04 junho 2022

ONDE ESTÁ O MEU ABRAÇO ?

Venho insistindo que a Pandemonia,  sem acento nem endereço, provocou importantes alterações no comportamento humano. O confinamento das pessoas devido ao risco de contàgio por Covid, exacerbou o comportamento das pessoas não só entre amigos e conhecidos mas, também, dentro da própria família. E começaram a se agravar os sintomas de depressão, ansiedade, estresse, medo, angústia, insônia, ciúmes, sem falar na contribuição que um psicólogo poderia acrescentar a essa lista.

Encontrei, na forma de um poema, um verdadeiro hino à esperança. Foi escrito por Antonio Roberto Fernandes, um modesto poeta do interior, Ele me deu a certeza de que eu terei um motivo para acordar no dia seguinte.  

 

Mas

                                                                          Antonio Roberto Fernandes

E eu que achei que a lua não brilhasse

sobre os mortos no campo da guerrilha,

sobre a relva que encobre a armadilh

ou sobre o esconderijo da quadrilha,

Mas brilha.

 

E achei que nenhum pássaro cantasse

se um lavrador não mais colhe o que planta,

se uma família vai dormir sem janta

com um soluço preso na garganta.

Mas canta.

 

Também pensei que a chuva não regasse

folha cujo leite queima e cega

a carnívora flor que o cego inseto pega

ou o espinho oculto na macega,

Mas rega.

 

Pensei também que o orvalho não beijasse

a venenosa cobra que rasteja

no silêncio da noite sertaneja

sobre a ruína de esquecida igreja,

Mas beija.

 

 Imaginei que a água não lavasse

 o chicote que em sangue se deprava

 quando, de forma monstruosa e brava,

 abre trilhas de dor na carne escrava

 Mas lava.

 

 Apostei que nenhuma borboleta

 ­por ser um vivo exemplo de esperança

dançaria contente, leve e mansa

sobre o túmulo em flor de uma criança,

Mas dança.

 

 Por isso achei que eu não mais fizesse

 poema algum após tanto embaraço,

 tanta decepção, tanto cansaço

 e tanta espera, em vão, por teu abraço,

 Mas faço.

 

 

 

 

28 maio 2022

OBRAS PRIMAS DA LITERATURA

 

 

Ou....Você já fez sua atualização hoje ?

 Diariamente, sou incentivado a atualizar minhas conexões com tudo o que existe neste mundo. Dos apps do Play Store, com sua infinidade de lojas comerciais até os sites de bancos, saúde, bibliotecas, compras, clima, comer e beber, entretenimento. . . a gota serena. Se queremos continuar existindo, temos que efetuar todas as atualizações, sem dúvida.  Portanto, a primeira coisa a fazer é atualizar a mim mesmo, do contrário, como poderia eu atualizar as outras coisas ?

E aí, modéstia à parte, devo dizer que isto eu já fiz. Lembram-se de quando eu escrevi, isso já faz muito tempo, que eu havia achado entre as ferramentas da roça um pacotinho de semente de rúcula, vencida há mais dois anos. Mesmo assim eu a plantei. E ela germinou. Porque eu ignorei sua data de vencimento. Nós também nascemos com uma data de vencimento. Eu ignorei minha data de vencimento. E me atualizei.

 Agora me encontro diante do vasto e complexo mundo da tecnologia que se atualiza vorazmente, atropelando os incautos seguidores que atingiram a idade provecta. Vejam, por exemplo, as redes sociais. A ramificação interminável dos seus tentáculos, com gugols, feicebuques, tuites, plataformas, alçapões, gaiolas, arapucas e o que mais se chamem, com seu universo de informações: painéis de publicidade, palestras educativas,  admoestações, piadas, filminhos, musiquinhas. Tudo ali, de graça, ao alcance dos dedos.

 Que inveja dos não provectos. Que inveja da juventude sadia e prodigiosa que, usando um aparelho inicialmente inventado para falar, agora pode consultar quem foi o poeta que escreveu “Visita à casa paterna”, quem foi Napoleão Bonaparte ou quando começou a Segunda Guerra Mundial.

E eu aqui com minha Enciclopédia Barsa tentando descobrir como faço o gambito de dama no meu tabuleiro de xadrez.

Bem lembrado! O jogo de xadrez! Você conhece alguém que joga xadrez? Acho pouco provável. Perguntei a um garotão o que era xadrez, e ele respondeu: É uma espécie de xilindró?

Os jogos de salão agora são todos digitais. Com uma metralhadora você destrói um inimigo imaginário, com uma espada decepa dez cabeças simultaneamente e com dois dragões horrendos soltando fogo pelas ventas você provoca o riso em crianças que outrora fugiriam de medo.

 “O tempora! o mores !,” dizia Cicero, o Romano.

 -- Mas, afinal, onde estão as Obras Primas da Literatura ?

 -- Eitcha, eu já ia me esquecendo. Isso é uma crônica fake que eu ia escrever. Mas não se preocupem, não vou falar de política, não vou acusar ninguém nem difamar autoridades constituídas, coisas que se encontram nos jornais de hoje.  Vou apenas contar o que aprendi quando, ainda jovem, conheci o Giovanni Papini, de quem logo fiquei amigo. Ele era um escritor meio tan . . . tan, mas escrevia diabruras sensatas. Publicou um livro chamado simplesmente “GOG”, nome do personagem que atua como narrador ao longo do livro. Um dia o Giovanni me perguntou :

 -- De tudo o que você já leu, o que é que você consideraria uma obra prima?

 -- Não tenho a menor ideia. Já li um pouco de tudo, desde livros técnicos, religião, filosofia, todas as peças teatrais de Luigi Pirandello, Eugene O’Neil, Ariano Suassuna . . 

-- Pois eu vou lhe dizer: Escolhi 10 peças da literatura mundial que atendem a esse requisito. E consultei um crítico literário, que confirmou a minha escolha. Defini cada uma delas em duas ou três linhas. Cabe a você identificar o autor.

 1º “A viajem de um vivo na fossa dos mortos com o fim de falar mal dos mortos e dos vivos”.

2º “Um doido tísico e um doido gordo que vão mundo afora em busca de sovas.”

3º “Um pulha cujo pai foi assassinado e que, para vingá-lo, faz morrer a rapariga que o ama e outros diversos personagens.”

4º “Um diabo coxo que levanta os telhados de todas as casas para exibir as suas vergonhas”

5º “As aventuras de um homem de estatura média que se faz gigante entre os pigmeus e anão entre os gigantes sempre de modo inoportuno e ridículo.”

6º “A história ridícula de uma adúltera provinciana que se entedia e, por fim, se envenena.”

7º “Um rapaz pobre e febril que assassina uma velha e que depois, imbecil, não sabe aproveitar-se da coartada e acaba por cair nas mãos da polícia.”

8º “As sortidas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado de uma águia e de uma serpente.”

9º “As peripécias de um professor demoníaco servido por um demônio profissional.”

10º “A odisseia de um idiota que através de bufas desventuras sustenta que este mundo é o melhor dos mundos possíveis.”

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 Bem, vocês ouviram, né? Cabe a vocês identificarem o autor.   

 

 

    

18 maio 2022

 

“Faz escuro, mas eu canto”

 Esse é o título do poema de Thiago de Mello. “Porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro, a cor do mundo mudar, . .    Já é madrugada, vem o sol, quero alegria . . Vamos juntos, multidão,trabalhar pela alegria, amanhã é um novo dia.”

Lembrei-me hoje, quando acordei, do Thiago de Mello. Estávamos no Chile. Era o ano de 1965. Ele havia sido preso. Os tempos estavam escuros. Mas ele cantava e declamava. Eu havia recebido um convite para trabalhar num projeto têxtil das Nações Unidas e me mandara para o Chile. De um modo ou de outro, éramos todos exilados. As coisas no Brasil estavam medonhas. O medo morava em cada esquina. Bastava que alguém lhe apontasse o dedo: “Ele é um subversivo” e você desapareceria, nas masmorras ou no campo santo. Perdi amigos. Muitos foram torturados. Alguns perderam o juízo. Outros se acomodaram.

Aí chegou 1968, com seu fatídico AI 5. Em outubro voltei para o Brasil. Com a cabeça cheia de teares e filatórios, e tremonhas, nem me dei conta do que isso significava. E os tempos ficaram ainda mais escuros.

Passaram-se os anos. Muitos anos. Exatamente 57 anos. Trabalhei muito e não me arrependo de nada do que fiz. Vivi no Nordeste boa parte da minha vida, constitui família, viajei o Brasil inteiro a trabalho. Fui adviser da Unido – Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial – com missões no Chile, Mexico, El Salvador, Colômbia, Japão, Tailândia, Indonésia, Filipinas e Singapura.

Nos últimos anos, fixei residência no bucólico bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. E aí chegou a Pandemia. E os tempos ficaram novamente escuros. Muito escuros. Confinados, eu e minha esposa, no bucólico apartamento, descobrimos que a vida se transformaria em um cárcere privado. E procuramos um asilo para anciãos, instalado em um antigo hotel comercial, no bairro da Glória, que denominei logo, quem me dera, Motel dos Anciãos. Ali nos hospedamos, a título de experiência, 3 fins de semana. Foi muito divertido. Eu comecei a contar histórias aos hóspedes, que eu chamava de “meus pacientes”, os quais riam muito. Às vezes choravam.

Foi uma experiência. Logo percebemos que a convivência com as mazelas dos hôspedes (cadeira de rodas, alzheimer, enfermeira acompanhante, confusão mental, e outras quizilas) nos levariam a um estresse que redundaria em uma depressão incontrolável. E seria o caminho mais curto para subir a Montanha de Narayama.

Foi quando nosso filho nos convidou para ficar uma semana em sua casa, nas montanhas. Aceitamos.

- Vamos dar uma volta. Parou defronte de um pequeno chalé.

- Gostaram ?

- Adoramos.

Então esta é a vossa casa.

 E aqui estamos, com pandemia e tudo. E os tempos ficaram mais escuros. Tão escuros que desofuscaram os mais escuros. Quando contemplo o panorama politico do país, com seus 39 partidos políticos – o que torna qualquer país ingovernável – os conflitos entre os poderes, com  um Congresso de tamanho diluviano, com políticos, muitos deles de idoneidade duvidosa, me  pergunto : para onde estamos indo ?

Agora fala-se em “golpe de estado”, que comprometeria o próprio Presidente da República. Isso me leva ao ano de 1965 acima abordado. Hoje se sabe que o golpe de estado naquela época foi longamente estudado e avaliado entre os militares antes de ser aplicado, em Março de 1964. Outro fator a ser levado em conta é que a ditadura sofreu um confrontamento em forma de guerrilha, com sequestros, saques, assaltos, incêndios e outras coisas.

Isto tudo é para dizer que os militares de então não são os mesmos de agora. As pessoas mudam. As escolas mudam, os métodos mudam, os conceitos mudam. Nos debates sobre política as Forças Armadas já se manifestaram sobre a sua posição de respeito à Constituição.

E aqui caímos novamente no ponto de partida: a disputa entre os Poderes. Não sei para onde vamos.

 Sarava, meu Pai. “Faz escuro mas eu canto”.

 

 

19 janeiro 2022

O Papel nosso de cada dia

 


NOTA :  No dia 13 de Janeiro de 2012, portanto há exatamente dez anos, escrevi a crônica que abaixo transcrevo. E fi-lo, não porque me faltasse assunto pois assuntos jorram em catadupa sob a verborreia a que estamos expostos nestes tempos de Pandemonia sem acento nem endereço. Fi-lo, repito, pela atualidade que o tema apresenta nos dias de hoje. Esta crônica não chegou a ser publicada. Ficou mofumbada nos entulhos que circundavam os meus oitenta anos.

Acabo de receber um livro que comprei num sebo da Rua São José, centro do Rio. Foi editado em 1930. Comprei-o porque eu o havia lido aos 13 anos de idade e nunca mais o vi. O papel é áspero e está amarelado pelo tempo, cheio de manchas escuras causadas, provavelmente, pela acidez do papel e a umidade dos tempos. Era “Os Sertões” de Euclides Da Cunha. O volume original, agora perdido, me fora entregue por meu pai com a seguinte frase: “Se você quiser conhecer o Brasil leia este livro”.

Tenho também, devo confessar, uma edição da Divina Comedia, De Dante Alighieri, publicada de 1811. O papel é surpreendente alvo e mostra as ondulações dos cilindros de antimônio que prensavam a pasta de celulose, tecnologia que se usava na época.

A cada dia, livros e mais livros são publicados em telas de computador. Há quem diga que os livros de papel estão com os dias contados. Outros garantem que não. Não vou meter-me a discutir as vantagens ou defeitos de um e de outro, pois me falta preparo para tanto. Umberto Eco, o grande filólogo, fez isso de maneira magistral em duas obras: “A memória vegetal” e “Não contem com o fim do livro”. No primeiro, ele explica como a humanidade registrou suas memórias desde o tempo do papiro e analisa a efemeridade do papel como meio para preservar a informação. No segundo, escrito em parceria com Jean-Claude Carrière, escritor e roteirista de cinema, ele discute os méritos do livro de papel em confronto com os meios eletrônicos para a divulgação de textos. O resultado desse debate está contido no próprio título do livro.

 Mas eu não vim aqui para chorar a morte do livro de papel, assunto que deixo para os filólogos. Eu vim chorar a morte do papel como papel. Porque o papel está sendo substituído. Na correspondência trocada entre os literatos de um tempo se produziram notáveis obras literárias que chegavam aos seus destinatários numa folha de papel muitas vezes borrada por uma lagrima furtiva que rolava pela face da mulher amada, do amigo distante, do avô esquecido. Angústias, medos, esperanças, sonhos alegrias e tristezas, dificilmente poderão ser transmitidas por essas placas de vidro que são as telas de computador.

 Nas atividades quotidianas avisos, boletins, editais, manifestos, concorrências públicas, propostas comerciais, teses de doutorado e até notas fiscais não são mais feitas em papel. Qualquer documento hoje pode ser emitido por via digital e ficará gravado no seu celular. Não saia de casa sem ele. E se você for velhinho trate de arranjar um netinho que disponha de tempo. Do contrário você deixa de existir, antes mesmo de subir a Montanha de Narayama.

 As cômodas e higiênicas bolsas de papel nas quais se colocavam as compras do supermercado foram substituídas por sacolas de plástico. O dinheiro, que se chamava papel moeda, não é mais de papel. Foi substituído por um cartão de plástico ou por números armazenados num servidor eletrônico. Nada contra. Mas essas sacolas de plástico, por mais que queiram transformá-las em degradáveis, continuam entupindo rios e cloacas. Não quero me alongar na busca de exemplos para a substituição do papel, pois sei que isso não passa de saudosismo. O que faríamos hoje sem o plástico ?

 O que eu quero ver é como vão substituir o papel higiênico !

 Ledo engano.  Isso foi em 2012! Numa das viagens que fiz ao Japão encontrei, no hotel, um vaso sanitário com um chuveirinho escamoteado nas entranhas do mesmo que além de higienizar as partes  pudendas,  proporciona uma cosquinha no fi-o-fó do incauto hóspede.

 Mas tem que enxugar com papel !

 

 

26 dezembro 2021

HOMEM QUE FAZ PANO

 

INTRODUÇÃO

Devo o título desta crônica à Dra. Ivone Raphael. A Dra. Ivone era a Oftalmologista que, em tempos idos, cuidava dos meus olhos para que eu pudesse ver melhor e agora cuida do que eu vejo para ter certeza de que é o melhor. E assim fixamos um pacto. Sem lenço e sem documentos.

 O HOMEM QUE FAZ PANO

Ora se deu que, um dia, não me lembro quando, nem onde, eu contei que num daqueles jantares faraônicos que tínhamos com os sócios japoneses na Fabrica de Tecidos Seridó eu havia mostrado meu cartão de visitas à Gueixa que me acompanhava. Naquela época quem não tivesse um cartão de visitas no Japão, não existia. No meu cartão constava o meu nome, endereço e a função. No verso eu havia mandado imprimir os mesmos dados em japonês. Quando a Gueixa leu o cartão exclamou: Ah ... homem que faz pano, né ?Soube depois que Ivone, ao saber desse fato, cabeça baixa e meditativa, sussurrou :  “homem que faz pano. Eis aí um belo nome para uma crônica”.

E aqui está ela. Porque panos fiz muitos. E montei máquinas para fazê-los. E construí fábricas para abrigá-las. E efetuei estudos de viabilidade para implantação de parques industriais têxteis.

No ano de 1948 eu recebia o Prêmio Nilo Peçanha conferido pela Escola Técnica do Recife. Havia concluído o curso de Mecânica de Máquinas. Viajei para o Rio de Janeiro e disputei, com suor e lagrimas, uma vaga na Escola Técnica Federal de Indústria Química e Têxtil, com alojamento na própria escola. Tudo grátis. Eu tinha onde morar ! Meu pai me mandava uns trocados suficientes para cortar o cabelo e pegar um cineminha na Rua D. Pedro onde eu assistia filmes do neorrealismo italiano. Com isso eu ia, aos poucos, substituindo o meu dialeto nativo pelo verdadeiro idioma Toscano. Um garoto feliz. Quero dizer, felizardo.

Em 1951 completei o curso. Era um técnico têxtil. Terminadas as férias eu  já conseguia um emprego. Fui nomeado professor adjunto para o Departamento de Fiação na própria escola onde me formara. A minha primeira carteira profissional consigna a data de admissão : 1 de Maio de 1952. Dia do Trabalho! E assim, comecei fazendo fios. O panos viriam em seguida.

Dois anos depois vieram as fabricas. Fábrica Itatiaia de Tecidos. Estrada do Morro do Ar, sem número, Itatiaia, Rio de Janeiro, Fim do Mundo. Mais dois anos e um salto consagrador: Fábrica Bangu, a melhor fabrica do país. Fio 120, o melhor organdi do mundo, desfiles de moda em Paris, residência em casa da fábrica, desfile de motocicleta no campo de futebol para a apresentação do time nos dias de jogo. E tudo para que ? Fazer pano O melhor pana do Brasil.

Depois, um salto no espaço. Teresina PI. Aqui é melhor ler a crônica Velho Santiago . . . e ir se familiarizando com o Nordeste, a caatinga, o meu amigo Severino Mandacaru. Para que? Fazer pano. Porque em seguida viria a Sudene e seu Programa de Reequipamento da Indústria Têxtil do Nordeste concebido por Celso Furtado. Elaboração de dezenas de projetos de modernização de fábricas. Visita a todas elas, discussão com os empresários e fabricantes de máquinas, familiarização com os problemas sociais do Nordeste, a miséria do Pirambu, em Fortaleza. E tome pano.

Mas a lista é longa. Quatro anos na Comissão Econômica Para a América Latina escrevendo estudos sobre tecnologia têxtil, cinco anos como consultor da Organização das Nações Unidas Para o Desenvolvimento Industrial. Missões na América Central, Tailândia, Indonésia, Filipinas, Cingapura. E, para coroar, a Fábrica de Tecidos Seridó, em Natal, Rio Grande do Norte, construída em associação com a Shikishima Spinnining Company, que me levou ao Japão inúmeras vezes e me permitiu produzir os melhores panos deste país.

Haja pano.      

 

 

15 dezembro 2021

O PRESIDENTE EVENTUAL

 Condenado ao confinamento determinado pela Pandemonia sem acento nem endereço, só me restou recorrer à memoria.  E trago de volta uma velha crônica que havia publicado e despublicado muitos anos atrás.

Estou transcrevendo o texto original, que havia abandonado por medo estar ofendendo nossos juízes togados. Muitas vezes, quando tentamos fazer humor acabamos por ser grosseiros e, pior, cometendo ofensas a quem não as merece. Principalmente quando tratamos de forma genérica um grupo ou uma instituição,  como é o caso presente.

Mas, depois de ler o que pensam vários dos meus “colegas cronistas” da imprensa escrita - desculpem a minha presunção - tomei coragem e mandei ver. Quem sabe assim eu consiga   receber, pelo menos, um mísero comentário neste humilde e abandonado blog. Ou, glória suprema, a visita do Japonês da Federal.

 Sou totalmente ignorante em matéria de política. Bem que tentei, no meu tempo de estudante, meter-me nas discussões, participar de comícios, opinar sobre isto e aquilo. Cheguei a ler Marx e Engels. Nada deu certo. Não demorei a entender que, com a cara e o nome que eu carregava, ninguém me levaria a sério. Então, limitei-me a cuidar das minhas tapiocas.

Isso não quer dizer que não me interessasse pelos destinos do meu país e do seu comandante maior: o Presidente. Houve uma época em que eu lia três jornais todos os dias.: O “Correio da Manhã”, “O Jornal” e o “Jornal do Brasil”.

 Ora, se deu que, em 1954, o Presidente se suicidou. Comoção geral. O povo foi às ruas, não para quebrar coisas como é comum em nossos dias, mas para prantear o seu Presidente. O lugar foi ocupado pelo seu herdeiro natural mas depois, seguiu-se uma longa discussão sobre se isso era legítimo ou não. Discussão da qual eu nada entendi.

Sucederam-se vários presidentes, sempre com muita discussão e muita briga. Entre os últimos, creio que ainda estávamos no século passado, teve um que se mandou sem dizer água vai. Alegou que havia forças ocultas que não o deixavam trabalhar. No lugar dele entrou seu herdeiro, que deu muito trabalho porque muita gente não gostava dele. Até houve um plebiscito para saber se o povo queria que ele ficasse como pau mandado, mas o povo disse que não.

Ele era muito querido pela população e fez um comício que ficou na História, o famoso comício da Central. Eu assisti a esse comício, não porque me interessasse por política, obviamente, mas porque eu desembarcara no aeroporto do Galeão, vindo de Montes Claros, e o motorista do taxi me comunicou que o trânsito estava bloqueado perto da Central do Brasil, por causa do comício. Já que eu não podia chegar ao hotel, pedi ao motorista que me deixasse perto do comício. E lá fiquei eu, em pé, bem próximo ao palanque, ouvindo os discursos. Foram muitos discursos. Quando tudo acabou eu, leigo que sou, disse pra mim mesmo: “Isso não vai acabar bem”.

 Porque, de repente, chegou um pessoal saído dos quarteis, metralhadora na mão, dizendo : “agora quem escolhe presidente é a gente”. E assim foi por muitos anos. Quando eles se cansaram de escolher presidentes, entregaram o trono a um civil dizendo:  “daqui pra frente é com vocês”.

Aí, não sei bem como, foi escolhido um novo presidente. Então, aconteceu um novo infortúnio:  Antes mesmo de tomar posse esse presidente adoeceu e foi levado para um hospital. Foi empossado lá mesmo e, no dia seguinte, veio a falecer.

Foi substituído pelo seu eventual, um nordestino tranquilo, de bigode imponente, o qual, findo o mandato, passou o cargo para outro nordestino, eleito pelo povo. Este não era nada tranquilo, ao contrário, era brabo e saiu brigando com todo o mundo. Além de brabo, era meio tan-tan  pois saiu catando o dinheiro de todo o mundo com a promessa de que iria devolver tudo depois, e com lucro. Não sei se ele devolveu mesmo porque, no meu banco, eu só tinha boletos de contas  que eram pagas com o suor do meu rosto.

Disseram também que entre as patifarias que praticou, este jovem presidente havia recebido um regalo considerado muito suspeito: Uma Fiat Elba,  zero quilômetro.  Um vexame!

Então resolveram tirá-lo, e eu nem sei bem como isso foi feito, porque, nessa altura, eu já andava tão cansado que parei de ler jornais e fui cuidar do meu reumatismo.

 E aí veio um período tranquilo em que os presidentes, todos eleitos pelo povo, passaram a trabalhar com grande empenho, embora nem todos agradassem a todo mundo, fosse quem fosse o presidente. Normal, porque isso é próprio do sistema democrático. Pelo menos foi isso que pensei porque eu, leigo total em política, andava cuidando apenas do meu laburo. Pois não é que, de novo, resolveram tirar o Presidente da vez? Acharam que este Presidente, mais exatamente, uma Presidenta, estava trabalhando mal e resolveram mandá-la embora. Isto, para muitos, foi considerado um golpe. O fato é que, no seu lugar, entrou o seu substituto eventual, tudo dentro da lei, segundo diziam os jornais, o que, obviamente, não correspondeu à opinião daqueles que  consideraram isso um golpe.  Pois agora, com golpe ou não, estão dizendo que este é igualzinho ou pior do que anterior e, por isto, vão mandá-lo embora também. Até aí eu entendo. Mas ficou-me uma dúvida.

Já expliquei que, em matéria de política, sou completamente leigo mas, que diabos, leigo também tem alma! Pois agora vou dar minha opinião de leigo e pouco me importa se me internarem num manicômio. Porque achei  esquisita  a  maneira como tudo isto está sendo feito.

Acontece que, fosse lá por que motivo fosse, atribuíram, esta tarefa a um dos Poderes da República: o Poder Judiciário. O Judiciário é formado por vários Tribunais, cada um identificado com uma sigla própria. Não sei se existe diferença hierárquica entre eles, tipo, um pai e muitos filhos, sendo o Tribunal filho um complemento do Tribunal pai, ao qual deve dar satisfação das maldades  que pratica, o que faria deste o Judiciário de verdade, a menos que o filho, quando menor, tenha sido emancipado pelo pai, não precisando, assim,  dar satisfações ao pai. Não importa, até aqui tudo bem, sabendo que o Tribunal filho que está no jogo é aquele que cuida das eleições.  

Tudo bem, mas nem tanto. Porque agora acabo de descobrir que os Juízes dos Tribunais, tanto o pai como o filho, são nomeados pelo Presidente da República, e a ele, é de se esperar, devem fidelidade. Podemos dizer que um juiz é um Juiz e que ele está acima dos interesses terrenos, portanto é imparcial. Ótimo. É assim que deve ser.

Mas aqui entra uma grande confusão. Alguns juízes pertencem simultaneamente a um Tribunal Filho e a um Tribunal Pai. Outros, só ao Pai. Tem mais: alguns juízes foram nomeados pelo presidente escorraçado, outros pelo presidente que chegou ao cargo por herança. Será difícil conseguir coerência nesse caleidoscópio de interesses. Prova disso são as suas reuniões longas e patéticas, enfeitadas por salamaleques e enriquecidas por elogios recíprocos, datas vênias, ipsis verbis, causa finita, ad perpetuam rei memoriam ... isto para não mencionar os floreios de linguagem jurídica, repetidos à exaustão para que se tornem válidos, nem os arroubos de histeria dignos de uma prima donna contrariada, para dominar o palco e comover os colegas e o público. Afinal os Juízes, ainda que cobertos pelo manto sagrado da toga, são seres humanos.

 Alguma coisa está errada. No centro dessa discussão está a definição de quem é o autêntico presidente: se aquele que foi eleito pelo povo ou aquele que ocupa o posto por herança. Ou nenhum dos dois. E quem vai resolver isso são os Juízes indicados pelos Presidentes envolvidos. Ora, esses juízes não foram escolhidos pelo povo como acontece com os presidentes. Decididamente, alguma coisa está errada. É preciso inverter essa coisa: o povo é que deve escolher os juízes. E os juízes indicarão o presidente.

 Com uma condição: os juízes removeriam aquele medonho manto fúnebre e seriam reincorporados à espécie humana.   

 ABSIT  INJURIA  VERBIS.

 Nota bene: Transcrevo o parágrafo introdutório do artigo publicado pelo mestre Nelson Mota no O Globo de 16 de Junho de 2017, na página dos editoriais:

“ Há juízes bons e maus, preparados e incompetentes, burros e inteligentes, honestos e desonestos, embora todos, ou quase, se considerem num patamar  acima do cidadão comum, pelo poder de decidir a vida e a morte de quem transgride  a lei.”

 ABSIT  INJURIA  VERBIS

 

 

 

 

 

 

 

 

12 setembro 2021

A ALDEIA DA BERNARDETE

 

                                                                                  

                                                                                       Fala Marcos Prado *

 *Membro do Conselho Estadual de Cultura do Estado de Pernambuco

“Numa síntese que se queira avaliar para historiografia de uma nação ou mesmo de um estado como integrante de um povo e seus elementos urbanos, a façanha inicial será partir da história das pequenas células de aglomerados humanos e sociais, seja qual for o seu tempo de existência e a sua dimensão territorial no mapa geral do país.

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O livro de Bernardete Serpa me faz confiar, esperançoso, na grande História Geral de Pernambuco ainda não escrita. A autora, num esforço isolado e heroico de pesquisa, baseada na memória e na oralidade como peças fundamentais a esse almejado tipo de historiografia, nos oferece eu diria uma obra de magnânimo interesse, oportuníssima como subsídio ao capítulo dos sentimentos e das afetividades humanas.  

Livros como este, painel da história sentimental de uma “aldeia”, devem ser lidos com o fôlego de uma paixão.”

 

 Estes são textos escritos por Marcos Prado para a orelha que compõe o livro de Bernardete Serpa “ A VIDA NA MINHA ALDEIA “, publicado pela Editora Bebecco, de Olinda – PE, em 2011.

 A “aldeia” de Bernardete era a cidade de Paulista, em Pernambuco, não muito distante de Recife. Nela havia um conglomerado industrial criado pela família Lundgren onde se destacavam duas fábricas de tecidos que empregavam pelo menos 6.000 operários. Considerados os dependentes temos um total de 24.000 pessoas.

 Hoje sinto-me extremamente feliz e orgulhoso por saber que pisei o mesmo chão em que pisou Bernardete, respirei o mesmo ar junto aos Bambuzais e bebi  da mesma água da Levada por onde andou Bernardete. E choro quando me lembro do apito agudo do trenzinho que passava na frente da minha casa para abastecer de lenha as caldeiras da Fábrica Aurora.

 Eu cheguei em Paulista em 1942, portanto com 12 anos de idade, saindo de São Paulo com minha mãe e duas irmãs, em uma viagem conturbada,  durante a Segunda Guerra Mundial, a bordo de um navio da Costeira chamado Itaquicé. Meu pai já estava lá, trabalhando como Gerente das Oficinas Mecânicas da Fábrica Aurora. Em 1944 meu pai me matriculou no curso industrial de mecânica de máquinas, na Escola Técnica do Recife, no bairro do Derby. Eu dormia no internato da Escola e só ia a Paulista nos fins de semana, viajando na famosa  “sopa”, cheia de jacas e cabritos.

 Morava na Rua do Sol, a poucos metros dos Jardins do Coronel, citados por Bernardete em seu livro. Minhas irmãs brincavam no meio da rua por serem mais jovens. Eu me poupava e espiava pela janela, enterrado no meio dos livros, furadeiras, fresadoras, tornos e equações. Ganhei o apelido de CDF.

 Para terminar, quero lembrar aos meus incautos leitores que um dos capítulos importantes da minha vida eu o vivi em Paulista. Está narrado na crônica Nº 23, de 31 de Julho, com o título de “O  Coronel e Eu”.

 Obrigado Bernardete por ter perfurado uma veia das minhas emoções aos noventa anos já passados. E vou terminar com um simples verso que usei em algum lugar, há algum tempo :

 “ Mergulhar no Espaço Sideral que eterno dura

    Onde pudesse encontrar vida mais pura. ”

 

 

 

10 agosto 2021

FALA, SEVERINO !

Fala Severino É começo de inverno na Serra. No Solar do Cônego, onde convivo com minha quietude e meus gambás, a neblina cobre a paisagem expondo apenas o cocoruto do Chapéu da Bruxa. Um clima de nostalgia me invade a alma e me perturba o espírito. Vago com meus fantasmas. Com eles durmo e com eles acordo. Sou um fantasma de mim mesmo.

 Tiritando de frio, Severino Mandacaru emerge das brumas com um olhar desconfiado, como se temesse uma acolhida pouco amistosa. Longe disso, agasalhei-o o melhor que pude e preparei-lhe uma birita que uso nas festas de São Joao, cuja receita não me atrevo a divulgar.

 - “Seu Galego bixiguento, como é que você some desse jeito? Saí da Catinga impiedosa, daquela terra sáfara maninha, onde nem a macaxeira consegue vingar. Fui para o Brejo da Madre de Deus, perto de Caruaru e de Fazenda Nova. Você deve conhecer pois representou ali o espetáculo da Paixão de Cristo ”.

 Tem razão Severino, lembro-me bem. Era o final da década de 50. Fui lá muitas vezes. O espetáculo durava três dias e era representado num cenário construído em pedra pelos artesãos locais, matutos pouco instruídos, porém artistas brilhantes que fariam inveja a um Michelangelo. E o mundo não sabia disso. José Pimentel fazia o Cristo e Ilva Ninho, a Mãe de Jesus. Clênio Wanderley dirigia o espetáculo e fazia o papel do Judas. Eu fazia o São Longuinho, o Soldado Romano Longinus, cego, que recupera a visão quando o sangue de Cristo, já crucificado, jorra sobre os seus olhos. Eram todos meus heroes.

 - Desculpa, Galego mas eu não vim aqui para conversar firulas e sim falar de coisas sérias, muito sérias.

 - Fala, Severino, desabafa !  Você me conhece. Enfrentamos juntos muitas encrencas durante a nossa convivência. Lembra-se de 64 ?

 -  Eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu não sou mais nada. Eu não sinto mais nada. Eu não falo nada. Nada penso, nada cogito. Eu não   sonho. Não choro. Não rio. Não sei se estou dormindo ou acordado. Sou um zumbi, um morto-vivo.

 - Calma Severino, eu explico: Isso é causado pela Pandemonia, assim como ela é, sem acento nem endereço, que deveria ter sido uma epidemia, depois glorificada como Pandemia e finalmente absorvida e demonizada por este Pandemônio que a nossa sociedade produziu.

 Da solidão em que vivemos no meio de tanta gente, parentes, amigos, vizinhos, afetos e desafetos, admiradores, bajuladores, sonâmbulos, almas penadas  . . . e os capetas.

 Da escuridão tenebrosa que nos envolve. Num céu sem lua e sem estrelas.          Sem relâmpagos. Sem raios. Sem lâmpadas, sem faróis, sem candieiros, sem lampiões. E nem, ao menos, um vagalume.

 Do isolamento em que vivemos, sem médicos nem enfermeiras, sem barbeiros, a velha faxineira que te arrumava a casa, e o velho Biu, o quebra-galho que consertava tudo, desde o cabo de uma panela, uma lâmpada que não acende ou a prateleira que desabou no armário.

Para aqueles chamados de “terceira idade” ­- não sei quem inventou isso, nem me explicaram o que são as duas idades precedentes - a coisa fica mais complicada. Em confinamento severo, sem contato com o público, como exigem as recomendações médicas, você precisará de alguém para qualquer coisa que precise. Um pedaço de pão na padaria, uma banana na quitanda ou o papel quotidiano para limpar o fio-fó, alguém terá que buscar para você. Essa tarefa, quando possível, é assumida por alguém da família a qual, por sua vez, está empenhada na sua própria sobrevivência. Claro, você tem a internet, esse prodígio tecnológico, com suas chaves, senhas, códigos  algoritmos, que podem lhe trazer tudo o que você quer e muito do que você não quer. Mas esse é um trabalho exaustivo e complicado demais para um idoso digno desse nome.

 Portanto, meu caro Severino, se você se sente vazio, celebre esse vácuo com alguém, Faça grandes festas. Inspire-se nas cores esparramadas pelo sol na tela do firmamento. Plante um pé de manacá. Vá jogar xadrez.  Cante um frevo do Capiba. Adote um gambá.

 E lembre-se de uma coisa:   o tempo é maior bem de que dispomos. Não o desperdice. E saiba que o pior modo de desperdiça-lo é quando o passamos sozinhos. Cative seus amigos.

 Se nada disso der certo leia estes versos do Augusto dos Anjos, dê uma pirueta e solte uma gargalhada.

“Tome, Dr. esta tesoura . . . e corte 

Minha singularíssima pessoa

Que importa a mim que a bicharada roa

Todo o meu coração, depois da morte ? !

 

 

27 maio 2021

O Bolodório

O Bolodório 

O Bolodório

 

Companheiro inseparável da verborragia é o bolodório. Mais ameno do que aquela este, ainda assim, enrosca-se em nossas mentes num palavreado redundante, repetitivo e enfadonho. Basta observar nos noticiários da imprensa, falada ou escrita, como discutem políticos e comentadores, repetindo chavões e conceitos gastos e tautológicos. Sem falar na linguagem chula e ofensiva quando discutem entre si.

Eu mesmo tenho procurado me policiar quando me vejo cacarejando numa roda de amigos, ou martelando bravatas que o destino me levou a gravar em papel. Por falar nisso, o livro está se difundindo, o que me deixa muito feliz. Acabo de encontrar um, em um Sebo de São Paulo. Comprei-o e o estou relendo como se novo fosse, anotando as verborragias e bolodórios com que castiguei meus incautos leitores. O que me faz lembrar do meu amigo Cândido Albino das Neves, aquele brancola fogoió,  perdido em Cabaceiras, na austera Paraíba.

Cansado da mesmice a que estava condenado, Cândido resolveu dar no pé. Em sua anástase, ressurgiu com alma nova. Mais puro, mais indulgente, mais humano. Antropomórfico, viu-se representado por um deus de oito braços abarcando um globo terrestre bífido que ele tentava manter unido. A seus pés uma cártula indicava o seu destino. Sua dromomania faria o resto. Temia ser considerado capto da mente e, antes que isso se confirmasse, mandar-se-ia para outros mundos. Novas terras, nova gente, novos ares. Novas cores, novos sons, novos sabores, novos amores.

Sua heterotopia deu-lhe fama. Fama e tédio. Não suportando mais a monotonia em que se metera, ouvindo bolodórios daqueles piriricas o tempo todo, excogitou sair-se da enrascadela e demandar por novos ares. Deixaria seus alunos com o assistente, aquele samango lutulento e mendaz que não fazia outra coisa senão preparar pernadas para tomar-lhe o lugar. Pois agora o teria.

Palavras, para que vos quero ?  Para ter uma verborreia ?  Para clamar aos quatro ventos ?  Será que com elas consigo fazer rir ? Fazer chorar ?  Saberei aproveitar as que me vieram nos sonhos como no caso de “A Pena da Morte”, quando vaguei a esmo, sem saber onde pousar o corpo nem o espírito:

“A pena desenhava no ar letras malfeitas

Que eu arrumava sem zelo, em linhas tortas

Para que fossem consideradas letras mortas

E assim passou-se o tempo

Minha alma levitava em desatino

Recusando-se a cumprir o seu destino:

Mergulhar no espaço sideral que eterno dura

Onde pudesse iniciar vida mais pura”


Palavras, palavreado, palavrório, tagarelice, algaravia,  cantilena, bolodório ...

Agora chega. Vou cuidar das minhas tapiocas.

 

10 maio 2021

A Verborragia de todos nós

A Verborragia de todos nós 

“ Verborragia é sangria desatada “.

 Pelo menos era isso que dava a entender o Severino Mandacaru quando era instado a cumprir alguma tarefa com rapidez. Ele dizia:  “ Danou-se, pra que essa sangria desatada ? ”

 “ Vou explicar, Severino. Mas antes, me diga uma coisa: como vai o teu confinamento ? ”

“ Entre quatro paredes, como todo mundo “.

 Pois é.  A Pandemonia nos apanhou a todos, sem acento nem endereço e já lá se vão um ano e dois meses. Desmantelou tudo. A economia, o convívio social, o relacionamento entre amigos. e, suprema desgraça, os laços entre pessoas de uma mesma família. Os políticos ficaram mais políticos. Os corruptos ficaram mais corruptos. Os governantes governam menos e alguns até se transformaram em mercadores da governança. Vejam bem : eu disse “alguns”, o que significa que “não são todos” . Se são muitos ou poucos eu não sei.

 Perguntei ao Severino como andava o seu confinamento justamente porque cheguei à constatação de que a privação do convívio social durante tanto tempo levou as pessoas, todas as pessoas pandemonizadas, a uma loquacidade incontrolável, disputando a primazia da palavra, despejando discursos vazios e repetitivos, muitas vezes defendendo teses contraditórias, convencidas de que estão agindo por inspiração divina. Como o encontro pessoal não é possível, utilizam-se os WhatsApp da vida e o telefone celular. É difícil e penoso ouvir o seu interlocutor sem poder interrompê-lo nem que seja para felicitá-lo pelas suas ideias. Mas devo fazê-lo pois preciso passar por essa catarse para completar o que me resta nesta vida provecta alegre e feliz que minha família está me proporcionando, ao lado da minha esposa.

Pequenos conflitos são inevitáveis mas a discussão honesta e civilizada, ao lado do respeito pelas ideias alheias, acaba restabelecendo a harmonia.

 Por força do meu trabalho desenvolvi a fama de mandão. Fui mandão sim, nas fabricas em que trabalhei. Passei uma vida dando ordens em fábricas onde prevalece a responsabilidade pelas ordens emanadas e onde o menor vacilo pode resultar em grandes prejuízos. Mas, na família, também há situações em que você precisa tomar atitudes severas para manter o barco flutuando, levando-o até o porto.

Resta-me o consolo de que, durante a minha carreira, recebi inúmeras manifestações de apoio.

 

 

19 abril 2021

E aí Garela, tudo bem ?

E aí Garela, tudo bem ? 

Acoimado que fui nas mídias sociais só porque me recusei a discutir política na forma turbulenta em que ela hoje é feita, em que todos se acham iluminados e detentores exclusivos do segredo do Santo Graal, tive que encontrar alguma coisa que pudesse dar um pouco de alegria a estes rabiscos. Logo agora que entrei no último período do padrão cronológico com que meço o escoamento do tempo que ainda me cabe nesta efêmera existência.

Mas antes de mais nada, quero agradecer ao meu incauto leitor (ou leitores, se tiver mais de um) por ter tido a coragem de abrir esta crônica, apesar do título estapafúrdio que carrega. Ou que, por comiseração, tenha pensado que fui brindado com uma patranha do corretor ortográfico. Nada disso. O título é meu, em toda a sua plenitude, e significa “perdiz que está no cio”. Entretanto, não pretendo usá-lo com essa acepção. Vou explicar.

Todo mundo conhece aquele chinesinho simpático e inteligente que está sempre no YouTube ensinando receitas para curar as   mazelas que nos atacam o corpo e o espírito. E o faz com muita competência. Chama-se Peter Liu, é médico, fala perfeitamente o português brasileiro mas com um sotaque evidentemente chinês. Nos inúmeros vídeos que publica, ele sempre se dirige ao seu público dizendo : “Olá, pessoal, eu sou  Peter Liu etc. . . .” Todavia, em um deles, eu o ouvi dizendo  “ Olá, Garela !, eu sou  Peter Liu, etc . . .

“ Obviamente ele queria dizer  “ Galera “ mas a sua fonética não o permite. É sabido que o chinês troca o R pelo L, e vice-versa. Quem já foi ao mercado da Rua 25 de Março, em São Paulo, sabe disso. E, se você perguntar à chinesinha da loja de eletrodomésticos que está te atendendo se o produto que você escolheu é autêntico, ela dirá: “Não senhor, mas é genélico galantido”.  

Tenho muito apreço pelos Chineses, independentemente do seu sistema político e dos vitupérios de que vêm sendo alvo ultimamente. Tive contato com profissionais chineses do  meu ramo, não tão grande como o dos japoneses mas o suficiente para consolidar minha admiração por eles. Um exemplo simplório disso foi quando, em Natal, eu preparava a implantação da Fábrica de Tecidos Seridó e o Grupo Empresarial me pediu que elaborasse um ante projeto de malharia, que seria oferecido aos chineses. Um grupo de técnicos chineses veio a Natal para discutir o projeto. Dois dias antes, eu havia sofrido uma luxação no tornozelo direito. Doía muito e eu mancava, caminhando com certa dificuldade. Mesmo assim fui à reunião. No final, quando todos se dispersavam, um dos técnicos me abordou e disse :

“ Eu notei que o senhor parece que está machucado.” Relatei o que me havia sucedido. “ Se quiser, gostaria de examiná-lo. Após o jantar irei ao seu quarto.” O técnico, agora médico, virou meu pé pra cá e pra e pra lá, pra cima e pra baixo, apertou aqui e ali, deu dois suspiros e desejou Boa Noite. E eu dormi como um Anjo. No dia seguinte não sentia mais nada.

Eu falo mais sobre os Chineses em outro lugar e em outra época. Está na Crônica nº 85 de 12 de Maio de 2012. Faz um tempinho, hein ?