25 março 2023

VOLTA À CASA PATERNA

 CAPÍTULO 7

Novas atividades na CEPAL

O trabalho no Chile, continuou eficaz.  Os estudos da indústria têxtil dos países latino-americanos estavam publicados. O meu contrato de trabalho, inicialmente de sete meses, foi se ampliando e eu acabei me tonando funcionário permanente ou “ de planta “ na denominação local.  Assim, comecei a fazer estudos para outros setores, começando com o metalmecânico que me era mais familiar.

Depois de algum tempo, fui cedido ao ILPES  -  Instituto Latino-americano de Planificación Economica y Social, um Organismo da própria CEPAL, onde passei a dar aulas e organizar Seminários, sempre tendo setores industriais como modelo.

O trabalho era gratificante e o convívio com alunos ilustres – professores, alguns ministros de Estado  - fez com que eu aprendesse muito. Por outro lado, a tarefa não era cansativa. Tínhamos um convívio social intenso e um círculo de amigos muito ativo, sempre organizando jantares e passeios.

Para mim, Santiago era um paraíso. Cidade limpa, organizada, silenciosa, sem violência. Polícia exemplar. Ai daquele que tentasse subornar um policial. Seria preso no ato.

Eu morava em Vitacura, um bairro pacato, estritamente residencial. Todas as manhãs eu ia buscar o leite. Era embalado em garrafas de vidro colocadas em um engradado, na esquina de casa. Eu levava a garrafa vazia e colocava o dinheiro numa caixa de papelão, onde já havia um monte de moedas e cédulas. Nunca encontrei ninguém.

Nos fins de semana, passeios a Viña del Mar, visitas a Isla Negra, onde            viveu Pablo Neruda ou visita à Gascona, sua casa em Santiago, passeio por Costanera e almoço em Las Condes.

 O tempo passava e eu vivia feliz com o meu trabalho. Mas o destino, às vezes, nos reserva uma surpresa. Quando eu menos esperava recebo uma carta do BNB - Banco do Nordeste do Brasil convidando-me a trabalhar no Brasil. Eu já havia trabalhado com o Banco pois ele formava, com a Sudene, o Programa de Reaparelhamento da Indústria Têxtil. Adaptando a loquacidade da carta para termos informais, ela dizia o seguinte :

 -- “Galego, você que trabalhou tanto com a gente e que dizia que o Nordeste era a sua Pátria, por que não volta pra cá ? As fábricas de tecidos aqui continuam fervilhando e carentes de ajuda técnica. “

 Isso foi suficiente para disparar uma centelha na cabeça do Galego. Comecei a despedir-me dos colegas de trabalho da CEPAL, enfrentando abraços e enxugando as lágrimas. Despachei os poucos moveis e os “efectos personales “ de que dispunha por navio em no dia 5 de Setembro de 1968 eu embarcava para o Recife.

 Deixei a família na velha casa e parti para Fortaleza. No Banco, recebeu-me o Aldenor, advogado do Departamento de Crédito Industrial, * o qual iniciou os procedimentos para a minha admissão. Documentos, exame médico e não sei quantas certidões negativas, inclusive algumas que tratavam de tendências políticas, opiniões sobre o Governo daqui, do Chile, da Bessarrábia e não sei o que mais. Descobri então, que havia acabado de ser promulgado o AI 5, destinado a consolidar as normas da ditadura no Brasil.

Admitido, depois de um breve período em Fortaleza, fui transferido para a Agência do BNB no Recife e continuei fazendo o que sabia : cuidar de fábricas têxteis. Passado um curto período, pedi demissão e abri meu próprio negócio. Fundei a CTA – Consultores Têxteis Associados, uma empresa  especializada na elaboração de projetos têxteis, sem empregados, mas com dois Diretores : Eu e minha esposa Dorotéa Brasil.

 

·        Ver crônica  “Aldenor, o Messias”  Página 119 do livro  “Memórias de um Vago” , ou www.memoriasdeumvago.blogspot.com

 

  

 

16 março 2023

O TRABALHO NO CHILE

 

CAPÍTULO  6

 A CEPAL  -  Comissão Econômica para a América Latina.

Uma Organização destinada a promover o desenvolvimento econômico dos países latino-americanos.

Desde 1960 eu vinha trabalhando tranquilamente no Nordeste do Brasil cuidando dos projetos das fábricas de tecidos e treinando Mestres e Contramestres.

Em Fevereiro de 1964,  correu um boato, entre os meus colegas, de que um certo Capitão Mourão estava aquartelado em Juiz de Fora, pronto para descer para o Rio e ocupar o Palácio do Governo. Todo mundo achou graça. No dia 31 de Março, do alto do prédio da SUDENE, eu vi os tanques de guerra cercarem o Palácio das Princesas. Prenderam o Governador e saíram à procura de subversivos.

Estava implantada a Ditadura. A SUDENE recebeu um novo Superintendente, um General. Celso Furtado foi convidado a ficar mas não aceitou. Saiu do país e foi dar aulas nos Estados Unidos. Nessa época, além do meu trabalho, eu fazia o curso de Economia na Universidade do Recife. Tive que abandoná-lo. Por oportuno, devo contar também a minha experiência com o regime militar. Eu tinha ido a Sergipe analisar o projeto de reaparelhamento da Fábrica da Estância. Indeferi o projeto porque, conhecendo o regime de chuvas no Nordeste, percebi que a fábrica poderia ser inundada. Com efeito, algumas semanas depois, a fábrica foi inundada.  Quando isso aconteceu meu chefe me chamou e disse:

 -- “Prepare-se para viajar. A Estância foi inundada. É preciso fazer um projeto de recuperação da fábrica”.

 Eu me recusei. E o meu chefe comandou:

--  “Então você vai falar com o General. Eu fui.

Esta história é muito longa, mas não se perdeu. Está na página 281 do livro “Memórias de um Vago”. Para quem não tem o livro (está esgotado) vale o Blog  “www.memoriasdeumvago.blogspot.com”

 Apesar dos embaraços e adversidades, o meu trabalho, bem como o da minha esposa Dorotéa, continuava produtivo e eficaz. Viajava muito pelo Nordeste escarafunchando as fábricas e me sentia feliz e orgulho0,0,so do meu trabalho, convivendo com empresários, diretores, contramestres, fiandeiros e tecelãs. E vibrava quando subiam os índices de eficiência das fábricas.

Até que um dia recebi um convite para trabalhar na CEPAL, com sede no Chile. No mesmo ramo têxtil no qual eu havia me destacado na SUDENE. Iria coordenar o diagnóstico da indústria têxtil de vários países: Argentina, Uruguai, México, Colômbia e El Salvador. E, ironia do destino, recebi a missão de vir ao Brasil para avaliar como andava o Programa de Reequipamento da Indústria Têxtil do Nordeste. 

Concomitantemente aproveitei para desenvolver alguns conceitos técnicos que ajudariam as fábricas a optarem entre tamanho e rentabilidade, tecnologia e custo de mão-de-obra, entre outras. Entre os mais importantes preparei: 

“Economias de Escala na Indústria Têxtil”

“Seleção de alternativas tecnológicas na Indústria Têxtil”

“Transferência do conhecimento técnico (know how) na Indústria Têxtil e do Vestuário.

Esses trabalhos foram editados pela CEPAL em português, espanhol e inglês. Ainda tenho cópia deles.

 

 

 

12 março 2023

A SUDENE

 

 CAPÍTULO  5

 SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste

Programa de Reaparelhamento da Indústria Têxtil do Nordeste.

Carregando meu pedaço de papel na mão como um náufrago carrega sua prancha de salvação, alcancei a sede da SUDENE no centro do Recife. A SUDENE tinha como Superintendente o Ministro Celso Furtado, que havia identificado na Região Nordeste um descompasso no setor econômico em confronto com o resto do País. Grande produtor de matérias primas e fornecedor de abundante mão-de-obra, o Nordeste carecia de uma indústria manufatureira e conhecimento tecnológico. Dentro desse quadro sobressaia a Indústria Têxtil, com empresas de perfil notadamente familiar suas máquinas obsoletas e técnicas administrativas precárias.

 Quando cheguei, fui apresentado ao Diretor do Departamento de Industrialização, Dr. Juarez Farias, que me entrevistou. Foram três horas de interrogatório, com perguntas que dissecaram a indústria têxtil e me deixaram combalido.

-- Muito bem. Você está contratado!

Foi constituído o Grupo Têxtil. O técnico responsável e três especialistas: um engenheiro civil, um contabilista, e um advogado.

E assim foi criado o Programa de Reaparelhamento da Indústria Têxtil do Nordeste, que viria a ser aprovado pelo Conselho Deliberativo da SUDENE, em 9 de Junho de 1961.         

Iniciamos os trabalhos identificando o tipo de assistência técnica que seria oferecido às Empresas:

1 - Treinamento de Administradores: Proprietários, Diretores, Gerentes,          através de cursos intensivos, seminários e outros veículos.

2  -  Treinamento de Contramestres. Foram produzidas apostilas ensinando como calibrar, montar e desmontar as máquinas e aparelhos das diversas seções: Fiação, Tecelagem, etc.

3 - Aquisição de equipamentos novos, com financiamento bancário, isenção tarifária para máquinas importadas.

4 – Incentivos fiscais como isenção de 50% do imposto de renda, além de outro que permitia a utilização do restante para a compra de equipamentos.

Os incentivos oferecidos foram de tal magnitude que a participação do Empresário, no investimento do projeto, ficou reduzida a 15 %.

Por fim, para poupar o custo elevado em que incorreria o Empresário com a elaboração de um projeto produzimos um “Projeto Padrão “. Bastava preencher as planilhas oferecidas com os dados técnicos e financeiros. A única exigência imposta foi que o Empresário ficaria obrigado a sucatear o equipamento obsoleto.

Iniciado o Programa, visitei todas fábricas do Nordeste para efetuar a análise dos projetos ou ajudar na elaboração do Projeto Padrão.

Meu trabalho na SUDENE durou até Setembro de 1964. Nesse mês recebi um convite para trabalhar na            CEPAL – Comissão Econômica Para América Latina, uma organização das Nações Unidas. O contrato inicial era de 7 meses, para colaborar em um diagnóstico do setor têxtil Latino-americano. Percebi que era uma repercussão do meu trabalho na SUDENE.

Aceitei. E fiquei quatro anos. Mas essa é outra história.

 

 

01 março 2023

O MILAGRE

 CAPÍTULO  4

No primeiro jornal que comprei, achei logo um anúncio, publicado por Mestre & Blaget.  Esta era a matriz da Mesbla S.A no Brasil.

O anúncio dizia: “Precisamos de um Gerente para Importação Direta no Brasil”. Eu me apresentei. O escritório da Empresa ficava no mesmo prédio da Loja de Departamentos, Rua da Palma, no Centro do Recife.

Fui entrevistado pelo diretor da área. Depois de algumas perguntas ele concluiu:

“O senhor está contratado.  Vamos mandá-lo para o Rio passar uma semana, onde aprenderá a trabalhar com nossos produtos. Na volta, começa a trabalhar.

Nossos produtos” eram simplesmente: helicópteros, locomotivas, rebocadores de aviões, instalações hospitalares completas e . . . escavadeiras para mineração. Logo entendi o motivo da minha contratação. Em Olinda, Pernambuco, haviam descoberto umas jazidas de fosfato, mineral importante para a produção de fertilizantes. Chamava-se Fosforita de Olinda. Era aí que eu teria que concentrar minha atenção.

Peguei minha Harley Davidson 500 CC, a melhor moto do Recife, e fui visitar o local. Era um campo imenso. Na entrada, notei uma pequena construção de madeira, com duas janelas. Na certa seria o canteiro de obras. Fui em frente para ver como operavam as escavadeiras. No dia seguinte voltei lá. Quando passei pelo canteiro vi um homem na janela, que me olhava. Parei.

-- Hei! Essa moto é sua?

-- Sim, respondi.

-- Dá um pulo aqui.

E começamos a falar de motos. Queria saber como eu a tinha comprado, que ele sempre tinha desejado uma igual, e por aí vai. Notei que o cavalheiro era o Administrador da Empresa. Voltei outras vezes para falar de motos. Como bom ferreiro que fui, esperei que o ferro esquentasse para começar a batê-lo.

Um dia ele me perguntou: Mas afinal o que você faz na vida ?

-- Sou vendedor de escavadeiras! Eu represento a Marion, dos Estados Unidos, a melhor do mundo.

-- Não diga! Eu não sabia! Olha, eu queria comprar uma escavadeira, mas como tenho urgência queria uma usada.

 Você não conhece alguém, por aí . . . . .

-- Não se preocupe.  "Deixa comigo."

 Voltei para o escritório e mandei um telegrama Western para a Marion:

“Preciso de uma escavadeira de 6 jardas cúbicas para entrega no menor prazo possível”. Resposta da Marion:

“Temos escavadeira pronta, para entrega em 30 dias”.

E assim vendi minha primeira e única escavadeira.

Mas eu falei em MILAGRE e agora chegou a hora de explicar.

Eu estava trabalhando na Mesbla de Recife. Meu escritório era afastado da área de varejo. Tinha um recinto com uma mesa e duas cadeiras para os visitantes. Meu primeiro trabalho era ler os jornais do dia. Finalidade: Tomar conhecimento dos editais de licitação das entidades oficiais. Foi assim que cheguei a vender uma sala de cirurgia para o Ministério da Marinha.

 Na minha carteira profissional consta o seguinte :

 “Contrato de Trabalho”:

MESBLA  S.A.

Natureza do cargo: Encarregado de Importação Direta.

Data de admissão : 3 de Março de 1959.

Data de saída : 30 de Agosto de 1960.

Pois bem. Uma tarde, eu estava sentado na minha mesa de trabalho. Levantei-me para ir ao banheiro. Quando voltei, encontrei um cidadão sentado na cadeira dos visitantes. Eu o conhecia. Foi meu Diretor no tempo em que trabalhei na Escola como assistente.

-- Professor Palissy ! exclamei. O que que o senhor está fazendo aqui ?

-- O que que VOCÊ está fazendo aqui, pergunto eu. Recebi uma carta do Ministério do Interior pedindo que eu indicasse o melhor técnico têxtil deste país. Eu respondi que o melhor técnico do país estava aqui com vocês. Eles me disseram que não te tinham achado. Então vim para cá. Toma o endereço, vai lá correndo. Entregou-me um papel e deu meia volta. Sumiu sem se despedir.

Professor Palissy ! Um enviado de Deus!

Olhei o endereço : Era da SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Departamento Industrial.

E a minha vida mudaria por completo.

 

 

 

 

  

24 fevereiro 2023

OS PRIMEIROS EMPREGOS

 CAPÍTULO 3

 Como expliquei, meu primeiro emprego foi-me oferecido pela Escola onde me formara, a ETIQT.  

A carteira profissional indicava:

 1 - “Empregador: Serviço Nacional de Aprendizagem Nacional – Departamento Nacional - Rio de Janeiro – Distrito Federal. Espécie de estabelecimento: Ensino industrial.Natureza do cargo: Assistente de Professor de Fiação. Data de admissão: 

1 de Maio de 1952.

Data de saída: 2 de Fevereiro de 1954.  

Na minha função de professor assistente eu dispunha de uma sala, no galpão da fiação, dotada de aparelhos para controle de qualidade e ensaios diversos, inclusive com uma câmara escura, o que permitia revelar microfotografias de fibras sintéticas que estavam pipocando naquela época. Dessa forma, eu podia manter os meus alunos atualizados.

Eu estava feliz com meu trabalho e posso dizer que sempre contei com a simpatia e o reconhecimento dos meus alunos, agora já meus colegas de trabalho. Afinal, estávamos formando a segunda turma da ETIQT.

 Nessa altura, com toda essa satisfação e apesar do salário compensador que recebia, fiz uma reflexão: estou ensinando aos alunos tudo aquilo que aprendi na escola. Nunca lidei com as máquinas, nem com os processos, nem com os operários . Não conheço o “chão de fábrica”.

Pedi demissão, E fui trabalhar numa fábrica desconhecida, situada na Estrada do Morro do Ar, 43 em Santa Cruz, Rio de Janeiro.

 2 - Fábrica Itatiaia de Tecidos

Data de admissão: 1 de Março de 1954

Data de saída: 11 de Fevereiro de 1955. Era uma fábrica de tecidos crus de algodão, para sacaria.

Aprendi muito, mas percebi que ali não teria futuro.

 Meu sonho era a fábrica Bangu. Eu tinha colegas que trabalhavam lá.

Recebi um convite para ocupar o lugar de gerente da fiação, mas era no turno da noite. Aceitei, seria uma experiência nova. Trabalhar na fabricação do fio 100, na produção do organdi exportado para a França, onde seria usado nos desfiles de moda. Isso me entusiasmava.

 3 - Companhia Progresso Industrial do Brasil – Fábrica Bangu.

Data de admissão: 1 de Março de 1955.

Data de saída: 30 de Abril de 1956.

 4 - Cia. Fábrica Yolanda de Tecidos SA.

Data de admissão: 1 de Setembro de 1956

Data de saída: 21 de Fevereiro de 1958

 A Fábrica Yolanda foi uma experiência única para trabalhar com fibras vegetais que não fosse o algodão. Trabalhávamos com juta e caroá. O caroá é um agave nativo do Nordeste. Produzíamos sacos para exportação de açúcar demerara e cordoalhas.

 Neste ponto cabe uma explicação. Em Janeiro de 58 recebi a visita de um empresário baiano que me propôs assumir a gerência geral de uma fábrica de tecidos em Teresina PI, que estava acéfala. Aceitei e embarquei. A primeira coisa que eu soube, ainda no hotel, foi que o gerente anterior havia sido assaltado pelos operários, vindo a falecer. O chefe do escritório é quem conduzia os trabalhos sem nenhuma experiência de trabalho industrial. Tratando os operários com muito carinho e sem punições, consegui criar um estabelecimento fabril harmonioso e eficiente. Mas o trabalho era desgastante. Eu chegava na fábrica as 6 horas da manhã e saia as 10 da noite. Eu me sentia frustrado com a indústria têxtil. Aguentei um ano. Pedi demissão e desci de ônibus pela costa, visitando os empresários têxteis a procura de emprego. Nada. Eu estava descoroçoado,

Cheguei em casa, juntei todos os livros técnicos que tinha e fiz uma montanha no meio da sala. “ Amanhã faço uma grande fogueira “. E fui dormir.

No dia seguinte refleti. Guardei os livros, comprei o jornal e comecei a procurar emprego.

 

21 fevereiro 2023

FORMAÇÃO PROFISSIONAL

 Capítulo 2

 Formação profissional

A viagem para Recife não foi isenta de emoções. O navio viajava com uma escolta de quatro corvetas de guerra e dois dirigíveis. Desembarcados no porto, fomos conduzidos para a cidade de Paulista e ocupamos a casa onde já estava meu pai.

Mecânico que era, ele me matriculou na Escola Técnica do Recife, que pertencia  um grupo de escolas criado pelo presidente Nilo Peçanha para aqueles que desejavam obter uma profissão. Ofereciam várias especialidades: Mecânica de Máquinas e Construção Civil, entre outras.

Escolhi Mecânica de Máquinas. É uma especialidade que fabrica máquinas para construir outras máquinas. Aí estão o torno mecânico, a fresa, a plaina limadora e outras.

O regime de estudo era severo: aulas teóricas pela manhã, aulas práticas, à tarde, nas oficinas e estudo guiado à noite. Quatro anos de estudos. Minha prova final foi fabricar um torno mecânico.

Terminei o curso em 1948, aos 18 anos de idade. Ganhei o Prêmio Nilo Peçanha. Era destinado ao melhor aluno em todo o curso.

Eu estava de férias quando o seu diretor, Manoel Viana de Vasconcellos, lembro-me bem do nome, mandou-me chamar e comunicou-me:

 “Recebi a notícia de que o Senai está criando, no Rio de Janeiro, a primeira escola para a formação de técnicos têxteis. Indiquei o seu nome. Tem que fazer um exame de seleção”. Agradeci, comovido e fui correndo fazer minha inscrição.

 A ETIQT - Escola Técnica de Indústria Química e Textil

Era o que o país precisava. Finalmente poderíamos substituir os técnicos ingleses, alemães e italianos que conduziam nossas fábricas.

Apresentei-me no local da prova, Colégio Anchieta, na Boa Vista, creio eu, Recife. Um terraço enorme, cheio de candidatos. Havia de tudo : engenheiros, advogados, curiosos, o diabo a quatro. Pernambuco havia sido contemplado com 4 vagas. Tremendo de medo, fiz a prova. Fui aprovado.

Dias depois embarquei num DC3 da Aerovias Brasil e desci no Aeroporto do Galeão. Oito horas de viagem. Escalas em Maceió, Sergipe, Salvador, Canavieiras, Cabrália e o que mais tivesse pelo caminho.

Fui hospedado numa pensão na Rua Bela, em São Cristovão. Daí, todas as manhãs, eu ia para a Escola numa camionete com carroceria de madeira. A Escola me fascinou. Começaram as aulas quando existia somente o esqueleto em concreto. Eu chegava bem cedo, me sentava no canteiro de obras e lia o Jornal dos Sports que encontrava ali      mesmo. Numa casinha próxima, Seu Alfredo, um Maitre embalsamado em um fraque com gravata borboleta, servia o almoço.

Quando o prédio ficou pronto, foi disponibilizado, para os alunos dos outros Estados, um alojamento com todos os requisitos necessários.

Estudei com entusiasmo e voracidade, tanto as aulas teóricas, como as práticas, montando e desmontando máquinas. Formei-me em 1951. Para minha surpresa recebi um convite da Diretoria da Escola para assumir o lugar de assistente de professor de fiação.

 

 

 

 

 

19 fevereiro 2023

PEDAÇOS DE MIM MESMO

 PEDAÇOS DE MIM MESMO

 

INTRODUÇÃO

 

Falar de si mesmo é muito feio. Nem todos concordam com isso mas eu mesmo acho horrível. Passamos a vida inventando lorotas e blasonando-nos com bravatas ameaçadoras que fariam inveja ao próprio Capeta.

Eu mesmo me aproveitei disso quando postava crônicas com o mestre Felipe Pena e ele solicitou que cada um de nós definisse o seu perfil em poucas linhas. E eu escrevi :

“Vaidoso como um pavão, escreve para se exibir. Não acredite nessa foto, ele é careca”

Isso porque me haviam fotografado com um chapeuzinho de malandro.

 Passaram-se os anos. Muitos anos. Exatamente 88 anos.

 

CAPÍTULO 1                                                                                                        

 1 – Minha primeira Pátria

 Desembarquei no porto de Santos, Estado de São Paulo, aos quatro anos de idade. Eu acompanhava minha mãe, Teresina Alberti Spreafico, meu irmão Francesco e minha irmã Barbarina. Havíamos embarcado em Gênova num navio de bandeira francesa chamado Alsina e navegamos durante 30 dias. Meu pai, Guglielmo Spreafico, havia chegado dois anos antes e providenciado nossa acomodação. Depois de uns poucos dias em Santos, fomos alojados no Centro de São Paulo, primeiro no bairro de Santana e depois na Vila Maria. Vila Maria ! Do cume do morro da Vila Maria, onde ficava nossa casa, eu contemplava a cidade ao fundo, com suas luzes resplandecentes  e seus mistérios de cidade cosmopolita. Senti que era a minha pátria.

Alcancei os 9 anos de idade. E com eles, a Segunda Guerra Mundial. Meu pai era gerente mecânico de uma empresa italiana chamada Estabelecimentos Mecânicos Rossa. Éramos súditos de Eixo. Meu pai estava prestes a perder o emprego.

No entanto, quis o destino que as coisas se acomodassem como num passe de mágica. Em Pernambuco, o grupo de fábricas têxteis Lundgren, que empregava muitos técnicos italianos e alemães fora obrigado demiti-los, justamente por serem súditos do Eixo. (ver nota) E convidou meu pai para assumir o lugar de gerente das oficinas mecânicas da Fábrica Aurora, em Paulista, Pernambuco.

 NOTA: O grupo Lundgren havia construído uma cidade, que chamou de Paulista, a poucos quilômetros do Recife, onde implantou duas fábricas de tecidos. Para não demitir os técnicos do Eixo construiu um condomínio com casas de madeira onde alojou suas famílias, totalmente isoladas.

Meu pai, como era indispensável para operar as turbinas a vapor que geram a energia para as fábricas, foi autorizado a permanecer em casa, porem acompanhado por um soldado, 24 hora por dia. Dessa forma a empresa recebeu autorização do governo para operar.

Nesse ponto, chegou a nossa vez. A empresa providenciou o transporte da família, que estava na Vila Maria. Como estávamos em guerra, recebemos instruções para preparar nossas malas e aguardar, que um carro nos iria recolher. Dias depois o carro chegou e nos levou ao porto de Santos. Mesmo processo. Fomos colocados em um hotel. Aguardar. Dias depois, de surpresa, fomos colocados a bordo de um navio da Costeira, chamado Itaquicé.

Todos a bordo ! Para Recife !  

 

 

 

22 dezembro 2022

Vou me Renovar

 Vou me renovar

 

Renovar pra que ?

Pra que tudo fique como está. Lembra-se do Giuseppe Tomasi di Lampedusa ? Aquele que escreveu “Il Gattopardo” , onde descreve a decadência da aristocracia siciliana durante o Rissorgimento. Pois foi ele quem disse:

“É preciso mudar pra que tudo fique como está.”

Pra começar, vou simplificar minha vida. A partir de hoje não leio mais tratados, ensaios, teses, contratos e distratos, fatos ou boatos. Vou me dedicar aos Livros de Auto Ajuda, principalmente àqueles que ajudam mais os seus próprios autores. Descobri joias raras entre eles. Aprendi a controlar raivas, ressentimentos, ansiedades, tédios, o diabo a quatro.

Para começar vou cantar o meu mantra . . . OOMM . . . gritando o mais alto possível. Sempre tive vergonha, por causa dos vizinhos mas agora que fiquei ruim das oiças, pouco estou ligando.

Oxente ! “ruim das oiças” ?  Você é de Araripina ? Só pode ser. Ruim que só farinha de Araripina ! Só podia ser. Mas deixa pra lá, seu bixiguento fogoió. Vamos falar do que é serio.

Na minha ignorância do que é um sistema político, sempre achei que um país com 39 Partidos políticos era ingovernável. Mas aqui está o nosso Brasil, rico e abençoado por Deus, mas construído pelos homens.  Soube que recentemente foi escolhido um novo Presidente da República. Brigas, ofensas, xingamentos, ameaças, tudo o que é próprio do ser humano foi oferecido à plateia.

O estardalhaço se difunde. De nada serve. Se o Presidente foi eleito, cabe ao cidadão obedecê-lo. E agora peço licença. Vou voltar às minhas tapiocas e ainda não ralei o coco.

“Tô defumando a minha banda oh squibandê, tô defumando a minha banda oh squibanda. Cherô squibanda Luanda.”

 

 

  

 

 

 

29 outubro 2022

Atenção Respeitável Público

 Atenção Respeitável Público !

 Vai começar o espetáculo !  Venham todos assistir ! . . .

 . . . “Telepatia e transmissão do pensamento executadas por um jacaré. Não é truque nem mistificação. É a ciência ao lado do reino animal.”

 Este era o pregão de um camelô que eu ouvia numa praça qualquer da Tijuca, no meu velho Rio de Janeiro quando eu trabalhava na ISEO Alimentos, a casa comercial de saudosa memória e morava no Solar do Cosme Velho, a poucos metros da casa de Machado de Assis.

 Terminado o seu pregão, o camelô passava a executar truques de mágica e prestidigitação, deixando seus assistentes encantados com sua habilidade. Só então começava a vender seus produtos. Uma meizinha para dor de barriga, para espinhela caída, cura tudo, inchaço e dor no fígado . . . um aqui pra mocinha . . . um pro distinto cavalheiro, já vou aí minha senhora . . . calma gente, tem pra todo o mundo !

E assim passava o tempo. Eu o contemplava deslumbrado. Tamanha eficiência eu jamais havia encontrado. Esse era um verdadeiro leitor da alma humana.

E agora estou aqui, nas fraldas do Vale do Cônego com seu ar de Primavera e neblina baixa, o Chapéu da Bruxa despontando ao longe como um fantasma furtivo. Estou só. Onde está a humanidade?  Onde está a sociedade?  De onde vêm a solidão, a mágoa, a ansiedade, o medo, os fantasmas? Certamente a idade vetusta me acompanha. Mas, por que o sofrimento? Tenho evitado a televisão até porque, como já disse alhures o amigo Carlinhos Marx, “A Televisão é o Ópio do Povo”, afirmação que causou polêmica. Houve até quem jurou que, naquela época, a televisão nem havia sido inventada.


 

 

25 setembro 2022

Você está rindo de mim?

 Você está rindo de mim?

 

Pode rir. Eu também rio. Mas não rio de você. Eu rio de mim mesmo. Se queremos viver com bom humor temos que aprender a rir de nós mesmos. Os ingleses ficaram mestres nisso. Lembre-se do “ sense of humor ” dos britânicos. Disso dei provas, poucas linhas atrás, quando escrevi o meu epitáfio : “ Aqui jaz o bobão  que um dia . . . e bobão ele era. Porque morto já estava e não sabia “

 

E as piadas? Foram feitas para rir. Eu comecei a decorar piadas e não me faltaram amigos para alimentar-me de material. Desde as mais inocentes até as cabeludas.  Sobre carecas.

Para começar procurei a mais curta que eu conhecia.

 

- Você conhece a piada do pinto russo ?

- Pioff . . . Pioff . . . Pioff . . .

 

A próxima, mais curta:

No pátio de recreio de um asilo de loucos.

- Quem és tu, meu filho ?

- Napoleão.

- Quem ?

- Napoleão Bonaparte.

- Quem te disse isso ?

- Jesus Cristo.

- Eu ??? !

 

Eu ria muito. O tempo todo. E isso não ficou impune pois me levou a cometer gafes. Numa delas eu chorei. Quando eu frequentava as aulas na Oficina da Crônica, do Felipe Pena, ainda no Rio, tinha uma colega muito inteligente e que escrevia muito bem. Nós nos reuníamos para criticar o que escrevíamos. Um dia ela me disse: “Gostei muito da sua última crônica. Tem um ar assim . . . de Gabriel Garcia Marques.”  Senti-me lisonjeado e pensei logo em dizer algo que me mostrasse minimamente competente para conversar com ela. Em uma palavra, resolvi mostrar erudição.  E mandei:

“Ohh! sim, Gabriel Garcia Marques, prêmio Nobel de literatura, escreveu Cem Anos de Solidão, amigo do Presidente da Colômbia

Belisario Betancur, que aliás, também era poeta mas não era um presidente poeta, era um poeta que havia se tornado Presidente e que, quando criança, menino traquinas que era, em uma sala de aula, enquanto esperavam e chegada do professor, foi ao quadro negro e escreveu:”

 

“Senhor, Senhor te rogamos

Y rogaremos sin fin

Que mandes rayos de mierda

En el Professor de latin””

 

Foi expulso da Escola e  eu,  . . . blablabla . . . blablabla . . .  eu não parava . . .     

Olhei para a minha colega para ver o efeito de tamanha erudição. Ela estava muda e olhava o infinito.

“Meu pai era Professor de Latim.”

E eu tive vontade de me jogar pela janela.

 

Não me lembro quanto tempo ruminei a minha dor e a vergonha que passei até que voltasse a rir. Creio que o confinamento doméstico, determinado por essa Pandemônia aviltante, escondido atrás de uma máscara, me ajudou a encarar o olhar das pessoas.

Pois voltemos aos nossos risos e vamos falar sério já que agora chegou o Dr. Daniel Martins de Barros, Psiquiatra, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em página inteira de um jornal local, nos diz o seguinte :

 

“O RISO NÃO É UMA PÍLULA MÁGICA, MAS TRAZ UM BOM ALÍVIO”

 

Numa entrevista concedida à Jornalista Constança Tatsch, o Dr. Daniel discorre amplamente sobre o tema. A primeira pergunta foi a seguinte: “O que é o riso” ? A resposta :

 

“ O riso é reflexo da história pessoal e também da humanidade, é uma forma de comunicação que a seleção natural imprimiu, um sinal de que está tudo bem. É uma expressão que ao mesmo tempo revela algo sobre nós, comunica e modula o comportamento do outro. As emoções em geral são assim, o choro também é um sinal do que você está sentindo e que interfere no comportamento do outro “

Gostou ?

E agora, você ainda está rindo de mim? Ria, ria muito.  Vamos rir juntos. Vamos criar uma sinergia tão grande que nos fará mergulhar no espaço sideral, que eterno dura, onde iremos  encontrar vida mais pura.

 O que?  Você está rindo disto? Ria à vontade. Estou só ouvindo.

 

 

 

17 agosto 2022

Tão longe, de mim distante

Tão longe, de mim distante

Onde irá, onde irá teu pensamento?

Tão longe, de mim distante

Onde irá, onde irá teu pensamento

Quisera saber agora

Quisera saber agora

Se esqueceste, se esqueceste

Se esqueceste o juramento.

Quem sabe se és constante

Se ‘inda é meu teu pensamento

Minh’ alma toda devora

Da saudade, da saudade, agro tormento.

Esta é a canção “Quem sabe”, com música  de Carlos Gomes e letra de Francisco Leite. Transcrevo apenas alguns versos. O que quero é destacar o último verso:

Da saudade, da saudade,  agro tormento”

O agro tormento que segue a voz dos ventos!

A saudade que nos devora a alma. Que nos aflige, nos atormenta, nos persegue ao longo do tempo e se agiganta à medida que envelhecemos.

Saudades do que? Do que fizemos? 

Saudade dos nossos amigos, que foram abandonados na voracidade

desta Pandemonia sem acento nem endereço, que nos emparedou a

 todos num confinamento iníquo e aviltante ? Saudades do tempo de

criança, do menino de sete anos que construiu sua própria caixa de

engraxate e foi em busca de clientes ? Saudades do adolescente que

fazia um curso de mecânica e nas férias escolares procurava emprego

nas oficinas do bairro ? E todo o resto ? O trabalho fora de casa,

longe da família, nos quatro cantos do mundo, Argentina, Chile,

México, Itália, Alemanha, Inglaterra, Áustria, Japão, Tailândia,

Indonésia, Japão, Filipinas, Singapura ?

Não, não posso concordar com isso. A saudade não me devora a

alma, não me aflige, não me atormenta. Antes, me orgulha e me

envaidece. E não me deixa triste. Ao contrário, me deixa alegre.

Porque triste é não ter alguém de quem sentir saudades.

E, já que fiz as pazes com os meus sentimentos, vou falar das coisas

 que eu quero contar:

Quero contar os amores que vivi e os amores que perdi. Quero contar as dores que sofri e os males que causei.

Quero falar dos vales e cordilheiras por onde andei. Quero falar dos lagos e montanhas onde nasci.

Quero falar das árvores que plantei, dos filhos que criei e dos livros que não escrevi.

Quero contar as desventuras por que passei nos mares que singrei e nos ares que cruzei.

Quero contar como é dura a vida na caatinga, a pele calcinada pelo sol, o olhar de angústia na criança faminta, o riso amargo saindo das rugas do velho desamparado.

Quero contar o pôr de sol no Rio São Francisco, o brilho da lua cheia no Capibaribe e o azul cristalino do mar além dos arrecifes.

Quero falar dos vinhos que bebi e da sede que sofri.

Quero contar como ressoa o apito da fábrica, como estala a batida intermitente dos teares e como ecoa a voz alegre das tecelãs.

Quero contar como vivem as almas penadas dos insetos assassinados nos campos da lavoura.

Quero contar fábulas. Para dizer cobras e lagartos, engolir sapos, desvendar o segredo da aranha negra, cantar como a cigarra, ser astuto com a raposa, ágil e faceiro como o serelepe, vaidoso como um pavão. E beber como um gambá.

 Tudo isso quero contar. E antes que os tempos acabem quero deixar pronto o meu epitáfio, moldado em barro massapé da Feira de Caruaru, que dirá:

 “Aqui jaz o bobão que sofreu a angústia de não saber contar tudo o que queria. E bobão ele era. Porque morto já estava, e não sabia”.

 

 

04 junho 2022

ONDE ESTÁ O MEU ABRAÇO ?

Venho insistindo que a Pandemonia,  sem acento nem endereço, provocou importantes alterações no comportamento humano. O confinamento das pessoas devido ao risco de contàgio por Covid, exacerbou o comportamento das pessoas não só entre amigos e conhecidos mas, também, dentro da própria família. E começaram a se agravar os sintomas de depressão, ansiedade, estresse, medo, angústia, insônia, ciúmes, sem falar na contribuição que um psicólogo poderia acrescentar a essa lista.

Encontrei, na forma de um poema, um verdadeiro hino à esperança. Foi escrito por Antonio Roberto Fernandes, um modesto poeta do interior, Ele me deu a certeza de que eu terei um motivo para acordar no dia seguinte.  

 

Mas

                                                                          Antonio Roberto Fernandes

E eu que achei que a lua não brilhasse

sobre os mortos no campo da guerrilha,

sobre a relva que encobre a armadilh

ou sobre o esconderijo da quadrilha,

Mas brilha.

 

E achei que nenhum pássaro cantasse

se um lavrador não mais colhe o que planta,

se uma família vai dormir sem janta

com um soluço preso na garganta.

Mas canta.

 

Também pensei que a chuva não regasse

folha cujo leite queima e cega

a carnívora flor que o cego inseto pega

ou o espinho oculto na macega,

Mas rega.

 

Pensei também que o orvalho não beijasse

a venenosa cobra que rasteja

no silêncio da noite sertaneja

sobre a ruína de esquecida igreja,

Mas beija.

 

 Imaginei que a água não lavasse

 o chicote que em sangue se deprava

 quando, de forma monstruosa e brava,

 abre trilhas de dor na carne escrava

 Mas lava.

 

 Apostei que nenhuma borboleta

 ­por ser um vivo exemplo de esperança

dançaria contente, leve e mansa

sobre o túmulo em flor de uma criança,

Mas dança.

 

 Por isso achei que eu não mais fizesse

 poema algum após tanto embaraço,

 tanta decepção, tanto cansaço

 e tanta espera, em vão, por teu abraço,

 Mas faço.

 

 

 

 

28 maio 2022

OBRAS PRIMAS DA LITERATURA

 

 

Ou....Você já fez sua atualização hoje ?

 Diariamente, sou incentivado a atualizar minhas conexões com tudo o que existe neste mundo. Dos apps do Play Store, com sua infinidade de lojas comerciais até os sites de bancos, saúde, bibliotecas, compras, clima, comer e beber, entretenimento. . . a gota serena. Se queremos continuar existindo, temos que efetuar todas as atualizações, sem dúvida.  Portanto, a primeira coisa a fazer é atualizar a mim mesmo, do contrário, como poderia eu atualizar as outras coisas ?

E aí, modéstia à parte, devo dizer que isto eu já fiz. Lembram-se de quando eu escrevi, isso já faz muito tempo, que eu havia achado entre as ferramentas da roça um pacotinho de semente de rúcula, vencida há mais dois anos. Mesmo assim eu a plantei. E ela germinou. Porque eu ignorei sua data de vencimento. Nós também nascemos com uma data de vencimento. Eu ignorei minha data de vencimento. E me atualizei.

 Agora me encontro diante do vasto e complexo mundo da tecnologia que se atualiza vorazmente, atropelando os incautos seguidores que atingiram a idade provecta. Vejam, por exemplo, as redes sociais. A ramificação interminável dos seus tentáculos, com gugols, feicebuques, tuites, plataformas, alçapões, gaiolas, arapucas e o que mais se chamem, com seu universo de informações: painéis de publicidade, palestras educativas,  admoestações, piadas, filminhos, musiquinhas. Tudo ali, de graça, ao alcance dos dedos.

 Que inveja dos não provectos. Que inveja da juventude sadia e prodigiosa que, usando um aparelho inicialmente inventado para falar, agora pode consultar quem foi o poeta que escreveu “Visita à casa paterna”, quem foi Napoleão Bonaparte ou quando começou a Segunda Guerra Mundial.

E eu aqui com minha Enciclopédia Barsa tentando descobrir como faço o gambito de dama no meu tabuleiro de xadrez.

Bem lembrado! O jogo de xadrez! Você conhece alguém que joga xadrez? Acho pouco provável. Perguntei a um garotão o que era xadrez, e ele respondeu: É uma espécie de xilindró?

Os jogos de salão agora são todos digitais. Com uma metralhadora você destrói um inimigo imaginário, com uma espada decepa dez cabeças simultaneamente e com dois dragões horrendos soltando fogo pelas ventas você provoca o riso em crianças que outrora fugiriam de medo.

 O tempora! o mores !,” dizia Cicero, o Romano.

 -- Mas, afinal, onde estão as Obras Primas da Literatura ?

 -- Eitcha, eu já ia me esquecendo. Isso é uma crônica fake que eu ia escrever. Mas não se preocupem, não vou falar de política, não vou acusar ninguém nem difamar autoridades constituídas, coisas que se encontram nos jornais de hoje.  Vou apenas contar o que aprendi quando, ainda jovem, conheci o Giovanni Papini, de quem logo fiquei amigo. Ele era um escritor meio tan . . . tan, mas escrevia diabruras sensatas. Publicou um livro chamado simplesmente “GOG”, nome do personagem que atua como narrador ao longo do livro. Um dia o Giovanni me perguntou :

 -- De tudo o que você já leu, o que é que você consideraria uma obra prima?

 -- Não tenho a menor ideia. Já li um pouco de tudo, desde livros técnicos, religião, filosofia, todas as peças teatrais de Luigi Pirandello, Eugene O’Neil, Ariano Suassuna . . 

-- Pois eu vou lhe dizer: Escolhi 10 peças da literatura mundial que atendem a esse requisito. E consultei um crítico literário, que confirmou a minha escolha. Defini cada uma delas em duas ou três linhas. Cabe a você identificar o autor.

 1º “A viajem de um vivo na fossa dos mortos com o fim de falar mal dos mortos e dos vivos”.

2º “Um doido tísico e um doido gordo que vão mundo afora em busca de sovas.”

3º “Um pulha cujo pai foi assassinado e que, para vingá-lo, faz morrer a rapariga que o ama e outros diversos personagens.”

4º “Um diabo coxo que levanta os telhados de todas as casas para exibir as suas vergonhas”

5º “As aventuras de um homem de estatura média que se faz gigante entre os pigmeus e anão entre os gigantes sempre de modo inoportuno e ridículo.”

6º “A história ridícula de uma adúltera provinciana que se entedia e, por fim, se envenena.”

7º “Um rapaz pobre e febril que assassina uma velha e que depois, imbecil, não sabe aproveitar-se da coartada e acaba por cair nas mãos da polícia.”

8º “As sortidas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado de uma águia e de uma serpente.”

9º “As peripécias de um professor demoníaco servido por um demônio profissional.”

10º “A odisseia de um idiota que através de bufas desventuras sustenta que este mundo é o melhor dos mundos possíveis.”

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 Bem, vocês ouviram, né? Cabe a vocês identificarem o autor.   

 

 

    

18 maio 2022

 

“Faz escuro, mas eu canto”

 Esse é o título do poema de Thiago de Mello. “Porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro, a cor do mundo mudar, . .    Já é madrugada, vem o sol, quero alegria . . Vamos juntos, multidão,trabalhar pela alegria, amanhã é um novo dia.”

Lembrei-me hoje, quando acordei, do Thiago de Mello. Estávamos no Chile. Era o ano de 1965. Ele havia sido preso. Os tempos estavam escuros. Mas ele cantava e declamava. Eu havia recebido um convite para trabalhar num projeto têxtil das Nações Unidas e me mandara para o Chile. De um modo ou de outro, éramos todos exilados. As coisas no Brasil estavam medonhas. O medo morava em cada esquina. Bastava que alguém lhe apontasse o dedo: “Ele é um subversivo” e você desapareceria, nas masmorras ou no campo santo. Perdi amigos. Muitos foram torturados. Alguns perderam o juízo. Outros se acomodaram.

Aí chegou 1968, com seu fatídico AI 5. Em outubro voltei para o Brasil. Com a cabeça cheia de teares e filatórios, e tremonhas, nem me dei conta do que isso significava. E os tempos ficaram ainda mais escuros.

Passaram-se os anos. Muitos anos. Exatamente 57 anos. Trabalhei muito e não me arrependo de nada do que fiz. Vivi no Nordeste boa parte da minha vida, constitui família, viajei o Brasil inteiro a trabalho. Fui adviser da Unido – Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial – com missões no Chile, Mexico, El Salvador, Colômbia, Japão, Tailândia, Indonésia, Filipinas e Singapura.

Nos últimos anos, fixei residência no bucólico bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. E aí chegou a Pandemia. E os tempos ficaram novamente escuros. Muito escuros. Confinados, eu e minha esposa, no bucólico apartamento, descobrimos que a vida se transformaria em um cárcere privado. E procuramos um asilo para anciãos, instalado em um antigo hotel comercial, no bairro da Glória, que denominei logo, quem me dera, Motel dos Anciãos. Ali nos hospedamos, a título de experiência, 3 fins de semana. Foi muito divertido. Eu comecei a contar histórias aos hóspedes, que eu chamava de “meus pacientes”, os quais riam muito. Às vezes choravam.

Foi uma experiência. Logo percebemos que a convivência com as mazelas dos hôspedes (cadeira de rodas, alzheimer, enfermeira acompanhante, confusão mental, e outras quizilas) nos levariam a um estresse que redundaria em uma depressão incontrolável. E seria o caminho mais curto para subir a Montanha de Narayama.

Foi quando nosso filho nos convidou para ficar uma semana em sua casa, nas montanhas. Aceitamos.

- Vamos dar uma volta. Parou defronte de um pequeno chalé.

- Gostaram ?

- Adoramos.

Então esta é a vossa casa.

 E aqui estamos, com pandemia e tudo. E os tempos ficaram mais escuros. Tão escuros que desofuscaram os mais escuros. Quando contemplo o panorama politico do país, com seus 39 partidos políticos – o que torna qualquer país ingovernável – os conflitos entre os poderes, com  um Congresso de tamanho diluviano, com políticos, muitos deles de idoneidade duvidosa, me  pergunto : para onde estamos indo ?

Agora fala-se em “golpe de estado”, que comprometeria o próprio Presidente da República. Isso me leva ao ano de 1965 acima abordado. Hoje se sabe que o golpe de estado naquela época foi longamente estudado e avaliado entre os militares antes de ser aplicado, em Março de 1964. Outro fator a ser levado em conta é que a ditadura sofreu um confrontamento em forma de guerrilha, com sequestros, saques, assaltos, incêndios e outras coisas.

Isto tudo é para dizer que os militares de então não são os mesmos de agora. As pessoas mudam. As escolas mudam, os métodos mudam, os conceitos mudam. Nos debates sobre política as Forças Armadas já se manifestaram sobre a sua posição de respeito à Constituição.

E aqui caímos novamente no ponto de partida: a disputa entre os Poderes. Não sei para onde vamos.

 Sarava, meu Pai. “Faz escuro mas eu canto”.