30 novembro 2023

TRABALHO E DIVERTIMENTO

 TRABALHO E DIVERTIMENTO

 

PARTE 1

 

Esta história começa bem longe no tempo. Era o ano de 1948. Aos 18 anos de idade, eu completava o Curso Técnico de Mecânica de Máquinas ministrado pela Escola Técnica do Recife,  uma Escola da rede federal, criada pelo Presidente Nilo Peçanha. Ficava no Derby, bem na beira do romântico Rio Capibaribe.

Entrei de férias e comecei a pensar no que iria fazer na vida.

 

Poucos dias depois, o Diretor da Escola, Manoel Viana de Vasconcellos mandou-me chamar e disse:

Fui informado que o Senai vai criar um curso de Tecnologia Têxtil. Será no Rio de Janeiro, o primeiro no Brasil e concorrerão alunos de todos os Estados. Para Pernambuco foram reservados 4 alunos. Eu indiquei você.

O curso é gratuito e a Escola dispõe de um Internato para acomodar os alunos de fora. Serão pagas as passagens de ida e volta, bem como as férias, tanto as de Julho como as de fim de ano. Você terá que fazer um exame de seleção pois só irá um dos 4 indicados. Apresente-se no Colégio dos Jesuíta, na Boa Vista, e faça a sua inscrição. Fiz e passei. E viajei para o Rio de Janeiro.

 

Com o entusiasmo e a exaltação de quem vai  fazer sua primeira  viagem interplanetária, embarquei num DC3 da Real Transportes Aéreos.  Depois de 8 horas de viagem entre Recife e o Rio de Janeiro, o avião desabou sobre a pista do antigo Galeão.

Minhas emoções apenas começavam. A Escola começou a definir-se.  O carro que me trouxe do Aeroporto depositou-me num casarão da rua Bela, em São Cristóvão. Ali ficaríamos até que  fosse efetuado novo exame de seleção. Os reprovados seriam devolvidos aos seus Estados.

Fiz o exame. Tirei o primeiro lugar. Meu número de matrícula foi 1.

Foram aprovados 32 candidatos. Formava-se, assim, a primeira turma da

ETIQT.

A Escola iniciava as aulas apenas com sua estrutura de concreto, poucas paredes e muitos andaimes. Não havia portas nem janelas. O piso era laje bruta. O barulho das betoneiras interrompia o professor que ora fitava o chão ora levantava o olhar para os céus esperando sua vez de falar.

 

O regime era duro: quatro horas de aulas teóricas pela manhã, quatro horas de aulas práticas à tarde e, à noite, estudo dirigido, obrigatório, de duas horas. Ao meio dia, o Alfredo, um garçom com cara de mordomo inglês, metido em uma espécie de fraque e gravata borboleta, servia o almoço.

 

O Diretor da Escola era o professor Mario Souto Lyra, formado pelo Instituto Lowell, da Carolina do Norte. Da mesma Escola, vinha o professor de Tecelagem, Horst Gaensli que também ocupava uma Diretoria na Fábrica Bangu. Não há como deixar de mencionar outros professores da época e o faço sabendo que vou omitir nomes importantes pois valho-me da memória: O professor Oldegar Vieira, de Português, introdutor do Hai kai no Brasil que fundou o Caetés – Centro Acadêmico dos Estudantes; Deolindo Dominguez Vicente, na Fiação, com seu sotaque espanhol;  Ivo Piccoli, professor de Física, criador do “suprassumo do extrato do graveto seco”; Manir Japor, de Matemática, com sua muleta e perna engessada que duraram seis meses; Henrique Mariani no Desenho Têxtil e suas gigantescas e sufocantes folhas de papel milimetrado;  Emil Kwaiser, com sotaque austríaco, ensinava Mecânica Aplicada, era também professor de balística na Escola Técnica do Exército;  o professor Rocha, de Inglês, irmão de Carlito Rocha, o famoso treinador do Botafogo;  Dom Gerardo, frade do Mosteiro de São Bento, no Rio, na Cadeira de História das Artes, nos ensinou a apreciar Giotto e Caravaggio.

 

 

 

 

19 novembro 2023

ESCOLA TÉCNICA FEDERAL DE INDÚSTRIA QUÍMICA E TÊXTIL

 ESCOLA TEÉCNICA FEDERAL DE INDÚSTRIA QUÍMICA E TÊXTIL  -  ETIQT

 

Recebi, dias atrás, um convite dos meus colegas de escola, portanto técnicos têxteis como eu.     Com uma diferença, porém: entre a data da minha formatura – 1959 – até hoje, formaram-se 63 turmas de técnicos têxteis.

O convite me incentivava a participar do Primeiro Encontro de Técnicos Têxteis de ITAÚNA – MG. Seguiu-se um programa detalhado dos eventos  bem como os nomes dos que compunham a Comissão Organizadora.

O convite era assinado pelo Presidente da Comissão, colega Toninho Oliveira, o qual informava que a minha participação havia sido proposta pelo colega Ivo Jorge.

Não foi fácil conter a emoção que me envolveu  e como me sinto honrado e grato a todos. Estes amigos, nesta altura da minha vida, me renovam as forças para continuar trabalhando com as ferramentas que me restam. Posteriormente, veio a notícia de que seria gravada uma placa para perpetuar o evento e, dada a impossibilidade do meu deslocamento até Itaúna, a placa me seria entregue em Nova Friburgo, onde moro atualmente. Numa gentileza fora do comum, a Comissão Organizadora, capitaneada pelo colega Toninho Oliveira, e mais um grupo da ABTT, fiéis seguidores do colega Ivo Jorge, desembarcaram em Friburgo.

Escolheram um bucólico restaurante local, o Bistrô Primavera.   Aí, deu-se a grande festa, regada a detox, bebida criada pelo nosso Waumy em seu inesquecível “Imaculada Conceição”.

 

 

A Placa :

“Luigi  Spreafico

Nossa homenagem ao primeiro aluno matriculado na primeira turma do curso técnico têxtil na ETIQT , em reconhecimento aos brilhantes trabalhos  prestados a todo o ramo têxtil do Brasil.

Desde 1949, uma vida dedicada a uma paixão, “indústria têxtil”. Sonhos, lutas, realizações, uma carreira vitoriosa que deixa  um legado que orgulha  a todos nós, seus colegas técnicos têxteis e nossa querida escola.

ETIQT/1949 E CETIQT/1980

PRIMEIRO ENCONTRO DE TÉCNICOS TÊXTEIS EM ITAÚNA - MINAS GERAIS

Dias 25 e 26 de Agosto de 2023”

 

 

 

25 outubro 2023

ACONTECEU COMIGO

 ACONTECEU  -  SINCRONICIDADE

 

 

Mera coincidência : Eu não te disse que ia chover? Então, choveu ?

-- Sim, choveu. E eu me danei todo.

-- Está vendo ? Você não deu importância aos sinais.  Isso não é mera coincidência. É sincronicidade. Existe uma coisa muito ampla,   nisso que chamamos de firmamento, ou melhor, O Mundo Cósmico.

Tenho lido muito sobre sincronicidade. Os livros do DeepK Chopra explicam bem o fenômeno.

E um deles aconteceu comigo. Aqui cabe uma pequena introdução:

 

Aldenor era meu colega de trabalho quando eu estava preparando o Programa de Reaparelhamento da Indústria Têxtil, na SUDENE, no Recife.  Aldenor era Chefe do Departamento Jurídico do Banco do Nordeste, nosso coligado no Programa.

Figura original, Aldenor morava com três mulheres. Não tinha filhos. Uma era a própria esposa. A outra, irmã da esposa. A terceira, uma prima.

 Durante o trabalho, às vezes ele vinha ao Recife, outras eu ia a Fortaleza. Nestes casos, ele não permitia que eu ficasse em hotel. Ficava hospedado na casa dele e era sempre ele que me levava e trazia do Aeroporto. Numa dessa viagens ele diz à esposa:

-- Oh, Maria ! O Spreafico vai pro Aeroporto amanhã bem cedinho, Você levanta e, por favor prepara o café pra ele.

Interrompi imediatamente:

-- Não senhor. Não vou permitir que a Maria faça isso.  Ele insistiu, e insistiu tanto, que deu-me na telha fazer uma brincadeira:

-- Olha Aldenor: você não pode fazer isso. Sabe por que ? Porque  no caminho vai cair uma chuva, você vai furar o pneu do carro e ainda pode ser que, na volta, derrape na estrada lamacenta. Todos riram, a Maria levantou cedo, fez o café e partimos para o Aeroporto. Chegamos lá, o motorista encostou o carro próximo da calçada. Perto da entrada coloquei as malas no chão e ficamos nos despedindo.

Nesse momento, percebi que alguns pingos de água começaram a cair. Adverti: Estão vendo ? A chuva já começou. Agora só falta furar o pneu.

 

Ppffffffff . . . Mal pude acreditar. Olhei para o carro e vi pneu direito traseiro achatando-se no chão. Me ressoam até hoje as palavras  do motorista atônito :

 

Que boca  !!!

 

18 setembro 2023

O PRESIDENTE EVENTUAL

 Republicado em 19 Novembro 2017

 

O  PRESIDENTE  EVENTUAL

 

Estou transcrevendo o texto original, que havia abandonado por medo estar ofendendo nossos juízes togados. Muitas vezes, quando tentamos fazer humor acabamos por ser grosseiros e, pior, cometendo ofensas a quem não as merece. Principalmente quando tratamos de forma genérica um grupo ou uma instituição,  como é o caso presente.

Mas, depois de ler o que pensam vários dos meus “colegas cronistas” da imprensa escrita - desculpem a minha presunção - tomei coragem e mandei ver. Quem sabe assim eu consiga   receber, pelo menos, um mísero comentário neste humilde e abandonado blog. Ou, glória suprema, a visita do Japonês da Federal.

 

Sou totalmente ignorante em matéria de política. Bem que tentei, no meu tempo de estudante, meter-me nas discussões, participar de comícios, opinar sobre isto e aquilo. Cheguei a ler Marx e Engels. Nada deu certo. Não demorei a entender que, com a cara e o nome que eu carregava, ninguém me levava a sério. Então, limitei-me a cuidar das minhas tapiocas.

Isso não quer dizer que não me interessasse pelos destinos do meu país e do seu comandante maior: o Presidente. Houve uma época em que eu lia três jornais todos os dias.: O “Correio da Manhã”, “O Jornal” e o “Jornal do Brasil”.

 

Ora, se deu que, em 1954, o Presidente se suicidou. Comoção geral. O povo foi às ruas, não para quebrar coisas como é comum em nossos dias, mas para prantear o seu Presidente. O lugar foi ocupado pelo seu herdeiro natural mas depois, seguiu-se uma longa discussão sobre se isso era legítimo ou não. Discussão da qual eu nada entendi.

Sucederam-se vários presidentes, sempre com muita discussão e muita briga. Entre os últimos, creio que ainda estávamos no século passado, teve um que se mandou sem dizer água vai. Alegou que havia forças ocultas que não o deixavam trabalhar. No lugar dele entrou seu herdeiro, que deu muito trabalho porque muita gente não gostava dele. Até houve um plebiscito para saber se o povo queria que ele ficasse como pau mandado, mas o povo disse que não.

 

Ele era muito querido pela população e fez um comício que ficou na História, o famoso comício da Central. Eu assisti a esse comício, não porque me interessasse por política, obviamente, mas porque eu desembarcara no aeroporto do Galeão, vindo de Montes Claros, e o motorista do taxi me comunicou que o trânsito estava bloqueado perto da Central do Brasil, por causa do comício. Já que eu não podia chegar ao hotel, pedi ao motorista que me deixasse perto do comício. E lá fiquei eu, em pé, bem próximo ao palanque, ouvindo os discursos. Foram muitos discursos. Quando tudo acabou eu, leigo que sou, disse pra mim mesmo: “Isso não vai acabar bem”.

 

 Porque de repente chegou um pessoal saído dos quarteis, metralhadora na mão, dizendo : “agora quem escolhe presidente é a gente”. E assim foi por muitos anos. Quando eles se cansaram de escolher presidentes, entregaram o trono a um civil dizendo:  “daqui pra frente é com vocês”.

Aí, não sei bem como, foi escolhido um novo presidente. Então, aconteceu um novo infortúnio:  Antes mesmo de tomar posse esse presidente adoeceu e foi levado para um hospital. Foi empossado lá mesmo e, no dia seguinte, veio a falecer.

Foi substituído pelo seu eventual, um nordestino tranquilo, de bigode imponente, o qual, findo o mandato, passou o cargo para outro nordestino, eleito pelo povo. Este não era nada tranquilo, ao contrário, era brabo e saiu brigando com todo o mundo. Além de brabo, era meio tan-tan  pois saiu catando o dinheiro de todo o mundo com a promessa de que iria devolver tudo depois, e com lucro. Não sei se ele devolveu mesmo porque, no meu banco, eu só tinha boletos de contas  que eram pagas com o suor do meu rosto.

Disseram também que entre as patifarias que praticou, este jovem presidente havia recebido um regalo considerado muito suspeito: Uma Fiat Elba,  zero quilômetro.  Um vexame!

Então resolveram tirá-lo, e eu nem sei bem como isso foi feito, porque, nessa altura, eu já andava tão cansado que parei de ler jornais e fui cuidar do meu reumatismo.

 

E aí veio um período tranquilo em que os presidentes, todos eleitos pelo povo, passaram a trabalhar com grande empenho, embora nem todos agradassem a todo mundo, fosse quem fosse o presidente. Normal, porque isso é próprio do sistema democrático. Pelo menos foi isso que pensei porque eu, leigo total em política, andava cuidando apenas do meu laburo. Pois não é que, de novo, resolveram tirar o Presidente da vez? Acharam que este Presidente, mais exatamente, uma Presidenta, estava trabalhando mal e resolveram mandá-la embora. Isto, para muitos, foi considerado um golpe. O fato é que no seu lugar entrou o seu substituto eventual, tudo dentro da lei, segundo diziam os jornais, o que, obviamente, não correspondeu à opinião daqueles que o consideraram   golpista.  Pois agora, golpista ou não, estão dizendo que este é igualzinho ou pior do que anterior e, por isto, vão mandá-lo embora também. Até aí eu entendo. Mas ficou-me uma dúvida.

 

 Já expliquei que, em matéria de política, sou completamente leigo mas, que diabos, leigo também tem alma! Pois agora vou dar minha opinião de leigo e pouco me importa se me internarem num manicômio. Porque achei  esquisita  a  maneira como tudo isto está sendo feito.

Acontece que, fosse lá por que motivo fosse, atribuíram, esta tarefa a um dos Poderes da República: o Poder Judiciário. O Judiciário é formado por vários Tribunais, cada um identificado com uma sigla própria. Não sei se existe diferença hierárquica entre eles, tipo, um pai e muitos filhos, sendo o Tribunal filho um complemento do Tribunal pai, ao qual deve dar satisfação das maldades  que pratica, o que faria deste o Judiciário de verdade, a menos que o filho, quando menor, tenha sido emancipado pelo pai, não precisando, assim,  dar satisfações ao pai. Não importa, até aqui tudo bem, sabendo que o Tribunal filho que está no jogo é aquele que cuida das eleições.  

 

Tudo bem, mas nem tanto. Porque agora acabo de descobrir que os Juízes dos Tribunais, tanto o pai como o filho, são nomeados pelo Presidente da República, e a ele, é de se esperar, devem fidelidade. Podemos dizer que um juiz é um Juiz e que ele está acima dos interesses terrenos, portanto é imparcial. Ótimo. É assim que deve ser.

 

Mas aqui entra uma grande confusão. Alguns juízes pertencem simultaneamente a um Tribunal Filho e a um Tribunal Pai. Outros, só ao Pai. Tem mais: alguns juízes foram nomeados pelo presidente escorraçado, outros pelo presidente que chegou ao cargo por herança. Será difícil conseguir coerência nesse caleidoscópio de interesses. Prova disso são as suas reuniões longas e patéticas, enfeitadas por salamaleques e enriquecidas por elogios recíprocos, datas vênias, ipsis verbis, causa finita, ad perpetuam rei memoriam ... isto para não mencionar os floreios de linguagem jurídica, repetidos à exaustão para que se tornem válidos, nem os arroubos de histeria dignos de uma prima donna contrariada, para dominar o palco e comover os colegas e o público. Afinal os Juízes, ainda que cobertos pelo manto sagrado da toga, são seres humanos.

 

Alguma coisa está errada. No centro dessa discussão está a definição de quem é o autêntico presidente: se aquele que foi eleito pelo povo ou aquele que ocupa o posto por herança. Ou nenhum dos dois. E quem vai resolver isso são os Juízes indicados pelos Presidentes envolvidos. Ora, esses juízes não foram escolhidos pelo povo como acontece com os presidentes. Decididamente, alguma coisa está errada. É preciso inverter essa coisa: o povo é que deve escolher os juízes. E os juízes indicarão o presidente.

 

Com uma condição: os juízes removeriam aquele medonho manto fúnebre seriam reincorporados à espécie humana.    ABSIT  INJURIA  VERBIS.

 

Nota bene: Transcrevo o parágrafo introdutório do artigo publicado pelo mestre Nelson Mota no O Globo de 16 de Junho de 2017, na página dos editoriais:

“ Há juízes bons e maus, preparados e incompetentes, burros e inteligentes, honestos e desonestos, embora todos, ou quase, se considerem num patamar  acima do cidadão comum, pelo poder de decidir a vida e a morte de quem transgride  a lei.”

 

 

 

 

 

15 setembro 2023

EM SILÊNCIO

 EM SILÊNCIO

Eu tive, na minha vida, duas oportunidades para viver o silêncio absoluto, o “voto de silêncio”. Era jovem, andava pelos 14 anos, morava no Recife e andava muito apegado à Igreja Católica.  Passada a praia de Boa Viagem estendia-se um areal denominado Praia da Piedade. Ali havia um Convento de Frades, creio que Dominicanos, bem ao longo da beira mar.

Durante a Semana Santa, o Convento oferecia um retiro espiritual.

Entrávamos na segunda feira e saíamos depois do Domingo de Páscoa.  Aderi imediatamente.

*A outra experiencia foi a permanência por um ano em um sítio no município de Amparo, em Nova Friburgo sem luz, sem jornal, sem telefone sem vizinhos.

O local era fascinante. Além das práticas religiosas podíamos tomar banho na praia sempre que houvesse um intervalo e sob vigilância de um sacerdote. Havia, porém, uma regra pétrea :  O silêncio. Ninguém podia falar. Nem mesmo os frades, entre si, exceto quando proferiam o sermão do dia ou as orações de rotina. A partir da terça feira, iniciava-se o jejum. A comida era reduzida, dia a dia, até transformar-se, na Sexta Feira Santa, em meia batatinha cozida. Na água. E sem sal.

O que aprendi nesse retiro vale mais do que anos de aprendizado acadêmico. Mais do que palestras de psiquiatras e psicólogos. E saibam que desde esta experiencia até hoje passaram-se 81 anos.

Fuja da verborragia. Não massacre seus amigos com bolodórios e arengas enfadonhas. Pense em silencio. E viva tranquilo.

22 agosto 2023

CHEGOU A NOVA INTELIGÊNCIA

 Gigantesca, avassaladora, a Inteligência Artificial veio mudar o nosso modo de pensar, o nosso comportamento, a nossa vida diária. Prepare-se. Amanhã você não tomará mais banho como ontem. Não posso dizer que será uma “lavagem a seco” como se fazia antigamente com os nossos ternos de casimira, mas ela te deixará esterilizado por um período que será indicado no teu cangote por uma etiqueta também solúvel. Milhões de coisas serão jogadas no espaço. Milhões de calculadoras, ábacos e baralhos de Tarô, serão montados e esparramados entre as galáxias. Poemas, romances, crônicas, artigos, teses de doutorado piadas e tudo o que for fotografia no mundo será disponibilizado e posto no ar, gratuitamente. Você aí, que me ouve, esqueça seus incautos leitores e vá criar galinhas. Rápido, antes que a IA chegue.  

 

Eu disse que era tudo grátis não foi? Não estou muito certo disso.

Aliás, não procurei saber. Duvido que nessa parafernália toda não surja um sininho qualquer oferecendo um conjunto de frigideiras, 6 xícaras, e 100 quilos de massa puba, para fazer tapiocas o resto da vida, ainda nesta encarnação. Pagamento: no Jardim do Além.  

 

Epa! A luz surgiu.  Finalmente chegam notícias.  A IA está mais viva do que nunca e mostrando resultados práticos, arrastando consigo milhões de Reais. E de Dólares. São empresas de carne e osso e trabalham com dados em nuvem e serviços digitais como, por exemplo, reduzir fraudes e sinistros. Também oferecem apoio a empresas financeiras para “joint ventures”, financiamento de ativo fixo, o escambau. Ainda bem. Agora já posso dormir sossegado.                                                                                    

26 junho 2023

A LONGEVIDADE VISTA DE PERTO

 Quando tratei dos velhinhos, entre os quais me incluo, eu já estava mais “pra lá de Bagda”. Não que tivesse bebido, pois que para isso não me faltou oportunidade, mesmo depois que perdi o emprego. Trabalho é o que não me falta, mas vou levando com moderação. Vai que me se estica um nervo e . . . catapum !  Além da queda, coice.

 

Pois, refletindo um pouco, percebi que uma olhadela macro ao tema, me desvendaria comportamentos e atitudes que esticariam a própria longevidade.

Começando com as “zonas azuis” e seu gene privilegiado às quais me referi alhures e o infindável número de estudos, sempre oriundos de Universidades Norte Americanas, que tratam de tipos de vida que levamos, regime nutricional, atividade física, conexão mente-corpo, entre outros.

 

No que diz respeito ao regime alimentar sou afortunado pois desde cedo embarquei na Cozinha Mediterrânea e seus moderados copos de vinho, depois estendidos para o Chile e gradativamente, na medida em que foram melhorando de qualidade, aos vinhos nacionais, notadamente os do Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul.

 

Quanto à minha atividade física, melhor esquecer. Estou pregado ao solo pelo peso das pernas.  Certamente fui castigado por algum malfeito que cometi. Motivos não faltaram. Mesmo assim, sou irremediavelmente feliz.

Imaginem se eu estivesse morando na Ucrânia!

10 junho 2023

A MINHA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 Estão me perguntando como anda a minha inteligência artificial.

Respondo que não tenho inteligência artificial alguma. Quem me  dera! Eu mal consigo cuidar da inteligência natural de que disponho, trôpega e falaz, quanto mais fazer incursões num mundo quimérico e fantástico como o da inteligência artificial.

Mal ou bem, andei escarafunchando o que se dizia naqueles mundos e descobri que as tripas da inteligência artificial haviam sido afetadas quando a Rússia lançou ao espaço o Sputnik. Foi uma comoção a nível mundial.

O Sputnik foi o primeiro satélite artificial lançado no espaço, em 4 de outubro de 1957. A União Soviética iniciou, assim, a era espacial em conflito com os Estados Unidos, tanto em termos tecnológicos quanto políticos.  

Esse evento criou pânico no país.  Uma pergunta ecoava na boca de todos os americanos: “Como foi que permitimos que a Rússia passasse à nossa frente nessa competição tecnológica?”

Não sei qual foi a resposta dada pelos cidadãos norte-americanos. Mas, modestamente, posso responder. Quando isso aconteceu eu costumava ler vários jornais. E li a notícia de que um Senador Americano havia pronunciado no Congresso um discurso explicando:

“Eles passaram à nossa frente porque costumam ensinar, nas escolas, a jogar xadrez. Qualquer criança na Rússia joga xadrez.

E eu me lembrei do velho Kasparov e seu Gambito de Dama.

 

(Ver crônica “Os chineses chegaram” – Pag. 190 do livro Memórias).

Os chineses dispunham de um jogo aparentemente mais simples do que o xadrez, porém muito mais versátil e que exigia maior esforço mental na sua execução. Era o GO, um tabuleiro quadriculado com 11x11 linhas e um monte de pedrinhas brancas e pretas. Eu joguei muito xadrez na minha vida, mas quando tentei o GO, logo desisti. Faltou-me paciência e competência. E logo dei a desculpa que me ocorreu na hora: “Isso é coisa de chinês”.

E aí entrou o Google que proporcionou a criação do AlphaGO, no qual você podia jogar GO contra o computador. Vários campeões se apresentaram. O AlphaGO sempre venceu. Essa disputa aconteceu por volta de 2014.

Hoje as empresas estão atentas ao avanço tecnológico proporcionado pela inteligência artificial, todas elas preparadas para  as leis e normas  que deverão acatar. Os grupos são muitos mas convem destacar os de tecnologia e financeiras.

Aí está. Foi tudo o que consegui produzir com a ajuda da minha Enciclopédia Barsa e o faro com que tempero minhas tapiocas. Contudo, ainda tenho a esperança de um dia conseguir fazer a barba com o meu celular, aprender a não trocar frases como “Carolina de Sá Leitão” por “caçarolinha de assar leitão” .E que meus incautos leitores me perdoem por abordar um assunto tão importante, com a leveza de um ingênuo. Espero vocês todos mais adiante, quando a Inteligência Artificial acionar a chave da Suma Sapiência e disser :

“Agora tá tudo certo. Tudo junto e misturado”   

.                   

17 maio 2023

A LONGEVDADE VISTA DE LONGE

 Muito se tem falado sobre a longevidade. Psiquiatras, psicólogos, sociólogos e até engenheirólogos têm discutido o assunto, propondo métodos e processos para alcançá-la.

Sugerem mudança de hábitos no comportamento, na alimentação, atividade física, meditação, contacto com a natureza, relacionamento humano, manter um trabalho regular e  outras sugestões interessantes. Em uma palavra : Vida saudável !

 Por outro lado, pesquisadores identificaram que existem, na terra, zonas que possuem um “dna” diferente, onde seus habitantes mostram idades avançadas. Um exemplo prático seria a  Sardenha, na Itália. Existe também exemplos no Japão, na China e na Índia. Os pesquisadores deram a esses lugares o nome “zonas azuis”

Constatei que a parte central da Lombardia - Norte da Itália,   exatamente no Município de Sulzano, onde se encontra o belíssimo Lago de Iseo - possui também o gene da longevidade. Ali, quando eu ia visitar meus parentes, eu costumava assistir a Missa na Paróquia do bairro. O enorme sino da torre dobrava um toque fúnebre para saudar os falecidos. Ao lado, um enorme cartaz exibia a foto dos defuntos com o ano do falecimento. Nunca encontrei ninguém abaixo dos 90 anos.

Muito bem. Falei muito da longevidade.

Só que agora não sei o que fazer com ela.

Arrasto meu corpo através dos tempos. Sou uma sombra de mim mesmo. Meu corpo vaga pela noite como um fantasma à procura de almas para assustar. Quem sou ?  Onde estou ?

Vou pedir ajuda ao Poeta. *


“De repente uma pena apareceu no espaço 

Riscando os ares rápida e matreira

E apontando meu peito zombeteira

Disparou letras com desembaraço

A pena desenhava no ar letras malfeitas

Que eu arrumava sem zelo, em linhas tortas

Para que fossem consideradas letras mortas

E assim passou-se o tempo.

Minha alma levitava em desatino

Pois negava-se a cumprir o seu destino

Mergulhar no Espaço Sideral que eterno dura

Onde pudesse iniciar vida mais pura”

Assim foi e assim será. Que minha alma continue a flutuar no ar disperso. Que minha Longevidade seja vivida em toda a sua longitude. Que eu possa usufruir da minha Mansão, com seus 150 metros quadrados, juntamente com minha esposa, filhos, netos e demais familiares. Que meus amigos continuem a me visitar e fazer companhia, como sempre fizeram. E que eu possa gritar, quando acordar, pela manhã, “Sou um homem feliz.”

“DOMINE NON SUN DIGNUS”

 

* Página 146 do Livro.

 

 

09 maio 2023

È TRISTE, MAS EU NÃO LIGO

 


No dia 9 de Maio de 2020 escrevi o texto que reproduzo abaixo:

 “Triste é você descobrir que o computador virou o melhor amigo do homem. Triste é você acabar escravo dos tizapps da vida e, na ânsia frenética de dar respostas, descobrir que o seu dedo aperta 3 letras ao mesmo tempo. Você leva mais tempo para corrigir o que escreveu do que levaria para escrevê-lo.  Não se faz mais dedos como antigamente!

Triste é você descobrir que a bengala virou o móvel mais importante da casa.

Triste é você não poder tirar aquele livrinho da estante mais alta da sua biblioteca porque não consegue mais subir os degraus daquela escadinha de meio metro de altura.

Triste é não poder mais ler a bula do remédio ou a coluna interna do jornal porque as letras ficaram misteriosamente miúdas.

Triste é você descobrir que o nível do chão ficou mais baixo do que era antes e que o mesmo sofá, no qual você sentou toda a sua vida, ficou mais longe e agora você desaba nele como um saco de batatas.

Triste é quando você conta aos seus amigos que votou no Bode Cheiroso e eles dizem que você é o responsável pela desgraça que desabou sobre suas cabeças.

Triste é que, quando eu for reler este texto, manuscrito que foi, não vou conseguir entender as palavras que escrevi.

Mas triste mesmo será quando eu não tiver mais motivos para ficar triste. Porque aí, eu me darei conta de que era feliz e não sabia ! “

Hoje, dia 9 de Maio de 2023, exatamente 3 anos depois, vejo que nada mudou. Minha carcaça continua a mesma, minhas dores aumentaram um pouco e meus desejos se aquietaram.  Mas uma coisa aconteceu. A premonição feita no último parágrafo se confirmou. Hoje eu sou feliz.

 

 

  

 

 

 

                                        

 

26 abril 2023

CARTA AOS MEUS AMIGOS

 Decidi interromper a série de crônicas que havia denominado de “CAPÍTULOS”. Tratavam da minha carreira profissional, onde eu me pavoneava em elogios ao meu trabalho. A próxima seria a Fábrica de Tecidos Seridó que projetei para a União de Empresas Brasileiras, a qual  se associou à japonesa Shikibo e construíram a Fábrica, que eu administrei durante vários anos. Eram crônicas enfadonhas e de interesse pessoal.

Por isso resolvi escrever esta “CARTA AOS MEUS AMIGOS” e a quem mais interessar possa.

Vou retroceder no tempo :

De 1944 e 1948, morando em Pernambuco, eu fiz o curso Industrial Básico na Escola Técnica do Recife, uma escola da rede federal, situada no Derbi, um bairro residencial elegante. O prédio da escola ficava na margem do Rio Capibaribe, uma vista encantadora, com sua correnteza impetuosa ilustrada pelas cores desastradas do pôr de sol. A escola dispunha de um alojamento muito confortável. O regime era severo: pela manhã educação física, café com mungunzá que a gente apelidou de chá de burro.

No período da manhã, aulas teóricas, à tarde aulas práticas nas oficinas: tornos mecânicos, fresas, plainas e furadeiras. À noite, após o jantar, estudo dirigido, acompanhado por um professor assistente.

Junto ao prédio da escola tínhamos três vizinhos importantes. Um era o Hospital-Maternidade. Do meu quarto, eu escutava os gritos das parturientes que choravam as dores do parto. Naquele tempo a anestesia não estava devidamente desenvolvida.

Outro prédio era a Casa do Estudante, um alojamento para estudantes de medicina. Ali fiz muitos amigos e aprendi como era feita a carcaça do corpo humano.

Finalmente, bem próximo ao prédio da escola, estava o Necrotério, onde se congelava os cadáveres enquanto aguardavam a necrópsia e o sepultamento merecido.

Ocorre que o Necrotério vendia aos estudantes de medicina ossos inteiros, costelas, tíbias e crânios, para estudarem em suas casas.

Curioso, eu também comprei o meu, que guardei com muito zelo e respeito, por muitos anos até que lhe pude dar um sepultamento adequado. Na verdade, fiz uma cremação. No quintal de minha casa, cortei um pé de eucalipto da variedade Citriodora, a madeira mais aromática, e fiz uma grande fogueira.

Depositei ali o ilustre anônimo, invoquei meus Orixás e rezei meu “Requestat in pace, Amen”.

Por que conto isto agora?   Porque, agora, e eu me refiro há poucas semanas atrás, deram de me aconselhar a furar o crânio. “Credo cruis ! Que coisa mais estapafúrdia”

Eu tive um AVC três anos atrás. Com a ajuda dos médicos fui melhorando e fiquei praticamente recuperado. Mas o tempo, que não espera por ninguém, foi cumprindo o seu papel e as pernas ficaram bambas. Problema de vascularização nos membros inferiores, diagnosticaram os exames. Muito bem, contratei uma massagista para fazer a drenagem linfática.

Mas alguém me alertou:

-- Você tem água na cabeça !

Como é que essa água se formou ali, me perguntei. Desconfiei logo na qualidade do vinho que eu estava bebendo. Talvez estivesse muito fluido e o cérebro o interpretou como imprestável.

-- Você tem que tirá-la! Tira-la como? Comecei a procurar por onde. Quantos orifícios temos no corpo? As narinas. Nada. Os ouvidos. Nada. Os olhos. Nada. Sobraram o Fio-fó e o Bilau. Estão   muito longe, melhor esquecê-los.

Vou ter que furar o crânio.  

Longe de me desesperar, resignei-me. E feliz com os meus sentimentos, aguardarei a hora de subir a Montanha de Narayama.

E, lá do alto, olharei para baixo e direi orgulhosamente:

São “OS MEUS AMIGOS.”

 

 

 

 

06 abril 2023

VIDA QUE SEGUE

 CAPÍTULO 8

 Banco de Investimentos COPEG  -  Rio de Janeiro

 O meu tempo de trabalho no Banco do Nordeste do Brasil durou pouco. Praticamente limitou-se ao ano de 1969. Fundada a CTA – Consultores Têxteis Associados, comecei a trabalhar por minha conta. Fui Consultor do BNDE – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico em diversas missões, Consultor do Mercado Comum Andino em Lima – Peru e Consultor do BADESP – Banco de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, sempre para assuntos relativos à indústria têxtil.

 Em 1972, fui nomeado Diretor do Banco de Investimentos COPEG, o Banco estadual de desenvolvimento do Estado da Guanabara, correspondente ao BANERJ, o banco comercial. Na COPEG ocupei o cargo de Diretor de Crédito Industrial.

Em 1974 fui indicado para ocupar o cargo de Diretor Superintendente, na qualidade de interventor, do grupo Dona Isabel, que englobava quatro              Empresas, inclusive uma no Rio Grande do Sul. O grupo se encontrava inadimplente junto à COPEG e era considerado de difícil recuperação. Um trabalho penoso e exaustivo que durou até 1976, quando foi devidamente  sanado. Na Diretoria Executiva havia também um Diretor Administrativo e um Diretor Financeiro. Concomitantemente, tínhamos um Presidente, sem função administrativa, que representava a Empresa com poderes nunca bem definidos.

Um dia fomos surpreendidos com a notícia de que o Diretor Financeiro iria ser substituído. Liguei para o Presidente e perguntei se confirmava a notícia. Comuniquei que, em caso positivo, eu entregaria o cargo. Foi o que aconteceu. Os demais diretores, num gesto de solidariedade, me acompanharam. Eu sabia que ficaria desempregado, mas era o meu dever.                     

 No dia seguinte, para minha surpresa, recebi uma chamada telefônica:

-- “Você vem trabalhar com a gente.”

Era o Ex. - Governador do Rio Grande do Norte  Aluízio  Alves, Vice-Presidente Executivo da UEB – União de Empresas Brasileiras.

No dia 26 / 02 / 1976, eu era nomeado  Diretor  de Coordenação Industrial, com a  “atribuição básica de coordenar as atividades operacionais das  Empresas Industriais da UEB.

 Primeira tarefa:  “Implantação de um Parque Têxtil no Estado do Rio Grande do Norte”

 

25 março 2023

VOLTA À CASA PATERNA

 CAPÍTULO 7

Novas atividades na CEPAL

O trabalho no Chile, continuou eficaz.  Os estudos da indústria têxtil dos países latino-americanos estavam publicados. O meu contrato de trabalho, inicialmente de sete meses, foi se ampliando e eu acabei me tonando funcionário permanente ou “ de planta “ na denominação local.  Assim, comecei a fazer estudos para outros setores, começando com o metalmecânico que me era mais familiar.

Depois de algum tempo, fui cedido ao ILPES  -  Instituto Latino-americano de Planificación Economica y Social, um Organismo da própria CEPAL, onde passei a dar aulas e organizar Seminários, sempre tendo setores industriais como modelo.

O trabalho era gratificante e o convívio com alunos ilustres – professores, alguns ministros de Estado  - fez com que eu aprendesse muito. Por outro lado, a tarefa não era cansativa. Tínhamos um convívio social intenso e um círculo de amigos muito ativo, sempre organizando jantares e passeios.

Para mim, Santiago era um paraíso. Cidade limpa, organizada, silenciosa, sem violência. Polícia exemplar. Ai daquele que tentasse subornar um policial. Seria preso no ato.

Eu morava em Vitacura, um bairro pacato, estritamente residencial. Todas as manhãs eu ia buscar o leite. Era embalado em garrafas de vidro colocadas em um engradado, na esquina de casa. Eu levava a garrafa vazia e colocava o dinheiro numa caixa de papelão, onde já havia um monte de moedas e cédulas. Nunca encontrei ninguém.

Nos fins de semana, passeios a Viña del Mar, visitas a Isla Negra, onde            viveu Pablo Neruda ou visita à Gascona, sua casa em Santiago, passeio por Costanera e almoço em Las Condes.

 O tempo passava e eu vivia feliz com o meu trabalho. Mas o destino, às vezes, nos reserva uma surpresa. Quando eu menos esperava recebo uma carta do BNB - Banco do Nordeste do Brasil convidando-me a trabalhar no Brasil. Eu já havia trabalhado com o Banco pois ele formava, com a Sudene, o Programa de Reaparelhamento da Indústria Têxtil. Adaptando a loquacidade da carta para termos informais, ela dizia o seguinte :

 -- “Galego, você que trabalhou tanto com a gente e que dizia que o Nordeste era a sua Pátria, por que não volta pra cá ? As fábricas de tecidos aqui continuam fervilhando e carentes de ajuda técnica. “

 Isso foi suficiente para disparar uma centelha na cabeça do Galego. Comecei a despedir-me dos colegas de trabalho da CEPAL, enfrentando abraços e enxugando as lágrimas. Despachei os poucos moveis e os “efectos personales “ de que dispunha por navio em no dia 5 de Setembro de 1968 eu embarcava para o Recife.

 Deixei a família na velha casa e parti para Fortaleza. No Banco, recebeu-me o Aldenor, advogado do Departamento de Crédito Industrial, * o qual iniciou os procedimentos para a minha admissão. Documentos, exame médico e não sei quantas certidões negativas, inclusive algumas que tratavam de tendências políticas, opiniões sobre o Governo daqui, do Chile, da Bessarrábia e não sei o que mais. Descobri então, que havia acabado de ser promulgado o AI 5, destinado a consolidar as normas da ditadura no Brasil.

Admitido, depois de um breve período em Fortaleza, fui transferido para a Agência do BNB no Recife e continuei fazendo o que sabia : cuidar de fábricas têxteis. Passado um curto período, pedi demissão e abri meu próprio negócio. Fundei a CTA – Consultores Têxteis Associados, uma empresa  especializada na elaboração de projetos têxteis, sem empregados, mas com dois Diretores : Eu e minha esposa Dorotéa Brasil.

 

·        Ver crônica  “Aldenor, o Messias”  Página 119 do livro  “Memórias de um Vago” , ou www.memoriasdeumvago.blogspot.com

 

  

 

16 março 2023

O TRABALHO NO CHILE

 

CAPÍTULO  6

 A CEPAL  -  Comissão Econômica para a América Latina.

Uma Organização destinada a promover o desenvolvimento econômico dos países latino-americanos.

Desde 1960 eu vinha trabalhando tranquilamente no Nordeste do Brasil cuidando dos projetos das fábricas de tecidos e treinando Mestres e Contramestres.

Em Fevereiro de 1964,  correu um boato, entre os meus colegas, de que um certo Capitão Mourão estava aquartelado em Juiz de Fora, pronto para descer para o Rio e ocupar o Palácio do Governo. Todo mundo achou graça. No dia 31 de Março, do alto do prédio da SUDENE, eu vi os tanques de guerra cercarem o Palácio das Princesas. Prenderam o Governador e saíram à procura de subversivos.

Estava implantada a Ditadura. A SUDENE recebeu um novo Superintendente, um General. Celso Furtado foi convidado a ficar mas não aceitou. Saiu do país e foi dar aulas nos Estados Unidos. Nessa época, além do meu trabalho, eu fazia o curso de Economia na Universidade do Recife. Tive que abandoná-lo. Por oportuno, devo contar também a minha experiência com o regime militar. Eu tinha ido a Sergipe analisar o projeto de reaparelhamento da Fábrica da Estância. Indeferi o projeto porque, conhecendo o regime de chuvas no Nordeste, percebi que a fábrica poderia ser inundada. Com efeito, algumas semanas depois, a fábrica foi inundada.  Quando isso aconteceu meu chefe me chamou e disse:

 -- “Prepare-se para viajar. A Estância foi inundada. É preciso fazer um projeto de recuperação da fábrica”.

 Eu me recusei. E o meu chefe comandou:

--  “Então você vai falar com o General. Eu fui.

Esta história é muito longa, mas não se perdeu. Está na página 281 do livro “Memórias de um Vago”. Para quem não tem o livro (está esgotado) vale o Blog  “www.memoriasdeumvago.blogspot.com”

 Apesar dos embaraços e adversidades, o meu trabalho, bem como o da minha esposa Dorotéa, continuava produtivo e eficaz. Viajava muito pelo Nordeste escarafunchando as fábricas e me sentia feliz e orgulho0,0,so do meu trabalho, convivendo com empresários, diretores, contramestres, fiandeiros e tecelãs. E vibrava quando subiam os índices de eficiência das fábricas.

Até que um dia recebi um convite para trabalhar na CEPAL, com sede no Chile. No mesmo ramo têxtil no qual eu havia me destacado na SUDENE. Iria coordenar o diagnóstico da indústria têxtil de vários países: Argentina, Uruguai, México, Colômbia e El Salvador. E, ironia do destino, recebi a missão de vir ao Brasil para avaliar como andava o Programa de Reequipamento da Indústria Têxtil do Nordeste. 

Concomitantemente aproveitei para desenvolver alguns conceitos técnicos que ajudariam as fábricas a optarem entre tamanho e rentabilidade, tecnologia e custo de mão-de-obra, entre outras. Entre os mais importantes preparei: 

“Economias de Escala na Indústria Têxtil”

“Seleção de alternativas tecnológicas na Indústria Têxtil”

“Transferência do conhecimento técnico (know how) na Indústria Têxtil e do Vestuário.

Esses trabalhos foram editados pela CEPAL em português, espanhol e inglês. Ainda tenho cópia deles.