19 fevereiro 2011

Quando eu tinha 17 anos


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Quando cheguei aos 17 anos eu estava terminando o  curso de Mecânica de Máquinas na Escola Técnica do Recife, uma instituição da Rede Federal de ensino técnico. A prova final foi a construção de um torno mecânico completo. Cada aluno foi incumbido de um componente da máquina. A mim coube o  “cabeçote fixo”,  a parte mais complexa do equipamento. Isto porque eu era cdf. E dos mais  fervorosos. Como cdf eu tinha outros atributos. Nas férias, em lugar de refrescar-me nas águas verdes de Olinda, eu procurava emprego nas oficinas mecânicas do Recife. No contato com o quotidiano áspero do proletariado aprendi muito sobre o comportamento humano, desde a maldade mais perversa até as atitudes de solidariedade, de desprendimento, do sacrifício espontâneo e desinteressado. No ambiente rude das oficinas não havia clemência. Qualquer erro era punido no ato.

 Os quatro anos naquela escola técnica formaram o meu caráter ou, pelo menos, a parte melhor dele. A escola ficava na margem do  Capibaribe, onde o rio fazia uma curva. No lado oposto podia-se ver a Fábrica da Torre, com sua altíssima chaminé perfurando o céu. Bem na frente da escola, junto ao barranco da margem do rio erguia-se uma descomunal figueira sob a qual eu me sentava, nas tardes de sábado, à espera do por de sol. E por que nas tardes de sábado? Porque eu morava no alojamento da escola e só ia para casa, na cidade de Paulista, a trinta quilômetros dali, nas grandes ocasiões.

A minha vocação de cdf não me dava paz. Eu precisava praticar no ofício ao qual me dedicava e achava que as aulas não eram suficientes. Nos fins de semana a escola ficava deserta. A entrada e a saída do alojamento era livre. Não havia sequer porteiro. As oficinas eram localizadas em imensos galpões, divididos por especialidade. Descobri que a grande porta da Fundição tinha uma brecha pela qual eu podia passar confortavelmente. Sábados e domingos eu gastava o dia inteiro praticando a moldagem de peças. Naquela época a moldagem era feita em caixas de areia que, depois de receber o metal fundido – ferro, bronze, alumínio, antimônio e o que fosse – eram desmanchadas e a areia, uma areia especial, evidentemente, era reutilizada. Um dia eu moldei  quatro peças, entre elas um disco em alto relevo com o rosto do Cristo, com sua linda coroa de espinhos na cabeça. No dia seguinte iríamos fundir bronze. Em lugar de desmanchar as caixas que havia sorrateiramente moldado, deixei-as alinhadas junto aos moldes programados. O cadinho cumpriu  seu  percurso e derramou o metal líquido sob o meu olhar em êxtase. Enquanto o metal esfriava recebemos aulas teóricas do Mestre explicando a técnica usada em cada peça. Menos quatro. Abertas as caixas vejo o Mestre inquieto, prancheta na mão, andando de um lado para o outro, remexendo papeis, contando nos dedos, coçando a cabeça. Os alunos se haviam espalhado, esperando o encerramento da aula.

-- Aconteceu alguma coisa errada, Mestre? , arrisquei.
--Não, meu filho. Só não entendo quem foi que meteu essa cara do Cristo na programação!
-- Deixa pra lá, Mestre. Se não foi programada, distribui aí pros alunos!
E foi assim que eu ganhei um rosto do Cristo em bronze, com sua linda coroa de espinhos na cabeça.

Férias. Tempo de procurar emprego. Vai ser fácil. As oficinas já me conhecem. O diretor da escola manda me chamar e comunica que a Escola Técnica de Indústria Química e Têxtil, que ainda estava em construção no Rio de Janeiro, estava oferecendo bolsas de estudo, abertas para todo o país. Pernambuco teria cinco vagas. Seria feito um exame de seleção e os cinco aprovados iriam para o Rio de Janeiro onde seriam submetidos a novo exame, para aprovação final. Aconselha-me a fazer as provas.
Embarquei num heróico DC3 que depois de fazer escalas em Maceió, Aracaju, Salvador, Vitória, Canavieiras, Cabrália, Ilhéus, desabou sobre a pista militar do velho Galeão e caminhou, trôpego, até a estação de passageiros. Dalí, uma camionete Dodge, com carroceria de madeira, me levaria até a Rua Bela, em São Cristovão, meu novo alojamento. E a linha 56, do bonde Alegria, entraria na minha vida.
                                                                                                                





16 fevereiro 2011

Por trás das Cortinas


Foi  por trás das cortinas, dentro  do quarto da Rainha,  que Hamlet  atravessou Polônio com uma espada, pensando tratar-se do Rei Claudio, assassino do seu pai.


Foi por trás das cortinas do salão nobre do Palácio do Governo do Estado de Sergipe que ouvi o Governador Seixas Dória, convocado pelos militares em 1964, defender-se da acusação de comunista e subversivo.
O enorme salão dividia-se ao meio por uma cortina composta de faixas entre as quais ficava uma fresta. De onde eu estava, uma espécie de ante-sala, podia ver  a longa mesa de reuniões onde se destacava o colorido das fardas. O tom eufórico das discussões permitia que se ouvisse tudo.  Impotente, o Governador  se justificava com frases ingênuas, tentando demonstrar que não tinha nenhum envolvimento com a subversão e que sua única preocupação era fazer um governo digno e honesto.
Eu estava sentado ali  aguardando uma entrevista com o próprio  Governador , a  qual  havia sido postergada  justamente por aquela reunião imposta pelos militares. Testemunha involuntária dos acontecimentos, eu me sentia constrangido. Como podia um governador, eleito livremente pelo voto do seu povo, ser humilhado daquela maneira?
Encerrada a reunião,  as cortinas foram abertas e,  ironia, foi servido um coquetel. No momento em que me  apresentavam  ao Governador,  um soldado garçom se aproxima e oferece um drink. Lembro-me até hoje das palavras do Governador, abatido mas sorridente:
-- “O senhor aceita um cálice? Pode tomá-lo tranqüilo, não é o cálice da amargura”.
Mas, era. No dia seguinte o Governador Seixas Dória era conduzido, algemado, para o presídio de Fernando de Noronha.


Foi por trás das cortinas do Teatro Santa Isabel que vivi uma das maiores emoções da minha vida. Era a minha primeira experiência como ator e estreava a peça   “O Diário de Anne Frank”.  O ensaio geral havia transcorrido de maneira perfeita. Diálogos, marcações, figurinos, entradas e saídas, contra-regra, luz, som, tudo havia funcionado à perfeição. Noite de estréia, eu andava eufórico de um lado para outro do palco, conferindo falas com os colegas, melhorando inflexões, ajustando figurinos, deixando palavras de incentivo para os mais temerosos. Espiei através da cortina fechada e me deparei com o espetáculo deslumbrante do teatro vazio, feericamente iluminado. Um ligeiro calafrio me percorreu a espinha. Nada mais natural, pensei. Uma estréia é uma estréia e eu sabia que até o Sergio Cardoso, quando interpretava Hamlet, ficava nervoso. Continuei no meu vai-vem quando percebi  um certo rumor que, aos poucos, parecia crescer. Não dei importância e continuei na minha euforia. O ruído continuou subindo de tom, parecia vir do céu, um barulho cada vez mais alto, difuso, indecifrável. Suspeitei que viesse da platéia e resolvi espiar, mais uma vez,  através  da cortina.  O teatro completamente lotado de gente  conversava,  no  que,  para mim,  parecia um trovão. Fiquei petrificado. As três pancadas de Molière, repercutindo no chão de madeira, tiraram-me do torpor. Ocupei minha posição no palco . As cortinas se abriram.


Por trás das cortinas de uma sala de visitas um pai descobre a frivolidade do filho já adulto e resolve dar-lhe um conselho. No terceiro ano do curso primário do Grupo Escolar João Vieira de Almeida, na Vila Maria, onde eu só cheguei aos nove anos, tínhamos um “livro de leitura”. Esse livro trazia pequenas histórias, lições de civilidade, feitos históricos e, cá e lá, algumas poesias. Esse livro sumiu, evidentemente, tão logo terminei o curso primário,  mas dele gravei um soneto, que guardo na memória até hoje. O autor do soneto também se perdeu com o livro. Em todos estes anos não me preocupei em descobri-lo.
Vou transcrevê-lo, tal como o lembro:


TERTULIANO

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,
E indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, em frente a um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

- Tertuliano,  és um rapaz  formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? -

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvia tudo,
Serenamente  respondeu: - Juízo.  


Depois destas evocações eu não podia deixar de  investigar  alguma coisa sobre este soneto. Descobri  que a memória me traiu em vários pontos:
1.     O autor, cujo nome não lembrava, é  Artur Azevedo
2.     O nome do soneto, que eu julgava ser  “Tertuliano”, é  “Velha anedota”
3.     Em lugar de “em frente  a um espelho”  é:  “diante de um espelho”
4.     Em lugar de  “ouvia tudo”  é  “ouvira tudo”
5.     Em lugar de  “Serenamente  respondeu”  é  “Severamente respondeu”


Assim é, amigos, se lhes parece.  Como eu ouvia dizer naquela época:
 “O mundo gira e a Lusitana roda”

Severino Mandacaru

07 fevereiro 2011

A flor que caiu do céu

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Memórias.  Sempre memórias. Para que servem? Por que as contamos? Para quem as contamos?  Se eu tivesse  resposta para essas perguntas, eu jamais  as escreveria.  Memórias!  Com algumas nos sentimos glorificados. Com outras, envergonhados. Muitas nos rejuvenescem - Picasso dizia que  “levamos muito tempo para ficar jovens”.  Outras apenas nos mostram o peso da senilidade. Contamos verdades. E quem acredita nelas?

Eu não havia ainda completado  sete anos de idade quando caminhava com minha mãe pela calçada da Avenida Guilherme Cotching, na Vila Maria, o então bairro proletário encarapitado no topo do morro que dá continuação à várzea direita do Rio Tietê. A avenida está lá até hoje, com o mesmo nome ridículo. As caminhadas com minha mãe eram sempre longas. Minha mãe caminhava com rapidez . Eu me arrastava lentamente, sempre cansado. Em dado momento, vendo que eu me atrasava,  deteve-se e, virando-se para mim, fulminou-me com seu olhar meigo:
-- Anda depressa, Gino!
Nesse exato momento, a um passo do lugar onde ela se detivera, e na mesma direção, desabou um enorme vaso de barro, espatifando-se no chão,  espalhando  terra e margaridas por todos os lados.
Minha mãe passou o resto da vida contando que a minha lentidão lhe salvara a vida.
                                                                          

01 fevereiro 2011

Coisas que eu quero contar

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COISAS QUE EU QUERO CONTAR


Quero contar os amores que vivi e os amores que perdi.
Quero contar as dores que sofri e os males que causei.
Quero contar de vales e cordilheiras por onde andei.
Quero contar de lagos e montanhas onde nasci.
Quero falar das árvores que plantei, dos filhos que criei e dos livros que não escrevi.
Quero contar as desventuras por que passei nos mares que singrei e nos ares que cruzei.
Quero contar como é dura a vida na caatinga, a pele calcinada pelo sol, o olhar de angústia na criança faminta, o riso amargo saindo das rugas do velho desamparado.
Quero contar o pôr do sol no São Francisco, o brilho da lua cheia no Capibaribe, o verde cristalino do mar além dos arrecifes.
Quero falar dos vinhos que bebi e da sede que sofri.
Quero contar como ressoa o apito da fábrica, como estala a batida intermitente do tear e como ecoa a voz alegre da tecelã.
Quero contar como vivem as almas penadas dos insetos assassinados nos campos de lavoura.
Quero contar fábulas. Para dizer cobras e lagartos, engolir sapos, desvendar o segredo da aranha, cantar como a cigarra, ser astuto como a raposa, ágil e faceiro como o serelepe, vaidoso como o pavão. E beber como um gambá.
Tudo isso quero contar. E antes que os tempos acabem, quero deixar pronto o meu epitáfio, que  dirá:

“Aqui jaz aquele que pouco contou.
Porque o que contou era verdade. E ninguém acreditou.
Aqui jaz aquele que sofreu a angústia de não saber contar
tudo aquilo que queria contar”.
                                                                                                                                        Luigi Spreafico



24 janeiro 2011

Segurança, Televisão e Ingenuidade

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A segurança pública é um assunto que me interessa na medida em que sou afetado tanto pela ação dos marginais como da polícia. De segurança pública nada entendo. Nem ao menos sei quando estou lidando com a polícia militar, com a polícia civil ou com a polícia municipal. Aliás, nunca entendi por que são necessárias três polícias para garantir a minha sobrevivência. No Chile, onde vivi por algum tempo, havia os “carabineiros” e eles eram suficientes. Nunca vi nenhum barrigudo entre eles, é bom registrar. Portanto não pretendo - nem poderia - falar sobre segurança pública. Mas quero contar o que eu senti quando os “poderes públicos” – acho que é a melhor forma de não excluir ninguém – resolveram desencadear uma guerra para acabar de vez com o tráfico. E, também, porque não quero passar por ingênuo.

Ao findar o ano de 2010 o governo do Estado do Rio de Janeiro reuniu as polícias militar e civil apoiadas pelo Exército e a Marinha com seus carros blindados, tanques de guerra e veículos de assalto, para um ataque decisivo ao crime. A Aeronáutica perscrutava os céus para fornecer informações sobre o inimigo. As forças oficiais ocupariam as favelas, expulsariam os traficantes e a partir daí o combate ao crime seria permanente.

É preciso enaltecer a bravura com que soldados e civis se conduziram no desempenho de sua missão. A televisão mostrou cenas convincentes da coragem e desprendimento com que cumpriam ordens. Mas o que não ficou claro foi o “conceito” da operação. Teria sido planejada com base numa política de segurança pública? O estado dispunha de uma política de segurança pública? Não parece. Do contrário o tráfico não teria alcançado o poder que tem hoje e as milícias não se teriam criado.

Sejamos francos. Essa operação não foi mais do que uma resposta ao gesto insensato dos traficantes que, num surto de burrice, resolveram sair pela cidade incendiando carros e ônibus. Apenas uma represália ao governo pela transferência de presídio de alguns chefes do tráfico. Uma demonstração de força que humilhou governantes e cidadãos. Ou não foi isso que aconteceu? Era preciso conter o vandalismo nas ruas e dar uma resposta à opinião pública. E sem a ajuda do Exército o Estado seria derrotado.

As televisões, ficaram 24 horas no ar, glorificando a ação, dando-nos a entender que o combate ao crime agora é pra valer. Balela. Em nenhum momento se questionou se aquilo levaria a algum lugar. Nenhuma palavra sobre as milícias, os acordos espúrios, os conflitos entre os diversos órgãos e seu espírito de corpo.

Escrevi tudo isto por dois motivos: primeiro, porque gostaria de me ver contestado; segundo, porque encontrei um bom motivo para divulgar o comentário escrito naquela ocasião por Luiz Eduardo Soares*. Este sim que deveria ser lido por todo o telespectador, isto é, todo o mundo.


O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de Novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro com a farsa.”
                                                                                               Luiz Eduardo Soares

*Luiz Eduardo Soares escreveu o livro “Meu Casaco de General”, que deveria ser leitura obrigatória para todos os eleitores deste país.

21 janeiro 2011

FRIBURGO DEVASTADA

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Não me atrevi a escrever sobre Nova Friburgo. Passados dez dias daquela manhã infausta em que acordei sem ao menos perceber que havia chovido, ainda perambulo pela cidade recusando-me a acreditar no que vejo. E, no entanto, a desgraça está ali e só a vejo aos pedaços à medida em que caminho, rua após rua, casa após casa, alma após alma. Eu nada sofri. Minha casa está inteira, minha família está inteira, a luz voltou, a água voltou e o jornal já esta sendo entregue. E quando vejo a destruição à minha volta eu me envergonho. O que foi que eu fiz para merecer tanta clemência?


QUATRO DIAS NA VIDA DE CARLOS HENRIQUE PASSOS MARTINS

Carlos Martins é um jovem de pouco mais de vinte anos, meu amigo aqui de Nova Friburgo. Ele escreveu o relato que segue, sobre a desgraça que assolou a cidade no dia 11 de Janeiro de 2011. Ele descreve uma pequena parte da tragédia, a parte que envolve a sua família, a sua casa e os seus vizinhos. A força da sua narração, com a dor que ela transmite, é suficiente para imaginar como está o resto da população. Carlos redigiu o seu texto no próprio celular, sob pressão dos acontecimentos, para enviá-lo ao Luciano Pires, do Café Brasil, pedindo-lhe que divulgasse um apelo de ajuda, no que foi logo atendido.


“Luciano, a correria aqui está sinistra. Vou escrever rapidamente aquilo que lembro, não vou me preocupar com o português e nem com nenhuma revisão para não tomar tempo... me desculpe pelo improviso fique a vontade para efetuar correções pertinentes... um abraço.”

Quarta – feira , 12 de janeiro de 2011.

Acordo assustado com um grande estrondo causado por um raio, vou até a janela do quarto e me deparo com um verdadeiro breu esporadicamente cortado pela claridade dos raios formados pela tempestade que caia. Do pouco que se enxergava dava para perceber que aquela chuva não era normal, volto então a dormir.

Às 6:00 da manhã minha esposa, grávida de 8 meses, levanta para ir ao banheiro e quando chega à janela me chama aos berros transtornada com aquilo que via. Logo depois, lembro-me bem do silêncio perturbador que era cortado por gritos de desesperos ouvidos aqui e acolá. A rua estava coberta por água.

Apesar de morarmos nas mediações do rio Bengalas, nunca as águas das enchentes haviam invadido a garagem do prédio, porém, desta vez, os carros ficaram inundados até a janela.

Ao olhar pela janela pude contar pelo menos 20 pontos de deslizamentos de terra, neste momento a maior preocupação era de se comunicar com familiares e conhecidos. Até às 7:30 da manhã ainda era possível usar o celular, todavia a única operadora que ainda funcionava só efetuava ligação para alguns telefones. Consegui contato com meu pai e com alguns clientes que relataram os problemas em seus bairros, a partir dai ficamos isolados sem energia elétrica, água e comunicação.

Depois que o volume da água do rio diminuiu foi possível andar pelas ruas tomadas pela lama. Peguei um par de botas “ 7 léguas” de um amigo vizinho e sai pelo bairro na tentativa de achar a família de minha esposa, que tem residência praticamente às margens do rio. Até chegar ao destino pude visualizar cenas de enorme destruição. A lojas à margem do rio foram devastadas, a locadora, padaria, posto de gasolina e concessionárias de veículos estavam completamente reviradas pelas águas e cobertas por lama. Ao chegar na rua onde mora a família de minha esposa me deparei um uma enorme árvore trazida pelas águas. É impossível descrever a cena. A árvore se encontrava sem a casca e seu tronco daria para construir o alicerce de uma ponte. Meus sogros estavam vivos, ainda desorientados só queriam saber como estava minha esposa, eles estavam imundos de lama e perderam tudo dentro de casa, quando digo tudo não é apenas uma maneira de dizer, a casa foi coberta pela água e nem as roupas do meu bebe que estavam lá escaparam.

Logo constatei que o bairro estava isolado e, como a maioria das lojas havia sido devastada, eu e meu vizinhos decidimos sair a procura de água e alimentos para fazer uma espécie de kit de sobrevivência. Juntamos o dinheiro em espécie que tínhamos, pegamos duas mochilas grandes de camping e saímos às compras. Nos únicos mercados que ainda estavam funcionando as filas eram enormes, velas e água eram artigos de luxo, compramos o possível e voltamos para casa.

O transito só foi liberado mais tarde e a partir daí sirenes e buzinas passaram a ser o som predominante durante muito tempo.

Angustiados com falta de comunicação arrumei uma maneira de ligar um radio em uma bateria de carro e foi nesse momento que conseguimos percebe o tamanho da gravidade que enfrentávamos.

Nesta noite com a sala iluminada por leds e velas recebemos um grupo de pessoas desabrigadas, eram umas vinte pessoas todas sem casa ou com lares interditados pela defesa civil. Na sala estava a irmã de minha amiga, que é minha vizinha, e seus amigos vizinhos. Improvisamos um jantar e fomos dormir.

Quinta feira dia 13

Ao amanhecer decidi ir a procura de minha mãe que mora em um bairro vizinho, no caminho para o seu bairro percebi que tudo o que tinha visto era ainda muito pequeno em relação a toda destruição da cidade. A parte baixa do bairro foi dizimada pela enxurrada, carros amontoados, casas completamente destruídas. Em uma dela 8 pessoas da mesma família perderam suas vidas. Minha mãe por morar em um condomínio um pouco mais alto deu sorte e com ela nada aconteceu. Quando a encontrei ele me contara chorando como havia sido terror a noite anterior. Disse-me o quanto é ruim ouvir pessoas pedindo ajuda e não poder fazer nada.

O clima de desespero esteve estampado em todas as faces durante todo o dia. Qualquer chuva um pouco mais forte era motivo de alarde. O cenário era de muita tristeza e incerteza. Ao voltar para casa encontrei um sujeito chorando que caminhava sem destino pelas ruas, fui ao seu encontro e ele me disse: - “Ela estava viva, eu tirei ela com vida, eu a beijei antes de morrer”. Ele se referia a sua mãe. Não tive palavras para aquele homem. Naquele momento apenas agradeci por ter encontrado a minha mãe com vida.

Sexta feira dia 14

Eu ainda não havia encontrado minha irmã que estava em um bairro mais afastado, consegui uma moto e fui ao encontro dela ainda sem saber se estava bem. A caminho de sua casa me deparei com o transito mais caótico que presenciei até hoje. Voluntários tentavam organizar a bagunça, que era generalizada. Havia uma trilha, entre o tumulto, reservada para as ambulâncias e carros de emergência. O restante era uma confusão só. No ar, a quantidade de helicópteros assustava.

A rua onde mora minha irmã estava interditada pela queda de uma barreira. Consegui passar com dificuldade ao chegar a sua casa chamei pelo seu nome e ninguém atendeu. Olhei pela garagem e visualizei seu carro completamente cheio de lama e ao lado sacolas plásticas com lixo das coisas inundadas pela enchente que invadiu a garagem. Fiquei aliviado pois com certeza ela não estava ali mas se teve como embalar o lixo é porque estava bem.

Fui ao centro da cidade procurá-la e fiquei boquiaberto com a destruição da cidade. Ali descobri que um amigo meu perdera a vida tentando ajudar outras pessoas.

Encontrei minha irmã que estava em segurança e voltei para casa.

Cansado, por volta de 15:00 horas decidi tirar um sono com minha esposa. O descanso não durou muito. Fomos acordados por minha amiga vizinha aos berros gritando, - vamos sair, vamos sair! Acordei assustado peguei a mochila coloquei o que deu dentro, e na escada em meio ao caos perguntei o que estava havendo. Disseram que uma barragem teria estourado e que iria inundar toda a parte baixa da cidade. Naquele momento na escada mesmo tentei tranquilizar minha esposa que quase entrou em trabalho de parto pelo susto. Eu sabia que não existia barragem nem represa na cidade capaz de causar esse estrago. Voltamos para o apartamento e ficamos vendo as pessoas na rua desesperadas ainda por algum tempo.

O povo estava assustado vários boatos corriam na cidade, tudo para deixar o clima ainda mais tenso.

A noite ainda sem luz e comunicação improvisamos um banho ao melhor estilo caneca e balde. Jantamos e dormimos.

Sábado 15 -01

A energia elétrica foi restabelecida e com ela comunicação e água começam a funcionar. A vida nem de longe volta ao normal. A única coisa que importa agora é ajudar a quem precisa e tentar reerguer a cidade.Os hospitais estão lotados, e para as pessoas desabrigadas falta de tudo.”


Carlos Henrique Passos Martins
Datatreya Tecnologia e Gestão Ltda
Nova Friburgo - RJ

20 janeiro 2011

Os Desaforismos do Severino

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Sou distímico. Acho isso muito engraçado.


Já estou auferindo lucros com a minha escrita: estou me tornando um leitor melhor.


De tanto ouvir falar que meus textos são longos demais chego à conclusão de que o padrão de beleza na literatura contemporânea é o Tweet.


Da precariedade da existência: Não se esqueça: um espirro pode salvar sua vida. Um mosquito pode acabar com ela.

Com freqüência me perguntam por que escrevo. E eu respondo: escrevo porque não sei desenhar.


A leitura é aquela atividade através da qual você se renova: a cada hora, a cada dia; a cada página, a cada livro. Você não morre nunca. Até que, um dia, você deixará de ler.


Você diz que escreve porque não sabe desenhar. Concordo. Mas quem lhe disse que você sabe esctrver ?


Estranha é a engenharia rodoviária em nosso país. É o único lugar do mundo - e olhe que eu já virei a metade dele – onde uma rodovia, ao encontrar um pontilhão, em lugar de alargar-se, fica mais estreita. Como diria o pai do Severino: “É tudo engenheiro”. !

São Paulo não tem mais garoa. Estudo do Impe revelou que o clima de São Paulo mudou tanto que a cidade deixou definitivamente de ser a terra da garoa.” (notícia de O Globo de 8 de Dezembro de 2010). Quem não conheceu a garoa de São Paulo não sabe o que é nostalgia.


O número de acidentes na Ponte Rio-Niteroi está aumentando. A ponte foi projetada para 3 pistas e um acostamento com largura confortável e segura para a circulação dos veículos, o que incluía ônibus e caminhões. E assim operou por muitos anos. A atual Concessionária, com o beneplácito das autoridades, resolveu dividi-la em 4 pistas onde, obviamente, só cabiam 3, dando a entender que os engenheiros do projeto original eram uns idiotas. Com isso, ônibus e caminhões de bunda larga, que mal cabem dentro das faixas, obrigam os automóveis a se equilibrarem dentro do espaço que lhes sobra. O número de acidentes aumentou. Num cálculo simplório e enganador, os administradores alegam que, com a pista adicional, o fluxo aumentou em 18 por cento. Enganador, porque só beneficiou a Concessionária, com o aumento da arrecadação, e deixou o usuário com o aumento de acidentes e os congestionamentos antes e depois da ponte.

Estamos em plena Copa do Mundo. Nunca entendi por que, na partida final, quando está em jogo não somente o prestigio de cada seleção mas também a honra da Pátria, havendo empate, vai-se para a prorrogação e, continuando o empate, a partida é decidida por pênaltis. Os jogadores, cansados à exaustão e emocionalmente desequilibrados, não reúnem mais o seu potencial de desempenho, incapazes que estão de exibir sua habilidade na prática do esporte. O mais sensato seria repetir o jogo em outra data. Sei que isso é impossível pois arruinaria as televisões, a imprensa escrita, os patrocinadores e os próprios espectadores, que teriam de arcar com mais gastos de hotel. Mas será justo colocar nos pés de um só jogador o troféu e a honra da Pátria? Execra-se o infeliz que errou o chute, glorifica-se o goleiro que, numa cagada, segurou a bola (porque sabe-se que é impossível defender um pênalti por habilidade. A distância e a velocidade da bola não o permitem. Sejamos sensatos. Para decidir uma partida nessas condições dando oportunidades iguais aos contendores e respeitar suas habilidades, bastaria abrir a barra do gol em, digamos, meio metro, e continuar o jogo. Se, após um certo tempo o empate continuar, abre-se o gol em mais meio metro. Em algum momento alguém marcaria o gol da vitória. Que seria conquistado em igualdade de condições de um jogo normal, com a capacidade de cada um. Vão me dizer que é muito difícil, tecnicamente, abrir a barra do gol. Bobagem. Qualquer serralheiro de subúrbio é capaz de criar uma engenhoca para abrir as traves de um campo de futebol

Se você vai sair para matar o tempo, ande depressa. Senão você não vai ter nenhum  tempo para matar.
 
Ser pontual não é chegar na hora. Ser pontual é chegar cinco minutos antes da hora.

Meu caminho é iluminado. O problema é quando acaba a bateria.

Pernas, para que vos quero? Para caminhar.


N


ão estou nem aí ! Não faz mal, eu te espero.


As mulheres dizem: todos os homens são iguais. Eu sou homem. Eu sou igual.


Os homens dizem: todas as mulheres são iguais. Não. Você é diferente.


“Absit Injuria Verbis”, “Que não haja ofensa em minhas palavras”, diziam os romanos. È o que eu digo, e depois e arrependo.


Não pense que você me engana. Eu estou desenganado.


Quero ser feliz. Mesmo que isso me custe a felicidade. (será que já ouvi isso em algum lugar?)


Sou presunçoso, mas ninguém me acredita.


A gente só faz as coisas quando não tem tempo.


O metrô inventou os bancos xifópagos. São azuis. Estão no Largo do Machado.


O pior cego é aquele que não quer ouvir. Além de cego é surdo.


Grite um impropério. Você ouvirá o eco.


Quando não souber o que dizer, não diga nada.


Quero morrer enquanto estou vivo.


“Morreu porque amava” , leio num epitáfio. Ora, se o amor o levou à morte, pra que serviu?


“Morreu de amor” diz o poeta. É melhor do que morrer atropelado, digo eu.

Severino Mandacaru














16 dezembro 2010

Vou ali e já volto

Tenho pavor a despedidas. E quando parto para uma viagem, por mais curta que seja, começo logo a pensar na alegria da volta. Só assim consigo atenuar a tristeza que sinto ao afastar-me dos meus amigos. Gostaria que fossem comigo, temo perdê-los com a ausência. Fico imaginando os momentos de alegria que poderíamos compartilhar durante essa viagem, longe da rotina doméstica. Foi assim quando parti, ha algumas semanas, para cinco dias de devaneio em Buenos Aires.
O desconforto à bordo do avião não me permite maiores divagações. Servem-me um lanche numa tigelinha onde identifico uma espécie de salada cujo principal ingrediente são grãos de milho inteiros, felizmente cozidos. Nada mais adequado, penso eu. O lugar onde estou é a coisa mais parecida com aquelas gaiolas que usam para transportar galinhas. Não posso me queixar. Eu não sou mais do que um bípede depenado, como dizia Platão.
Desço no Aeroparque, aeroporto doméstico que eu não conhecia, próximo ao centro da cidade. Fantástico, em quinze minutos estou no hotel.
Buenos Aires está de mau humor. Não encontro mais aquela alegria que contagiava o turista. As pessoas correm pelas ruas falando ao celular em tom áspero, gesticulando nervosamente, desferindo com os braços golpes no ar. O atendimento nas lojas não é cordial como outrora e os garçons parecem mamulengos embalsamados.
Soçobrando entre medialunas e almendrados sinto falta do chopinho e das batatas fritas com os meus amigos do “ Depois da Oficina”. Vou para o Ateneu e parece-me vê-los esgueirando-se por entre os livros ou espalhados pelas frisas e camarotes. Vago pelo palco. Volta-me a nostalgia das aulas. Invade-me o afeto que surgiu daquela convivência desprovida de preconceitos e de vaidades. Quero levá-los ao “El Buller”, na Recoleta. Lá tem cerveja de verdade.
E poderemos rir e chorar.

                                                                   Severino Mandacaru

08 dezembro 2010

Aldenor vai a Recife

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Provavelmente quem leu a história da viagem ao aeroporto de Fortaleza com o Aldenor, e acreditou nela, achou que eu tive alguma participação naqueles acontecimentos bizarros. Engana-se. Porque, duas semanas depois o Aldenor veio ao Recife para dar continuidade ao nosso trabalho e hospedou-se em um hotelzinho de periferia, no lugar do Grande Hotel onde sempre ficava. No fim do último dia de trabalho eu o acompanhei até o hotel, onde ficamos tomando uma cerveja, na esperança de encontrar soluções para os problemas do sub-desenvolvimento do Nordeste. Quando saí, a lua apareceu , sorrindo. Sua imagem refletida no Cais do Apolo era entorpecente. Impossível ir para casa. Fiquei perambulando pelas pontes, contemplando as sombras dos edifícios refletidas na maré alta. A cidade ficou deserta. Decidido a ir para casa tomei o caminho da Ponte Buarque de Macedo.

Como um fantasma, caminhando lentamente, aparece o Aldenor, todo sorrisos.

-- Beduino, finalmente te encontrei!
-- O que houve, Aldenor, você não disse que ia dormir?
-- Perdi a carteira, os documentos, tudo. Não sei como pagar o hotel, não tenho dinheiro nem para o taxi. Você me arranja algum trocado?
-- Claro, mas o que é que você veio fazer aqui? Como ia me achar? Eu já devia estar em casa há muito tempo.

Aldenor baixou os olhos, colocou as mãos sobre meus ombros, e sussurrou:
-- Eu sabia que ia te encontrar!






05 dezembro 2010

Aldenor, o Messias

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Aldenor morava com cinco mulheres. A esposa, a mãe da esposa, uma irmã da esposa, uma sobrinha e uma enteada. Não tinha filhos. Todas o amavam, e o serviam, e o seguiam como se fosse um novo Messias enviado especialmente para redimir mulheres. Sempre magnânimo, Aldenor distribuía sorrisos, afagos, carinhos, amor no seu sentido mais elevado e, sobretudo, justiça. Morava num casarão colonial onde a harmonia preenchia todos os espaços.

Trabalhávamos juntos na Carteira de Crédito Industrial do Banco do Nordeste, em Fortaleza, na Rua Major Facundo, onde o jovem Severino curtia as noites com poemas, risadas e muita cerveja.
Minha base de trabalho era o Recife e eu viajava com freqüência para Fortaleza onde permanecia uma semana ou pouco mais. Eu me hospedava no hotel que ficava no final da rua Major Facundo, outrora aristocrático, mas que ainda conservava sua posição: de frente para o mar.
Certa ocasião o Aldenor me disse:
-- Galego, na próxima viagem você não vai para hotel. Vai ficar hospedado lá em casa.
Agradeci muito, não queria causar incomodo , essas coisas, mas não houve jeito. Ao desembarcar o Aldenor estava no aeroporto me esperando. Fiquei contente, até porque não conseguia esconder uma curiosidade mórbida: descobrir como é que ele administrava uma casa com cinco mulheres.
Solícitos ao estremo, tanto ele como sua esposa Maria desdobravam-se em atenções, cuidando dos menores detalhes para que eu me sentisse à vontade sem, contudo, exercer qualquer pressão. Cuidavam especialmente da cozinha. Entre as iguarias que a Maria preparava estava a paçoca, prato preferido do Aldenor. Embora tivesse esse nome a paçoca do Ceará não era a paçoca conhecida no sul, feita de amendoim e açúcar. Aquela era uma combinação de carne seca e farinha de mandioca socadas num pilão. Era usada pelos jangadeiros que saiam diariamente em busca de lagostas. Nós comíamos paçoca todos os dias. Estou exagerando. Não era todos os dias. Dos oito dias que passei lá só comi paçoca em sete deles.
Certamente a memória organoléptica do Aldenor não era das melhores porque certo dia, na hora do jantar, o único jantar em que a paçoca não compareceu ele virou-se para a esposa e disse:
-- Amôooor! Há quanto tempo você não faz uma paçoca, você poderia preparar amanhã, estou sentindo falta. E a paçoca retomou o seu curso.

Na véspera da minha partida – eu viajaria às seis horas da manhã – Aldenor declara:
-- Amanhã vou lhe deixar no aeroporto.
Recusei peremptoriamente:
-- Não vou permitir, vou chamar um taxi e...
-- Nada disso. Tomamos café com o bolo que a Maria fez...
-- Pior ainda. Não posso deixar que a Maria acorde a essa hora para fazer café, eu tomo no aeroporto.
A discussão não terminava, eu não conseguia persuadir o Aldenor. Eu me sentia realmente mal com o incômodo que estava causando e resolvi apelar para um argumento que causasse impacto. E saí com esta idiotice:
-- Escuta, você não pode me levar no aeroporto amanhã, sabe por que? Porque, para começar, vai chover durante a viagem, depois vai furar o pneu do carro e, se duvidar, você ainda é capaz de bater com o carro na volta.

O Aldenor não dirigia, só andava de taxi e, assim, na manhã seguinte o taxi estava na porta. Embarcamos em silêncio, eu ainda constrangido. A Maria nos acompanhava.
Chegamos, retiramos a bagagem e ficamos sob uma marquise, a dois metros do taxi, fazendo nossas despedidas. Depois do último abraço, quando já estava para sair, percebi que uma chuva fininha começava a cair.
Lembrei-me das bobagens que eu havia falado e não deixei por menos:
Está vendo, Aldenor, já começou a chover. Agora só falta furar o pneu...
--PPPPffffffff...fffff...ffff...fff...ff...f...!
Todos olharam para o carro a tempo de ver o pneu traseiro direito baixando...baixando...
Só me lembro da voz do motorista, perfilado ao longo de seu carro:
-- Que boca!
Encontrei o Aldenor quando veio ao Recife, duas semanas depois:
-- Você não sabe mas naquele dia, quando voltava do aeroporto, a chuva engrossou e um carro que vinha numa transversal derrapou, e quase nos acerta.

Sei que alguém poderá não acreditar nesta história. Não me ofendo por isso. Eu mesmo passei a vida me perguntando como foi que isso aconteceu. E se o escrevo é porque quero que fique registrado. Tenho medo de que um dia eu mesmo chegue a pensar que isso nunca aconteceu. Perguntem ao Aldenor.

Severino Mandacaru






02 dezembro 2010

Cada um com sua Lingua

... ou ... A Língua de cada um

- Como? Evadiste-te ?
- Evadir-me eu? Não sou parvo!
- Os assassinos deveriam levar alguma coisa que os identificassem...Uma papoila à botoeira!

Este é o diálogo que dá inicio a uma peça teatral de Sartre, na sua edição portuguesa, quero dizer, de Portugal. Imaginem a cena sendo representada no Brasil.

Gostaria de citar também um trecho da correspondência trocada entre Fidelino de Figueiredo (1), o grande filólogo português, e Sigismundo Spina, seu discípulo. Numa carta (2) ao Prof. Fidelino, que se encontrava em Lisboa e a quem chamava carinhosamente de “pai”, Spina relata um concerto ao qual assistiu no Teatro Municipal de São Paulo:
“O Prelúdio em Si Menor, de Bach, conquanto Stokowski metesse nele as garras, foi primorosamente executado.” ... ... “o pai se lembra, deve estar isso em “Lisboa de Ontem” - se não me engano - daquela nota de Garret- por ocasião da representação de “A Sobrinha do Marquês” ? Deviam ser os Castristas que, a certa altura, assuando a peça, ouviram a exclamação de Garret do alto do seu camarote:
“Pateiem, bárbaros!”
“Pois bem: foi o que me evocou o público que estava presente ao concerto:
“Quanta patada!”
No mesmo texto encontramos ainda: bolseiro, carota, canastro, extenderete, casal saloio. Não é divertido?

Estamos no Rio de Janeiro. Marques era um técnico em indústria têxtil que foi trazido de Portugal quando eu trabalhava na Fábrica Bangu daqueles tempos. Enquanto a fábrica lhe arranjava a um lugar para morar ele ficou hospedado na minha casa. Eu, ainda solteiro, havia contratado a Ivete, uma esbelta morena que era porta estandarte de um bloco local, para cuidar da casa.
Ivete limpava e arrumava tudo, preparava o almoço e o jantar, mas não dormia no emprego. E o Marques dizia:
- Oh, Ivete! Não deitaste cebolas na salada, pois não?
- Oh, Ivete, que fizeste das minhas piugas? Não as vi, esta manhã.
- Que raios preparaste para o jantar, oh! Ivete? É isto um sarrabulho, dizes . tu? Parece mais uma champana!
Ivete o olha espantada, cai na gargalhada, e dá de ombros.

Eu tomava cerveja regularmente, na hora do jantar. Sempre a oferecia ao Marques e ele sempre a recusava. Um dia perguntei-lhe:
- Marques, por que você não toma cerveja?
- Porque não gosto, pois. - a perfeita lógica lusitana deixou-me encabulado.
- Mas por que você não gosta? - insisti.
- Não me sabe bem. - Eu já me sentia derrotado. Tentei um último golpe:
- E por que não te sabe bem?
- Porque é muito amarga.
- Ah! - gritei triunfante. Se é por isso resolve-se facilmente.
- Oh! Ivete, corre lá embaixo e traz uma Malzbier para o Senhor Marques.
Sirvo-lhe a cerveja doce. Marques bebe um gole e eu esqueço o assunto. Ele termina o jantar, retira-se e eu permaneço sentado digerindo os meus pensamentos.
Ivete chega para tirar a mesa. Vê o copo de Marques ainda cheio e pergunta:
- Ué, o Seu Marques não gostou da cerveja?
- Não Ivete, pode retira-la.
E a Ivete, colocando as mãos na cintura, balançando aqueles quadris que Deus lhe deu:
- Eu, hein, é a primeira vez que eu vejo um português enjeitar preta!

Esta é a língua portuguesa. É a língua de todos nós. Ou é a língua de cada um?
Então vamos ver como falam os Severinos de Pernambuco e os Raimundos do Piauí. São apenas frases soltas, mas são suficientes:
“Se avexe, menino. Fica aí encangando grilo o tempo todo, vai chegar atrasado outra vez.”
“Ele é rico que só! Dá de um tudo pra mulher dele e ainda sobra pra rapariga.”
“Arrodeia o oitão que você vai encontrar a bica que está com o pitoco quebrado”
“Fique aqui com estas flores, que eu vou ter que sair. Quando os noivos passarem,  você avôa em cima deles.”
“Tenha vergonha, seu safado! Mulher de homem não se amulega!
“Você vem me falar de moral? Você, que passa a noite chumbregando com piniqueiras?

Não quero encerrar estes rabiscos sem dar mais um exemplo da linguagem do Nordeste. É a simples estrofe de uma canção gravada por Volta Seca, um capanga de Lampião:

“Se eu soubesse que eu chorando
Empato a tua viagem
Meus olhos eram dois rios
Que não te davam passagem”

Pois é, nem a praga da televisão que, como disse Marx, é o ópio do povo, conseguiu aproximar as três línguas. E eu aqui, queimando a mufla, pra descobrir se auto estima é junto ou separado, se tem hífen ou não, se hífen, alem de um “n” estranho tem acento ou não, se ambígua perdeu o trema, se....
Ora, francamente!

(1) Fidelino de Fgueirdo , grande filólogo português, professor de literatura, foi contratado em 1938 pela Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo para modernizar os estudos superiores de literatura.

(2) “Cartas de Fidelino de Figueiredo e de Sigismundo Spina” - Ateliê Editorial: Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, 2009 – pg.58

EM TEMPO:
Escrevi o desabafo acima já faz tempo, embora só o tenha postado recentemente.
Encontrei agora, no jornal “Rascunho” de Novembro de 2010, na seção “Cartas”,
um outro desabafo, escrito por José Ignacio Coelho Mendes Neto:

“Nova Ortografia”
“Descobri recentemente o jornal Rascunho - - - . É o primeiro veículo de imprensa que vejo destacar sua recusa da reforma. Achei uma iniciativa sensacional, que deveria ter sido a norma entre todos os usuários da língua. Sou tradutor e revisor e repudio completamente a proposta de reforma ortográfica articulada por meia dúzia de indivíduos que se julgam no direito de alterar a língua apenas para venderem suas obras de atualização. É o maior crime contra a nossa cultura que já ocorreu em toda a história da língua portuguesa. Não só os motivos alegados são todos escusos, como a própria substância da reforma introduz cascatas de novos erros e incertezas. Um atentado como esse só poderia resultar da mentalidade burocrática que acha que a língua pode ser objeto de legislação. Em Portugal, que por razões incompreensíveis concordou com essa palhaçada, a reforma não foi adotada por nenhum órgão de comunicação, por nenhuma instituição de ensino, nem pública, nem privada, por nenhuma editora, nem pela população. Foi totalmente ignorada, como deveria ser. Pelo menos vejo que a sua publicação foge à postura acéfala e acrítica que domina o nosso país Estão de parabéns!"
  *José Ignacio Coelho Mendes Neto







28 novembro 2010

Delírio ou Fantasia ?

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“Assim como os fatos reais são
esquecidos alguns que nunca
existiram podem estar na
memória como se, de fato,
tivessem sido vividos”
Gabriel Garcia Marques



No hermético texto “Um tigre de Papel” , de Marina Colasanti, um escritor decide completar a decoração de uma sala rococó criando a figura de um tigre. Não quer fazê-lo com palavras mas apenas com seus significados. “Em vez de imitar o terrível miado” - escreve Marina - “faz tilintar os cristais acompanhando suas passadas”. O tigre vai tomando forma “incorporando-se à realidade antes inexistente”, obedecendo ao seu criador “com sedoso cuidado”. Até aqui o delírio se desenvolve com relativa sensatez. Mas, ao pretender levar sua criatura a desempenhar um simples ato cirsense, como subir com as quatro patas sobre um tamborete, o tigre se rebela, apossando-se de sua natureza. Com denodado furor estraçalha tudo, “rosnando por entre as letras”, desobedecendo vírgulas e parênteses, “espalhando no papel cacos de móveis e porcelanas”, dominando o texto. Sobre o qual, com uma patada, coloca o ponto final.

Sem dúvida, Marina Colasanti, com sua história fascinante e ao mesmo tempo blindada, cria uma grande intriga obrigando o leitor a muitas leituras. Cada leitura é uma nova história. Cada história, uma nova aventura.

Tem razão Umberto Eco quando diz: “O texto é uma máquina preguiçosa esperando que o leitor faça a sua parte”.

Eu fiz a minha parte.

Luigi

25 novembro 2010

Didelphis Marsupialis

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Era uma família feliz. Com três membros apenas não havia lugar para discussão. Estavam sempre de acordo. Quando chovia e quando fazia sol. Quando tinham o que comer e quando não.

O Pai, já avançado na idade, percebia que os tempos estavam mudando. O campo já não era mais o mesmo. Da numerosa prole só restava o Filho. A Mãe, dedicada matrona, depois de criar nove rebentos viu-os desaparecer um a um vitimados, suspeitava ela, pelas plantas venenosas que comiam no mato.

-- Pai, eu ontem entrei no telhado da Casa Grande. Eu desci e vi a cozinha. Estava cheia de banana e araçá !

-- Você tem que tomar cuidado, Filho. Se você escorregar e cair lá dentro, não encontrará mais a saída para voltar para casa e será apanhado.

-- Eu escutei o Dono falar que vai contratar mais gente para matar os insetos que são as pragas da lavoura.

-- Filho, não existem pragas na lavoura. O que existe na lavoura são insetos famintos. Tão famintos quanto nós, o Dono e sua família, e os seus empregados, e as onças brabas, os tamanduás e as formigas que eles comem, e os sabiás que cantam o dia inteiro, uma grande alegria que temos nesta fazenda.

Todos precisam ser saciados. E a Natureza pode fazer isso. Mas quando o Dono começa a matar os insetos ele está destruindo a própria Natureza. Porque os insetos que ele mata voltam como almas penadas e se penduram debaixo das folhas para chorar sua morte. E as folhas onde as almas penadas

se penduram murcham e depois secam. Você não viu o inhame, o milho e a macaxeira? Estão secando.

-- Mas, Pai, o Dono não sabe disso?

-- Nem todos sabem, Filho. E, como ele não pode ver as almas penadas, não entende o que está acontecendo. Então, bota mais veneno ainda porque acha que botou pouco. Só que as almas dos insetos não morrem porque são espíritos e não precisam de comer folhas para se alimentarem. Então o veneno fica na planta. E vai para a mesa de todos.

-- Se eu comer aquela banana eu morro?

-- Você não morrerá na hora mas irá enfraquecendo e apressará a sua morte. Nossa família já foi maior, você sabe. Seus irmãos mais novos morreram todos porque comeram desde cedo frutas contaminadas.

Passou o tempo. Certa manhã, quando se recolhiam para dormir, disse a mãe:

-- Pai, já é manhã tardia e o Filho ainda não voltou. Estou preocupada.

-- Durma tranqüila. Vou procurá-lo hoje à noite, quando sair à procura de comida.

Naquela noite o Pai saiu. Não foi à procura de alimento mas á procura do filho. Vagou a noite inteira. O olfato não era mais o mesmo de quando era jovem, mas conhecia bem as trilhas. Não encontrou rastro.

Ao alvorecer os raios de sol cobriam de ouro os cachos das bananeiras. Ouro maldito que minava a saúde dos próprios trabalhadores que o produziam.

O Pai caminhava cautelosamente por entre as touceiras. Sabia que, à luz do dia, arriscava-se a ser descoberto pelos trabalhadores. Já tarde, cansado, acomodou-se junto à uma pedra. Descansou. Sem mais esperanças, com lágrimas nos olhos , retomou a volta para casa.

A meio caminho o velho gambá encontrou o Filho deitado junto à uma bananeira, os olhos fechados e os maxilares entreabertos. Um filete de sangue escorria-lhe pelo canto da boca deixando na terra a marca do Homem.





18 novembro 2010

Ingressos com Lisboa, na Faísca

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O Lisboa era longilíneo. Sempre metido num impecável terno de linho branco, aparentava ser mais alto do que era de fato. Sua figura esguia era completada por um bigodinho fino que parecia desenhado a bico de pena e uma munganga malandramente sedutora. Sorria pouco. Seu olhar penetrava o interlocutor deixando-o imobilizado. Só então perguntava:
“Em que posso servi-la, senhora?
“Dois ingressos para “A Casa de Bernarda Alba”

A Faísca ficava na Rua da Palma, uma rua de comércio importante naquele Recife entrecortado de águas que faiscavam sob o luar como veios de prata.
Alí estava também a Vianna Leal, primeira loja a inaugurar uma escada rolante, prodigiosa invenção da engenharia, destinada à elevação do ser humano. Havia lá, ainda, a Mesbla, que fora filial da francesa Mestre & Blaget e agora era sua proprietária, num processo inverso de canibalismo, onde a cria devora o  criador.

O Recife daquela época era romântico. Apoiado na amurada do Cais José Mariano, eu esperava que o sol no poente incendiasse a Praça Joaquim Nabuco. Então, as sombras dos edifícios se projetavam sobre o rio Capibaribe, transformando-o numa imensa placa de chumbo.
A Faísca era um misto de chapelaria e tabacaria mas, oficialmente, era uma tabacaria. Que, entre charutos e chapéus, vendia, com exclusividade , os ingressos para os espetáculos do Teatro Santa Isabel. Em todos os anúncios comerciais e cartazes do Teatro Santa Isabel, fossem Concertos, Óperas, Peças de Teatro, você encontraria, em destaque:
“Ingressos com Lisboa, na Faísca”
Lisboa conhecia os freqüentadores habituais do Teatro Santa Isabel; reserva-lhes os lugares preferidos, alertava-os sobre temporadas especiais e sobre a presença de possíveis desafetos políticos em noite de estréia.

O cenário teatral, naquela época, era dominado pelo Teatro de Amadores de Pernambuco, fundado por Waldemar de Oliveira, que organizara um elenco baseado nos membros de sua família, a maioria deles, médicos de profissão.
Nas noites de ensaio o Teatro Santa Isabel exercia um fascínio todo especial, principalmente sobre aqueles que acreditavam na lenda do “louro do Santa Isabel”, um fantasma que aparecia para perturbar os atores quando não gostasse de alguma coisa. Nas coxias, maquinistas, carpinteiros e contra-regras não falavam de outra coisa, contaminando os atores que, assustados, procuravam, em vão, saber de detalhes.

E aqui entra a parte mais interessante destas recordações. No Recife havia também o “Teatro Adolescente”, formado por um grupo de jovens estudantes que se proclamava “alternativo”, o qual resolveu montar uma peça de um autor mais alternativo ainda: “A Grade Solene”, de Aldomar Conrado, que iniciava sua carreira de teatrólogo com uma idéia genial: transpor a tragédia grega para a realidade nordestina através de “Édipo Rei”, de Sófocles. Assim, numa casa de engenho cercada de árvores ressecadas pelo sol da caatinga, João é o Édipo que casa com sua própria mãe Ester (Jocasta) , é irmão e pai, ao mesmo tempo, dos seus filhos, e mata o pai, o negro Antonio Campos (Laio). A crítica teatral se dividiu entre arrasadora e fulminante. Contudo foi unânime em elogiar os cenários desenhados por Aloísio Magalhães, o grande designer, responsável pelos melhores logotipos produzidos no Brasil, entre eles os da Light, Banco do Brasil, e CCPL, que estão aí até hoje.

Fui convidado para fazer uma ponta, cuja fala tinha duas linhas. Eu representava um matuto fogoió que entrava no palco, esbaforido, precedido por um tropel de cavalos produzido por duas quengas de coco. Interrompendo o ator que estava falando,  eu declarava solenemente:
“Eles são bons rrrrrrealmente. Até que um dia o negro foi encontrado com uma faca enterrada no coração, logo depois da porteira” Dito isso, eu saia de fininho. Sentia-me ridículo. E nunca descobri porque eles eram bons rrrrealmente.
Na noite do ensaio geral a montagem dos cenários atrasou e os trabalhos se prolongaram pela madrugada. Sentados em círculo no meio do palco, sob a forte luz dos spots, os atores esperavam, conformados, conversando sobre as emoções da estréia.

A conversa acabou recaindo sobre o fantasma do Santa Isabel. Por muito tempo não se falou de outra coisa, até que, Aldomar Conrado, o mais sensível, determinou:
-- Olha pessoal!, vamos mudar de assunto que eu já estou ficando com medo.
E foi aí que me ocorreu a grande idéia. Yara Lins, atriz de corpo imponente, fazia o papel da suposta Jocasta  usando uma túnica branca que lhe chegava aos pés. Saí discretamente do lugar onde me encontrava  na roda, alcancei as coxias e recolhi a túnica da Jocasta. Contornei o corredor da platéia e subi até as galerias.

Por um momento contemplei, lá do alto, a cena deslumbrante do teatro vazio com os atores sentados no chão do palco fortemente iluminado. Subi até  último nivel da torrinha, como a chamavam, a cabeça quase batendo no teto. Com a penumbra envolvendo as galerias, quem olhasse do palco àquela distância, juraria que a figura branca flutuava no espaço, tentando ultrapassar o teto.
Abri os braços em forma de cruz e esperei que alguém me visse. Nada.
Comecei a mover os braços, primeiro lentamente, depois com maior rapidez e finalmente girando-os como as pás de um moinho a vento, ora num sentido, ora noutro. Nada. Fiquei  lamentando a falta de atenção daqueles colegas. Atores são seres distraídos, mesmo. Meus braços já estavam doendo. Descansei um pouco. Então abri novamente os braços em forma de cruz e gritei:

“Uh... Uh... Uh... UUUUUUUUUUUUU!”

Vi gente sair voando do centro do palco e aterrissar nas coxias. Vi gente se ajoelhar, encostar a cabeça no chão e tapá-la com as mãos. Dois ou três permaneceram quietos olhando as galerias, espalmaram a mão na testa apurando melhor a visão, e dispararam aos berros pelo fundo do palco.

Voltei, mais assustado do que eles. Aldomar, a cabeça apoiada num travesseiro, estava sendo massageado nas têmporas por Yara Lins, com cinco copos de água em volta, à espera de que ele conseguisse beber. Apontando um dedo para o meu nariz, balbuciou, gaguejante e trêmulo:
Seu galego safado, esta você me paga!

“Ingressos com Lisboa, na Faísca”.

                                                                                                    Luigi Spreafico



05 novembro 2010

Pousada Paraíso

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O conceito de pousada que serve de base para esta crônica é real e foi desenvolvido por Flamínio Spreafico, que o aplicou quando implantou a “Pousada do Cônego”, no bairro de mesmo nome, em Nova Friburgo. Ali ficamos em atividade por mais de quatro anos, numa experiência das mais gratificantes. O que segue é um resumo do texto que Flamínio redigiu para a apresentação da pousada no site que havia sido criado para divulgá-la. Se atraiu poucos clientes, não importa. Porque o convívio com aqueles que lá foram, valeu a pena.

“A vida nas grandes cidades está levando o ser humano a um desgaste físico e emocional sem precedentes. A insalubridade pela contaminação do ar, o barulho do trânsito, as sirenes e alarmes de todo o tipo, a dependência da televisão, com seu noticiário estressante , ou novelas lacrimogêneas e programas deformadores de comportamento, a alimentação baseada em produtos refinados repletos de gorduras saturadas, conservantes e aditivos químicos de toda a espécie, são apenas alguns dos fatores que estão afetando a qualidade de nossas vidas e, pior, a vida de nossos filhos. Para fugir a esses efeitos muitas pessoas procuram sair da cidade grande, nos fins de semana, em busca de um hotel fazenda para descansar e distrair a criançada.
Para isso criamos a “Pousada do Cônego”

Você já visualizou um lindo lugar com vaquinhas pastando, porquinhos fazendo honk... honk... crianças alegres e ruidosas jogando totó, longos passeios de charrete, lago com pedalinho, quadra poliesportiva, sala de jogos e um enorme salão para o buffet self-service com 54 tipos de comida. Pois nós não temos nada disso. Porque é de um lugar assim que você volta ainda mais estressado.
Ao criar a “Pousada do Cônego”, no verdejante vale que antecede o pico da Caledônia, palco de ricas experiências, queremos lhe proporcionar um lugar que lhe permita retomar o contato com a natureza, reeducar seus hábitos alimentares e refazer as energias físicas e mentais para a sua volta ao trabalho.

Este é um lugar diferente. Para começar, você não precisa acordar às seis horas da manhã para assistir a ordenha das vacas. Nós não temos vacas. Você pode acordar à hora que quiser, tomar café à hora que quiser e ficar na cama ouvindo o canto dos pássaros.
Nós não temos charrete, nem passeio a cavalo. Nós preferimos caminhar com nossas próprias pernas para exercitar o corpo e a mente.
Nós não temos quadra poliesportiva. Nós pisamos na grama descalços para restaurar o contato com a terra perdido há anos, colhemos ervas aromáticas em nossa horta, conversamos e rimos o tempo todo, um riso espontâneo e sadio, resgatando um relacionamento humano já esquecido.
Nós não temos salão de jogos com sinuca, totó e ping-pong para você passar o tempo depois do almoço. Depois do almoço nós nos reunimos para um bate papo agradável, com troca de experiências ou simplesmente tiramos um bom e restaurador cochilo embalados pelo canto dos sabiás.
Nós não temos self service com 54 tipos de comida ao qual você chega, disciplinadamente, em fila, torcendo para que as bandejas não se esgotem antes de você chegar lá e, lá chegando, comer o máximo que pode, estragando sua saúde, só para justificar o seu investimento. Nós lhe oferecemos um cardápio perfeitamente ajustado às suas necessidades, servido sobre toalhas brancas de puro algodão e com luz abundante para que você possa ver e degustar com tranqüilidade o que está comendo.
Nós não temos shows de música ao vivo. Para você ter uma idéia nós não temos nem televisão nos quartos! Depois do jantar nós nos sentamos em volta da lareira para degustar um bom vinho ou projetamos um filme com um tema instigante, que será sucedido por um debate, visando melhorar o nosso comportamento diante dos conflitos quotidianos.
Aqui, sim, você vai descansar de verdade. Bom fim de semana para todos.”

Luigi Spreafico

29 outubro 2010

Meu Sítio, Meu Paraíso

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“A pessoa que termina de ler um  livro 
 não é a mesma que o iniciou”  
 (ouvi dizer)

Foi numa livraria de aeroporto, graças a um providencial atraso de vôo, que encontrei o livro que iria mudar minha vida. Não era um livro de autoajuda, daqueles que tentam lhe convencer que você está deprimido, que a depressão é uma doença gerada pelo estresse e que pra você não se estressar você tem que ler aquele livro direitinho até o fim e que deve ler também os anteriores, e...
que.... raios...! Ao contrário, este livro despertou em mim energias adormecidas, reconciliou-me com a humanidade, levou-me a descobrir a harmonia que existe na natureza, o equilíbrio do mundo animal em sua luta pela preservação da espécie, com sua linda cadeia alimentar e, benção do céu, o fascínio de uma noite estrelada sem a presença da luz elétrica, marca indelével da presença do homem.

Li-o de um fôlego só durante a viagem, e quando desembarquei no longínquo Manaus – eu havia embarcado no também longínquo Porto Alegre – eu já levava nos miolos o projeto do que seria a minha vida dali para a frente.
“Meu Sítio, Meu Paraíso” !  O título do livro me fascinou. O nome do autor fugiu-me da memória. Infelizmente, porque gostaria de saber o que ele anda fazendo agora. Nesse livro ele descreve como implantou seu sítio num meio inóspito, a sua luta contra todas as adversidades superando queimadas e vencendo formigas, atravessando secas e enchentes. Ele conta, com detalhes técnicos que viriam a ser de grande utilidade para mim, como efetuou o plantio de arvores, a construção de estábulos, o preparo do solo, a formação de um lago com sua cachoeirinha. Contagiou-me. A cada etapa da leitura eu vibrava e torcia por ele. O calor com que ele descreve a cena da inauguração do lago que acabara de contruir, com champanhe e tudo, ao lado dos filhos e da esposa orgulhosa, então, encheu-me de lágrimas. Eu entendia isso. Era o seu sítio. Era o seu Paraíso!

Tratei de desincumbir-me o mais rápido possível do meu trabalho em Manaus e voltei correndo, quero dizer, voando.
Eu também daria aos meus filhos, ainda pequenos, e à minha esposa, ainda orgulhosa, essa alegria. Eu daria às crianças o seu cavalinho e, à esposa, as galinhas de que precisava para fazer seus ovos a-la-cock sem hormônios nem antibióticos. E, para mim, isto sim, concederia a glória de sentar-me britanicamente no fim das tardes , à sombra de um flamboyant, com meu gin tonic na mão, acompanhado de finíssimos canapés de pepino.

Saí à procura de um terreno. Encontrei o lugar, não muito distante da cidade. A topografia era perfeita: uma grande área plana, duas colinas em forma de meia laranja, uma pequena casa de madeira e, o mais importante, um riacho suficientemente caudaloso que permitisse a formação de um lago, ponto nuclear para unir a atividade agro-pecuária ao lazer. Com ele eu irrigaria as culturas, criaria peixes e, por que não, colocaria um barquinho para divertir as crianças.

Escolhi o ponto ideal para a barragem. Feitos os cálculos encomendei os materiais. Tudo pronto para começar a obra. Contratar um pedreiro? Não é necessário, tenho energias de sobra. Basta-me um ajudante que prepare as ferragens para o concreto e o Édio, meu recém contratado e já fiel caseiro que, apesar de cego de um olho, enxerga mais do que o chefe da repartição onde trabalho.

Mãos à obra e em pouco mais de seis meses a barragem estava pronta. O lago começou a encher. Quanta alegria! Acompanhar hora a hora, dia a dia, aquele processo lento da subida das águas, torcer para que caísse muita chuva, apostar com os filhos quem acertaria o nível da água no fim de tantos ou quantos dias, pesquisar se havia algum vazamento na barragem, descobrir se alguém estava desviando água rio acima, só quem viveu isso pode entender a satisfação que estas coisas proporcionam.

Gastei um pouco mais do que havia calculado, isto é , um pouco mais do que o dobro do que havia calculado, é verdade, mas o que é isso em comparação com o privilégio de contemplar aquele espelho d’água nos fins de tarde com meu copo de gin tonic na mão? Despesas? Ora, despesas...
Era tempo de preparar o bosque e o pomar. Espécies nativas: jacarandás, ipês, sibipirunas, aroeiras. E eucaliptos, muitos eucaliptos, aquela árvore milagrosa que veio da Austrália tão distante, indispensável para fabricar o carvão do churrasco. Preparei as sementeiras para os eucaliptos, e busquei nos hortos florestais as mudas para as demais árvores e fruteiras.

Das sementes nem todas germinaram e, das mudas, várias morreram, fosse pelos traumas sofridos durante a viagem, fosse pelo tempo que tiveram de esperar até serem plantadas. Claro, tudo tem sua vez. Mas consegui aproveitar quase um terço das plantas, o que não me deixou desanimado.

Chegou a vez da criação. Primeiro as galinhas. Disso cuidou o Édio que, com seu olho clínico, - mesmo sendo um só - sabia até quais eram as galinhas que poriam ovo naquele dia. Depois vieram as abelhas e disso eu mesmo cuidei, pois não podia me arriscar a perder o caseiro. Coisa linda, as abelhas! Que exemplo de laboriosidade, com suas regras espartanas de consumo e seus padrões éticos de convívio! As muitas picadas que eu levava só faziam retemperar a minha disposição para o trabalho, ao qual eu me entregava com fúria redobrada.

Por fim vieram as cabras, introduzidas graças ao conselho de um diligente vizinho o qual me garantiu que elas manteriam o sítio roçado e assim eu economizaria na mão de obra para as capinas. Ele estava certo porque a partir dalí nunca mais vingou uma folha de grama naquela terra. As cabras roçavam também a parte inferior das fruteiras, ou seja, até onde alcançava o seu incrivelmente elástico pescoço. Não sobrava fruta. Assim, as laranjas, goiabas, carambolas e jabuticabas disponíveis passaram a ser colhidas com a ajuda de uma escada, o que aumentava ainda mais o nosso entretenimento. E eu achava engraçada a habilidade com que aquelas rústicas criaturas cuidavam do seu próprio sustento. E também pouco me incomodava se elas, com admirável virtuosismo, burlassem a cerca da horta para triturar couves e repolhos, pois isso me dava a oportunidade de estudar e desenvolver cercas cada vez mais seguras.

“Meu Sítio, Meu Paraíso”! Como eram agradáveis aquelas noites insones em que eu me debruçava sobre as plantas topográficas esquadrinhando o melhor percurso para abrir trilhas, localizar possíveis ninhos de cobras, esse ingênuo animal tão vilipendiado pelo homem, que nunca ataca ninguém a não ser que seja ameaçado ou então esteja faminto, coisa freqüente na aridez daquela terra sáfara e maninha. E a emoção que eu vivi ao lado dos meus filhos ainda pequenos e da minha esposa ainda orgulhosa, quando voltamos do sepultamento da nossa cadelinha Chispa, atacada por um enxame de abelhas africanas que famintas, coitadas, invadiram o nosso apiário, na maior pilhagem da História depois do Rapto das Sabinas. Ninguém conseguiu conter o pranto pelo resto da noite. Foi aí que eu compreendi como é frágil a alma da gente.

“Meu Sítio, Meu Paraíso” !  Lamento, mais uma vez, ter esquecido o nome do autor. Gostaria de agradecer-lhe pela felicidade que me proporcionou com a leitura do seu livro durante as quatro horas que durou aquela viagem e que gerou todos estes anos de fortes emoções. Gostaria de agradecer-lhe por tudo o que aprendi: vencer dificuldades, superar obstáculos, afastar o desânimo e tolerar a vingança da natureza quando ela é desrespeitada, como quando, por exemplo, fiquei atolado na estrada cheia de lama e insisti em atravessar assim mesmo, só porque eu tinha que voltar ao trabalho no dia seguinte, e fui obrigado a chamar dois tratores para me tirarem do atoleiro, o que, por sua vez, me custou quase o preço do carro atolado.

Bem, o tempo foi consolidando o meu amor por aquela terra que me consumia as entranhas. A certa altura as crianças começaram a mostrar enfado no seu contato com a natureza. O orgulho da esposa foi se transformando em comiseração. Eu ainda continuei com minhas tardes contemplativas à beira do lago mas fui substituindo, aos poucos, o gin importado por um gin paraguaio, depois por um whisky nacional e, finalmente, por uma caipirinha feita com a cachaça Jacutinga, a preferida de todos os caseiros que conheci na região, esta sim, pelo menos, uma bebida autêntica. Minha esposa, de tanto comer ovos a-la-cock sem hormônios nem antibióticos tomou tal enjôo por aquele alimento mágico que passou a distribuir os galináceos gratuitamente nos terreiros de candomblé.

Animado pelas caipirinhas e pelas lembranças do livro inspirador, responsável por tantas aventuras e momentos de enlevo, tomei a decisão de também escrever, não um livro, que a tanto não me arvoro, mas esta modesta crônica que, a partir de agora,  eu quero que se chame:  "Meu Sítio, Meu Prejuízo".

Luigi Spreafico

20 outubro 2010

MADONNA "RIDES AGAIN"

...

“Madonna arrecadou US$ 12 bilhões no Brasil”

Chamada na 1ª página do “O Globo” de terça feira de Carnaval, 16 de Fevereiro de 2010.

Quem não se lembra de “Madonna está no Rio, Madonna Mia!”, aquela da orgia gastronômica entre sushis e sashimis? Pois é, ela voltou a atacar no Rio de Janeiro enquanto foliões desavisados se esbaldavam em suas fantasias baratas e eram encarceirados por mijarem na rua. Com uma simples casquinha daquela soma Madonna poderia ter distribuído pela cidade algumas centenas de mictórios, contratados às pressas. As “Organizações Tabajara” estão aí para isso.

A notícia interna, na página 10 do jornal, esclarece:
“ A sacolinha pop – Madonna retornou ontem aos EUA depois de arrecadar com brasileiros, de novembro para cá, exatos US$ 12 milhões para sua ONG, Sucess (sic) for Kids. Entre os doadores, estão Eike Batista, com US$ 7 milhões, o banqueiro Luís Octávio Índio da Costa e a AmBev, ambos com US$ 1 milhão.”

Epa!
Mil vezes menos! Cadê o resto?
Entre a página 1 e a página 10 do jornal sumiram, exatamente ,
US$ 11.988.000.000,00!
Esqueçamos o erro aritmético em que O Globo se meteu, que é problema dos seus revisores. A notícia prossegue com detalhes riquíssimos - pudera, com essa dinheirama toda - sobre a distribuição da farofa:
“No caso de Eike, a ONG recebeu US$ 500 mil cash. Os outros US$ 6,5 milhões vão para um fundo de saques controlados. O acordo com a AmBev tem uma cláusula negociada por Sérgio Cabral, que trouxe a cantora para o Carnaval: a ONG terá de aplicar o dinheiro no Rio.”

Arrisco-me a explicar que os 500 mil cash equivalem ao “pocket money”.que os executivos das grandes empresas recebem para gastar com “peanuts”. Quanto aos 6.5 mi sabemos que serão aplicados no Rio através de “um fundo com saques controlados”. Que os saques serão controlados não existe a menor dúvida. Nenhum caixa de banco deixa sair um tostão que não seja controlado.
Quanto ao seu destino, não é da nossa conta.

Se o dinheiro é do Eike, e ele o deu pra Madonna ou sua ONG, vá lá, ninguém tem o direito de perguntar o que fizeram com ele. Mas, então, por que o governador se meteu e obrigou a pobre Madonna a aplicá-lo no Rio? Vamos apostar onde a Madonna vai aplicar US$ 6,5 milhões no Rio?
Alguma sugestões: bolsa de valores; exploração de petróleo; produção de alface orgânica; implantação de escolas de esgrima para crianças faveladas; instalação de mictórios grátis, com ar condicionado e conexão de internet; construção de uma roda gigante, muito gigante, no topo do Pão de Açúcar para que o Rio possa ser contemplado pelas crianças pobres da costa da África, suas protegidas.
Mijões do Rio, rebelai-vos! Fazei um” up grade” na vossa transgressão para que seja realmente digna de cadeia. Além do mais li no mesmo jornal que um mijão foi humilhado porque uma moça viu o seu bilau e saiu gritando pra todo o mundo que era pequeno, no que, todos vaiaram. Isso não se faz. Já não bastava a prisão?
Como dizia minha avó: Oh! têmpora, Oh! mores.


Severino Mandacaru