19 junho 2017

O Presidente Eventual



Sou totalmente ignorante em matéria de política. Bem que tentei, no meu tempo de estudante, meter-me nas discussões, participar de comícios, opinar sobre isto e aquilo. Cheguei a ler Marx e Engels. Nada dava certo. Não demorei a entender que, com a cara e o nome que eu carregava, ninguém me levava a sério. Então, limitei-me a cuidar das minhas tapiocas.
No entanto, isso não quer dizer que não me interessasse pelos destinos do meu país e do seu comandante maior: o Presidente. Houve uma época em que eu lia três jornais todos os dias.: O “Correio da Manhã , “O Jornal” e o “Jornal do Brasil”.

Ora, se deu que, em 1954, o Presidente se suicidou. Comoção geral. O povo foi às ruas, não para quebrar coisas mas para prantear o seu Presidente. O lugar foi ocupado pelo seu herdeiro natural mas depois, seguiu-se uma longa discussão sobre se isso era legítimo ou não. Discussão da qual eu nada entendi. Sucederam-se vários presidentes, sempre com muita discussão e muita briga. Entre os últimos, creio que ainda estávamos no século passado, teve um que se mandou sem dizer água vai. Alegou que havia forças ocultas que não o deixavam trabalhar. No lugar dele entrou seu herdeiro, que deu muito trabalho porque muita gente não gostava dele. Até houve um plebiscito para saber se o povo gostaria que ele ficasse como pau mandado, mas o povo disse que não. Ele era muito querido pela população e fez um comício que ficou na História, o famoso comício da Central. Eu assisti a esse comício, não porque me interessasse por política, obviamente, mas porque eu desembarcara no aeroporto do Galeão, vindo de Montes Claros, e o motorista do taxi me comunicou que o trânsito estava bloqueado perto da Central do Brasil, por causa do comício. Já que eu não podia chegar ao hotel, pedi ao motorista que me deixasse perto do comício. E lá fiquei eu, em pé, bem próximo ao palanque, ouvindo os discursos. Foram muitos discursos. Quando tudo acabou eu, leigo que sou, disse pra mim mesmo: “Isso vai dar merda”.

 Porque de repente chegou um pessoal saído dos quarteis, metralhadora na mão, dizendo : “agora quem escolhe presidente é a gente”. E assim foi por muitos anos. Quando eles se cansaram de escolher presidentes, entregaram o trono a um civil dizendo:  “daqui pra frente é com vocês”.
Aí, não sei bem como, foi escolhido um novo presidente. E aí aconteceu um novo infortúnio:  Antes mesmo de tomar posse este presidente adoeceu e foi levado para um hospital. Foi empossado lá mesmo e, no dia seguinte, veio a falecer.
Foi substituído pelo seu eventual, um nordestino tranquilo, de bigode imponente, o qual, findo o mandato, passou o cargo para outro nordestino, eleito pelo povo. Este não era nada tranquilo, ao contrário, era brabo e saiu brigando com todo o mundo. Além de brabo, era meio tan-tan  pois saiu catando o dinheiro de todo o mundo com a promessa de que iria devolver tudo depois, e com lucro. Não sei se ele devolveu porque, no banco, eu só tinha mesmo os boletos das contas,  que eram pagas com a mesada que recebo da aposentadoria. Diziam, também, que entre as patifarias ele praticava, havia recebido um presente considerado muito suspeito: Uma Fiat Elba. Um vexame!
Então resolveram tirá-lo, e eu não sei bem como isso foi feito, porque, nessa altura, eu já andava tão cansado que parei de ler jornais e fui cuidar do meu reumatismo.

E aí veio um período tranquilo em que os presidentes, todos eleitos pelo povo, passaram a trabalhar com grande empenho, embora  nem todos concordassem com eles, fosse quem fosse o presidente. Normal, porque isso é próprio do sistema democrático. Pelo menos foi isso que pensei porque eu, leigo total em política, andava cuidando apenas do meu laburo e do meu reumatismo. Pois não é que, de novo, resolveram tirar o Presidente da vez? Acharam que este Presidente, mais exatamente, uma Presidenta, estava trabalhando mal e resolveram mandá-la embora. Isto, para muitos, foi considerado um golpe. O fato é que no seu lugar entrou o seu substituto eventual, tudo dentro da lei, segundo diziam os jornais, o que, obviamente, não correspondeu à opinião daqueles que o consideraram   golpista.  Pois agora, golpista ou não, estão dizendo que este é igualzinho ou pior do que  anterior e, por isto, vão mandá-lo embora também. Nada mais justo, até aí eu entendo.

 Já expliquei que, em matéria de política, sou completamente leigo mas, que diabos, leigo também tem alma! Pois agora vou dar minha opinião de leigo e pouco me importa o que vão fazer com ela. Porque achei curiosa a maneira com isto está sendo feito.
Acontece que, fosse lá por que motivo fosse, atribuíram, esta tarefa a um dos Poderes da República: o Poder Judiciário. O Judiciário é formado por vários Tribunais, cada um identificado com uma sigla própria. Não sei se existe diferença hierárquica entre eles, tipo, um pai e muitos filhos, sendo o Tribunal filho um complemento do Tribunal pai, ao qual deve dar satisfação das estrepolias  que pratica, o que faria deste o Judiciário de verdade, a menos que o filho, quando menor, tenha sido emancipado pelo pai, não precisando, assim,  dar satisfações ao pai. Não importa, até aqui tudo bem, sabendo que o Tribunal filho que está no jogo é aquele que cuida das eleições.  

Tudo bem, mas nem tanto. Porque agora, acabo de descobrir que os Juízes dos Tribunais, tanto o pai como o filho - ou qualquer que seja o seu parentesco - são nomeados pelo Presidente da República, e a ele, é de se esperar, devem fidelidade. Vão dizer que um juiz é um Juiz e que ele está acima dos interesses terrenos, portanto é imparcial. Ótimo, foi para isso que ele estudou tanto e até fala latim.  Absit injuria verbis.
E aqui entra uma grande confusão. Alguns juízes pertencem simultaneamente a um tribunal filho e ao tribunal pai. Outros só ao pai. Tem mais, alguns juízes foram nomeados pelo presidente escorraçado, outros pelo presidente que chegou ao cargo por herança. Será difícil conseguir coerência nesse caleidoscópio de interesses. Prova disso são as suas reuniões, longas e patéticas, enfadonhas, enfeitadas pelo tratamento de Vossa Excelência e enriquecidas por elogios recíprocos, datas vênias, ad perpetuam rei memoriam, ipsis verbis, causa finita, isto para não mencionar os floreios de linguagem jurídica, repetidos à exaustão para que se tornem válidos, nem os arroubos de histeria dignos de uma prima donna contrariada, para dominar o palco e comover os colegas e o público. Afinal, os Juízes, ainda que cobertos pelo manto negro da toga, são seres humanos.

 Alguma coisa está errada. No centro dessa discussão está a definição de quem é o autêntico presidente: se aquele que foi eleito pelo povo ou aquele que ocupa o posto por herança. E quem vai resolver isso são os Juízes indicados pelos presidentes envolvidos. Portanto, esses juízes não foram escolhidos pelo povo, como acontece com os presidentes. Decididamente, alguma coisa está errada. É preciso inverter a coisa. O povo é que deve escolher os juízes. E os juízes indicarão o presidente. Com uma condição: os Juízes removeriam aquele medonho manto fúnebre e seriam reincorporados à espécie humana.

-- E então?
-- Que então?
-- Então!
-- Então? ...  então ...  vamos todos para a praia!

FINIS

n.b.  ( nota bene )
Transcrevo o parágrafo introdutório do artigo publicado pelo mestre Nelson Mota no “O Globo”  de 16 de Junho de 2017 , na  página dos editoriais:

Há juízes bons e maus, preparados e incompetentes, burros e inteligentes, honestos e desonestos, embora todos, ou quase, se considerem num patamar acima do cidadão comum, pelo poder de decidir a vida e a morte de quem transgride  a lei.”