29 maio 2020

A PANDEMONIA



 Medo e Desespero

Criei um neologismo. Sem acento e sem compromisso.  E o criei porque fazia falta. E fazia falta porque, em pleno cumprimento de uma penitência, cuidávamos de atender às obrigações que nos eram impostas. E não conseguiamos saber por que nos eram impostas.  

Uma pestilência desabou sobre nossas cabeças.
Pelo nosso comportamento.  Pelos nossos malfeitos. Pelas nossas iníquas ações. Pela nossa ganância.  Deram-lhe um nome: PANDEMIA. Recolhido entre as quatro paredes que cercam o meu quarto, tive que enfrentar dois sentimentos. O Medo e o Desespero.

Medo por não poder vislumbrar um futuro qualquer, próximo ou remoto que fosse. Por não saber se valeria a pena acordar no dia seguinte. Por não saber  se os meus amigos e parentes ainda reconheceriam o meu semblante esquálido carcomido pelos sulcos da tristeza.

Desespero porque, encontrando-me em condições privilegiadas de acomodação, podendo tomar banho duas vezes por dia, fazer três refeições e dormir o tempo que quiser dia após dia, olho à minha volta e o que vejo ?
Milhões de pessoas – sim, eu disse milhões -  que não têm sequer um balde de água para lavar-se, um catre miserável para dormir e o essencial para alimentar-se.

Pandemias existiram muitas através dos séculos. Entre elas aparecem a Gripe Espanhola, a Peste Bubônica e a Tuberculose para citar apenas algumas entre aquelas que ficaram famosas. Mas a nossa pandemia se destaca e assume o vulto de um pandemônio. Porque nas precedentes, toda a sociedade se empenhava para entender o mal e curar os seus doentes enquanto na nossa pandemia doméstica a atividade principal é a discussão, a briga, a disputa o confronto e os impropérios. Entidades públicas, líderes governamentais, chefes políticos, empresários, advogados e donos de padaria se empenham em conflitos de liderança para decidir quem manda.
Enquanto isso os doentes, infectados, moribundos, desenganados e esperançosos entopem os corredores dos hospitais.

É deprimente. Mas, como numa democracia, você pode escolher seu líder e terá a liberdade de ir à praia, passear com o cachorrinho na praça ou comer seu cachorro quente  na padaria.
Para os que ficaram em casa e tinham como se manter, a vida começou a correr frouxa. Tempo sobrando para tudo. Lavar a louça, organizar velhas fotografias, brincar com os gatinhos, comer , beber e dormir.
Mas . . .  e aqueles que foram obrigados a ficar em casa ?  Aqueles que perderam o emprego ? Aqueles que nunca tiveram um emprego ?

Independentemente de uma análise completa sobre os efeitos da pandemia no ser humano, uma constatação pode ser feita: o relacionamento entre as pessoas não é mais o mesmo. Começaram a surgir sinais de depressão e transtornos diversos como medo, raiva, rejeição e sei lá mais o quê.

Espero que, a esta altura, o meu incauto leitor já se tenha conformado com o meu neologismo e perdoado a minha petulância. Porque agora quero mostrar como foi estudado este problema muitos anos atrás. Anos, não. Séculos. Em plena Idade Média.

Foi no ano de 1343, por ocasião da Peste Bubônica, mais conhecida como Peste Negra. Durante cerca de dez anos a Peste Negra sacrificou um terço da população europeia. A doença era causada por uma bactéria e os sintomas eram febre, calafrios e dores musculares.

Em 1348, Giovanni Boccaccio, escritor florentino, começou a escrever sua monumental obra Il Decamerone, um livro para contar histórias. É através dele que vamos conhecer um pouco do que foi a vida em tempos de Pandemia naquela época.

“ Naquela cidade de Florença cuidado algum valeu nem importou qualquer providência humana. Proibiu-se a entrada nela de qualquer enfermo. Muitos conselhos se distribuíram para a conservação do estado sanitário.
No tratamento das referidas enfermidades, nem conselho de médico, nem virtude de remédio algum, parecia proporcionar cura, nem proveito. Ao contrário.
Esta peste foi de grande violência porque ela se lançava contra os sãos partindo dos enfermos, desde que enfermos e sãos ficassem juntos.”

“Deixemos de lado a circunstância de um cidadão ter repugnância de outro; de quase nenhum vizinho  prestar cuidados a outro; de os parentes, juntos, raras vezes, ou nunca, se visitarem; e, quando se visitavam, ainda assim, só fazerem de longe. Esta atribulação tinha entrado, com tamanho espavento no peito dos homens e das mulheres, que um irmão abandonava o outro; o
tio abandonava o sobrinho; a irmã, a irmã; e, com frequência, a esposa desertava de seu marido. Os pais e as mães sentiam repugnância de visitar e
de servir os seus filhos, como se esses não fossem seus (e esta é a pior coisa, quase inacreditável),”

Século XIV . . .   Parece que foi escrito ontem !


Nota: Quero fazer um agradecimento especial à minha filha Flávia e seu marido Estevão. Foram eles que, em boa hora, me enviaram de presente o Decamerão  cujos trechos transcrevo. Sem o régio presente esta crônica não teria sido escrita.







20 maio 2020

A Penitência Universal


Em dezembro de 2009 escrevi “As vozes do Além” (Crônica Nº 16), na qual relato as vicissitudes pelas quais passei numa viagem de trabalho ao Japão. Eu estava detalhando com a  Shikishima Spinning a construção da  fábrica de tecidos Seridó, no Estado do Rio Grande do Norte  Nas viagens para Tokio, frequentemente passava por São Francisco da Califórnia, onde pernoitava um ou dois dias. Em Tokio, ficava sempre hospedado no Imperial Hotel, ou “Imperiaro Otero” como eles pronunciavam.
Nessa manhã, eu havia acordado cedo e o imenso lobby do hotel estava deserto. E eu, mergulhado nos meus pensamentos, através de um sopro misterioso, fui informado de que a minha vida iria mudar. E para sempre. Não vou aqui deter-me nos detalhes mas quem leu “As vozes do Além” sabe o que passei.
Desfeito o sortilégio, voltei ao mundo dos cautos . . .

. . . para descobrir, tantos anos depois, este mundo destroçado em que estamos vivendo. Que força maligna, que desígnio superior, que conluio de deuses enfurecidos se espalharam pelo universo para nos submeterem a esta penitência sem previsão de tempo para cumpri-la.
Alguém decidiu fazer justiça na terra, não há dúvida. “O saber supremo, a  podestade divina  e o primeiro amor” , como dizia Dante, baixaram à terra e aplicaram o castigo devido: A Penitência Universal.

Olhemos à nossa volta. O que vemos?  O desarranjo total do ser humano. A desorganização total da sociedade. A degradação total do caráter. O aviltamento dos valores morais.

Guerras entre países, lutas internas, rebeliões civis, conflitos entre raças e
violência decorrente de preconceitos, tudo isso ornamentado por teses estapafúrdias baseadas em ideologias, crenças religiosas ou simples preconceitos.
Hipocrisia, egoísmo, suspeição, ganância, traições. O contato humano virou fantasia.
Preparemo-nos. Temos uma penitência a cumprir. E cada um prestará contas ao seu Deus. Ou à Divina Podestade.

09 maio 2020

Confissão





Triste é você descobrir que o computador virou o melhor amigo do homem.

Triste é você acabar escravo dos “tizapps” da vida e, na ânsia frenética de dar respostas, descobrir que seu dedo aperta 3 letras ao mesmo tempo. Você  leva mais tempo para corrigir do que levaria para escrever. Não se faz mais dedos como antigamente !

Triste é você descobrir que a bengala virou o móvel mais importante da sua casa.

Triste é você não poder tirar aquele livrinho da estante mais alta da sua biblioteca porque não pode mais subir os degraus daquela escadinha de meio metro de altura.

Triste é não poder mais ler bula, plaquinha, aviso, coluna de jornal e o que mais for, porque as letras ficaram misteriosamente miúdas e você precisa de uma lupa para enxergá-las.

Triste é você descobrir que o nível do chão  ficou mais baixo do que era antes, e que o mesmo sofá no qual se sentou toda sua a vida ficou mais longe e agora você desaba nele como um saco de batatas.

Triste é quando você conta aos seus amigos que votou no Bode Cheiroso, e eles  dizem que você  é o responsável pela desgraça que desabou sobre suas cabeças.

Triste é que, quando eu for reler este mísero texto, manuscrito que foi, eu não vou conseguir entender nem a metade das palavras que escrevi.

Mas . . . Triste mesmo será quando eu não tiver mais motivos para ficar triste. Porque aí, eu me darei conta de que era feliz e não sabia.




28 abril 2020

Os Brennand


 Brennand   I. O Magnífico  -  II. O Mágico

Ricardo Brennand, O Magnífico
Um pernambucano genuíno. Um empresário exemplar. Um pai amoroso.

Francisco Brennand, O Mágico
O Feiticeiro das Artes. Pintor, Escultor, Escritor.  Um pensador incomum.

Ricardo Brennand implantou um gigantesco parque industrial em São João da Várzea, nos arredores do Recife, onde produzia cerâmica, cimento, azulejos, vidros e outros materiais de construção. Posteriormente, criaria o seu fabuloso museu.  Foi como empresário que o conheci.

Estávamos no início da década de sessenta. Eu vivia mergulhado no meu trabalho de elaborar projetos para fábricas de tecido, especialidade à qual   eu havia chegado por força do destino.
Numa certa manhã recebo um recado: “O Dr. Ricardo deseja lhe falar. Pediu que fosse até a Várzea.”

“ Eu pretendo diversificar minha atividade industrial. Gostaria de entrar na indústria têxtil. Já tenho, inclusive, uma proposta de financiamento pelo Banco Mundial. O que me aconselha ? ”

Apresentei-lhe um panorama do setor têxtil no Nordeste, identificando os nichos de oportunidade para um investimento seguro e que contavam com incentivos fiscais.

“Ótimo. Teríamos que começar com uma unidade que permitisse expansão futura. Por isso tenho pressa.”

Nesse caso, disse eu, sugiro começar com uma fiação de algodão. Existe uma demanda reprimida para fios de alta qualidade, não só no Brasil mas também no Exterior. O Nordeste é um grande produtor de fibra longa – o Seridó – ideal para a produção de fios finos. Para tanto é preciso elaborar um projeto de execução. Porém, como já existe uma proposta de financiamento, deveríamos iniciar com uma Carta Consulta, um documento bem simples que apresenta os cálculos necessários para comprovar a viabilidade técnica e econômico-financeira do empreendimento. Isso é rápido. Em um mês pode ser feito.

“ Mas eu preciso disso para quinta feira ! ”

Esse era o Dr. Ricardo Brennand !
Estávamos na quarta feira anterior.  Fechei os olhos, invoquei os deuses, e quando voltei a mim descobri que a semana seguinte era . . . Carnaval ! Fiz as contas rapidamente: eu dispunha de sete dias e sete noites para fazer o trabalho.

“ Na quinta feira, até o meio dia, eu lhe trago o trabalho ! ”   

Ele me deu um tapão nas costas e eu me mandei, correndo.
No dia acordado, perto do meio dia, cheio de vento, cheguei na Várzea e entreguei a Carta Consulta. Ele a examinou detidamente e disse:

“ Muito bom. Era o que eu precisava.”  Em seguida chamou a Secretária.

Aqui cabe um esclarecimento. Na entrevista inicial o Dr. Ricardo havia me perguntado quanto custaria o trabalho. Fiz um cálculo rápido usando os critérios que eu usava nos meus trabalhos de consultoria e forneci um valor que ele aceitou sem maiores perguntas. Hoje eu nem lembro mais qual era. Quando a Secretária chegou ele disse:
“ Faça um cheque no valor de ... tanto ... para o Sr. Spreafico.
Levei um susto. Imediatamente corrigi:

“ Dr. Ricardo, o  senhor se enganou. Isso é o dobro do que eu pedi.”

“ Você merece, meu filho.  você trabalhou no Carnaval.

Esse era o Dr. Ricardo Brennand !

Meses depois encontrei-me novamente, e por acaso, com o Dr. Ricardo. Numa viagem a  trabalho de Recife para São Paulo, num vôo da Cruzeiro. Eu estava sentado junto à janela quando ele embarcou. Vendo o assento ao meu lado vazio, ele o ocupou e, enquanto esperávamos a decolagem ficamos conversando. O assunto era, obviamente, o desenvolvimento industrial do Nordeste. Aqui cabe uma explicação: a Cruzeiro havia inaugurado o Viscount, um avião de duas turbinas super potentes que, no momento em que deixava o solo, subia disparado num ângulo de quase quarenta e cinco graus. Era emocionante. Alcançada a altura necessária, o avião seguia tranquilo e sereno como se nada tivesse acontecido.

Pois desta vez foi diferente. Largado o chão, o avião começou a subir  mas no meio do processo, muito antes da altura de nivelamento, começou a perder altura. Eu gelei. Já havia feito muitas viagens com esse avião e percebi logo o que estava acontecendo. O Ricardo virou-se e disse:

“Oh Spreafico, parece que este avião está planando.” Eu estava em pânico.  Não pude me controlar:

“Planando não, Dr. Ricardo.  O avião está caindo.”

Logo se ouviu a voz do comandante acalmando os passageiros e informando que estávamos voltando ao aeroporto do Recife. O avião baixava em círculos, acelerado. Olhei pela janela. Foi a recepção mais festiva e colorida que eu tive em minha vida: ambulâncias, carros de bombeiro, caminhões-tanque e policiais com máscaras contra gás, com suas cruzes e insígnias coloridas, nos davam as boas vindas.

*    *    *    *    *
Francisco Brennand, O Mágico, era pintor, escultor, poeta, escritor, grande filósofo, amante do teatro e um grande ser humano. Chico, como o chamávamos, não queria saber de fábricas. Queria fazer arte. Por causa disso, chegou a ser considerado  “ a ovelha desgarrada da família .”
Eu o conheci quando foi criado o Teatro Popular do Nordeste por Hermilo Borba Filho,  Ariano Suassuna, Capiba e onde eu ensaiava “A Pena e a Lei”, que seria estreada no Teatro do Parque em Fevereiro de 1970. Ele comparecia aos ensaios com certa assiduidade e discutia com Hermilo e Ariano os problemas da formação do grupo teatral.

Depois que me transferi para o Sul,  passei a visitar Recife com uma certa frequência. Em cada viagem, eu fazia questão de visitar os Museus, tanto o do Ricardo como o de Francisco. Neste, fiz várias tentativas de falar com o Francisco. Nunca consegui. Na última viagem, cerca de dois anos antes de sua morte, decidi que eu não sairia do museu sem encontrá-lo. Falei com todas as assistes que encontrei. Em vão. Ora ele estava ocupado, ora estava lanchando, ora estava doente.  Desanimado, eu me coloquei na extremidade de um dos galpões, pensativo, contemplando aquela montanha de estátuas. De repente divisei sua silhueta na outra extremidade, manejando um pacote de jornais. Sem perceber, deixou cair um deles. Saí disparado e alcancei-o quando se preparava para recolher o jornal. Eu me antecipei e lhe passei o jornal. Olhou-me fixamente.

“ Não está me reconhecendo ? Cheiroso ! ”  disse-lhe.
“ Cheiroso ?
“ É... Da Pena e a Lei, do Ariano. Você ia assistir os ensaios de vez em quando.”
“ Ah . . .Claro. . .  de vez em quando não, eu ia a todos . . . a todos.

Abraçou-me. Perguntou-me pelos amigos que moravam no Rio. Perguntei-lhe onde poderia encontrar o Ariano. “Você não vai conseguir falar com o Ariano. Ele está trancado em casa escrevendo.”

E  me despedi escondendo uma gota de orvalho que me descia pela face.



19 abril 2020

Surpresas na Serra. . . Desafios no Mar



A quietude na Serra nestes dias de outono induz a um silêncio restaurador. Recolhido no meu bambuzal contemplo a neblina baixa que se aconchegou no Vale do Cônego deixando exposto apenas o cocoruto do Chapéu da Bruxa. O projeto da Montanha de Narayama foi abandonado. Minha mente vaga.
Olho à minha volta. O panorama é entristecedor. Os sabiás não cantam mais com o mesmo entusiasmo. Os gambás se tornaram escassos e as bananas sobram no quintal. O casal de jacus não desce mais para exibir seu porte majestoso; emitem seus gorjeios de dentro do ninho. As plantas crescem à revelia do seu amo, ausente pelas circunstâncias do tempo. Encontrei um pé de abóbora que havia se alastrado na planície da horta subindo pela porta da cozinha, visto que não podia entrar. Os cães não ladram mais. As noites se tornaram longas, ignorando as estações do ano. Os dias, insípidos. As ruas, desertas. Tranquei as portas e me transportei para o nível do mar.

No velho esconderijo do Cosme Velho, a vida retoma a sua rotina.
Mas . . . descubro que estou sozinho! A dura constatação, a princípio, me confunde. Aos poucos me acostumo. De repente, uma descoberta: Estou lendo os “Diários Intermitentes” do Economista Celso Furtado com o qual trabalhamos, minha esposa e eu, na Sudene. Em três ocasiões, Furtado confessa estar sofrendo uma enorme solidão e que isso o incomoda muito. Um pequeno detalhe: Furtado escreveu isso quando tinha dezesseis anos de idade. Isso me confortou.

A solidão me faz companhia. Os seus fantasmas me acompanham. Como sombras durante o dia e como vultos durante a noite.
A  SOLIDÃO !  Preciso entendê-la.

Consultei os psicólogos. E eles me disseram:
 “Para viver feliz na solidão é preciso aceitá-la. Admita que você se sente só”.
 Pronto. Admiti. Mas os psicólogos continuam:
“Você também precisa esquecer o seu passado”.
Muito justo, retruquei. De nada adianta ficar apregoando minhas bravatas se tenho que pagar as contas no fim do mês.
Mas, esquecer o passado?
Sim, vou esquecer o meu passado. Mas para isso é preciso que eu me lembre dele, antes.
  
E assim encontrei-me, ainda jovem, flanando pelo velho Recife, balançando as pernas na amurada das pontes, esperando o nascer do sol no Cais de Santa Rita ou contemplando a lua escandalosa refletida nas águas do Capibaribe.

Como não iria me lembrar dos encontros festivos com poetas e pintores,  sonhadores românticos, e suas presepadas? Carlos Pena Filho nas noitadas boêmias do Bar Savoy; Adão Pinheiro, Abelardo da Hora, Reinaldo Fonseca, Mario Mota . . .
Como não lembrar dos ensaios no Teatro do Parque com Ariano Suassuna, Capiba, Joel Pontes, Clênio Wandelei, Hiran Pereira, Hermilo  Borba Filho e todos os mamulengos de “A Pena e a Lei” ?  E o sucesso no Teatro Santa Izabel com “O Diário de Anne Frank” ?
E a representação da Paixão de Cristo em Fazenda Nova, três dias de espetáculo contínuo num cenário grandioso esculpido em pedra por artesãos locais?
De tudo isso me lembrei. Porque tudo isso eu vivi. E muito mais.

Um dia, quando eu balançava as pernas na Ponte Buarque de Macedo, vi que passava, apressado, o poeta Augusto dos Anjos. Com o semblante carregado, parecia ir ao encontro da morte. Perguntei-me em que estaria pensando. Entendi depois: No destino.


AS CISMAS DO DESTINO

“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava o Destino, e tinha medo.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Lembro-bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!”
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 

A casa do Agra era uma Funerária. Eu a conhecia bem, ficava na Rua da Conceição, bairro da  Boa Vista e eu passava por ela quando ia garimpar livros nos sebos da região. Continuando seu longo poema “ As Cismas do Destino ", Augusto dos Anjos declama:

“Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!”
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Em um soneto  Augusto dos Anjos continua
falando do seu destino:

“Tome, Dr. esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa
Que importa a mim que a bicharada roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!”

Com estes versos, deixo ao meu incauto leitor a incumbência de desvendar os mistérios que se escondem na cabeça de um solitário. A Solidão é um mar imenso. Oferece banhos reparadores.
A volta ao nível do mar aquietou-me a alma. Deixei a Serra com tristeza e nostalgia. Mas a chegada ao Palácio Encantado do Cosme Velho me proporcionou a vida alegre e festiva do adolescente de outrora.

“ Absit injuria verbis ”



22 janeiro 2020

Meus 9 anos


Acordo no meio da noite. Esfrego os olhos. Respiro fundo. Caminho vacilante até a cadeira de vime que me dá guarida nas noites vazias.
É a voz dele, não tenho dúvida. O chapelão na cabeça . . .

     “ Sozinho de noite,
  nas ruas desertas
do velho Recife
       que atrás do arruado
    moderno ficou , , ,
criança de novo
   eu sinto que sou.”

“ Que diabo vieste fazer aqui, Ascenso ? “

Ascenso Ferreira !  Você aqui, Ascenso ?   A esta hora !  Perturbando minha alma . . .  Mexendo em meus sonhos . . .  Onde está a criança daquele tempo? Contemplando o nascer do sol na ponte Buarque de Macedo ou o luar prateado no Cais do Apolo ? E o adolescente que esperava ansioso o apito do cuscuz para tomar seu café ?  Quantas vezes fiquei sentado sobre a balaustrada da ponte, de pernas penduradas, pensando na vida ?  E as lembranças do adulto, da vida dura nas fábricas ?  . . . As viagens pelo interior, a colheita do algodão, a convivência com os homens do campo, a miséria crônica, a luta pelo desenvolvimento do Nordeste . . .   

“ O rio soturno
      tremendo de frio
               com os dentes batendo
        nas pedras do cais
     tomado de susto
    sem poder falar
    o rio tem coisas
      para me contar ”



É isso mesmo, Ascenso.  O rio tem coisas para me contar, Ascenso ! Hoje me lembrei que, quando completei oitenta anos, isto já faz muito tempo, escrevi o seguinte :

Madrugada Insólita
-- Amanhã vou colher a rúcula que plantei no  mês passado, usando uma semente que não podia ter nascido. Sua validade estava vencida há mais de dois anos. Mas a semente nasceu porque ignorou o seu prazo de validade. Eu também nasci, mas com prazo de validade não revelado. Vou fazer o que fiz com a semente: ignorar o prazo de validade e plantar-me a cada dia.                                                     

“Sozinho de noite
nas ruas desertas
                                                        o rio soturno
  nas pedras do cais
                                                        criança de novo
eu sinto que sou.”

“ Larga de ser vagabundo, Ascenso ”

Oxente ! ! !   O que foi que eu disse lá em cima ?  9 anos ?  Cruz credo !
Eu quis dizer 90 !  É pra lá que eu vou.
 

12 dezembro 2019

Volta à Escola Paterna


. . . "O meu primeiro e virginal abrigo". . .  Estou recuperando os meus fantasmas. Sem eles eu não dormiria direito. Com eles subirei a montanha de Narayma e deles estarei cercado quando chegar o sopro Sideral. Entre eles estarão . . .

. . . OS ENVIADOS DE DEUS

Um desconhecido leitor escreveu um comentário sobre a minha “compostagem”(1) intitulada “O FALSÁRIO”. Segundo ele, " o homem das sobrancelhas grandes era um “enviado de Deus”. Nesse comentário, ele faz uma análise psicológica (deve ser do ramo) do bom velhinho e de como ele interpretou o comportamento da criança e do tipo de castigo aplicado: fazer com que ela mesma sentisse vergonha do seu comportamento e, assim, emendar-se. O repúdio, o afastamento, a humilhação, a execração poderiam, nesse caso, resultar na formação de uma criança revoltada e inutilizada para o resto da vida."

 Reconheço que estou me intrometendo em terreno que não conheço. Nunca estudei psicologia. Posso estar dizendo bobagens.O fato é que o comentário me impressionou. Não vou reproduzi-lo aqui, mas, recomendo que o leiam.

 Refletindo sobre o assunto lembrei-me de outras situações difíceis em que fui ajudado por  pessoas generosas que, mesmo sem me conhecerem, me tiraram das dificuldades. Uma dessas pessoas foi, sem dúvida, o Professor Rocha. Rocha era professor de inglês.

Em 1948 o Governo Federal, em convênio com o Senai, criava no Rio de Janeiro a Escola Técnica Federal de Indústria Química e Têxtil destinada a formar técnicos para a indústria têxtil de todos os Estados do país. A cada Estado foi atribuído um número de vagas proporcional ao tamanho de sua indústria têxtil. Pernambuco recebeu cinco vagas. Seria feita uma prova de seleção em cada Estado e os aprovados seriam enviados ao Rio. A escola oferecia alojamento e pagava todas as despesas de viagem. Uma vez no Rio os alunos seriam submetidos a novo exame para que se efetivasse a admissão. Os reprovados receberiam a passagem de volta.

Eu estava concluindo o curso industrial básico (que equivalia ao ginasial) de Mecânica de Máquinas na Escola Técnica do Recife, também da rede federal e também como aluno interno. A escola ficava no Derbi (o prédio ainda está lá) bem na margem do Capibaribe, flanqueada por duas enormes figueiras (não estão mais lá) nos fundos da Maternidade do Derbi e ao lado do Necrotério Municipal. Assim, eu me acostumei a ouvir, durante a noite, os gritos desesperados das parturientes (naquele tempo não se faziam cesarianas a não ser nos casos de emergência) e, durante o dia, a acompanhar os cadáveres de indigentes, criminosos, suicidas e todos quantos não morriam de morte natural quando, depois da autópsia, eram enfiados nas gavetas do frigorífico do Necrotério. Nas noites de sábado ia ao cinema do Quartel (creio que era da Polícia Militar pois a farda era cáqui) situado na extremidade da Praça do Derbi. Era de graça. O médico da Escola era o Dr. Hilo Lins e Silva a quem coube salvar minha vida em um acidente que sofri durante uma prática nas oficinas.   

Encerrado o curso de mecânica, em Novembro de 1947, o diretor - Manoel Vianna de Vasconcellos – (espero não ter errado na grafia do nome) mandou-me chamar e informou-me sobre o curso que estava sendo criado no Rio. Se eu quisesse continuar estudando sem custo, não haveria oportunidade melhor. Resolvi enfrentar a prova de seleção. Eu tinha medo. No ginásio os alunos estudavam latim, inglês, até poesia se ensinava lá. No curso industrial não tínhamos nada disso. Eu não tinha como competir com os ginasianos.         Preenchi o formulário de inscrição com mão trêmula. A prova foi realizada no Colégio Marista que ficava na Boa Vista. Uma multidão se acotovelava no pátio imenso. O meu terror aumentou quando comecei a ouvir a conversa dos candidatos, todos mais velhos do que eu. A maior parte já havia concluído o curso científico e muitos deles faziam curso superior. Cinco vagas! Enfrentei a prova aterrorizado.


Quando a notícia chegou eu estava ralando milho verde para uma canjica, com as mãos bastante esfoladas. Eu estava entre os cinco. Muitas lágrimas se incorporaram ao milho ralado e, talvez por isso, a canjica nesse dia tenha ficado tão saborosa. Devorada a canjica, mergulhei no estudo, preparando-me para o exame de admissão.

Em Fevereiro de 1948 embarquei, deslumbrado, num DC3, no que seria minha primeira viagem de avião. Do Recife ao Rio durou 8 horas. Lembro-me das escalas, mas não de todas: Maceió, Aracaju, Salvador, mais uma ou duas, Canavieiras, Cabrália, Vitória, Ilhéus, mais uma ou duas e, finalmente, Rio de Janeiro. Ficamos alojados num casarão em São Cristóvão, na Rua Bela. (será que ainda tem esse nome?). O bonde, curiosamente, tinha o mesmo número do da Vila Maria: 34 que fazia ponto final na Praça Tiradentes.  O nome da linha? Alegria. Seu Alfredo, embalsamado em um par de calças risco de giz, uma jaqueta preta de lapelas lustrosas e gravata borboleta, também preta, servia as refeições. Podia-se comer à vontade. Tudo muito chique. Pela manhã eu acordava com o cheiro do café e do pão fresquinho. A Escola ficava no bairro do Riachuelo, na linha da Central, quando o morro do Jacarezinho não passava de um bucólico e pacífico aglomerado de casebres com telhados de zinco.

Eu estudava como um fanático já que iria competir com alunos que vinham de todos os Estados do Brasil. Não podia falhar. Mas, desta vez, a conversa com os colegas me tranqüilizava, pois eu podia avaliar o nível em que se encontravam e me sentia seguro. Entrei na prova calmo e confiante. Classifiquei-me entre os cinquenta candidatos. Seis foram reprovados e voltaram para os seus respectivos Estados. Os 44 alunos que formaram a primeira turma de técnicos têxteis na Escola Técnica Federal de Indústria Química e Têxtil foram matriculados por ordem de classificação no exame de admissão. O meu número de matrícula foi 1.
As aulas se iniciaram com o edifício da escola ainda em construção. Não havia portas nem janelas. Muitas vezes a aula tinha que ser interrompida por causa do barulho das betoneiras e serras circulares. Meu fervor pelo estudo era renovado a cada dia pelo cheiro das máquinas novas que eu aprendia a montar nas oficinas da fiação. A expectativa da chegada dos teares me deixava eufórico.

 Foi aí que um fato perturbador veio tirar-me a paz. No curso havia a cadeira de inglês a qual não havia sido preenchida, até a metade do primeiro semestre, por falta de professor. No curso industrial, de onde eu vinha, não havia aula de inglês. A única palavra que eu conhecia era “camoni-boi” que havia aprendido na Vila Maria quando brincava de faroeste e, mesmo assim, não sabia o que significava. Todos os demais alunos vinham dos cursos ginasial e científico. Alguma coisa sabiam.
Pela metade do semestre chegou o Professor Rocha. Mostrou-se logo uma pessoa simpática, sempre alegre e grande contador de histórias. Era irmão do Carlito Rocha, treinador do Botafogo, que gozava de imenso prestígio no futebol brasileiro.
No primeiro dia de aula, Rocha explicou: “Como perdemos mais de dois meses de aula eu vou fazer uma avaliação do nível em que vocês se encontram e começarei as aulas por aí.” E assim foi, para meu desespero. Eu não entendia nada.
Chegado o fim do semestre foi aplicada a “prova parcial”. Naquele tempo existia uma prova parcial, no fim do primeiro semestre, e uma prova final, no fim do segundo semestre. A nota para a promoção de ano era uma média das duas. Entreguei minha prova praticamente  em branco e fui chorar escondido.
Na aula seguinte, Rocha chegou com as provas, distribuiu a cada um a sua, e começou a ler as respostas corretas para que cada um comparasse com o que havia feito. No topo da prova, dentro de um círculo, a nota de avaliação.

Quando recebi a minha prova fiquei perplexo, sem poder acreditar. Um 7 claro, inequívoco, firme, sem vacilação. Permaneci mudo, os cotovelos sobre a banca, a cabeça entre as mãos, contemplando o professor. Ele me olhava, de vez em quando, sem bater pestana. Esperei que todos saíssem para devolver minha prova, com a mão trêmula de emoção e a voz embargada:

-- " Professor, muito obrigado. "

Entregou-me um maço de folhas soltas. Eram exercícios. E, segurando meus ombros  com ambas as mãos para manter-me na linha de eixo de suas palavras, disse-me, com olhar firme:

-- " Não tenha medo, menino. Estuda que você passa. "



(1) Compostagem  -  Método usado pelos camponeses para produzir adubo orgânico,     principalmente nas pequenas  propriedades. Consiste em aproveitar os resíduos vegetais oriundos de capinas, podas, desbastes, etc. formando pilhas as quais, através da ação de microorganismos existentes na terra, fermentam, decompondo o material de tal forma que o transformam em um pó escuro, fácil de manusear e de cheiro agradável. Durante a fermentação, que ocorre espontaneamente, a temperatura interna da pilha pode alcançar até 80º centígrados. Uma pilha de composto leva mais de um ano para ficar pronta. Minhas compostagens também. E minha cabeça passa dos 80º C.                      




12 julho 2019

A GRANDE ENTREVISTA

No dia 12 de abril de 2015 fui procurado por uma jovem que me pedia uma entrevista. Thaís S Fernandes era acadêmica do Curso de Jornalismo em uma renomada Faculdade no Rio de Janeiro. A princípio hesitei, pois o meu contato com a imprensa até então havia sido fugir de jornalistas ansiosos por litígios e contendas travados em algumas das empresas por onde passei. Mas, quando vi os temas que a Thaís me jogou no colo, “Convívio Social, Preconceito, Evolução Tecnológica”, fui tomado por um inesperado e vibrante entusiasmo. E, assim, sentados aos pés do Cristo Redentor, começamos o nosso profícuo diálogo.


Thaís: “Por um período não muito grande, você resolveu se isolar de tudo indo morar em um sítio que não tinha luz elétrica, televisão, jornal, apenas um rádio. Como isso influenciou a sua vida? Quando voltou a ter contato direto com a vida urbana houve algum tipo de desespero?”

De fato, ficamos isolados, eu e minha esposa Dorotéa, durante um ano e meio, escondidos dentro de uma casinha no meio da mata, a 1200 metros de altitude, na Região Serrana do Estado do Rio. Não havia vizinhos. Ninguém para conversar. Não havia telefone. Não havia jornais nem televisão. Não havia luz elétrica. Portanto, não havia geladeira e o banho era frio. Havia, sim, um radinho de pilha usado pela Dorotéa para ouvir, de vez em quando, a Rádio Relógio, estação que anunciava as horas, minuto a minuto. Nunca descobri a utilidade dessa informação visto que eu iniciava o meu trabalho no mato assim que o dia clareava e parava, para jantar, antes que escurecesse. As necessidades imprevistas que surgissem depois do por do sol, eram resolvidas com um candeeiro a querosene comprado num brechó.
Nosso contato com gente se dava a cada quinze dias, no mercado da cidade, a vinte quilômetros de distância. Eram encontros efusivos, como se fossemos amigos de longa data.

Aos poucos, nossa vida foi mudando. Descobri que estava em outro mundo. Não havia mais pressa. As coisas começavam quando tinham que começar e terminavam quando tinham que terminar. Não era eu, de olho no relógio, quem decidia: “anda depressa, você vai chegar atrasado; você tem que fazer isso hoje, sem falta, se não ... Não tinha mais nada disso. Eu parava de capinar quando um sabiá começava a cantar perto de mim, e esperava que terminasse. Passava horas, sentado, esperando que um gambá viesse comer a sua banana. Fiquei semanas tentando convencer as formigas a irem comer folhas na mata e poupassem as minhas roseiras.

Logo me acostumei às privações impostas pelo isolamento: banho frio e cerveja quente – aliás, eu já estava acostumado a tomar “cerveja quente” quando das minhas viagens à Alemanha e à Inglaterra. Preparar somente aquilo que se pudesse comer no dia, pois não havia geladeira para guardar as sobras. Renunciar a roupas passadas a ferro - que maravilha! 

– pois não havia ferro de passar, e tantas outras pequenas coisas. Comecei a ver o mundo de modo diferente. As pessoas eram boas, confiáveis e simpáticas. Eu conversava com todos e todos sorriam. Procurei entender por que esse pequeno mundo que me circundava era diferente. Percebi que não tomando conhecimento das notícias sobre roubos, assassinatos, estupros, golpes e sequestros, greves e invasões, acidentes nas estradas, corrupção e desmandos políticos, achaques e depredações, enfim, tudo aquilo que é notícia nos jornais do dia e na televisão da noite, desempenhava um papel importante nesse processo de mudança. A supressão dessas informações por mais de um ano, me haviam transformado num ingênuo. Obviamente, as pessoas não haviam mudado. O que havia mudado era a maneira como eu as via.

A volta ao contato direto com a vida urbana não chegou a criar qualquer tipo de desespero. O contato com as pessoas, apesar de barulhento, compensava, com sua alegria, a perda da serenidade com a qual havíamos passado nossos dias. Claro que o canto dos sabiás e bem-te-vis havia sido substituído por buzinas de carro e o canto noturno das rãs no charco, por uma música funk espalhafatosa saindo das crateras do inferno. Mas o próprio isolamento me havia ensinado a ser mais tolerante com essas perturbações. Lembro-me de que, ao desembarcar pela primeira vez no Rio, depois de tanto tempo de reclusão, as narinas me ardiam ao aspirar o ar poluído. Voltei correndo e permaneci por algum tempo em um bairro pacato ainda na Serra, numa espécie de quarentena. Aos poucos fui retomando a rotina do caos urbano e reaprendi a conviver com ele. Hoje leio jornais e vejo televisão com respeito. E muita cautela.


Thaís: “Atualmente a televisão tenta encaixar cada vez mais as modernidades em nosso cotidiano. Antigamente, nas novelas, não havia uma aceitação de relações inter-raciais e de pessoas do mesmo sexo. Partindo do pressuposto de que a visão da sociedade não é unânime, como você se posicionaria? Acha aceitável ou não?”

A resistência de parte da sociedade à aceitação de relações inter-raciais e de pessoas do mesmo sexo é compreensível pois é fruto da cultura em que cada segmento dessa sociedade foi educado. No meu entender, essa resistência está sendo vencida, a passos lentos, é verdade, mas de modo irreversível e a televisão, mencionada na pergunta, tem um papel importante nesse processo. Quanto a mim, acho perfeitamente aceitável a convivência com essa diversidade, e entendo que a eliminação de preconceitos não será obtida somente com leis, em que pese o papel fundamental que estas desempenham, mas sim através de educação e conscientização. Eu tive a sorte de aprender, ainda criança, a conviver com pessoas de diferentes classes sociais, e de origens étnicas as mais diversas. Sofri, com elas, as agruras do preconceito. Mais tarde, quando surgiram as discussões sobre relações homofóbicas, eu já estava moral e intelectualmente preparado para a sua aceitação. Não posso avaliar a qualidade dos exemplos dados pelas novelas pois não sou um espectador habitual de televisão. Mas arrisco-me a dizer que não creio que sejam muito edificantes.


Thaís: “Considerando as evoluções sociais e tecnológicas, você acha que todo esse avanço foi positivo ou negativo? Se pudesse voltar no tempo e mudar uma característica do mundo atual, qual seria ela?

”Posso dizer que acompanhei as evoluções sociais e tecnológicas durante os 72 anos que me separam do primeiro emprego, aos 12 de idade. Assisti ao desaparecimento de coisas lindas como, por exemplo, as cartas de amor escritas em papel perfumado; as sacolas de papel nos mercados de “secos e molhados”; as cópias termofax, ou fotocópias, que impunham a necessidade buscar no dia seguinte, para gerar o que é hoje uma simples xerox; as máquinas de escrever e a linotipo, aquela máquina gigantesca que preparava as matrizes para imprimir o jornal; os telegramas da Western, via cabo submarino. Eu estava presente quando foi lançada a Coca Cola no Brasil. Vi a primeira televisão em preto e branco, só disponível nas casas mais abastadas.

Assisti à montagem da praia do Botafogo e vi como as enormes dragas cuspiam água e areia para os céus. Acompanhei o desmonte do morro de São Bento serpenteando por entre os caminhões que deixavam ruas e calçadas tintas de sangue do barro vermelho extraído da colina. Conheci os primeiros computadores, que eram do tamanho de uma sala de visitas; mais tarde, quando estes se tornaram accessíveis aos mortais, usei o Carta-Certa, o programa de texto de computador onde você precisava fazer acrobacias sobre o teclado para digitar uma letra que tivesse um acento agudo e exigia o dobro do esforço se tivesse cedilha ou til.

Como poderia eu me opor às evoluções sociais e tecnológicas? Sem dúvida, esse avanço foi positivo. Tenho defendido com entusiasmo o lema proposto por Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor do “O Leopardo”: “É preciso mudar para que tudo fique como está” Essa é a verdade. Se você não muda, você simplesmente não para, você regride. Se pudesse voltar no tempo eu apenas recomendaria que se desse mais atenção ao relacionamento humano. Nas últimas décadas, progredimos em tudo e em ritmo acelerado, menos no que diz respeito à organização do ser humano, quero dizer, da forma como se administram as sociedades. Basta ver a bagunça em que deram o Comunismo, o Socialismo, o Capitalismo... e agora o Bolivarianismo. Cruz, Credo!

N.B. Hoje é dia 12 de julho de 2019. Passaram-se 4 anos desde o nosso Encontro. Causou-me espanto a atualidade do que foi dito na época, especialmente no que concerne à evolução tecnológica, e ao aperfeiçoamento do ser humano. Por outro lado, haveria um mundo de coisas novas a discutir que surgiram neste período, entre elas, as redes sociais, por exemplo. Esperemos que a Thaís volte, um belo dia. Mas, desta vez, ela seria a entrevistada.

21 junho 2019

A Fábrica da Estância



O “Programa de Reaparelhamento da Indústria Têxtil do Nordeste” foi concebido e implementado pela SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, no ano de 1960. O Programa acolheu 61 fábricas distribuídas por todos os Estados da Região. O Programa tinha por objetivo a substituição do equipamento obsoleto bem como o aperfeiçoamento das práticas administrativas visando-se, com isso, um aumento da eficiência global das empresas. Para tanto, além dos adequados serviços de financiamento e utilização de incentivos fiscais, foram oferecidos ao empresariado, entre outras facilidades, um programa de aperfeiçoamento para os administradores bem como um programa de treinamento para a mão de obra fabril, notadamente mestres e contramestres. Por fim, foi elaborado um “Projeto Padrão” que facilitaria, ao empresário, a elaboração do seu próprio projeto de viabilidade econômica e financeira evitando, assim, a custosa contratação de uma empresa especializada. Para completar, a equipe de técnicos do Grupo Têxtil estaria disponível para auxiliar as empresas na elaboração do projeto padrão.

Em Julho de 1963, o Programa havia aprovado 61 projetos de reequipamento. A maior parte deles encontrava-se em execução. Outros em fase de análise. Entre estes destacava-se, no Estado de Sergipe, a Companhia Industrial da Estância. No início de Janeiro de 1964, a equipe de analistas do Grupo Têxtil, embarcada numa Rural Willis, deslocou-se até a Cidade da Estância, para efetuar seu trabalho. Compunha a equipe um técnico têxtil,  (abaixo assinado),  um engenheiro civil, um contabilista e um advogado.
A fábrica da Estância estava instalada em  um  prédio antigo, na borda de uma imensa planície povoada de coqueiros  e bem na margem de um rio. Essa localização se explica pelo fato de que as fábricas, no começo do século passado, recebiam a força motriz proporcionada por uma roda d’agua ou, na melhor das hipóteses, por uma turbina hidráulica.

O cenário era bucólico, mas preocupante. A fábrica estava a poucos metros da margem do rio e o leito do mesmo era cerca de 3 metros mais alto que o piso da fábrica. Acostumado que fui a ver chuvas torrenciais nas cabeceiras dos rios do Nordeste que descem de roldão pelos seus leitos secos e famintos, decidi acautelar-me.
 E se a nova fábrica sofresse uma inundação?  O prédio existente deveria ser substituído de qualquer modo e, portanto, não incorreria em custo adicional.

Reuni o grupo e expus o problema. Decidimos que seria prudente aconselhar o Empresário a relocar a fábrica. Espaço não faltaria.  
O Empresário não aceitou a sugestão. Foi enfático e, decididamente, assegurou que ali não haveria possibilidade de ocorrer qualquer tipo de acidente dessa natureza. E completou: “Ademais, mandei construir uma barragem rio acima, a duzentos metros daqui, que garantirá qualquer elevação no nível das aguas”.  E deu o assunto por encerrado.

Chamei o engenheiro civil e disse-lhe: Vamos visitar a tal barragem”. Tratava-se de uma mureta que, pela conformação topográfica do terreno, não formava propriamente uma bacia de contenção. Qualquer precipitação pluviométrica fora do normal provocaria o transbordamento das águas.
“ Você acha que essa barragem garante o serviço”  ?
“ Sei lá, eu sou engenheiro civil, não entendo nada de aguas.”

A resposta do colega iluminou o meu caminho. Eu também não entendia nada de águas. Mas jamais assinaria o projeto naquelas condições. Por outro lado, eu não podia me opor à aprovação do projeto porquanto eu não tinha um embasamento técnico convincente.
Consultei o grupo e perguntei se alguém estava disposto a assinar o projeto naquelas condições. Resposta negativa.

Foi quando me lembrei que a SUDENE dispunha de um Departamento de Hidrologia que vivia quebrando a cabeça para transferir água pra cá e pra lá, a fim de mitigar a seca no Nordeste. Eu faria um memorando para o Departamento solicitando que emitisse um laudo que garantisse a segurança do prédio da fábrica  naquele local.

Voltamos à base e expedi imediatamente um memorando ao Departamento de Hidrologia historiando o problema e requerendo urgência na ação.  O tempo foi passando.  Não faltaram protestos e reclamações de todo o tipo. Eu continuava firme na minha posição.
Enquanto isso, nosso grupo continuava mergulhado na análise de outros projetos com o mesmo entusiasmo de sempre pois trabalho é que não faltava.

Naquela época o Departamento de Industrialização da Sudene ocupava todo o décimo primeiro andar do INSS, na Av. Dantas Barreto, onde se aninhava o Grupo Têxtil. Não havia paredes divisórias e, portanto, transitava-se entre as mesas dos companheiros de trabalho naquele espaço imenso.
Certo dia, quando levantei a cabeça, vi o meu chefe caminhando na minha direção abanando, freneticamente, um papel. Telegrama Western, pensei.

-  Prepare-se para viajar.
-  O que aconteceu ?
-  A Fábrica da Estância foi inundada !

Eu perdi a fala. Não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Imagens me passavam diante dos olhos como num sonho. A mureta e seu espelho d’água ... o canto dolente da cascata ... o apito da fábrica ..
Não sei quanto tempo se passou. Acordei com a voz do chefe lendo:

-  “Presidência da República  ....  Senhor Superintendente,  Determino   constituir Grupo de Trabalho para estudar os problemas  sociais e econômicos causados pela inundação da Companhia   Industrial da Estância em Sergipe . . .  Você viaja amanhã.

-  “Sinto muito, chefe. Mande outro no meu lugar. Imagine o constrangimento, tanto de minha parte como da parte . . .”

-  “ O que ? Você está dizendo que não aceita ? ”

-  “ Não aceito. Peço demissão.”

-   “ Então você vai explicar isso ao General.

Nessa altura a Sudene estava sob intervenção militar e o Superintendente era um General. Passados alguns minutos recebi um aviso da secretária pedindo-me para apresentar-me na Superintendência, um andar acima do nosso. O General cumprimentou-me de bom humor, provavelmente achando graça da minha  insubordinação.

-  “ Eu soube que o Senhor está se recusando a cumprir uma ordem do seu chefe ”

Fiz um relato de tudo o que se havia passado e expliquei o constrangimento em que eu me encontrava com aquela missão e que, além do mais, para ser franco, eu tinha receio de viajar por estradas ... naquela época ,,, perigosa ,,, o Senhor sabe ,,, né ? ... O General me ouviu pacientemente.

-  “ O Senhor tem toda a razão. Mas viajará com um documento meu.

Ato contínuo chamou a secretária e ditou. Passou-me o documento, desejou-me sucesso e firmeza no trabalho.
Embarquei no dia seguinte na mesma Rural Willis com a qual tinha ido, desta vez levando debaixo do braço meu salvo-conduto, uma Olivetti Lettera  22, e o peso da responsabilidade que eu carregava. Para ver cardas e filatórios cobertos de agua, fios e flocos de algodão flutuando e um monte de operários sem trabalho. Acompanhou-me nessa missão um colega do Grupo, um amigo fiel e abnegado que depois faria carreira na Instituição. Depois de duas semanas de trabalho, entregamos nosso relatório ao Governador do Estado, no Palácio do Governo de Sergipe. Mas esta é uma outra história.