21 maio 2011

O Urdume, a Trama e a Tramóia

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Precisávamos de fios. Muitos fios. Fios de lã. Fios crus de pura lã penteada. Com eles produziríamos o tecido que nos iria projetar na história da industria têxtil brasileira. Éramos jovens e sonhadores. Estávamos no último ano do curso técnico da indústria têxtil, o primeiro a ser criado no Brasil e seriamos a primeira turma a ser formada. Discutia-se a festa de formatura, que seria realizada nos salões do Fluminense,  àquela época um clube aristocrático. Os concluintes filhos de empresários queriam que o traje fosse smoking. Os paus de arara  de  Sergipe, Alagoas e Pernambuco, entre os quais o abaixo assinado, se opunham.

Reuni a turma e fiz uma proposta: Vamos tecer o nosso próprio pano e mandamos fazer o terno da formatura. Temos o tear mais moderno do mundo para tecidos de lã. Faremos uma gabardine perfeita e a tingiremos de azul marinho, a cor da moda de todos os executivos daquela época. Só precisamos de fios.Temos vários  lanifícios no Estado. Tentarei sensibilizar um empresário e talvez consiga que ele patrocine a primeira turma de técnicos formada no Brasil.  Afinal, é do interesse do setor. Talvez os fios sejam doados. Se isto não ocorrer, faremos uma vaquinha. Proposta aprovada por unanimidade.

Marquei entrevista com o gerente de um dos lanifícios. Quando falei em patrocínio ele deu uma risadinha, mas concordou em vender os fios. Discutimos o negócio: especificações, quantidade, preço, pagamento em espécie, etc. Negócio fechado. O gerente me encaminhou a um magarefe para acertar a entrega.

Os fios que se destinam às tecelagens são acondicionados em bobinas cônicas que têm como suporte um tubo de papelão rígido. O formato em forma de tronco de cone visa facilitar o desenrolamento do fio nas operações posteriores: urdideiras, para a formação do urdume e espuladeiras,  para a trama.  O peso da bobina cheia varia conforme o tipo de  fio e naquele caso era de 800 gramas. O tubete de papelão pesava 40 gramas.

Quando fui retirar os fios, o mequetrefe  entregou-me bobinas parcialmente usadas que continham, se tanto, 200 gramas de fio. A fraude era dupla. Primeiro: tratava-se  de bobinas descartadas porque, mal confeccionadas, arrebentavam demais durante o processamento. Segundo: a desproporção entre o peso do tubete e o peso do fio era evidente; nem precisava fazer cálculos para ver que estávamos comprando papelão a preço de fio. Quanto às rupturas dos fios eu nada podia fazer já que se tratava de uma hipótese ainda a ser confirmada, apesar das evidências. Mas, quanto ao peso dos fios não concordei e pedi que fosse  descontado o peso dos tubetes, já que representavam 20 por cento do peso total contra 5 por cento no caso das bobinas cheias. A discussão foi longa e inútil. Era aquilo ou nada. Saí com os meus fios, furioso e humilhado.

 O resultado não foi outro. Os fios partiam à toda hora. O trabalho era penoso. Revezamo-nos dia e noite no tear. Quando alcançamos a metragem  necessária ainda sobravam muitas bobinas, com uma camada ínfima de fio. Juntei tudo e parti para a fábrica a fim de devolve-las.  Para ajudar na negociação levei comigo quatro colegas escolhidos por peso, tamanho, e cara feia pois sabia que dificilmente aquelas bobinas seriam aceitas. Fui atendido pelo mesmo sabujo. Não foi preciso discutir muito para que aceitasse a devolução. Só que o  malandro ainda teve a coragem de colocar a condição que devia ter feito prevalecer por ocasião da venda:
-- Está bem, vou pesar o fio, só que tenho que descontar os tubetes de papelão.
Os quatro colegas circundaram o safado  cruzando os braços como faziam os valentões dos cabarés da Lapa. Foi o bastante para fazê-lo desistir da idéia. E, aí sim, vendemos o nosso papelão a preço de fio. Com todo o direito. Com toda a justiça.



14 maio 2011

ESCREVER


-- Vou parar de escrever. 

-- Por que? 

-- Estou enlouquecendo.

-- Mas você não precisa parar de escrever só porque está ficando louco. Você não  lê jornal?  Não viu como tem louco escrevendo? Preste atenção ao que dizem certos políticos. E os economistas, desvairados, quando analisam as crises mundiais, os superávits primários, a distribuição perversa da renda,  a deterioração das relações de troca, o corporativismo nas relações intersexuais dos povos nômades do baixo Cáucaso e sua influência na taxa de formação do capital, etc., etc...
Todos doidos! Eles conseguem comprovar  teses diametralmente opostas usando o mesmo argumento. E os nossos legisladores, baseados nessas informações, para nos proteger, danam-se a tacar impostos e aumentar juros. Você, pelo menos, não prejudica ninguém. Escreva loucuras. Ninguém notará.

-- Mas essa é justamente a minha preocupação. Quem vai ler? Tirando meia dúzia de amigos ...

-- Não se preocupe com isso. Sempre haverá alguém mais descuidado disposto a ler o que você escreve.

-- Acho que você não me entendeu.  Não duvido que pessoas abnegadas se disponham a ler o que escrevo. O problema é fazer com que o livro chegue a elas. Não há pessoas suficientes para todos os livros que são publicados. Eu lhe garanto: tem mais livro do que gente!

-- Como assim, tem mais livro do que gente?

-- Você já reparou quantas livrarias existem espalhadas pelo mundo? Comece pelo Rio de Janeiro. Quantas? E Buenos Aires, aqui visinho, que tem três vezes mais do que o Rio? Você conhece as livrarias de Nova York? São gigantescas! E Paris? E Londres, Frankfurt, Madri, Milão? Tókio tem uma livraria que tem sete andares com a área de um quarteirão! Não, não, isso dá pra enlouquecer! São livros e mais livros que vão se acumulando desde  Gutemberg, nas livrarias, nos armazéns, nas bibliotecas, nos arquivos, nos mosteiros,  nos museus e até na minha casa. Não há gente  para tanto livro. Só de pensar nisso eu enlouqueço.

-- Tenha calma. Acho que ainda há uma possibilidade de interromper esse seu processo de decomposição cerebral. Em primeiro lugar você está se precipitando. Se você não tem dados estatísticos confiáveis você  não pode concluir que não há leitores suficientes.  E aí a coisa se complica porque você teria que fazer um corte no tempo, calcular o número de livros em estoque nas livrarias nessa data, incluir as bibliotecas públicas, as particulares, os arquivos e sei lá o que mais, e ainda assim teria que fazer uma abstração deixando de  fora todo o material publicado em forma de jornais, revistas e boletins, sem falar em e-books, blogs e tudo o que  circula no espaço sideral ...

-- Pois é. Essa é a minha intenção. E eu comecei dando um passo bem modesto, analisando  um microcosmo que me permitisse montar um modelo a ser aplicado no resto do mundo.

-- De que maneira?

-- Pelo Rio de Janeiro. Com uma só livraria.

-- Como?

-- Você conhece a Leonardo Da Vinci? Sabe quantos livros tem lá dentro?

-- Não, por que? Você sabe?

-- Eu contei.

-- Impossível, você está maluco. Ninguém conseguiria fazer isso. Você perguntou pra Dona Giovanna?

-- Não. Não me atrevi, ela poderia desconfiar. Mas eu calculei. São 86.400 livros, com pequena margem de erro.

-- Nem vou lhe perguntar como você conseguiu fazer isso.

-- Veja bem, vou simplificar:  a livraria tem 5 salas com estantes que vão até o teto. Cada estante é dividida em compartimentos, todos iguais, graças ao bom senso do marceneiro. Achar o total de compartimentos foi fácil. Contei o numero de livros que existe em cada compartimento e chequei, por amostragem, com alguns outros, pois nem todos os livros têm a mesma espessura. Assim cheguei a um valor médio representativo, com boa margem de segurança, de todo o conjunto. Os compartimentos que armazenam dicionários e livros de arte, que são notadamente mais grossos, foram tratados em separado e receberam um coeficiente de correção. No piso da loja também há livros, distribuídos em gôndolas, cuja quantidade pode ser facilmente calculada tomando-se o número de livros por metro quadrado. O meu passo é bastante regular e com ele posso medir qualquer distancia com erro menor do que dois por cento. Determinada a área de cada sala tem-se o total de livros, com o cuidado, naturalmente, de descontar o espaço ocupado pelas vias de acesso, escadas, mesas e cadeiras da administração, coletores de lixo, e onde ...

-- Pára, pára! Vou lhe dar o telefone de um médico.

-- Que médico?

-- È o psiquiatra que me curou quando eu parei de escrever. Não deixe de procurá-lo assim que você acabar essa cerveja.
                                                                                    

03 maio 2011

A morte como ela é

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José Renato morreu ontem. 
O criador do Teatro de Arena de São Paulo, diretor de “Eles não usam black-tie”  e  “Chapetuba Futebl Clube”, Zé Renato, que revolucionou o teatro brasileiro em 1953, faleceu na madrugada de ontem, em pleno trabalho, aos 85 anos de idade.
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A noticia foi dada por uma espécie de necrológio não assinado, publicado na página 2 do Segundo Caderno de “O Globo” de hoje, dia 3 de Maio de 2011. Inexplicavelmente, o clássico “Obituário” que traz uma resenha biográfica dos mortos famosos, no caderno principal, não apareceu. ( o último foi o de Neuzinha Brizola, 56 anos, em 28 de Abril). O crítico de teatro Hersh Basbaun, citado na notícia, explica a importância de José Renato no teatro brasileiro:
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“Inaugurava uma nova estética, a qual, quando comparada com TBC, o must da época, provocava mil reflexões. Não bastasse isso, deu início a uma nova dramaturgia, pondo no palco o trabalhador brasileiro, arriscando-se a lançar um novo autor, o ítalo-brasileiro Gianfrancesco Guarnieri. Não parou por aí, encenando Vianinha, Chico de Assis e convidando Boal para a equipe”.
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José Renato se aposentou em 1966, quando dava aulas de direção na UniRio. Mas o que há de mais notável na vida desse homem é a sua morte. Aos 85 anos ele volta aos palcos atuando na peça “12 Homens e uma sentença” dirigida por Eduardo Tolentino em São Paulo. O diretor conta que na última representação de que participou, domingo dia 2, Zé Renato enxertou um caco na sua fala. Referindo-se a outro personagem, um velho, em lugar de dizer “o velho só queria atenção” ele diz: “ o que o velho queria era um pouco mais de tempo”. A notícia termina: 

“Após a sessão, José Renato jantou com o elenco. Em seguida uma amiga levou-o para o Terminal do Tietê onde tomaria o ônibus de meia noite para o Rio. Passou mal, foi levado ao pronto socorro, mas morreu de infarto na madrugada de ontem. O enterro será hoje no cemitério do Morumbí”
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Assim é a vida. Assim é a morte. Ou, como ela deveria ser.

Nota: Peço desculpas ao diretor  Eduardo Tolentino por ter dado uma  interpretação própria à fala de Zé Renato. O que ele chama de “ato falho” eu chamei de “caco” , uma ação deliberada,  premonitória.


27 abril 2011

As Feridas da Juventude - A Pátria

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  A  PÁTRIA

“A Pátria é a família amplificada. O sentimento que divide, inimiza, retalia, detrai, amaldiçoa, persegue, não será jamais o da pátria. A Pátria é a família amplificada.”
                                                                            Ruy Barbosa

A Escola Técnica de Indústria Química e Têxtil foi a primeira escola criada no Brasil para o ensino da tecnologia têxtil. Destinava-se a suprir pessoal técnico para o setor, substituindo técnicos e engenheiros trazidos do exterior. A Confederação Nacional da Indústria  dera muita importância a esse problema e escolhera o Senai para implementar o projeto. Num prédio enorme instalou oficinas e laboratórios com os equipamentos mais modernos disponíveis na época. Instalou também um parque esportivo, cozinhas, lavanderia e um internato, posto que os alunos vinham de todos os Estados do Brasil e muitos do exterior. A direção foi entregue ao Prof. Mario Souto Lyra, engenheiro que se havia especializado no Instituo Têxtil da Universidade da Carolina do Norte.
O regime era severo: oito horas de aula por dia e mais uma hora de estudo orientado, obrigatório, à noite. Aos sábados, atividades culturais.

Na primeira semana de aulas o Diretor reuniu os alunos para um anúncio importante: o aluno que se classificasse em primeiro lugar durante todo o curso seria contemplado com uma bolsa de estudos. Faria o “Master in Science”, de quatro anos, no Lowell Textile Institute, da Carolina do Norte. Eu vinha de Pernambuco, para onde tinha ido no começo da adolescência e havia completado, com muito sacrifício, o curso secundário na Escola Técnica do Recife, da rede federal de escolas industriais. Continuar os estudos depois do curso técnico só seria possível, para mim, se eu conquistasse aquela bolsa. Classifiquei-me em primeiro lugar.

Para chamar a atenção sobre a Escola, a Confederação Nacional da Indústria ofereceu um jantar ao empresariado têxtil, onde foi anunciada a concessão da bolsa. Entre as autoridades presentes estavam Euvaldo Lodi, presidente da Confederação, e D. Jaime Câmara, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro. Presente estava também o Professor Ivo A. Cauduro  Piccoli, que havia sido nosso professor de física durante todo o curso. Professor  eficiente e simpático,  tornara-se um grande amigo dos alunos.  Ele chefiava o departamento da Confederação que administrava as bolsas de estudo.
Terminado o jantar, parabéns pra cá, parabéns pra lá, salamaleques pra todo o lado, Piccoli  me chama a um lado e diz:
-- Venha amanhã ao meu escritório e traga seus documentos. Vamos tratar do seu embarque.
Fui pontual. Depois de um longo prólogo no qual  discorreu sobre o curso nos Estados Unidos, o professor pergunta:
-- Trouxe os documentos?
Entrego-lhe os documentos. Ele olha a carteira de identidade e solta um urro:
-- Italiano? Você é italiano?
-- Sou, sim. Todo o mundo sabe disso lá na escola. Estou tentando me naturali...
-- Não é possível! Todo mundo chama você de “Pernambuco”, como é que você pode ser italiano?
-- Pois sou. Estou pedindo a naturalização, mas a papelada ...
-- Eu não posso mandar um italiano representar o Brasil numa escola americana.
-- Mas...me disseram que a bolsa era um premio para o primeiro colocado e não ...
-- Não é possível, não é possível!

Meu mundo desabava. Eu não sentia o chão debaixo dos pés. A vista se turvou.
Vi a cara do meu pai, a quem eu havia prometido continuar os estudos por minha conta.  O professor continuava falando,  mas eu não ouvia mais nada.  Afastei-me de costas, fitando o chão  até encontrar a porta. Eu tinha vinte anos.
Completei meus estudos no Rio de Janeiro, aos quarenta e sete anos, casado e com dois filhos grandes.

“ A Pátria é a família amplificada” , disse Ruy Barbosa.


13 abril 2011

As Feridas da Infância - Um buquê para minha mãe



As feridas emocionais que sofremos na infância e na adolescência deixam marcas indeléveis. Atravessei a minha vida sem dar-lhes a menor importância mas, não sei por que, voltam-me à memória, agora, de forma perturbadora. Sei que de nada serve arrastá-las pelo resto da vida e me pergunto se poderiam servir para alguma coisa. Talvez sim. Talvez pudessem servir de alerta aos jovens para que se acautelem contra falsos protetores. Contudo, não saberia ensiná-los como fazer isso.

Quando tinha oito anos  minha casa ficava exatamente no pico do morro da Vila Maria, em São Paulo. De um lado, a partir do limite do meu quintal, o chão desaparecia e se podia contemplar a várzea do rio Tiete e o maciço dos edifícios no centro da cidade. Do lado oposto, ruas estreitas e vielas serpenteavam encosta abaixo até a base da colina  onde começava um brejo. O brejo era um pântano que abrigava um pequeno lago de solo arenoso e firme, onde se podia andar a vau. Em certos dias do ano, devia ser no outono, uma neblina pesada caia sobre o lago criando uma atmosfera de mistério onde me parecia ver duendes fazendo troça.

Eu escapulia de casa, quase sempre  sozinho, e corria até lá em busca de aventuras: brincar com uma rã, perseguir um lambari, comer um araçá ou colher alguns “botões” com os quais minha mãe decorava a mesa de refeições que ficava na cozinha de terra batida. Os “botões” eram uma espécie de junco: uma simples haste longa e rígida que terminava com um botão, uma inflorescência compacta, de superfície branca, lisa e aveludada, de diâmetro não maior do que o dedo médio. Com tocos de giz colorido que recolhíamos no quadro negro da escola, pintávamos os juncos, formando assim um buquê de flores. Esse era o ornamento mais comum em nossas casas.

Certa manhã, vendo que a mesa da cozinha estava desprovida de colorido, parti para o brejo. Não havia ninguém. Entrei, e com água pela cintura comecei a recolher os caules, que ia depositando sobre a areia da margem. Eu já havia recolhido um bom feixe deles quando apareceu um rapaz enorme, já  homem feito.
-- Olá! O que é que você está fazendo?
Expliquei-lhe o que fazia, espantado por ver um homem daquele tamanho que não sabia pintar juncos.
-- Eu também vou catar.
Tirou os sapatos, arregaçou as calças e atirou-se à água. Voltou com meia dúzia de hastes e depositou-as ao lado das minhas. Repetiu a operação com mais três ou quatro hastes e disse:
-- Vamos colocar tudo junto. Depois a gente divide ao meio.

Eu percebi a trapaça mas não podia fazer nada. Continuei empilhando juncos. O meninão ficou rodando de um lado para outro assobiando, apontando para os passarinhos, jogando pedrinhas no lago. Quando o feixe já estava bem grande calçou os sapatos, sobraçou o feixe, e foi-se embora assobiando. Não disse tchau.
Fiquei sentado, a cabeça escondida entre os joelhos, tentando esconder as lágrimas de mim mesmo. Eu não entendia. E não entendo até hoje.


07 abril 2011

Panem Nostrum Quotidianum




O pão nosso de cada dia. Esse é o pão.
O pão já tomou todas as formas que se pode imaginar. A “foccaccia” que aparece em algumas representações da Santa Ceia é feita, até hoje, tanto pelos camponeses da Lombardia, na Itália, como em qualquer outro país da Europa. Na Santa Ceia o pão foi distribuído  aos apóstolos e passou a representar o corpo de Cristo, que é transmitido aos fieis, pela comunhão, durante o santo sacrifício da missa. Hoje, na comunhão, come-se diretamente um pedaço de pão mas houve um tempo em que ele era representado por uma hóstia finíssima de trigo, geralmente preparadas pelas freiras dos conventos. As palavras do sacerdote a acompanhavam:

“Corpus Domine nostrum  Jesu Christi ...”

Sei que não deveria brincar com este assunto mas o próprio amadurecimento da Igreja me autoriza a fazê-lo. Porque me lembro como sofri em criança, ao comungar, quando a hóstia depositada sobre a língua me escapava e batia nos dentes. As advertências, nas aulas de catecismo eram severas: não se pode mastigar a hóstia, nem tocá-la com os dentes, porque ela representa o corpo de Deus. Eu ficava aterrorizado e me sentia, aos olhos de hoje, um verdadeiro canibal.
Atualmente, em muitas Igrejas, a comunhão é feita com pão de verdade, mastigável, mas ninguém me devolveu a alegria de compartilhar do corpo Cristo sem remorsos e culpas. E, certamente, meu sofrimento na infância não enalteceu o Senhor nem me tornou mais digno perante a sociedade dos homens.

... “custodiat animan tuam” ...

Quando meus filhos tinham 6 e 7 anos eu viajava muito e ficava longos períodos fora de casa. Numa dessa viagens, voltando da Itália, eu trazia um torrone de Cremona, considerado o melhor do pais. No primeiro jantar com a família abri o torrone para a sobremesa. Flamínio, o maior, levanta um fragmento da fina película de trigo que reveste  todos os torrones  e diz para a irmã:
- Olha, Flavia, igual àquele que a gente comeu na Igreja!
 Espantado, sem ligar coisa com coisa, eu perguntei:
- O que é que vocês andaram fazendo na Igreja?
- A gente estava na missa e viu que todo mundo formou uma fila e aí a gente também entrou e o padre deu um biscoitinho parecido com este.
Olhei para a minha mulher:
-Você permitiu que eles fizessem a Primeira Comunhão sem nenhum preparo? E ela, ainda mais espantada do que eu:
- Eu não estava nessa missa. E estou ouvindo essa historia pela primeira vez. Como você.

... “in vitam aeterna, Amen”.

Esse é o pão.