15 julho 2006

Muita banana por um tostão não é delícia !

Por volta dos anos 30, a Vila Maria era, para mim, um pedaço do Éden. Por maiores que fossem as agruras da infância paupérrima, não havia tempo para sofrê-las. A vida era tão cheia de vida, e eu me via crescer aprendendo coisas em ritmo tão alucinante que não me sobrava tempo para desgostos. Isso significava esculpir brinquedos de madeira a canivete, montar patinetes com rolimãs surrupiados ao meu irmão maior, molhar a horta com água puxada a sarilho de um poço, ralar queijo e fechar os raviólis nos almoços de domingo, ir comprar pão sem comê-lo pelo caminho, fazer bolas e mais bolas de meia para suprir as peladas de fim de tarde. Quando aprendi a ler, o mundo se alargou. E me tornei um grande devorador de Gibis, penosamente garimpados entre os amigos, ou encontrados no lixo, e consumidos, em êxtase, à luz de uma vela. Para elevar o meu padrão de consumo intelectual meu pai, aos domingos, me fazia ler o jornal e foi assim que, aos oito anos, tomei conhecimento de que se iniciava uma guerra. Só não conseguia entender o que era uma guerra. A Vila Maria era a minha Pátria. São Paulo era apenas uma paisagem. Uma paisagem deslumbrante. Da minha casa, encarrapitada no topo da colina, contemplava-se, lá em baixo, a imensa várzea cortada pelo Rio Tietê. A planície, aos poucos, ia se mimetizando, ganhando paralelepípedos, calçadas, casas, prédios, arranha-céus. Era o Centro de São Paulo! À noite, milhões de pontos luminosos faiscavam flutuando no espaço negro do universo. Eu tinha o mundo a meus pés. A Vila Maria dos anos trinta era um modelo de integração racial. Ali conviviam, xingando-se alegremente, portugueses, vênetos, calabreses e ainda uma família alemã, permanentemente ocupada em fazer geléias de frutas para sobreviver no inverno. Os portugueses predominavam. Eram, em sua maioria, motorneiros ou condutores de bondes. Motorneiro era, obviamente, o motorista e, como tal, a despeito do título do seu colega de trabalho, era quem conduzia o bonde. O condutor cobrava as passagens, e as registrava puxando uma alça de couro colocada sobre a cabeça, ao longo do carro, presa a um eixo que, por sua vez, acionava um relógio marcador. Cada registro produzia um sonoro “plimm!”. Cada plimm, uma passagem. Os condutores juntavam várias passagens para, só depois, marcarem os plimms correspondentes. A cada plimm, uma passagem. Alguns passageiros contavam atentamente plimms e passagens e concluiam que o condutor estava roubando. Cada um construía sua casa com a ajuda de todos os vizinhos com os quais não estivesse brigado. Assentavam-se os tijolos com barro e, depois de concluído o telhado, fazia-se a festa da “cumieira”, com muito chops e pastel. Eu ajudava a pisar o barro, freneticamente, com receio de que o menor grumo que permanecesse na massa pudesse comprometer a estrutura de tão complexa obra. Foi aí que aprendi a minha primeira lição de ciências humanas – a transitoriedade da vida: “Tudo no mundo é passageiro, menos o condutor e o motorneiro”. Como passageiro aprendi também alguns conselhos úteis, em forma de provérbios, que vinham estampados na parte posterior dos bancos: “Amor com amor se paga” e “Prevenir acidentes é o dever de todos” O Vila Maria era o 34. Percorria toda a planície da várzea pela Avenida Guilherme Cotchíng ( que hoje chamam Cótching, que Deus a guarde), galgava o Rio Tietê por uma ponte de madeira, subia a Rua Catumbi, virava à direita para entrar na Celso Garcia, passava pela Estação Roosevelt (ou seria a Estação do Norte?) de trens, alcançava a Rangel Pestana, subia a ladeira íngreme do último trecho e resfolegava no plano repousante da Praça da Sé. Contornava o prédio da Caixa Econômica, todo em granito preto como está até hoje e iniciava o caminho de volta. Pelo lado oposto da colina, em descida íngreme por vielas de terra, chegava-se ao Brejo. Era um alagado coberto de juncos e habitado por duendes e fadas que se reuniam, à noite, para ouvir a sinfonia das rãs. Era ali que ficava a chácara do hungarês, que criava vacas e vendia leite. Era hungarês, não húngaro. Nunca se lhe soube o nome. E foi com ele que aprendi a minha primeira lição de micro-economia, mais precisamente, o capítulo qualidade-preço. Questionado por uma calabresa magra como um envelope aéreo, sobre o preço que cobrava pelo leite, maior do que o da carrocinha que o entregava na porta, ele a olhou fixamente nos olhos, uniu os cinco dedos da mão direita, levantou-os até a altura da boca para abri-los numa explosão, tal como desabrocham as flores em câmara rápida que se vê na televisão e, unindo a palavra ao gesto, estalando a língua, decretou: “Muita banana por um tostão não é delícia!” 

4 comentários:

  1. uma nordestina...26 de julho de 2006 17:30

    Vixe! Fiquei bestinha de ler!!
    Que você e' inteligente e cheio de histo'rias/estorias pra contar ja' sabia. Agora que você sabia escrever tao bem sabia nao.
    Estou me deliciando com seu textos escritos de forma tao perspicaz. Completando o que a filha disse, levou tanto tempo mas mostrou os sentimentos de forma tao linda e tao poe'tica. Talvez foi por isso importante esperarmos tanto.

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