29 outubro 2012

Os grilos de cada um


Sobre um galho seco
Um passarinho canta
Que a vida se foi

Perdoem-me o haicai improvisado. Não pude evitá-lo pois ele representa o patético esforço do homem para restaurar a natureza que ele mesmo destruiu. Eu andava por uma estreita ruela no centro de Tókio acachapada  pelos enormes blocos de concreto e vidro que a circundavam. Caminhava  devagar, contrastando com os demais transeuntes. Era uma tarde ensolarada, embora o sol apenas se presumisse pela intensidade da luz. O céu visível era apenas uma nesga.
Em certo momento pareceu-me ouvir o canto de um pássaro. Ri do meu delírio e continuei a caminhada. O canto voltou, ligeiramente mais alto. Estiquei o pescoço à procura de um lugar para sentar-me. Desemboquei numa espécie de praça minúscula que mais parecia o fundo de um prédio.  Do chão de cimento, entre dois bancos de ferro, levantava-se o tronco seco de uma pequena árvore, o qual se dividia em três ou quatro ramos completamente pelados. Não havia uma só folha. Sobre o galho mais alto, um passarinho cantava.
Não demorei a perceber as duas caixinhas de som escamoteadas no cruzamento dos ramos e o tosco balançar de cabeça do pobre passarinho empalhado.

Os japoneses são um povo admirável e a eles devo a minha capacidade de introspecção e o pouco de equilíbrio emocional que ainda me resta. Com eles aprendi a tomar banho, a ouvir quando os outros falam e a fazer as coisas em espaços impossíveis. Com eles aprendi também a comer o que está disponível e provei coisas estranhas,  desde alimentos fermentados com odores inicialmente insuportáveis até bichinhos indecifráveis, fritos ou não, cujo aspecto ia do besouro ao louva-deus.

Depois de algumas idas e vindas de Tókio e Osaka, mas ainda um estreante na cultura japonesa, coube-me receber dois técnicos que viriam ao Rio para a discussão de um projeto. Ao completar duas semanas de trabalho exaustivo, na véspera de sua partida,  convidei-os para um jantar de despedida. Levei-os ao Fiorentina, que naquela época estava no Leme. O jantar foi longo e alegre, havia uma lua bonita, e decidimos caminhar um pouco pela beira da praia. Em certo momento, um deles parou e ficou contemplando longamente o mar. Pareceu-me vislumbrar, em seu semblante, uma certa nostalgia pela partida. Ele desceu até a areia, tirou um lenço do bolso e estendeu-o, aberto, no chão. Apanhou dois punhados de areia, colocou-os delicadamente no centro, amarrou as quatro pontas do lenço e voltou sem dizer uma palavra. Comovido com aquele gesto, eu não me contive:
--  Que bonito, você está levando um pouco da areia de Copacabana como lembrança do Brasil!
-- Não, – disse ele – é para a  minha criação de grilos.
-- Ah! Você cria grilos para comer, não é?
-- Não, não. É para ouvi-los cantar!

Meu impulso foi sair correndo e mergulhar no oceano. Para sempre.




04 outubro 2012

Uma jornada insólita


No dia 16 de Setembro, dois anos atrás, escrevi  “Madrugada insólita”, uma patética descrição das batalhas internas que travamos a cada dia na esperança de contornar os tortuosos caminhos que nos levam à senilidade. Naquela elocução eu concluía que devemos ignorar o prazo de validade que nos é atribuído quando nascemos e  que o melhor é continuar cumprindo as tarefas quotidianas no limite da nossa capacidade. Dois anos se seguiram com alguns sustos e muitas emoções.

Desta vez foi diferente. Eu me encontrava fora de casa, do outro lado do Atlântico, percorrendo os campos de trigo e girassol que dividem com a uva verdicchio as colinas agrícolas da região de Le Marche na costa italiana do Mar Adriático. Passei dias percorrendo as zonas rurais para observar o que fazem os camponeses nas suas cozinhas.  “Ainda é tempo de aprender alguma coisa”, pensei. A capacidade que tem a gente do campo para  improvisar e produzir coisas saborosas a partir de  ingredientes simples, sem receitas e implementos modernos, sempre me impressionou. Desprovidos de sofisticação e formalidade, seus jantares são sempre encontros festivos, alegres e divertidos.

Uma noite, depois de exaustivas e hilariantes discussões sobre a melhor forma de ralar o parmesão e determinar o ponto certo com que se deve grelhar a “Bistecca alla Fiorentina”, custei a adormecer. Em parte pelo cansaço e em parte porque descobri que havia vencido mais uma batalha mas não me havia preparado para os combates que viriam. Os dias  passavam e eu começava a sentir a nostalgia da partida. A viagem de volta foi cansativa, espremido naquelas gaiolas em que foram convertidas as outrora confortáveis poltronas da classe econômica, hoje o melhor exemplo da degradação humana.

Já em casa, deitado na cama em pleno dia para refazer-me da ausência de sono durante as doze horas que durou aquele voo  anestesiado por filmes idiotas, voltaram-me as reminiscências da infância. Revi o lago onde nasci  suas delicadas ondas acariciando os barcos e as amuradas das casas. As montanhas escarpadas que o circundam,  com seus castelos e igrejas de altas torres e sinos enormes ecoando pelos vales. Subindo a colina vi o riacho que movia os moinhos, um após o outro, suas rodas d’água murmurando uma ladainha melancólica como que se despedindo da vida. No topo do monte duas vaquinhas – apenas duas, porque tudo ali é pequenino – badalavam seus chocalhos e me olhavam nos olhos para me avisar que logo a neve chegaria e elas teriam de ser levadas para o estábulo. Uma construção de linhas harmoniosas, levantada em pedras esculpidas, formando arcos que se sustentam sem o apoio de colunas, fruto de uma arquitetura espontânea de fazer inveja aos ingegnieri de hoje. Lembrei-me do pátio onde meu tio ferrava os cavalos, de minha mãe sentada na cozinha  debulhando as ervilhas e eu deitado num banco de madeira, barriga pra cima, contemplando o teto em grandes arcos formando uma abóboda que, aos olhos daquela idade, parecia uma enorme catedral. E o cheiro da polenta que saia  do caldeirão de cobre pendurado na lareira  acesa atenuava  meus impulsos para sair e brincar na neve e mitigava meu estômago faminto.


Parei meu pensamento e sufoquei as lembranças. Olhei para mim mesmo. Eram emoções muito fortes para o meu combalido espírito. Eu me  debatia entre um passado bem vivido e um futuro incerto. Senti que a vida se esvaia. Essa paixão nostálgica me acabrunhava. O sentimentalismo não me conduziria a nada. Precisava reagir. Decidido a enfrentar com energia o porvir incerto pulei da cama, ergui a cabeça com altivez, empinei o nariz e fui consertar a descarga do banheiro que se havia desmantelado na véspera da viagem.


30 julho 2012

Viagem


Tenho saudades das viagens que fiz e mais ainda das que não fiz. Quantas vezes, perdido num bairro cinzento dos arredores de Londres ou comendo tortillas de oloroco na varanda de um bar em El Salvador  ou, ainda, fazendo Cooper nos jardins do templo Prat Keo, em Bangkoc, prometi a mim mesmo que um dia voltaria ali com minha mulher e meus filhos. Não cumpri a promessa e minha vida continuou numa avassaladora sucessão de embarques e desembarques, reuniões e relatórios, acordos e desacordos, contratos e distratos. De tanto trabalho e sofrimento pouco restou a não ser a saudade que me acalenta nos momentos de solidão, já que não tenho voz para cantar nem habilidade para dedilhar uma harpa. Alimentando a saudade  resta agora um amontoado de memórias que, como disse Humberto Eco, estão destinadas a receber uma etiqueta com o aviso   “lembrar-me mais tarde” ou, então, serão deixadas em repouso para amadurecer.  Como os vinhos.

De uns tempos para cá tenho passado meus dias fazendo monótonas viagens de ônibus entre Friburgo e o Rio de Janeiro. O trânsito caótico do Rio tem-me desestimulado a dirigir, coisa que só faço quando tenho algo a transportar. Por outro lado, dirigir um automóvel com 1.000 cc de motor  faz com que a viagem, além de  monótona, se torne cansativa e estressante.
No entanto, já fiz viagens bem mais interessantes na minha vida.  Algumas se destacaram pelo inusitado da rota. Outras, pelo deslumbramento da paisagem, ou pela inclemência do tempo ou pela bizarrice do convívio. Não faltaram, também, viagens bucólicas, como a que fiz, por trem, entre Salvador e Nazaré das Farinhas, na Bahia, contornando a baia de Todos os Santos onde, em certos trechos, o trem andava tão devagar que alguns passageiros saltavam para colher a cana que crescia ao longo da estrada, voltando ao trem alguns vagões atrás. Era muito divertido. Eu levava um toca-discos portátil, operado a bateria, o máximo da tecnologia para aquela época. Coloquei para tocar um disco com as canções de Lampião cantadas por Volta Seca e, em pouco tempo, todos estavam dançando xaxado dentro do vagão.  

Fiz uma viagem, pela Varig, de Tókio ao Rio de Janeiro,  que durou trinta e três horas sem sair do avião. Deu a volta pelo Pacífico. De Tókio a Los Angeles foram doze horas, com escala no Haway. O restante foi distribuído entre Caracas, Bogotá, Quito, Lima, La Paz, Santiago, Buenos Aires e Rio de Janeiro. A cada escala, gente nova. Conheci Astecas, Incas, Quechuas, Mapuches e Guaranis, bem como os indefectíveis Portenhos. Quando desembarquei, claro, os pés não cabiam nos sapatos. Quem viajou naquela época sabe do que estou falando.

No caminho inverso viajei de Frankfurt a Tókio num voo  experimental da Lufthansa, sobrevoando o Polo Norte, com a finalidade de  estudar  não-sei-o-que. Havia uma espécie de periscópio espetado no teto, manejado por um tripulante, que o fazia subir e descer, fazendo anotações apressadas. Voávamos a baixa altitude, o que me consolava, pois imaginei que se caísse, o avião deslizaria suavemente como um esqui sobre aquela imensa placa de gelo que não terminava nunca. 

Vi os mais lindos batiks da minha vida pendurados em varais,  à beira de uma estrada de ferro em Jakarta, Indonésia. Em viagem para  Bandung, distante cerca de quatrocentos quilômetros de Jakarta, o trem vai o tempo todo serpenteando  montanha acima em baixíssima velocidade. Olhando pela janela eu contemplava as encostas cobertas de mata quando,  subitamente, perdi o fôlego. Eu me vi simplesmente suspenso no ar, dentro de um vagão que continuava sua marcha, sem ter nada que o sustentasse. Só ao chegar na primeira curva foi que percebi a pequena estrutura feita de sarrafos de madeira onde se apoiavam os trilhos. E só eles.

Fiz, a pé, uma viagem em direção ao centro da terra. Não caminhei mais do que um quilômetro dentro de um túnel com uma pendente que daria, creio eu, cerca de vinte por cento. Envolto em um espesso capote percorri o caminho iluminado por pequenas lâmpadas bruxuleantes devidamente escamoteadas nas paredes da rocha. Estava em Viena onde, na véspera, eu me havia esbaldado nas festas da vindima em Grinzing, abusando daquele vinho branco voluptuoso e enganador. Não posso dizer que me cansei com a caminhada mas eu sentia um leve torpor e estou seguro que não era consequência da esbórnia da véspera. Foi quando dei de frente com um enorme lago, que refletia tantas luas quantos eram os holofotes que o iluminavam. Um deslumbramento. O silêncio, a quietude do ar, a água imovel,  faziam do lago uma placa sólida que se perdia na penumbra sem que se pudesse ver a  margem oposta. Fiquei preso ao chão esperando que um anjo descesse e me fizesse desaparecer no centro do lago.
Apareceu um barco a remo, manejado por um baixinho parrudo que, imaginei, deveria ter sido mandado por Guilherme Tell.  Navegamos a torto e a direito, perturbando a quietude das águas. Eu contemplava as ondas em círculo que se expandiam a partir de cada pingo d’água que caia dos remos. Aportamos na outra margem. Mais uma caminhada de quinze minutos na penumbra onde o relógio não marca as horas e, subitamente, outro lago! Outro passeio de barco, tendo como paisagem a escuridão. Eu custava a acreditar que pudesse existir tal coisa  escondida nas profundezas da terra.
Estes lagos subterrâneos são uma das atrações turísticas mais  interessantes da Áustria. No entretanto, são pouco conhecidas. Conversei com vienenses que sabiam da sua existência mas nunca as tinham visitado. A  maior parte deles nem sabia que existiam.

Outra viagem em direção ao centro da terra são as grutas de Frassassi.  Esta, juntamente com uma viagem na superfície do mar, em plena adolescência,  ficarão para  outra oportunidade.


18 maio 2012

Os Chineses chegaram


No início dos anos 90 os jornais não paravam de anunciar: “Os Chineses estão chegando!” Ao passar para a economia de mercado a China entrou num processo de crescimento acelerado, invadindo os mercados externos. Hoje, os jornais alardeiam: “Os Chineses chegaram!”

Governos e Empresários tentam explicar o que estão fazendo os Chineses, e procuram, desesperadamente, conter  a invasão de seus produtos, colocados aqui a preço de bolo de goma. Aqui e no resto do mundo. Na sua crônica de 12 de Março último “A China e nós”, Paulo Guedes analisa esse problema com grande maestria, a partir de uma pergunta que lhe fizeram em todos os lugares por onde andou no que ele chama, modestamente, “um rápido giro pelo exterior”: três capitais da Europa e as cinco maiores cidades dos Estados Unidos.  A  pergunta foi: “A desaceleração econômica da China pode derrubar a dinâmica do crescimento brasileiro?” Vale à pena ver  o texto de Paulo Guedes que, além da análise brilhante, brinda-nos com uma pérola de bom humor: “A atuação particularmente pirotécnica do Federal Reserve, o banco central americano, ao desvalorizar continuamente sua moeda ...”

Anos atrás tive a oportunidade conviver com os Chineses. Quando eu me dedicava à elaboração de projetos para a indústria têxtil trabalhei com um grupo de empresários interessado em montar uma fábrica no Brasil. Estávamos em Natal, Rio Grande do Norte, onde a fábrica seria instalada. Apresentei-lhes, orgulhosamente, o anteprojeto que havia elaborado no qual eu mostrava que, com a taxa de retorno do capital encontrada, o empreendimento se pagaria em seis anos, um recorde para os padrões brasileiros na época.

 “Muito comprido” – argumentaram  eles – “nós não investimos em nenhum projeto com retorno superior a três anos”. Essa era a dinâmica dos Chineses. E estou falando da década dos oitenta.

Convivi com Chineses em Singapura onde reinam soberanos. Diligentes, disciplinados, eficientes em tudo, cuidadosos nos detalhes, prestativos e, além disso, educados e gentis. E convivi com eles na Indonésia onde, em minoria étnica, eram segregados, perseguidos e vítimas de todo o tipo de preconceito. Só para dar uma ideia: Eu precisava ir a Bandung, cidade próxima a Jakarta,  onde eu me encontrava, numa viagem de última hora. Pedi a uma agência de turismo  que me reservasse  acomodação num hotel de Bandung. Meia hora depois veio a resposta: Impossível, todos os hotéis estão lotados. Implorei, e depois de três ou quatro telefonemas desesperados veio uma solução:
“Senhor, todos os hotéis em Bandung estão lotados. Eu consegui um quarto num “hotelzinho”, mas é chinês. O senhor vai querer assim mesmo?
Essa era a dimensão do preconceito que sofriam os chineses  na Indonésia, naquela época.

Eu me perdi em digressões porque minha intenção era falar da chegada dos chineses e acabei deixando-me trair pelas memórias. E foi pelas memórias que descobri uma verdadeira profecia sobre os chineses, lançada por Giovanni Papini, “o escritor maldito”, que conheci na minha adolescência.
No final de 1951 Papini concluía  “O Livro Negro” no qual o  personagem Mr. Gog apresenta a sua visão sobre o desenvolvimento da China. Nada mais atual, como veremos. E, antes que o meu incauto leitor abandone a sua leitura, por maçante que é, quero antecipar uma citação do que escreveu Papini:

 “Os Chineses serviram-se da república de Sun-Yat-Sen para se livrar dos parasitas do velho império Manchú; serviram-se do bolchevismo para se desfazer  dos parasitas da república burguesa; livrar-se-ão qualquer dia, sob uma bandeira escolhida por comodidade, dos parasitas do comunismo” ... “A eles pertencerá, com o tempo, a Terra.”

Através de um colóquio travado numa suposta entrevista de Gog com o pensador chinês Lin Yutang, Papini desvenda os meandros da cultura chinesa. Certamente nem todas as palavras atribuídas a Yutang teriam sido proferidas por ele.  Seriam frutos da interpretação que Papini fazia da leitura do filósofo, do qual era um leitor apaixonado e voraz. No imaginário colóquio,  “e sem maiores rodeios”,  Lin Yutang começa a explicar:

     - “O povo chinês é o mais perigoso que há no mundo e, por isso, está destinado a dominar a terra. Por séculos e séculos ficou fechado nos confins do imenso império porque acreditava que o resto do planeta não tinha nenhuma importância. Mas os Europeus, e depois os Japoneses abriram-lhes os olhos, os ouvidos e os espíritos. Quiseram à força arrancar-nos do nosso covil e hão de pagar caro a sua cobiça e curiosidade. Há um século que os Chineses esperam a vingança, e vingar-se-ão. A revolta dos Boxers, em 1900, não foi senão a primeira tentativa, mal conduzida e mal sucedida. Mas o povo chinês é astuto e paciente: escolheu outros caminhos. Em 1910 converteu-se à democracia republicana; em 1948 ao comunismo. Na realidade os Chineses não são conservadores, nem democráticos, nem comunistas. São simplesmente Chineses, isto é, uma espécie humana à parte, que pretende viver e sobreviver, que se multiplica e se deve expandir mais por necessidade biológica que por ideologia política.”
“O povo chinês é imortal, sempre igual a si mesmo, sob todas as dominações. Nem os Tártaros, nem os Japoneses, nem os Americanos, nem os Russos conseguiram ou conseguirão transformá-lo. Levará o tempo que for preciso mas o futuro a ele pertence” 

É neste ponto do colóquio, na verdade um suposto monólogo do filósofo chinês, que aparecem as palavras mencionadas na citação que antecipei.

Os chineses chegaram e é melhor recebê-los com simpatia. Por enquanto estamos preocupados apenas com a economia. Dentro de pouco será com a cultura e com a etnia.  Porque logo terá inicio a miscigenação e então seremos uma nação afrosinodescendente. Com muito orgulho.


07 maio 2012

Ruas



Pediram-me para falar de ruas. É tarefa que cumpro com agrado. Porque ruas são caminhos. E caminhos levam a destinos. E destinos são pessoas.  Ruas-caminhos.  Ruas-destinos.
De ruas-caminhos não vou falar porque delas já falou, com grande maestria, em seu alentado volume  “A Alma Encantadora das Ruas”, o grande cronista João do Rio. Falarei de ruas-destinos que, como pessoas, além de nome e alma  como disse o Cronista, também têm um corpo.

Começarei com o Albano Ruas, cidadão português, “moço distinto com exercício no Paço” digno Oficial da Guarda Civil do Estado de São Paulo, amigo de meu pai, nosso  vizinho de casa no Alto da Vila Maria, quando eu tinha oito anos de idade. Para mim, seu Albano representava a Lei, a Autoridade, a Sabedoria e a Elegância. Vê-lo em seu uniforme impecável azul marinho e botões dourados inspirava-me confiança. E era ele quem me trazia os gibis que formaram o meu embasamento cultural. Seu Albano me resgatou de um tombo catastrófico que levei quando estava “a chocar bondes”, apostando quem seria o último a pular do carro em movimento. Recolheu-me do chão, enxugou o sangue que me escorria dos braços e joelhos. Não disse palavra. Tomou-me pela mão e, sempre em silêncio, conduziu-me pela longa caminhada que leva da planície até o alto do morro.  Entregou-me à minha mãe e disse apenas: “Ele foi o último a saltar”.

Outro nome que tenho presente é Arnaldo Ruas, de São Paulo, um competente  profissional de informática, que atua como consultor de software. Tenho seu nome anotado pois talvez venha a precisar desse tipo de serviço num projeto que estou desenvolvendo: implantar, na minha nuca, um ship que permita silenciar os aparelhos de televisão instalados em todos os lugares que frequento: bares, restaurantes, consultórios médicos, bancos, salas de espera de qualquer natureza, feiras livres ou não, ônibus em viagens de longa distância, e até mesmo aquela maldita musiquinha dos atendimentos eletrônicos incluindo a frase “a sua  ligação é importante para nós”.

Agora quero falar de outro cidadão importante, também português: O senhor Antonio Ruas, presidente da AMBC – Associação de Municípios da Cova da Beira e editor da Capeia Arraiana, uma página da internet que defende os interesses daquela região que, segundo suas palavras, vai do  “Sabugal e do distrito da Guarda, movido à paixão pela Raia, pelas terras do Forcão, pelas Serras da Estrela, da Malcata e das Mesas, pelo Rio Côa e pelo povo valoroso que luta pelo futuro de uma região que alguns querem condenar ao fracasso”
Foi nessa página que encontrei uma ótima receita de caracóis que passo imediatamente a vocês:
Caracoleta  Deliciosa
Você vai precisar de: manteiga, alho, cebola, salsa, caldo de galinha, molho de soja e, obviamente, caracóis. (os da Cerdeira de Côa, fornecidos pela Caracol Real, são os melhores pois já vêm limpos e cozidos) Basta refogar o alho e a cebola na manteiga, acrescentar os demais ingredientes e, por fim, os caracóis.
Esta receita foi útil pra você? Então publique-a no facebook, mas não diga que fui eu quem deu a ideia.

Ruas há muitos e já que tomei o embalo  comecei a colecioná-los. Minha lista está à disposição de todos. Só precisarei de algum tempo para classificá-los, ainda não sei bem se por nacionalidade, profissão, projeção social, benfeitores da humanidade , vivos ou mortos, políticos ou ... deixa pra lá.

Absit injuria verbis 
Escrevi essa brincadeira de implantar um chip na nuca só para manifestar o incômodo que me é uma televisão ligada num momento em que eu não pedi, num volume que eu não suporto, mostrando  coisas que não me interessam e impedindo que eu possa ler o meu jornal sossegado. Sei que tem gente que gosta de ver  televisão à toda hora e não tenho nada contra elas. Elas não serão obrigadas a  implantar o chip, como eu sou obrigado a assistir a televisão delas.
A idéia do chip não era tão maluca pois o jornal O  Globo,  de 18 de Maio último, no Caderno Ciência, em matéria de página inteira, publica:  “Implante cerebral permite a tetraplégicos controlar braço robótico para mover e agarrar objetos”.
Que não haja ofensa nas minhas palavras.



24 abril 2012

Metas para 2012


O mês de Maio está chegando e eu ainda não formulei minhas metas para o ano de 2012. Vou ser sincero: eu nunca formulei metas para ano algum na minha vida mas agora, já adulto, vendo que todo o mundo no facebook faz planos ou manifesta desejos para o ano que começa,  não quis ficar na desvantagem. Começo tarde, é verdade, mas não me preocupo. As grandes obras levaram muito tempo para serem feitas. A Capela Sistina não foi construída num dia e a Cloaca Massima, em Roma, que considero o extremo oposto em matéria de sensibilidade estética, levou quase um século para ficar completa.  Anos atrás cheguei a esboçar qualquer coisa parecida com um plano de metas   mas desisti ao perceber a complexidade em que me metera.  Este ano tentarei ser mais realista e, por isso mesmo, formularei tarefas mais simples. Espero,  que desse modo, poderei dar um salto  mais audacioso em 2013.

Meta número um:  Vou retirar todas as portas dos armários da cozinha. Elas não servem para nada. Escondem tudo o que está lá dentro, retardando a localização das coisas, e eu sempre acabo dando uma cabeçada quando esqueço uma delas aberta. Discuti este assunto com um grupo de intelectuais e eles me disseram que as portas são necessárias para impedir a entrada de baratas. Se eu tivesse baratas na minha cozinha eu tiraria a cozinha.

Meta número dois: Vou amarrar com um fio arame a caneta que mantenho junto ao telefone. As que eu vinha amarrando com barbante não deram certo. Sumiram todas, pois o barbante não oferecia a resistência necessária.

Meta número três:  Vou construir um curral para criar gambás. O método que eu vinha usando, de capturá-los com uma arapuca e soltá-los na porta dos vizinhos, não funcionou. Eles voltaram todos e eu só descobri que eram os mesmos quando comecei a chamá-los pelos nomes.

Meta número quatro: Pretendo fazer pelo menos duas viagens, este ano, de curta duração, não mais do que três dias. A pé.

Meta número cinco:   Farei uma boa ação, uma vez por semana. Sempre a mesma ação, pois conto com a persistência para alcançar o meu objetivo. Publicarei , no facebook, uma foto da bandeira do Japão. Com isto proporcionarei aos meus amigos a oportunidade de entrarem num transe meditativo ao contemplarem aquele símbolo da simplicidade, a quintessência da forma geométrica, o suprassumo da síntese, a harmonia entre o cheio e o vazio, o tudo sobre o nada.

Meta número seis:  Quero escrever uma crônica que cause impacto. Ainda não sei bem como vai ser, mas já alinhavei algumas idéias: Descrever a operação de um bate estacas preparando os alicerces de uma construção. Neste caso a crônica deveria ser curta, caso contrário o impacto se diluiria antes que o leitor chegasse ao fim da página e a crônica não passaria de um traque.
Pensei, também, em contar a história de um milionário que levasse  uma barca que faz o trajeto Rio/Niterói até o vão central da Ponte e a despejasse no mar. O impacto certamente  provocaria ondas que inundariam a Praça XV.

Meta número sete:  Desta eu desisti. Trata-se de um antigo projeto destinado a resolver o problema do calor no Rio de Janeiro. Um dispositivo que criaria um micro clima em torno do corpo, mantendo uma temperatura aí pelos vinte graus e que acompanharia a pessoa por onde ela fosse. Este dispositivo consiste num simples supositório de gelo seco, que seria fabricado em diversas bitolas para atender aos diferentes tamanhos dos usuários. Como ainda depende da solução de alguns detalhes técnicos, sou obrigado a transferir esta meta para o próximo ano.

E você, já formulou suas metas para este ano? Não fique parado. A vida não espera. Tudo em volta de você se movimenta. E não se esqueça da célebre máxima do Conde de Lampedusa, aquele que escreveu “O Leopardo: “É preciso mudar para que tudo fique como está”. Parece uma bobagem, não é?  Se você achar que é, vá até o facebook e contemple a bandeira japonesa.  Você  mudará de idéia.  Até 2013.



16 abril 2012

Subiu aos céus e está sentado ...

Encontrei o Severino sentado num banco da praça, pensativo. Tinha um olhar melancólico voltado para as curvas que delineiam os picos da Floresta da Tijuca, àquela hora apenas uma silhueta negra desenhada sobre o fundo azul da tarde. Nos joelhos um grosso livro, aberto.
-  O que você está lendo, Severino?
- Os Sertões. Estou relendo. Tem uma frase aqui, do Antonio Conselheiro, que me  lembrou o Pacheco. Você o conheceu bem, não foi?  
-  Por onde anda aquele santo? Nunca mais o vi.
-  Eu o encontro de vez em quando. Coisas estranhas estão acontecendo com ele.
-  Vocês eram muito amigos?
- Trabalhamos no mesmo projeto em Fortaleza: desenvolver o Nordeste, industrializá-lo, redimi-lo da dependência econômica em relação ao sul... Pacheco só pensava no trabalho. Moramos no Hotel Iracema, antes que o mar invadisse a praia. Trabalhávamos por prazer, nem sabíamos qual era nosso salário, você acredita? Nossa única diversão era recitar poesias para as mariposas  da rua Major Facundo.
Naquele tempo havia romantismo até nos bordéis. Depois as coisas mudaram. Eu viajei e nunca mais o vi.

Pois é. Depois que as coisas mudaram ele comprou uma roça perto da minha, no Brejo da Madre de Deus, logo depois de Caruaru, e passou a viver dela. Certo dia, quando acordou, encontrou tudo seco. A plantação tombada, os canais de água secos, a terra calcinada, os poucos animais que criava, mortos. Não havia marcas de trator, não havia sinais de depredação, nada que pudesse indicar a ação do homem. Não havia explicação, aquilo só podia ser obra de feiticeiro. Pacheco passou dias recolhido, não queria falar com ninguém. Finalmente, desolado diante da dificuldade que teria para recuperar suas terras, resolveu vendê-las ao seu vizinho. Ao apresentar-se no banco para depositar o valor que havia recebido, Pacheco foi informado de que não havia nenhuma conta em seu nome naquele banco. Assustado, perguntou pelo saldo que havia deixado e a resposta foi a mesma: não há saldo. Sem se preocupar com os tostões que havia perdido, Pacheco pediu que lhe abrissem uma nova conta. Um gerente com olhar de fuinha respondeu secamente: “impossível” – e um segurança o acompanhou até a porta.
Ao chegar em casa, Pacheco descobriu que todos os seus cartões, de crédito, débito, plano de saúde  e o que mais fosse, haviam desaparecido da sua carteira. Tudo muito esquisito.
-  E o que fez o Pacheco?
- Nada. Em lugar de revoltar-se, Pacheco se adaptou às novas formas de consumo. Aderiu à caderneta da quitanda, liquidando a conta no final do mês, com dinheiro vivo. Permaneceu recolhido mais alguns dias, até perceber que lhe haviam cortado o telefone. Mas ele não se abalou. “Foi melhor assim – disse-me ele – não preciso mais chamar ninguém e estou livre dos chatos” – e desferindo golpes de capoeira, entoando sons de berimbau, começou a cantarolar: “ oi,  quem quisé mi vê, arrudeia o mar treis vêis”.
Achei que ele tinha enlouquecido. Procurei investigar junto aos vizinhos. Todos disseram que o comportamento dele era normal e que ele não se queixava da vida. Concluí que, apesar de  todas as desgraças, Pacheco vivia  feliz.
Só que, depois disso, pararam de entregar-lhe a correspondência. O jornal do qual era assinante, não estava mais sendo entregue. Perguntou pelo jornal e lhe disseram que não havia assinatura alguma em seu nome.
Passou-se o tempo. Um dia encontrei o Pacheco na mesma praça, cercado de gente, recitando “Negra Fulô”, de Jorge de Lima, o alagoano que você conhece. Quando terminou, tomei-o pelo braço e saímos caminhando. Eu queria entender o que estava se passando com aquele homem, um grande amigo, agora totalmente estranho. Que misterioso desígnio era aquele? Que feitiço o havia contagiado, por que não sofria com todas aquelas mazelas? Queria saber como poderia ajudá-lo, como poderia atenuar seu sofrimento. Nada. Ele se mostrava imperturbável. Eu lhe fazia perguntas, ele não respondia. Quando lhe pedi que me explicasse a origem daqueles fenômenos e a razão daquele comportamento ele me olhou espantado e disse – “Que fenômenos”? Depois baixou a cabeça, pensativo. Por fim me encarou com seu olhar triste e desabafou:

“Não sei explicar isso, Severino.  Para mim são apenas sinais de que o homem está desmoronando. Somos incompetentes para aproveitar o que a natureza nos oferece e impotentes para controlá-la. O globo terrestre nos oferece um potencial infinito de energia através dos raios solares e nós ficamos construindo usinas atômicas. Se vem uma chuva mais forte as cidades se alagam e nós ainda não encontramos a forma de  aproveitar essa água e evitar a catástrofe. Nas grandes cidades bueiros explodem por  culpa de um gás que o próprio homem ali gerou e ninguém sabe o que é.  Edifícios desmoronam porque um empreiteiro desonesto roubou no cimento ou um engenheiro incompetente calculou mal as estruturas. O avanço tecnológico, produzido por um grupo de cérebros privilegiados, está imbecilizando o resto da humanidade, que desaprendeu a raciocinar. Diariamente ceifam-se vidas em atropelamentos e choques de veículos pelo uso inadequado do automóvel, essa estrovenga complicada e obsoleta; onde já se viu gastar energia para deslocar um peso de 1.200 quilos para transportar uma pessoa de 70 quilos?  Ao contrário do que muitas pessoas pensam, eu não estou sendo castigado pelo que está me acontecendo. Estou apenas me libertando dos grilhões que me humilhavam. Sei que não sirvo como membro da sociedade. Sou um asceta compulsório no meio da multidão e da abundancia. Não me beneficio com convívio da primeira nem usufruo das benesses da segunda.” 
Quando terminou vi que o Pacheco chorava. Limitei-me a abraçá-lo.

- Mas como é que o Pacheco consegue sobreviver nessas condições, suportar  essas desgraças ?
-  Ele não vê desgraça nenhuma nisso tudo, nem se preocupa em saber o que está acontecendo. Ao contrário, ele acha que  a humanidade seria mais feliz se todos passassem por essas experiências.
-  E os amigos dele, o que dizem ?
- Os amigos o abandonaram. Passam por ele e fingem que não o conhecem. Estranha relação essa. Ele passa por todos sorrindo, com aquele olhar diáfano que enche a atmosfera, contagiando o universo. Mas a coisa não terminou aí. Não demorou muito e lhe cortaram a água. Ele ficou sem poder sair de casa até que um vizinho passou-lhe uma mangueira e ele ficou abastecendo a sua caixa. E, em seguida, cortaram-lhe a luz e o gás.
Sem poder cozinhar, passou a alimentar-se de cruezas, com predominância de sementes oleaginosas. Inventou também o  piscafé, uma combinação letal de café solúvel,  pisco,  limão, açúcar e clara de ovo, que ele compartilha com um  vizinho em troca de gelo.
Quando o vi pela última vez encontrei-o esquálido, com as pupilas flamejantes saltando das órbitas, Pacheco declarava-se  feliz. Estava liberto de todos aqueles instrumentos que a sociedade lhe impunha. Ria e recitava trovas onde anunciava que o homem, na volúpia da tecnologia, esquecera-se de si mesmo. E no lugar de “o sertão vai virar mar”, como dizia o Antonio Conselheiro, ele gritava : “a cidade vai virar pó e o homem se desmanchará num vasto mar de orvalho”.

Despedi-me do Severino e comecei a pensar no que poderia ter acontecido com o Pacheco. Ele era uma pessoa introvertida. Não tinha família e só vivia para o trabalho. Não conhecia domingos nem feriados. Certo dia levou-me para conhecer os mocambos do Pirambu, nos arredores de Fortaleza. No primeiro em que entrei a cena era estarrecedora: crianças de dois a três anos,  nuas, sentadas no chão de terra ciscavam restos de comida. Os mocambos se sucediam, intermináveis. Pacheco olhou-me com olhar inquiridor:  “Como é que vocês pretendem resolver isto? Com Socialismo? Comunismo? Capitalismo? Democracia cristã? Anarquismo? Revolução armada? Resistência passiva? Desobediência civil? Kibutz? Igrejas Universais? Opus Dei?”
 Afastei-me em silêncio. Esta foi a última vez que vi o Pacheco.

Mais por curiosidade do que por piedade, pedi ao Severino que convidasse o Pacheco para ficar na minha casa, na Serra,  por alguns dias. A resposta veio rápida. Aceitaria de bom grado, com duas condições: Que eu fosse buscá-lo e que não fizesse perguntas. Fui buscá-lo levando, por precaução, um generoso estoque de sementes de girassol e ameixas secas. Recebeu-me com um largo sorriso. Antes de me abraçar agachou-se e fez um gesto de quem levanta um alteres, lembrando a ginástica que fazíamos todas as manhãs na praia de Iracema.  Olhou-me severamente e caiu na gargalhada. Não disse palavra.

Pacheco acordava cedo. Comia pouco. Não falava nunca. Sorria sempre. Saía todas as manhãs e percorria as colinas do vale caminhando lentamente. À tarde distribuía comida para os passarinhos e sentava-se à sombra do bambuzal para ouvir o canto dos sabiás.
Um dia não voltou. Foi encontrado no topo do Pico da Caledônia.  Sentado à mão direita... a salvo do bem e do mal.



22 março 2012

As raízes do Severino


No dia 6 de Setembro de 2011 publiquei uma crônica no Blog  “Curta Crônicas” atendendo ao tema Sabores , proposto para aquela semana.
Dei-lhe o título de “Raízes” porque pretendia falar do aipim em confronto com a batata, na gastronomia, fruto de uma conversa que eu havia tido com uma colega durante o chopinho  que sucedia às nossas aulas. Para fazer graça, iniciei o texto falando das nossas raízes culturais  derivando, em seguida, para as raízes alimentícias. Como não tive muito sucesso na discussão com a minha colega, no meu empenho em defender a supremacia do aipim sobre a batata, na crônica resolvi carregar nas tintas invocando o meu amigo Severino Mandacaru. Escrevi:

“Severino aproveitou a abundância da safra de macaxeira para implantar uma fábrica de tapioca”... ... “Mandaria amostras para seus clientes na  Holanda, para onde já exporta a raiz “in natura”. Severino estava duplamente feliz: caso a oferta vingasse melhoraria sua renda e, consequentemente, o PIB do país, bem como aumentaria o valor agregado de nossas exportações”.

Para meu espanto, no sábado, dia 7 de Janeiro de 2012,  o  suplemento  “ELA GOURMET” de O Globo publica na capa, em página inteira:

“Mandioca levanta o PIB”
“Deu nos jornais: graças à mais popular e brasileira das raízes comestíveis do país, o Brasil fechou suas contas no azul. A Rainha do Brasil foi a salvação da lavoura”.
A matéria segue, na página interna: “ O aipim, ou macaxeira  ...  recentemente se encarregou de dar um providencial empurrãozinho no PIB  brasileiro. Na última safra nacional, segundo dados do IBGE, a brasileiríssima mandioca puxou os dígitos para o alto. Foi, literalmente, a salvação da lavoura”

Transcrevo a crônica completa, para algum incauto leitor:


RAÍZES

Nossas  raízes são a nossa cultura. Quero dizer, nossa cultura é produto de nossas raízes. Nossas raízes são o nosso caldo cultural. E é na sua base que tem origem a afirmação da nacionalidade. Através delas nos fixamos ao solo pátrio, fortalecemos nossa personalidade, garantimos nossa saúde e, imaginem, consolidamos a nossa economia, assegurando o equilíbrio da combalida balança de pagamentos do país. Nossos índios sobreviveram graças às raízes quando a pesca e a caça escassearam  -  desculpem o  pesqueacaçaescassearam , mas não vou refazer isso.

Há poucos dias eu conversava com meu amigo Severino Mandacaru, que acabava de voltar de Cabaçeiras, onde fora inspecionar suas plantações de macacheira e inhame, raízes que lhe dão o sustento.  Voltou entusiasmado porque o inverno, este ano, havia sido generoso em chuvas, duplicando a sua produção. Severino aproveitou a abundância da safra de macaxeira  para implantar uma fábrica de tapioca, esse milagre sensorial  -  ia dizendo “organoléptico”, mas ele não iria gostar - , proporcionado pela exuberante raiz. Mandaria  amostras para seus clientes na  Holanda, para onde já exporta a raiz “in natura”.  Severino estava duplamente feliz: caso a oferta vingasse, melhoraria sua renda e, consequentemente, o PIB do pais,  bem como aumentaria o valor agregado das nossas exportações.

Falei de  “organoléptico”, e fiz muito bem. Porque um dia destes eu me envolvi numa acalorada discussão com uma colega que  se dedica à gastronomia  explorando aromas e sabores com grande maestria. Estávamos num grupo de controlados abstêmios e tomávamos chá de cevada fermentada  quando minha colega, gentilmente, me ofereceu batatas fritas. Aceitei de bom grado, até porque gosto de batatas fritas mas confessei que preferiria aipim frito, para acompanhar a bebida.

-- Mas, por que aipim frito?

Expliquei-lhe que a razão da minha escolha era apenas um apego ideológico às minhas raízes.

--  Mas a batata é mais saborosa, disse ela.
--  Mas o aipim é mais saudável, retruquei. Não discutirei o gosto. O aipim    é superior em tudo. Você sabia que a batata se decompõe a partir de duas horas de cozida? Faça uma experiência: Deixe uma batata e um aipim ao ar livre. A batata apodrecerá e exalará um odor insuportável. O aipim mumificará, esperando a sua consumação pelos tempos.

--  Mas a batata é mais versátil, atacou ela astutamente.

--   Se vamos falar de versatilidade  o aipim ganha longe. Com a batata você faz um purê, essa mistura esdrúxula de amido e leite e, se você o comer, terá grandes possibilidades de passar o resto do dia aventando flatos alegremente. Com o aipim você também faz um purê, mas não precisa de leite para lhe dar consistência e sabor. Depois disso, além da pecaminosa batata frita, principal responsável pela maior parte da celulite das nossas donzelas, o que mais você pode fazer com a batata? Já sei, a batata rosti, esse repositório descomunal de gordura saturada, porque é feita com manteiga, do contrário não teria sabor. Das batatas ao vapor e das batatas coradas, versão lubrificada das primeiras, nem vale a pena falar. Ah!, sim você vai me falar da vichyssoise, mas eu pergunto: Vale a pena estragar um alho porró para fazer uma sopinha? Bem, agora você poderia me dizer que a fécula de batata é importante para engrossar o queijo do fondue. Certamente, mas ela é importante na  Suíça porque lá  só se planta batata. Aqui pode-se fazer isso perfeitamente com a goma de mandioca.

A essa altura, percebendo que minha arenga interminável havia impedido minha colega de se defender, comecei a me sentir mal. Mas,  ao fazer uma pausa, ela disparou:

--  Para,  para! Chega, você está me embromando! Prefiro discutir isto diretamente com o Severino.

--  Isso. Isso mesmo, fale com ele. Ele vai lhe explicar as vantagens do aipim frito e as virtudes do purê de aipim, da tapioca, do polvilho azedo para fazer o pão de queijo e do doce para pudins, do pé de moleque feito com massa puba, que não tem nada a ver com pé de moleque do sul feito de amendoim. E vai falar, também da jóia das sobremesas do Nordeste: o bolo Souza Leão. Severino lhe ensinará a comer farinha de mandioca com mel de engenho e lhe mostrará o montão de farofas que você pode fazer para o seu feijão. E a casquinha de siri? De que é feita alem do siri?  Farinha de mandioca!  Isto sim, minha musa, é que é versatilidade.

E assim, após algumas taças de chá,  notei que o meu bolodório não a convencia. Ela me fitava complacente, sem bater pestana. Encarei-a com brio, mas não consegui articular palavra. Queria dizer-lhe que eu não estava ali defendendo sabores mas tão somente por fidelidade ideológica às minhas raízes. Levantei-me e me despedi com um beijo fraterno.
Assim que a encontrar vou pedir-lhe  desculpas. E às batatas, também.