05 junho 2013

Quixaba !




Fazia tempo que eu não via o Severino Mandacaru. Depois, soube que ele havia embarcado. Achei estranho que viajasse assim, sem deixar palavra.
Tendo que ir ao Recife por alguns dias, resolvi procura-lo. Estava em Caruaru, voltando não sei de onde. Marquei com ele um encontro para comer umas tapiocas e trocarmos amarguras.
-- Então, Severino, que diabo você anda fazendo metido nesses sertões?
-- Você não sabe? Estou voltando de um lugar mágico. Uma cidadezinha do interior, contida em si mesma, altaneira, ignorada pela Coorte. Está dando um exemplo ao País em matéria de cultura e educação...
-- Não imagino qual seja. Tenho notado que Pernambuco está dando exemplos em matéria de turismo e no desenvolvimento industrial e...
É Quixaba, em pleno Sertão do Pajeú. Foi destaque no noticiário nacional por conta de suas escolas e agora seus alunos estão vencendo maratonas intelectuais em todo lugar do mundo.
-- Era lá que você estava este tempo todo?
-- Só um par de dias. É uma cidade pequena com seis mil e oitocentos habitantes comandados por um prefeito sereno e competente. Conta com três escolas estaduais de ensino fundamental e médio. Conta ainda com uma escola municipal que, como as outras, mereceu muitos destaques.

A Escola Tomé Francisco da Silva, no Distrito de  Lagoa da Cruz, conquistou, durante quatro anos consecutivos, o primeiro lugar em todo o Estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, obtendo notas que superaram as metas estabelecidas pela Secretaria Estadual de Educação. Em 2012 concorreu em nível nacional ao Prêmio Gestão Escolar e conquistou o primeiro lugar recebendo, por  isso, o título de  “ESCOLA REFERÊNCIA BRASIL”.
Não fazemos apenas diferente. Fazemos com muita paixão” diz Ivan Nunes, seu  gestor.

Visitei a Escola num dia de aula normal como qualquer outro. Quando se entra, a impressão que se tem é de que ali está se realizando uma grande festa. Tudo tem movimento. Nada é estático. As folhas das plantas se agitam no jardim bem cuidado e os livros parecem cantar. A alegria vibra e contamina o visitante. As paredes estão cobertas de cartazes coloridos incentivando à leitura, ao estudo, à dedicação, à solidariedade, ao amor. Não há espaços vazios. O semblante dos alunos, normalmente carrancudo em qualquer escola, ali resplandece refletindo alegria e felicidade.
Na Escola Solidônio Pereira de Carvalho, bem como na Escola Veríssima D’Arc e ainda na Escola Municipal São Miguel, no Sítio Gato, o ambiente é o mesmo: o entusiasmo, a competência e a dedicação se fazem presentes nos menores detalhes.  O  resultado se vê na expressão de alunos e professores.
Na Escola Solidônio Pereira tive a oportunidade de participar de um evento que estava em curso quando cheguei: Uma espécie de “Café Literário” no qual interagiam professores e alunos lendo e discutindo literatura num ambiente alegre e descontraído.
--  Pois é, meu caro Severino. E a gente ainda acha que conhece o Brasil.
--  Nessa  Escola também conheci uma senhorinha que, aos dezoito anos, foi nomeada a primeira professora de Quixaba. Na cidade ela é considerada a “pedra fundamental” de tudo isso. Casou-se com um galego com o qual aprendeu culinária italiana. Parece que faz sucesso lá no teu Rio de Janeiro.
--  A é? E ele, o que faz?
--  Ele faz tapioca e bolo de macaxeira.
--  Êta mundo bom!
--  Mas você não sabe da melhor, galego: Quixaba tem índice zero de dengue. Absolutamente zero.
--  Acredito.
--  E você não me pergunta como conseguiram isso?
--  Devem ter matado os mosquitos de tanto rir!
--  Teve uma Secretária Municipal de Saúde que ocupou o cargo durante 16 anos. Quando chegou a dengue ela encheu  uma bacia de larvas do mosquito e colocou-a na mesa do Prefeito, dizendo: - "Olhe isto! Temos que fazer alguma coisa”. O Prefeito respondeu de imediato: - “Pois faça logo!”
Aí descobriram que a piaba, o inocente peixinho que os matutos comem frito, era um valente devorador de mosquitos. Então encheram lagoas e riachos de piabas e proibiram a sua fritura. E nunca mais tiveram casos de dengue.
-- Fantástico, Severino. Preservaram uma espécie ameaçada e livraram a população do dengue. Posso dizer então que a piaba é o “animal sagrado” da região?
--  Como você disse, galego, este mundo é bom. Quando se sabe e se quer fazê-lo.


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