”

“ Eu pretendo diversificar minha atividade industrial. Gostaria de entrar na indústria têxtil. Já tenho, inclusive, uma proposta de financiamento pelo Banco Mundial. O que me aconselha ? ”

Apresentei-lhe um panorama do setor têxtil no Nordeste, identificando os nichos de oportunidade para um investimento seguro e que contavam com incentivos fiscais.

“Ótimo. Teríamos que começar com uma unidade que permitisse expansão futura. Por isso tenho pressa.”

Nesse caso, disse eu, sugiro começar com uma fiação de algodão. Existe uma demanda reprimida para fios de alta qualidade, não só no Brasil mas também no Exterior. O Nordeste é um grande produtor de fibra longa – o Seridó – ideal para a produção de fios finos. Para tanto é preciso elaborar um projeto de execução. Porém, como já existe uma proposta de financiamento, deveríamos iniciar com uma Carta Consulta, um documento bem simples que apresenta os cálculos necessários para comprovar a viabilidade técnica e econômico-financeira do empreendimento. Isso é rápido. Em um mês pode ser feito.

“ Mas eu preciso disso para quinta feira ! ”

Esse era o Dr. Ricardo Brennand !
Estávamos na quarta feira anterior.  Fechei os olhos, invoquei os deuses, e quando voltei a mim descobri que a semana seguinte era . . . Carnaval ! Fiz as contas rapidamente: eu dispunha de sete dias e sete noites para fazer o trabalho.

“ Na quinta feira, até o meio dia, eu lhe trago o trabalho ! ”   

Ele me deu um tapão nas costas e eu me mandei, correndo.
No dia acordado, perto do meio dia, cheio de vento, cheguei na Várzea e entreguei a Carta Consulta. Ele a examinou detidamente e disse:

“ Muito bom. Era o que eu precisava.”  Em seguida chamou a Secretária.

Aqui cabe um esclarecimento. Na entrevista inicial o Dr. Ricardo havia me perguntado quanto custaria o trabalho. Fiz um cálculo rápido usando os critérios que eu usava nos meus trabalhos de consultoria e forneci um valor que ele aceitou sem maiores perguntas. Hoje eu nem lembro mais qual era. Quando a Secretária chegou ele disse:
“ Faça um cheque no valor de ... tanto ... para o Sr. Spreafico.
Levei um susto. Imediatamente corrigi:

“ Dr. Ricardo, o  senhor se enganou. Isso é o dobro do que eu pedi.”

“ Você merece, meu filho.  você trabalhou no Carnaval.

Esse era o Dr. Ricardo Brennand !

Meses depois encontrei-me novamente, e por acaso, com o Dr. Ricardo. Numa viagem a  trabalho de Recife para São Paulo, num vôo da Cruzeiro. Eu estava sentado junto à janela quando ele embarcou. Vendo o assento ao meu lado vazio, ele o ocupou e, enquanto esperávamos a decolagem ficamos conversando. O assunto era, obviamente, o desenvolvimento industrial do Nordeste. Aqui cabe uma explicação: a Cruzeiro havia inaugurado o Viscount, um avião de duas turbinas super potentes que, no momento em que deixava o solo, subia disparado num ângulo de quase quarenta e cinco graus. Era emocionante. Alcançada a altura necessária, o avião seguia tranquilo e sereno como se nada tivesse acontecido.

Pois desta vez foi diferente. Largado o chão, o avião começou a subir  mas no meio do processo, muito antes da altura de nivelamento, começou a perder altura. Eu gelei. Já havia feito muitas viagens com esse avião e percebi logo o que estava acontecendo. O Ricardo virou-se e disse:

“Oh Spreafico, parece que este avião está planando.” Eu estava em pânico.  Não pude me controlar:

“Planando não, Dr. Ricardo.  O avião está caindo.”

Logo se ouviu a voz do comandante acalmando os passageiros e informando que estávamos voltando ao aeroporto do Recife. O avião baixava em círculos, acelerado. Olhei pela janela. Foi a recepção mais festiva e colorida que eu tive em minha vida: ambulâncias, carros de bombeiro, caminhões-tanque e policiais com máscaras contra gás, com suas cruzes e insígnias coloridas, nos davam as boas vindas.

*    *    *    *    *
Francisco Brennand, O Mágico, era pintor, escultor, poeta, escritor, grande filósofo, amante do teatro e um grande ser humano. Chico, como o chamávamos, não queria saber de fábricas. Queria fazer arte. Por causa disso, chegou a ser considerado  “ a ovelha desgarrada da família .”
Eu o conheci quando foi criado o Teatro Popular do Nordeste por Hermilo Borba Filho,  Ariano Suassuna, Capiba e onde eu ensaiava “A Pena e a Lei”, que seria estreada no Teatro do Parque em Fevereiro de 1970. Ele comparecia aos ensaios com certa assiduidade e discutia com Hermilo e Ariano os problemas da formação do grupo teatral.

Depois que me transferi para o Sul,  passei a visitar Recife com uma certa frequência. Em cada viagem, eu fazia questão de visitar os Museus, tanto o do Ricardo como o de Francisco. Neste, fiz várias tentativas de falar com o Francisco. Nunca consegui. Na última viagem, cerca de dois anos antes de sua morte, decidi que eu não sairia do museu sem encontrá-lo. Falei com todas as assistes que encontrei. Em vão. Ora ele estava ocupado, ora estava lanchando, ora estava doente.  Desanimado, eu me coloquei na extremidade de um dos galpões, pensativo, contemplando aquela montanha de estátuas. De repente divisei sua silhueta na outra extremidade, manejando um pacote de jornais. Sem perceber, deixou cair um deles. Saí disparado e alcancei-o quando se preparava para recolher o jornal. Eu me antecipei e lhe passei o jornal. Olhou-me fixamente.

“ Não está me reconhecendo ? Cheiroso ! ”  disse-lhe.
“ Cheiroso ?
“ É... Da Pena e a Lei, do Ariano. Você ia assistir os ensaios de vez em quando.”
“ Ah . . .Claro. . .  de vez em quando não, eu ia a todos . . . a todos.

Abraçou-me. Perguntou-me pelos amigos que moravam no Rio. Perguntei-lhe onde poderia encontrar o Ariano. “Você não vai conseguir falar com o Ariano. Ele está trancado em casa escrevendo.”

E  me despedi escondendo uma gota de orvalho que me descia pela face.



19 abril 2020

Surpresas na Serra. . . Desafios no Mar



A quietude na Serra nestes dias de outono induz a um silêncio restaurador. Recolhido no meu bambuzal contemplo a neblina baixa que se aconchegou no Vale do Cônego deixando exposto apenas o cocoruto do Chapéu da Bruxa. O projeto da Montanha de Narayama foi abandonado. Minha mente vaga.
Olho à minha volta. O panorama é entristecedor. Os sabiás não cantam mais com o mesmo entusiasmo. Os gambás se tornaram escassos e as bananas sobram no quintal. O casal de jacus não desce mais para exibir seu porte majestoso; emitem seus gorjeios de dentro do ninho. As plantas crescem à revelia do seu amo, ausente pelas circunstâncias do tempo. Encontrei um pé de abóbora que havia se alastrado na planície da horta subindo pela porta da cozinha, visto que não podia entrar. Os cães não ladram mais. As noites se tornaram longas, ignorando as estações do ano. Os dias, insípidos. As ruas, desertas. Tranquei as portas e me transportei para o nível do mar.

No velho esconderijo do Cosme Velho, a vida retoma a sua rotina.
Mas . . . descubro que estou sozinho! A dura constatação, a princípio, me confunde. Aos poucos me acostumo. De repente, uma descoberta: Estou lendo os “Diários Intermitentes” do Economista Celso Furtado com o qual trabalhamos, minha esposa e eu, na Sudene. Em três ocasiões, Furtado confessa estar sofrendo uma enorme solidão e que isso o incomoda muito. Um pequeno detalhe: Furtado escreveu isso quando tinha dezesseis anos de idade. Isso me confortou.

A solidão me faz companhia. Os seus fantasmas me acompanham. Como sombras durante o dia e como vultos durante a noite.
A  SOLIDÃO !  Preciso entendê-la.

Consultei os psicólogos. E eles me disseram:
 “Para viver feliz na solidão é preciso aceitá-la. Admita que você se sente só”.
 Pronto. Admiti. Mas os psicólogos continuam:
“Você também precisa esquecer o seu passado”.
Muito justo, retruquei. De nada adianta ficar apregoando minhas bravatas se tenho que pagar as contas no fim do mês.
Mas, esquecer o passado?
Sim, vou esquecer o meu passado. Mas para isso é preciso que eu me lembre dele, antes.
  
E assim encontrei-me, ainda jovem, flanando pelo velho Recife, balançando as pernas na amurada das pontes, esperando o nascer do sol no Cais de Santa Rita ou contemplando a lua escandalosa refletida nas águas do Capibaribe.

Como não iria me lembrar dos encontros festivos com poetas e pintores,  sonhadores românticos, e suas presepadas? Carlos Pena Filho nas noitadas boêmias do Bar Savoy; Adão Pinheiro, Abelardo da Hora, Reinaldo Fonseca, Mario Mota . . .
Como não lembrar dos ensaios no Teatro do Parque com Ariano Suassuna, Capiba, Joel Pontes, Clênio Wandelei, Hiran Pereira, Hermilo  Borba Filho e todos os mamulengos de “A Pena e a Lei” ?  E o sucesso no Teatro Santa Izabel com “O Diário de Anne Frank” ?
E a representação da Paixão de Cristo em Fazenda Nova, três dias de espetáculo contínuo num cenário grandioso esculpido em pedra por artesãos locais?
De tudo isso me lembrei. Porque tudo isso eu vivi. E muito mais.

Um dia, quando eu balançava as pernas na Ponte Buarque de Macedo, vi que passava, apressado, o poeta Augusto dos Anjos. Com o semblante carregado, parecia ir ao encontro da morte. Perguntei-me em que estaria pensando. Entendi depois: No destino.


AS CISMAS DO DESTINO

“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava o Destino, e tinha medo.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Lembro-bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!”
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 

A casa do Agra era uma Funerária. Eu a conhecia bem, ficava na Rua da Conceição, bairro da  Boa Vista e eu passava por ela quando ia garimpar livros nos sebos da região. Continuando seu longo poema “ As Cismas do Destino ", Augusto dos Anjos declama:

“Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!”
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Em um soneto  Augusto dos Anjos continua
falando do seu destino:

“Tome, Dr. esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa
Que importa a mim que a bicharada roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!”

Com estes versos, deixo ao meu incauto leitor a incumbência de desvendar os mistérios que se escondem na cabeça de um solitário. A Solidão é um mar imenso. Oferece banhos reparadores.
A volta ao nível do mar aquietou-me a alma. Deixei a Serra com tristeza e nostalgia. Mas a chegada ao Palácio Encantado do Cosme Velho me proporcionou a vida alegre e festiva do adolescente de outrora.

“ Absit injuria verbis ”



22 janeiro 2020

Meus 9 anos


Acordo no meio da noite. Esfrego os olhos. Respiro fundo. Caminho vacilante até a cadeira de vime que me dá guarida nas noites vazias.
É a voz dele, não tenho dúvida. O chapelão na cabeça . . .

     “ Sozinho de noite,
  nas ruas desertas
do velho Recife
       que atrás do arruado
    moderno ficou , , ,
criança de novo
   eu sinto que sou.”

“ Que diabo vieste fazer aqui, Ascenso ? “

Ascenso Ferreira !  Você aqui, Ascenso ?   A esta hora !  Perturbando minha alma . . .  Mexendo em meus sonhos . . .  Onde está a criança daquele tempo? Contemplando o nascer do sol na ponte Buarque de Macedo ou o luar prateado no Cais do Apolo ? E o adolescente que esperava ansioso o apito do cuscuz para tomar seu café ?  Quantas vezes fiquei sentado sobre a balaustrada da ponte, de pernas penduradas, pensando na vida ?  E as lembranças do adulto, da vida dura nas fábricas ?  . . . As viagens pelo interior, a colheita do algodão, a convivência com os homens do campo, a miséria crônica, a luta pelo desenvolvimento do Nordeste . . .   

“ O rio soturno
      tremendo de frio
               com os dentes batendo
        nas pedras do cais
     tomado de susto
    sem poder falar
    o rio tem coisas
      para me contar ”



É isso mesmo, Ascenso.  O rio tem coisas para me contar, Ascenso ! Hoje me lembrei que, quando completei oitenta anos, isto já faz muito tempo, escrevi o seguinte :

Madrugada Insólita
-- Amanhã vou colher a rúcula que plantei no  mês passado, usando uma semente que não podia ter nascido. Sua validade estava vencida há mais de dois anos. Mas a semente nasceu porque ignorou o seu prazo de validade. Eu também nasci, mas com prazo de validade não revelado. Vou fazer o que fiz com a semente: ignorar o prazo de validade e plantar-me a cada dia.                                                     

“Sozinho de noite
nas ruas desertas
                                                        o rio soturno
  nas pedras do cais
                                                        criança de novo
eu sinto que sou.”

“ Larga de ser vagabundo, Ascenso ”

Oxente ! ! !   O que foi que eu disse lá em cima ?  9 anos ?  Cruz credo !
Eu quis dizer 90 !  É pra lá que eu vou.
 

12 dezembro 2019

Volta à Escola Paterna


. . . "O meu primeiro e virginal abrigo". . .  Estou recuperando os meus fantasmas. Sem eles eu não dormiria direito. Com eles subirei a montanha de Narayma e deles estarei cercado quando chegar o sopro Sideral. Entre eles estarão . . .

. . . OS ENVIADOS DE DEUS

Um desconhecido leitor escreveu um comentário sobre a minha “compostagem”(1) intitulada “O FALSÁRIO”. Segundo ele, " o homem das sobrancelhas grandes era um “enviado de Deus”. Nesse comentário, ele faz uma análise psicológica (deve ser do ramo) do bom velhinho e de como ele interpretou o comportamento da criança e do tipo de castigo aplicado: fazer com que ela mesma sentisse vergonha do seu comportamento e, assim, emendar-se. O repúdio, o afastamento, a humilhação, a execração poderiam, nesse caso, resultar na formação de uma criança revoltada e inutilizada para o resto da vida."

 Reconheço que estou me intrometendo em terreno que não conheço. Nunca estudei psicologia. Posso estar dizendo bobagens.O fato é que o comentário me impressionou. Não vou reproduzi-lo aqui, mas, recomendo que o leiam.

 Refletindo sobre o assunto lembrei-me de outras situações difíceis em que fui ajudado por  pessoas generosas que, mesmo sem me conhecerem, me tiraram das dificuldades. Uma dessas pessoas foi, sem dúvida, o Professor Rocha. Rocha era professor de inglês.

Em 1948 o Governo Federal, em convênio com o Senai, criava no Rio de Janeiro a Escola Técnica Federal de Indústria Química e Têxtil destinada a formar técnicos para a indústria têxtil de todos os Estados do país. A cada Estado foi atribuído um número de vagas proporcional ao tamanho de sua indústria têxtil. Pernambuco recebeu cinco vagas. Seria feita uma prova de seleção em cada Estado e os aprovados seriam enviados ao Rio. A escola oferecia alojamento e pagava todas as despesas de viagem. Uma vez no Rio os alunos seriam submetidos a novo exame para que se efetivasse a admissão. Os reprovados receberiam a passagem de volta.

Eu estava concluindo o curso industrial básico (que equivalia ao ginasial) de Mecânica de Máquinas na Escola Técnica do Recife, também da rede federal e também como aluno interno. A escola ficava no Derbi (o prédio ainda está lá) bem na margem do Capibaribe, flanqueada por duas enormes figueiras (não estão mais lá) nos fundos da Maternidade do Derbi e ao lado do Necrotério Municipal. Assim, eu me acostumei a ouvir, durante a noite, os gritos desesperados das parturientes (naquele tempo não se faziam cesarianas a não ser nos casos de emergência) e, durante o dia, a acompanhar os cadáveres de indigentes, criminosos, suicidas e todos quantos não morriam de morte natural quando, depois da autópsia, eram enfiados nas gavetas do frigorífico do Necrotério. Nas noites de sábado ia ao cinema do Quartel (creio que era da Polícia Militar pois a farda era cáqui) situado na extremidade da Praça do Derbi. Era de graça. O médico da Escola era o Dr. Hilo Lins e Silva a quem coube salvar minha vida em um acidente que sofri durante uma prática nas oficinas.   

Encerrado o curso de mecânica, em Novembro de 1947, o diretor - Manoel Vianna de Vasconcellos – (espero não ter errado na grafia do nome) mandou-me chamar e informou-me sobre o curso que estava sendo criado no Rio. Se eu quisesse continuar estudando sem custo, não haveria oportunidade melhor. Resolvi enfrentar a prova de seleção. Eu tinha medo. No ginásio os alunos estudavam latim, inglês, até poesia se ensinava lá. No curso industrial não tínhamos nada disso. Eu não tinha como competir com os ginasianos.         Preenchi o formulário de inscrição com mão trêmula. A prova foi realizada no Colégio Marista que ficava na Boa Vista. Uma multidão se acotovelava no pátio imenso. O meu terror aumentou quando comecei a ouvir a conversa dos candidatos, todos mais velhos do que eu. A maior parte já havia concluído o curso científico e muitos deles faziam curso superior. Cinco vagas! Enfrentei a prova aterrorizado.


Quando a notícia chegou eu estava ralando milho verde para uma canjica, com as mãos bastante esfoladas. Eu estava entre os cinco. Muitas lágrimas se incorporaram ao milho ralado e, talvez por isso, a canjica nesse dia tenha ficado tão saborosa. Devorada a canjica, mergulhei no estudo, preparando-me para o exame de admissão.

Em Fevereiro de 1948 embarquei, deslumbrado, num DC3, no que seria minha primeira viagem de avião. Do Recife ao Rio durou 8 horas. Lembro-me das escalas, mas não de todas: Maceió, Aracaju, Salvador, mais uma ou duas, Canavieiras, Cabrália, Vitória, Ilhéus, mais uma ou duas e, finalmente, Rio de Janeiro. Ficamos alojados num casarão em São Cristóvão, na Rua Bela. (será que ainda tem esse nome?). O bonde, curiosamente, tinha o mesmo número do da Vila Maria: 34 que fazia ponto final na Praça Tiradentes.  O nome da linha? Alegria. Seu Alfredo, embalsamado em um par de calças risco de giz, uma jaqueta preta de lapelas lustrosas e gravata borboleta, também preta, servia as refeições. Podia-se comer à vontade. Tudo muito chique. Pela manhã eu acordava com o cheiro do café e do pão fresquinho. A Escola ficava no bairro do Riachuelo, na linha da Central, quando o morro do Jacarezinho não passava de um bucólico e pacífico aglomerado de casebres com telhados de zinco.

Eu estudava como um fanático já que iria competir com alunos que vinham de todos os Estados do Brasil. Não podia falhar. Mas, desta vez, a conversa com os colegas me tranqüilizava, pois eu podia avaliar o nível em que se encontravam e me sentia seguro. Entrei na prova calmo e confiante. Classifiquei-me entre os cinquenta candidatos. Seis foram reprovados e voltaram para os seus respectivos Estados. Os 44 alunos que formaram a primeira turma de técnicos têxteis na Escola Técnica Federal de Indústria Química e Têxtil foram matriculados por ordem de classificação no exame de admissão. O meu número de matrícula foi 1.
As aulas se iniciaram com o edifício da escola ainda em construção. Não havia portas nem janelas. Muitas vezes a aula tinha que ser interrompida por causa do barulho das betoneiras e serras circulares. Meu fervor pelo estudo era renovado a cada dia pelo cheiro das máquinas novas que eu aprendia a montar nas oficinas da fiação. A expectativa da chegada dos teares me deixava eufórico.

 Foi aí que um fato perturbador veio tirar-me a paz. No curso havia a cadeira de inglês a qual não havia sido preenchida, até a metade do primeiro semestre, por falta de professor. No curso industrial, de onde eu vinha, não havia aula de inglês. A única palavra que eu conhecia era “camoni-boi” que havia aprendido na Vila Maria quando brincava de faroeste e, mesmo assim, não sabia o que significava. Todos os demais alunos vinham dos cursos ginasial e científico. Alguma coisa sabiam.
Pela metade do semestre chegou o Professor Rocha. Mostrou-se logo uma pessoa simpática, sempre alegre e grande contador de histórias. Era irmão do Carlito Rocha, treinador do Botafogo, que gozava de imenso prestígio no futebol brasileiro.
No primeiro dia de aula, Rocha explicou: “Como perdemos mais de dois meses de aula eu vou fazer uma avaliação do nível em que vocês se encontram e começarei as aulas por aí.” E assim foi, para meu desespero. Eu não entendia nada.
Chegado o fim do semestre foi aplicada a “prova parcial”. Naquele tempo existia uma prova parcial, no fim do primeiro semestre, e uma prova final, no fim do segundo semestre. A nota para a promoção de ano era uma média das duas. Entreguei minha prova praticamente  em branco e fui chorar escondido.
Na aula seguinte, Rocha chegou com as provas, distribuiu a cada um a sua, e começou a ler as respostas corretas para que cada um comparasse com o que havia feito. No topo da prova, dentro de um círculo, a nota de avaliação.

Quando recebi a minha prova fiquei perplexo, sem poder acreditar. Um 7 claro, inequívoco, firme, sem vacilação. Permaneci mudo, os cotovelos sobre a banca, a cabeça entre as mãos, contemplando o professor. Ele me olhava, de vez em quando, sem bater pestana. Esperei que todos saíssem para devolver minha prova, com a mão trêmula de emoção e a voz embargada:

-- " Professor, muito obrigado. "

Entregou-me um maço de folhas soltas. Eram exercícios. E, segurando meus ombros  com ambas as mãos para manter-me na linha de eixo de suas palavras, disse-me, com olhar firme:

-- " Não tenha medo, menino. Estuda que você passa. "



(1) Compostagem  -  Método usado pelos camponeses para produzir adubo orgânico,     principalmente nas pequenas  propriedades. Consiste em aproveitar os resíduos vegetais oriundos de capinas, podas, desbastes, etc. formando pilhas as quais, através da ação de microorganismos existentes na terra, fermentam, decompondo o material de tal forma que o transformam em um pó escuro, fácil de manusear e de cheiro agradável. Durante a fermentação, que ocorre espontaneamente, a temperatura interna da pilha pode alcançar até 80º centígrados. Uma pilha de composto leva mais de um ano para ficar pronta. Minhas compostagens também. E minha cabeça passa dos 80º C.