25 janeiro 2026

 

RECIFE, ENTRE PONTES E FANTASMAS

 

Recife me recebeu como quem oferece sombra num dia sem árvore. Cheguei com a alma ressecada de concreto, arrastando uma mala que fazia mais barulho que sentido. Severino Mandacaru, meu amigo invisível e ausente existencial, apareceu na saída do aeroporto , parado ao lado de um vendedor de passaporte falso, coçando o queixo inexistente e sussurrando:

“Chegamos, cabra.”

Recife é uma cidade que transpira pelas paredes. As casas têm o hálito doce da maresia e uma melancolia que parece estar sempre à espreita nas esquinas.

Andamos pelas ruas de paralelepípedo do Recife Antigo como dois personagens fora do tempo – eu suando e tentando encontrar poesia nos buracos da calçada e ele firme como uma metáfora espinhosa, admirando os casarões como quem revê parentes mortos.

No Marco Zero, Severino parou, olhou o mar com olhos que não existem e disse: “Aqui é onde tudo começa e tudo acaba, dependendo de quem conta.”

Eu perguntei se ele estava se referindo à cidade ou à vida.

“À vida, claro. Recife é só uma desculpa bonita.”

Depois caminhamos até uma feira onde comprei uma tapioca com queijo de coalho e ele, obviamente, não comprou nada mas reclamou mesmo assim:  “Nada disso tem gosto de Sertão. É gostoso mas é outro idioma.”

À noite, sentamos num boteco em Casa Amarela, entre um sanfoneiro e um poeta que falava mais com o copo do que com as pessoas. Severino bebia saudade em silêncio. Eu bebia uma cerveja morna.

 Ele contou de um amor que teve por uma moça de Olinda:  - era invisível também mas dançava frevo como ninguém. Tentei imaginar dois fantasmas se esbarrando no Carnaval. Rimos, como quem sabe rir. É mais um jeito de lembrar do que esquecer.

Recife não me explicou nada mas, também, não me cobrou respostas. É uma cidade que aceita metáforas.