10 agosto 2021

FALA, SEVERINO !

Fala Severino É começo de inverno na Serra. No Solar do Cônego, onde convivo com minha quietude e meus gambás, a neblina cobre a paisagem expondo apenas o cocoruto do Chapéu da Bruxa. Um clima de nostalgia me invade a alma e me perturba o espírito. Vago com meus fantasmas. Com eles durmo e com eles acordo. Sou um fantasma de mim mesmo.

 Tiritando de frio, Severino Mandacaru emerge das brumas com um olhar desconfiado, como se temesse uma acolhida pouco amistosa. Longe disso, agasalhei-o o melhor que pude e preparei-lhe uma birita que uso nas festas de São Joao, cuja receita não me atrevo a divulgar.

 - “Seu Galego bixiguento, como é que você some desse jeito? Saí da Catinga impiedosa, daquela terra sáfara maninha, onde nem a macaxeira consegue vingar. Fui para o Brejo da Madre de Deus, perto de Caruaru e de Fazenda Nova. Você deve conhecer pois representou ali o espetáculo da Paixão de Cristo ”.

 Tem razão Severino, lembro-me bem. Era o final da década de 50. Fui lá muitas vezes. O espetáculo durava três dias e era representado num cenário construído em pedra pelos artesãos locais, matutos pouco instruídos, porém artistas brilhantes que fariam inveja a um Michelangelo. E o mundo não sabia disso. José Pimentel fazia o Cristo e Ilva Ninho, a Mãe de Jesus. Clênio Wanderley dirigia o espetáculo e fazia o papel do Judas. Eu fazia o São Longuinho, o Soldado Romano Longinus, cego, que recupera a visão quando o sangue de Cristo, já crucificado, jorra sobre os seus olhos. Eram todos meus heroes.

 - Desculpa, Galego mas eu não vim aqui para conversar firulas e sim falar de coisas sérias, muito sérias.

 - Fala, Severino, desabafa !  Você me conhece. Enfrentamos juntos muitas encrencas durante a nossa convivência. Lembra-se de 64 ?

 -  Eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu não sou mais nada. Eu não sinto mais nada. Eu não falo nada. Nada penso, nada cogito. Eu não   sonho. Não choro. Não rio. Não sei se estou dormindo ou acordado. Sou um zumbi, um morto-vivo.

 - Calma Severino, eu explico: Isso é causado pela Pandemonia, assim como ela é, sem acento nem endereço, que deveria ter sido uma epidemia, depois glorificada como Pandemia e finalmente absorvida e demonizada por este Pandemônio que a nossa sociedade produziu.

 Da solidão em que vivemos no meio de tanta gente, parentes, amigos, vizinhos, afetos e desafetos, admiradores, bajuladores, sonâmbulos, almas penadas  . . . e os capetas.

 Da escuridão tenebrosa que nos envolve. Num céu sem lua e sem estrelas.          Sem relâmpagos. Sem raios. Sem lâmpadas, sem faróis, sem candieiros, sem lampiões. E nem, ao menos, um vagalume.

 Do isolamento em que vivemos, sem médicos nem enfermeiras, sem barbeiros, a velha faxineira que te arrumava a casa, e o velho Biu, o quebra-galho que consertava tudo, desde o cabo de uma panela, uma lâmpada que não acende ou a prateleira que desabou no armário.

Para aqueles chamados de “terceira idade” ­- não sei quem inventou isso, nem me explicaram o que são as duas idades precedentes - a coisa fica mais complicada. Em confinamento severo, sem contato com o público, como exigem as recomendações médicas, você precisará de alguém para qualquer coisa que precise. Um pedaço de pão na padaria, uma banana na quitanda ou o papel quotidiano para limpar o fio-fó, alguém terá que buscar para você. Essa tarefa, quando possível, é assumida por alguém da família a qual, por sua vez, está empenhada na sua própria sobrevivência. Claro, você tem a internet, esse prodígio tecnológico, com suas chaves, senhas, códigos  algoritmos, que podem lhe trazer tudo o que você quer e muito do que você não quer. Mas esse é um trabalho exaustivo e complicado demais para um idoso digno desse nome.

 Portanto, meu caro Severino, se você se sente vazio, celebre esse vácuo com alguém, Faça grandes festas. Inspire-se nas cores esparramadas pelo sol na tela do firmamento. Plante um pé de manacá. Vá jogar xadrez.  Cante um frevo do Capiba. Adote um gambá.

 E lembre-se de uma coisa:   o tempo é maior bem de que dispomos. Não o desperdice. E saiba que o pior modo de desperdiça-lo é quando o passamos sozinhos. Cative seus amigos.

 Se nada disso der certo leia estes versos do Augusto dos Anjos, dê uma pirueta e solte uma gargalhada.

“Tome, Dr. esta tesoura . . . e corte 

Minha singularíssima pessoa

Que importa a mim que a bicharada roa

Todo o meu coração, depois da morte ? !

 

 

27 maio 2021

O Bolodório

O Bolodório 

O Bolodório

 

Companheiro inseparável da verborragia é o bolodório. Mais ameno do que aquela este, ainda assim, enrosca-se em nossas mentes num palavreado redundante, repetitivo e enfadonho. Basta observar nos noticiários da imprensa, falada ou escrita, como discutem políticos e comentadores, repetindo chavões e conceitos gastos e tautológicos. Sem falar na linguagem chula e ofensiva quando discutem entre si.

Eu mesmo tenho procurado me policiar quando me vejo cacarejando numa roda de amigos, ou martelando bravatas que o destino me levou a gravar em papel. Por falar nisso, o livro está se difundindo, o que me deixa muito feliz. Acabo de encontrar um, em um Sebo de São Paulo. Comprei-o e o estou relendo como se novo fosse, anotando as verborragias e bolodórios com que castiguei meus incautos leitores. O que me faz lembrar do meu amigo Cândido Albino das Neves, aquele brancola fogoió,  perdido em Cabaceiras, na austera Paraíba.

Cansado da mesmice a que estava condenado, Cândido resolveu dar no pé. Em sua anástase, ressurgiu com alma nova. Mais puro, mais indulgente, mais humano. Antropomórfico, viu-se representado por um deus de oito braços abarcando um globo terrestre bífido que ele tentava manter unido. A seus pés uma cártula indicava o seu destino. Sua dromomania faria o resto. Temia ser considerado capto da mente e, antes que isso se confirmasse, mandar-se-ia para outros mundos. Novas terras, nova gente, novos ares. Novas cores, novos sons, novos sabores, novos amores.

Sua heterotopia deu-lhe fama. Fama e tédio. Não suportando mais a monotonia em que se metera, ouvindo bolodórios daqueles piriricas o tempo todo, excogitou sair-se da enrascadela e demandar por novos ares. Deixaria seus alunos com o assistente, aquele samango lutulento e mendaz que não fazia outra coisa senão preparar pernadas para tomar-lhe o lugar. Pois agora o teria.

Palavras, para que vos quero ?  Para ter uma verborreia ?  Para clamar aos quatro ventos ?  Será que com elas consigo fazer rir ? Fazer chorar ?  Saberei aproveitar as que me vieram nos sonhos como no caso de “A Pena da Morte”, quando vaguei a esmo, sem saber onde pousar o corpo nem o espírito:

“A pena desenhava no ar letras malfeitas

Que eu arrumava sem zelo, em linhas tortas

Para que fossem consideradas letras mortas

E assim passou-se o tempo

Minha alma levitava em desatino

Recusando-se a cumprir o seu destino:

Mergulhar no espaço sideral que eterno dura

Onde pudesse iniciar vida mais pura”


Palavras, palavreado, palavrório, tagarelice, algaravia,  cantilena, bolodório ...

Agora chega. Vou cuidar das minhas tapiocas.

 

10 maio 2021

A Verborragia de todos nós

A Verborragia de todos nós 

“ Verborragia é sangria desatada “.

 Pelo menos era isso que dava a entender o Severino Mandacaru quando era instado a cumprir alguma tarefa com rapidez. Ele dizia:  “ Danou-se, pra que essa sangria desatada ? ”

 “ Vou explicar, Severino. Mas antes, me diga uma coisa: como vai o teu confinamento ? ”

“ Entre quatro paredes, como todo mundo “.

 Pois é.  A Pandemonia nos apanhou a todos, sem acento nem endereço e já lá se vão um ano e dois meses. Desmantelou tudo. A economia, o convívio social, o relacionamento entre amigos. e, suprema desgraça, os laços entre pessoas de uma mesma família. Os políticos ficaram mais políticos. Os corruptos ficaram mais corruptos. Os governantes governam menos e alguns até se transformaram em mercadores da governança. Vejam bem : eu disse “alguns”, o que significa que “não são todos” . Se são muitos ou poucos eu não sei.

 Perguntei ao Severino como andava o seu confinamento justamente porque cheguei à constatação de que a privação do convívio social durante tanto tempo levou as pessoas, todas as pessoas pandemonizadas, a uma loquacidade incontrolável, disputando a primazia da palavra, despejando discursos vazios e repetitivos, muitas vezes defendendo teses contraditórias, convencidas de que estão agindo por inspiração divina. Como o encontro pessoal não é possível, utilizam-se os WhatsApp da vida e o telefone celular. É difícil e penoso ouvir o seu interlocutor sem poder interrompê-lo nem que seja para felicitá-lo pelas suas ideias. Mas devo fazê-lo pois preciso passar por essa catarse para completar o que me resta nesta vida provecta alegre e feliz que minha família está me proporcionando, ao lado da minha esposa.

Pequenos conflitos são inevitáveis mas a discussão honesta e civilizada, ao lado do respeito pelas ideias alheias, acaba restabelecendo a harmonia.

 Por força do meu trabalho desenvolvi a fama de mandão. Fui mandão sim, nas fabricas em que trabalhei. Passei uma vida dando ordens em fábricas onde prevalece a responsabilidade pelas ordens emanadas e onde o menor vacilo pode resultar em grandes prejuízos. Mas, na família, também há situações em que você precisa tomar atitudes severas para manter o barco flutuando, levando-o até o porto.

Resta-me o consolo de que, durante a minha carreira, recebi inúmeras manifestações de apoio.

 

 

19 abril 2021

E aí Garela, tudo bem ?

E aí Garela, tudo bem ? 

Acoimado que fui nas mídias sociais só porque me recusei a discutir política na forma turbulenta em que ela hoje é feita, em que todos se acham iluminados e detentores exclusivos do segredo do Santo Graal, tive que encontrar alguma coisa que pudesse dar um pouco de alegria a estes rabiscos. Logo agora que entrei no último período do padrão cronológico com que meço o escoamento do tempo que ainda me cabe nesta efêmera existência.

Mas antes de mais nada, quero agradecer ao meu incauto leitor (ou leitores, se tiver mais de um) por ter tido a coragem de abrir esta crônica, apesar do título estapafúrdio que carrega. Ou que, por comiseração, tenha pensado que fui brindado com uma patranha do corretor ortográfico. Nada disso. O título é meu, em toda a sua plenitude, e significa “perdiz que está no cio”. Entretanto, não pretendo usá-lo com essa acepção. Vou explicar.

Todo mundo conhece aquele chinesinho simpático e inteligente que está sempre no YouTube ensinando receitas para curar as   mazelas que nos atacam o corpo e o espírito. E o faz com muita competência. Chama-se Peter Liu, é médico, fala perfeitamente o português brasileiro mas com um sotaque evidentemente chinês. Nos inúmeros vídeos que publica, ele sempre se dirige ao seu público dizendo : “Olá, pessoal, eu sou  Peter Liu etc. . . .” Todavia, em um deles, eu o ouvi dizendo  “ Olá, Garela !, eu sou  Peter Liu, etc . . .

“ Obviamente ele queria dizer  “ Galera “ mas a sua fonética não o permite. É sabido que o chinês troca o R pelo L, e vice-versa. Quem já foi ao mercado da Rua 25 de Março, em São Paulo, sabe disso. E, se você perguntar à chinesinha da loja de eletrodomésticos que está te atendendo se o produto que você escolheu é autêntico, ela dirá: “Não senhor, mas é genélico galantido”.  

Tenho muito apreço pelos Chineses, independentemente do seu sistema político e dos vitupérios de que vêm sendo alvo ultimamente. Tive contato com profissionais chineses do  meu ramo, não tão grande como o dos japoneses mas o suficiente para consolidar minha admiração por eles. Um exemplo simplório disso foi quando, em Natal, eu preparava a implantação da Fábrica de Tecidos Seridó e o Grupo Empresarial me pediu que elaborasse um ante projeto de malharia, que seria oferecido aos chineses. Um grupo de técnicos chineses veio a Natal para discutir o projeto. Dois dias antes, eu havia sofrido uma luxação no tornozelo direito. Doía muito e eu mancava, caminhando com certa dificuldade. Mesmo assim fui à reunião. No final, quando todos se dispersavam, um dos técnicos me abordou e disse :

“ Eu notei que o senhor parece que está machucado.” Relatei o que me havia sucedido. “ Se quiser, gostaria de examiná-lo. Após o jantar irei ao seu quarto.” O técnico, agora médico, virou meu pé pra cá e pra e pra lá, pra cima e pra baixo, apertou aqui e ali, deu dois suspiros e desejou Boa Noite. E eu dormi como um Anjo. No dia seguinte não sentia mais nada.

Eu falo mais sobre os Chineses em outro lugar e em outra época. Está na Crônica nº 85 de 12 de Maio de 2012. Faz um tempinho, hein ?

 

  

 


02 abril 2021

O Ar das Coisas

O ar das Coisas Mas, por que quis eu retirar o ar das coisas ? E que “coisas” eram essas ? A resposta me veio pelo Severino Mandacaru. Foi ele que me admoestou em tempo hábil. Emergindo das brumas do Outono, sua silhueta foi tomando corpo e ele começou seu discurso com uma frase clássica:

“ Seu galego safado, o que você andou aprontando ? Soube que você saiu por aí dizendo que iria “tirar o ar das coisas” sem explicar o que eram as coisas nem o ar. Tá ficando leso, é ?

“ Calma, Severino. Eu apenas estava me dedicando a retirar o ar do ambiente em que vivem algumas coisas, por motivo nobre. Porque, certas coisas, em contato com o ar, oxidam. O ferro, por exemplo, enferruja, o leite, talha e o caldo de cana fermenta. Além disso, eu não estava inventando nada. Eu apenas estava cumprindo ordens do Flamínio. Lembra quando ele disse que eu ia trabalhar ? Ele me explicou : ”

“ Tenho muitos produtos no Bistrô que devem ser consumidos frescos e a melhor maneira de conservá-los é a embalagem a vácuo. E um belo dia chega o Flamínio com uma camionete e despeja uma máquina seladora a vácuo e enormes caixas contendo nozes, amêndoas, avelãns, castanhas, sementes de girassol e uma quantidade enorme de cereais. Agora divirta-se e me avise quando alcançar a eficiência de 90 por cento.”

Assim foi e assim será.

As voltas que o mundo dá ! ! !

 

 

31 março 2021

Memórias de um Vácuo

 

As voltas que o mundo dá! Que futuro nos reservam os caprichos do destino ? Não, não foi o corretor ortográfico que escreveu isso aí. Quem sugeriu esse título foi o Flamínio, lembram ? Aquele pirado  . . . Epaa . . . eu quis dizer “inspirado” (agora já foi), aquele pirado empresário que criou, juntamente com o Jurandir, seu colega de piração,  a  “FLAJUR – Turismo de Aventuras”, que nos proporcionou  excursões emocionantes para conhecer a gastronomia e o mundo dos vinhos na Argentina, Chile e no Sul do Brasil.

 E, por que o título ? Porque eu não estava fazendo nada. Eu tinha virado vácuo. Eu era o vácuo dentro do vácuo. Vácuo no tempo. Vácuo no corpo. Vácuo na alma.

E assim passou-se o tempo. Durante o dia eu me sentava voltado para o Poente, esperando pelo Crepúsculo. Durante a noite eu me sentava voltado para o Nascente  esperando pelo alvorecer.

Até que um dia o Flamínio, com voz solene, falou:

 “ Seu vácuo acabou. Aqui está a sua máquina. Trate-a como você tratava as cardas e os filatórios. Você vai trabalhar e será remunerado, como um bom proletário, como aqueles que você protegia nas fábricas de tecido. Ganhará por produção como ganhavam as tecelãs e os contramestres. E ficará feliz quando o índice de eficiência alcançar os 90 por cento.

 E eu passei a extrair o ar das coisas. E soltá-lo no firmamento, oxigenando o meio ambiente. 

 Que voltas o mundo dá !

  

 

16 março 2021

Dever de casa : Contar os Mortos

Dever de Casa:contar os mortosrtos 

Nunca imaginei que atingida a idade provecta em que me encontro eu tivesse que me incumbir de semelhante missão. Isso mesmo : contar quantos cadáveres foram produzidos pela Pandemonia sem acento nem endereço. Na semana que vai do dia  6 ao dia 13 de Março de 2020 foram abatidas 12.954 almas pelo Coronavirus, o que dá um valor médio de 1.850 mortos por dia neste país. Para termos uma ideia do que esta cifra significa, reporto-me ao dia em que comecei a anotar os números desta dança macabra. Em meados do mês de Abril andávamos por volta dos 150 óbitos por dia.

 A curva foi crescendo rapidamente até chegar a um ápice de 1.038 em 30 de Junho. Daí, por força divina ou pelo bom comportamento de nossas almas, a curva despencou e chegou  a 344 casos, medidos pela media semanal, em 7 de Novembro de 2020. Alegria geral em toda a nação. Vamos comemorar. Tragam cerveja e carne ! O Natal vem aí. E o Ano Novo ? E o Carnaval ? Está tão perto ! Sim, o Carnaval está perto . . . Mais uma vez tenho a satisfação e o orgulho de citar Sidarta, o Araujo, pela sua visão profética sobre o que iria acontecer com a nossa Pandemonia ao descrever o Carnaval de Olinda, em Pernambuco:

“Fevereiro de 2020, Carnaval em Olinda, Pernambuco. Cerveja, cachaça, e milhares de pessoas subindo e descendo ladeiras, um prodígio de organização espontânea que logra proteger músicos e carros de som do caos turbulento. A multidão enche as ruas, pula, grita e se liberta de tudo o que não é amor. Um povo em gloriosa intimidade consigo mesmo. Minha visão se turva de cores, sons e cheiros. Seria tudo isso uma alucinação?  Fecho os olhos e tento vislumbrar o futuro. O que será preciso fazer para deter a explosão planetária  do coronavírus ? Será o fim de beijos, abraços e convívio? Sobreviveremos a todo esse isolamento? Haverá Carnaval no ano que vem ? Escuto com nitidez a voz de Caetano Veloso: - Não se esqueça de mim/Não desapareça ”

Em 14 de Fevereiro de 2021 a média semanal já havia alcançado 1.079 óbitos. Em de 13 de Março saltou para 1.850. Ou seja um aumento de 70 por cento em apenas um mês ! Para onde vamos ? O que devemos fazer ?  Quem nos orienta ?

Orientação é o que não falta. Cada autoridade diz uma coisa e todas elas brigam entre si. A economia, sufocada pela Pandemonia, está em frangalhos e esses frangalhos são administrados por outros frangalhos, todos raivosos, em permanente conflito. Dos legisladores não vou falar, por falta de competência. E antes de ir embora apresento minhas escusas:  absit injuria verbis, data vênia”, não é, Senhor Todo Mundo ?

 

 


 

 

04 março 2021

Um pouco de mim mesmo

 

E  já que é preciso mudar, mudemos. Começo descaradamente falando de mim mesmo como se eu fosse o epicentro dessa onda sísmica que chamei de Pandemonia, sem acento nem endereço. Confinado entre quatro paredes, tolhido nos movimentos do corpo pela vetustez da idade, só me resta escarafunchar os meandros da memória à espera de que uma lamparina me ilumine. Para que ? Para falar de mim mesmo ! Coisa feia, dizem uns. Concordo. Até Dante Alighieri criticou esse hábito pernicioso de incomodar os leitores. Então, vamos ao que conta.

 Em Setembro último aconteceu algo que me deixou perplexo e extremamente feliz. Minha filha Flávia reuniu parentes e amigos para fazer-me uma surpresa: a edição, em livro de verdade, das Memórias, aquelas do Vago que andava meio perdido no tempo e no espaço.  

E, quando menos espero, me vejo diante de uma bela encadernação. 345 páginas.             

ISBN 978-40-0O65-86823-40-0

São livros ! Preciso distribui-los. Começo a preparar a lista dos amigos. Mas, e os autógrafos ?  Os autógrafos !

Vaidoso como um pavão, danei-me a disparar autógrafos como se os meus incautos leitores não pudessem perceber a vaidade embutida. Aos mais íntimos, escrevi palavras de carinho e incentivo. Aos demais, escancarei minha alma com coisas do tipo “ao amigo . . . “ um pedaço da minha vida” ou “um pouco de mim mesmo”  ou  “um pedaço de mim mesmo”.

Epa !!! A lamparina acendeu ! Já vi isso em algum lugar. Corri para abrir o gigante livrinho do Sidarta, o Ribeiro. Estava lá, “PEDAÇO DE MIM”. No artigo, o famoso biofísico trata das amputações que sofremos em nosso corpo e suas consequências. Eu entendi, de pronto, o que isso queria dizer pois, por volta dos 30 anos de idade, eu fui operado de apendicite. Durante a convalescência eu sentia uma dor na barriga, o que é normal durante o período da cicatrização. Mas essa dor voltou aparecer, esporadicamente, durante mais de um ano. Voltei ao médico  várias vezes e ele me dizia, com ar filosofal, esticando a palavra e empinando as sobrancelhas : “ Remi...iniscê...ncias ...” e nunca me explicou que diabo era aquilo.    

Ao tratar a amputação de partes do corpo, Sidarta explica:      “Frequentemente, as penas psicológicas e sociais da amputação vêm acompanhadas de uma dor mais bruta, fruto da percepção fantasmagórica do pedaço perdido” . . . . . . .   “Decepado de forma acidental, o membro leva consigo terminais nervosos que não se se reconstituem no coto”.

E a mutilação da alma ?  Dos sonhos decepados ? Dos amores destruídos ? Dos desejos ceifados ?  Conseguiria o cérebro  “transformar em dor a saudade do pedaço que perdeu” , como diz     o próprio Sidarta ?  

Reminiscências . . . !  Dr. Evandro, médico cirurgião.  Morava na Rua Manoel Borba, no Recife. Eu morava numa pensão da Praça Maciel Pinheiro. Bons tempos aqueles.    

 

 

16 fevereiro 2021

A Mansão no Paraiso

 

 “ É preciso mudar para que tudo fique como está.” 

Esta declaração foi feita por Giovanni Tommaso, conde de Lampedusa, na obra  “ Il Gattopardo ”, onde ele narra a decadência da aristocracia italiana e a luta de Garibaldi pela unificação da Italia.

Se você não mudar, você não permanece o mesmo, você regride, pois tudo à sua volta estará progredindo, inclusive a Pandemonia, essa praga inclemente que nos mantém entre quatro paredes, perambulando como almas penadas. E assim vamos levando, alimentados por comida que nos chega no lombo de uma motocicleta, e remédios entregues pelo correio. No Banco, ninguém pisa mais e o dinheiro circula nas telas do celular. Pagamos contas e fazemos consultas médicas com os APPs ou Tizapps, e trocamos informações  através das mídias sociais, esse prodígio tecnológico que tanto nos pode elevar intelectualmente como imbecilizar pela resto da vida. E cuidado que, como qualquer goiaba bichada, elas chegarão com seus hequers, feique níus e a alma do capeta disfarçada em querubim alado. Cuidado ainda maior com os algoritmos programados para determinar como vai ser o teu futuro, bagunçar o teu presente e escarafunchar o teu passado.

Portanto, como aconselhou o Conde de Lampedusa, estou mudando. Fiz uma visita ao meu bambuzal no Solar do Cônego, onde passei tantos anos cuidando dos meus gambás, jacus, saíras e micos, e contemplando o Chapéu da Bruxa. Ao longe, a  Montanha de Narayama impunha sua majestade  sobre o vale, esperando novas visitas. Os deuses, me olhavam de soslaio. Eu disfarçava e fingia contemplar a neblina.

E assim voltei ao meu Castelo, com seus ditosos 40 metros quadrados. Uma coisa porém, havia mudado: as pernas que me sustentam não são mais as mesmas. O centro de gravidade perdeu seu prumo. O equilíbrio é incerto. Deslocar-se é uma aventura.

Foi quando meu filho me convidou para uma caminhada, Como ele me acompanhava, aceitei de bom grado. A poucos metros do Castelo, bem próximo do Bistrô Primavera, entramos por uma vereda arborizada e bem pavimentada. Andamos durante cinco minutos até chegarmos a um imenso jardim florido. Nele, três bucólicos chalés, distantes entre si, pareciam formar a ante sala do Paraíso. Num deles, um portal em arco era coroado por um bouganville lilás. Parando na frente, meu filho decretou:

“Aqui está sua nova residência”

E foi assim que eu me mudei para a Mansão no Paraíso.

 

28 janeiro 2021

SIDARTA

 

Encontrei no Sidarta Gautama o Buda que viveu no Século  VI, as palavras de consolo e incentivo de que precisava para sobreviver neste mundo de Pandemonia, sem acento nem endereço, a que fomos submetidos. O confinamento domiciliar, obrigatório para os idosos e desocupados e o “home work”, que resulta na mesma coisa para os que trabalham, bem como a impossibilidade de circulação livre de pessoas, são medidas profiláticas imperiosas para impedir o avanço da Pandemia. Os dados divulgados pelas “otoridades” sanitárias mostram que esta situação vem se agravando a cada dia. Diante desse quadro, as esperanças de um mundo melhor vão se desvanecendo. O relacionamento entre os grupos sociais vai-se deteriorando.  As pessoas se tornam apreensivas e sentem medo. Cria-se um clima de desconfiança e ninguém se entende mais.

 Como se não bastassem essas mazelas, constatamos que a vida do cidadão virou um pesadelo com o emaranhado de exigências burocráticas as quais, graças ao avanço tecnológico, só podem ser desvendadas através do celular, com o apoio de mil penduricalhos criados por “apepês” e seus complementos que nos invadem a alma e o cérebro  com uma publicidade porca e nefasta como se fôssemos todos débeis mentais. É de graça? Sim. É tudo de graça, desde que possamos digerir a propaganda desvairada.  A indústria alimentícia, e o seu coadjuvante, a farmacêutica, que o digam.

 Na vida quotidiana estamos atrelados a um sistema político-administrativo totalmente atrofiado, onde predominam disputas internas, conflitos de poder, dissipação de recursos, interesses espúrios, tudo isso sustentado, em sua iniquidade, pelo suor dos trabalhadores mais humildes, os que se chamavam antigamente  de proletários. E por falar nisso, o micro empresário, esse proletário moderno, é penalizado por trabalhar.

Para “facilitar” sua vida, o micro empresário foi convidado a acolher-se a um programa ironicamente denominado “Simples”, que transferiu para ele todas as tarefas de uma intrincada legislação fiscal que nem o seu contador consegue acompanhar, inclusive a de provar que não está roubando. Basta ver o sistema de tributação de sua empresa, criado inicialmente para isentá-lo de alguns impostos. Só para ver um detalhe, existe coisa mais complicada (para não dizer inútil) do que um Danfe?

 E a política? O Estado do Rio de Janeiro, que já foi Capital da República, tem hoje cinco governadores destituídos do cargo  cumprindo pena em cadeia, ou sob processo.

Feita essa digressão, volto ao problema que nos aflige:

A Pandmonia, sem acento nem endereço, e seus efeitos deletérios sobre o comportamento das pessoas em confinamento.

Dizia eu que havia apelado ao Buda Sidarta à procura de ensinamentos e consolo. Para começar, separei algumas frases do imenso ideário de santo filósofo.

  Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim.”

“Não se combate ódio com ódio, mas sim com amor”.

“O ódio nunca desaparece, enquanto pensamentos de mágoas forem alimentados na mente.”       

“Sua tarefa é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se a ele.”

 Epa !  Aconteceu algo. Enquanto meditava sobre as frases, caí no sono. Não sei quanto tempo dormi mas agora, esfregando os olhos, eis que me vem à mente a palavra SIDARTA, cantada “sotto voce” por um grande amigo meu de Brasília.                                                                                                                                                             E me aparece um outro Sidarta. Não o Buda, mas um Sidarta vivo e real, de corpo e alma.

SIDARTA RIBEIRO, neurocientista de carreira internacional, autor de “Limiar”, um gigantesco livrinho que nos fala de ciência, política, educação, e onde ele desmascara a hipocrisia com que as leis tratam o “homo sapiens” de nossos dias. Vejam bem o que ele nos ensina logo de saída:

“Se queremos sobreviver a nós mesmos, precisaremos abandonar os hábitos paleolíticos de competir em vez de colaborar, acumular em vez de distribuir. Já passou da hora de um “upgrade” em nosso “software.”

Atualíssimo, Sidarta Ribeiro faz uma longa análise da posição do Brasil no campo cientifico. Na página 38 explica:

“Nos últimos vinte anos, fizemos enormes investimentos em            ciência, tecnologia e inovação, mas podemos perder tudo o que foi conquistado se não conseguirmos acompanhar a revolução tecnológica 4.0.”  . . . . . . . . . . A desigualdade econômica vem aumentando, a insegurança jurídica impera e a burocracia caprichosa dificulta toda a pesquisa. Nosso sistema está progressivamente sendo desengrenado e corremos o risco de um colapso científico-tecnológico sem precedentes.

Continuando, Sidarta dá uma demonstração de sua capacidade premonitória ao tratar do Corona Vírus. O trecho é longo, me desculpem, mas vale a pena, ainda mais pela elegância do estilo e beleza da construção literária:

“Fevereiro de 2020, Carnaval em Olinda, Pernambuco. Cerveja, cachaça, e milhares de pessoas subindo e descendo ladeiras, um prodígio de organização espontânea que logra proteger músicos e carros de som do caos turbulento. A multidão enche as ruas, pula, grita e se liberta de tudo o que não é amor. Um povo em gloriosa intimidade consigo mesmo. Minha visão se turva de cores, sons e cheiros. Seria tudo isso uma alucinação?  Fecho os olhos e tento vislumbrar o futuro. O que será preciso fazer para deter a explosão planetária do coronavírus? Será o fim de beijos, abraços e convívio? Sobreviveremos a todo esse isolamento? Haverá Carnaval no ano que vem? ”

Já me estendi além dos meus varais. Haveria muito que aprender com o novo Sidarta mas devo terminar aqui. Os meus pacientes leitores poderão continuar. Sidarta Ribeiro foi publicado pela Editora Companhia das Letras.

06 janeiro 2021

Eu não tenho desafetos


Nunca tive desafetos na minha vida. Lidei com pessoas de todas as classes sociais. Dos mais simples operários de fábrica aos diretores de empresas multinacionais. Trabalhei para Governadores e Ministros com os quais viajei mundo afora. De todos recebi carinho e consideração. Dos operários com quem lidei sempre encontrei dedicação. Eu visitava as fábricas com frequência, em horas inusitadas, no terceiro turno. Eu conversava  diretamente com o operador, junto da máquina. Eles se sentiam prestigiados e eu identificava eventuais gargalos no fluxo de produção,  máquinas paradas ou deficiência de pessoal.

Na minha família, entre tios, filhos, primos, cunhados, sobrinhos e netos, possivelmente haverá alguém que me ignora, mas jamais percebi qualquer tipo de hostilidade.Entre os vizinhos de casa, harmonia total, inclusive com o sindico do prédio.

Nada obstante, nesta vida tudo pode acontecer como, por exemplo, uma fruta fora do balaio. E esta foi o meu “Desafeto Oriental”.

Eu estava trabalhando na implantação do projeto Seridó, uma fábrica de tecidos de grande envergadura em Natal, Rio Grande do Norte, do qual participava a Shikibo Spinnig Company, renomada empresa japonesa. Por força do trabalho, eu viajava com frequência a Tokio e Osaka, enquanto técnicos japoneses vinham a Natal e Rio de Janeiro. Fiquei amigo de todos eles, não só pela seriedade com que eles encaravam o trabalho mas também porque me fascinava o seu modo de  vida, a sua obsessão pela limpeza, pela pontualidade, respeito à palavra empenhada, dedicação aos mais velhos e amor à natureza.

 Epa . . .  ! Eu disse que fiquei amigo de todos eles ?  Não foi bem assim. Um deles me detestava. Era um engenheiro alto e carrancudo, portanto fora dos padrões japoneses. A coisa era muito simples: ele não ia com a minha cara e eu não ia com a cara dele. Nunca nos falamos. Nas poucas ocasiões em que tivemos que discutir trabalho, o diálogo era feito através de um interlocutor.

Certa vez, eu estava na firma em Osaka e devia comparecer a um jantar de confraternização, daqueles que, no melhor estilo japonês, duravam mais de três horas. Os lugares estavam marcados com o nome de cada convidado. Ao me aproximar da mesa, olhei para o lado direito. Estava marcado com o nome do carrancudo.

“Estragou o meu jantar”, pensei logo. Sentei-me olhando fixamente para a frente. Procurei conversar com o vizinho da esquerda, mas minha conversa não cativou ninguém. E assim decorreu o jantar. No fim, quando tomávamos aquele chazinho de encerramento, o carrancudo me cutucou e disse, com seu inglês econômico:

 “ Mister Superafico, what would you like best in this moment?”

Senhor Spreafico, de que o senhor gostaria mais neste momento?”

 Fiquei petrificado. Não sabia o que responder. Não conseguia pensar em nada. A mesa inteira olhava em silêncio. O tempo passava.

 “Eu gostaria que a minha família estivesse aqui comigo agora.”

 Ele balançou a cabeça, deu um sorriso e foi embora. No dia seguinte procurou-me cedo. Trazia um monte de plantas e começamos a discutir aspectos novos do projeto. Parecíamos amigos de infância. A mente humana guarda muitos mistérios.

Mas agora eu posso dizer:     Eu não tenho desafetos.

22 dezembro 2020

VER PARA CRER

http://memoriasdeumvago.blogspot.com/2020/12/ver-para-crer.html 

Severino Mandacaru amanheceu feliz. Havia tempo que ele andava escarafunchando os escombros da memória à procura de uma página de jornal que o havia impactado. Estou falando de 2012. Agora, com a ajuda de amigos, localizou-a e aqui vai, para gáudio dele mesmo e de seus incautos leitores.



Não deu pra ler a data ? Está no centro da página, debaixo do título GOURMET. Vou dizer : 7 de Dezembro de 2012. Agora é só voltar na "As Raizes do Severino" e ler: 6 de Setembro de 2011.

14 dezembro 2020

Idade Provecta


Perdoem-me se me refiro insistentemente à minha “Idade Provecta”, mas é a única que tenho neste momento. Atenham-se ao sentido lato da palavra e ignorem os superlativos. Para explicar, nada melhor do que um  exemplo extraído dos cafundós da memória.

Quando participei do Blog “Curta Crônicas”, que acabou sendo destruído pelo tempo, tínhamos que colocar um perfil que fosse expressivo mas de poucas palavras. Coloquei uma foto com a cabeça coberta por um chapeuzinho de malandro e escrevi o seguinte:

 “Vaidoso como um pavão, escreve para se exibir. Não acredite nessa foto. Ele é careca.”

 Quanto à Idade Provecta, espero tê-la ainda por muito tempo, diga-se de passagem. Epa ! Eu disse “de passagem”? Credo cruz, pois esta é a última coisa que poderia dizer na vida. Mas que vida? Depois da “passagem” a vida não é mais aqui (Desta, eu tratei, alhures, em “A Pena da Morte”). Eu estou me referindo à vida aqui na terra.

E agora nem sei se continuo, visto que é possível que já esteja morto e nem saiba. Já sei, vou tomar um copo de vinho e ficarei sabendo. “In vino veritas”.  Nem preciso explicar.

 Pois bem, alcançado este estágio nunca imaginei que a maior ocupação que eu viria a ter nestes dias de repouso absoluto fosse  “ Contar mortos ! ” Isso mesmo.         Diariamente, no final do dia, vou em busca do noticiário que divulga o número de almas que a Pandemonia sem acento mandou para o Paraíso. Com estes dados elaboro um gráfico que me poderá indicar o dia em que, mais ou menos, estaremos livres desta penitência.

 Mas até para saber isso a coisa se complica. Os dados estatísticos são divulgados pelo Ministério da Saúde e, simultaneamente, por um consórcio   de veículos de imprensa, que apresentam ligeira divergência entre si. Até aí, tudo bem. É só escolher o que agrada mais ou o valor médio. O que causa espécie é que o número dos falecidos decresce nos fins de semana !  Mas logo encontro a explicação: o “Sistema” entra em repouso nos Sábados e Domingos e não conta os óbitos, os quais serão computados no próximo dia útil. Se for pela fadiga dos funcionários da saúde que estão se arrebentando de trabalhar e arriscando sua vida, é perfeitamente compreensível. Mas se é por causa do “sistema” não faz sentido. Não é possível que o Ministério da Saúde, com toda a tecnologia disponível, não disponha de um “sistema” mais adequado. Aliás, não deveria causar surpresa. O comando dos principais cargos oficiais do ramo tem mudado com tanta frequência e tal rapidez que não fica tempo para a execução dos ajustes. Ademais é preciso reconhecer que assunto da pandemia é realmente complexo. Ouvi uma entrevista na imprensa que se encerrou com uma frase lapidar: “É, esse troço é muito complicado”.

 Digressões à parte, vamos aos fatos ou melhor, aos números. A pandemia instalou-se e começou a produzir casos fatais, inicialmente de forma lenta, mas que foi se acelerando ao longo do primeiro semestre de 2020.

Em meados de Abril estávamos por volta de 200 óbitos diários em todo o país. Esse número foi crescendo até atingirmos 1013 casos fatais, a cada 24 horas no final de Julho. Nesse ponto a curva se estabilizou e, aos poucos, o número  começou  a decrescer alcançando 344 óbitos por dia, nos primeiros dias de Novembro. A felicidade foi geral. Esperava-se que  logo chegaria a vacina e estariam criadas as condições para o controle da Pandemia.

 A alegria durou pouco. A partir daí, os números voltaram a crescer em ritmo acelerado. A média diária de óbitos registrada nas 4 semanas do mês de Novembro foi de 344 - 504 - 481 – 523 e continuou com 576 e 641 em Dezembro.                  

 Dizem as notícias que a população relaxou as medidas de proteção recomendadas pelos órgãos oficiais de saúde. Certamente nossa população é indisciplinada, como é em tantos outros países. Mas em situação de emergência como nas guerras, a população deve receber instruções de conduta, sujeitas a punição em caso de descumprimento.

Instruções temos, até em demasia. Conflitantes, confusas, interesseiras, enigmáticas e muito mais. Entre elas certamente estarão as corretas. Quando as autoridades se entenderem saberemos o que fazer. Enquanto isso, a única coisa segura é ficar em casa. Quem puder. Porque o pobre assalariado tem que enfrentar diariamente o seu ônibus inseguro, enfrentar filas de todo o tipo e deixar as crianças com a vizinha, sem máscara. E a economia . . . Economia? Pergunte aos universitários.

 Por falar nisso, devo dizer que me afastei das mídias sociais, onde eu tentava me manter atualizado e, sempre que eu comentava alguma coisa, qualquer coisa, eu era bombardeado com advertências do tipo “você checou a fonte? Cuidado com Fake News!”  

Incapaz de administrar tamanha complexidade, além do volume despropositado do que circula nas mídias sociais - já ouvi muitos profissionais dizerem que isso é “Máquina de fazer doidos” - decidi abandonar o campo e voltar aos meus métodos convencionais de me manter instruído: A Enciclopédia Barsa e o Tesouro da Juventude. Este último menos, porque quando eu era jovem, ele já andava meio velhinho.

Portanto, não esperem de mim nada fora dos varais. A Barsa sei que todos conhecem. Quanto ao Tesouro da Juventude, perguntem aos Universitários.

 

 

 

29 novembro 2020

As Raízes do Severino


A Macaxeira - Aipim - https://youtu.be/YdHAHJJHXM4.

 Surprenda-se com as informaçôes do Prof. Fernando Lemos sobre as propiedades da mandioca e as doenças do intestino. Está no Youtube.

No dia 6 de Setembro de 2011, publiquei uma crônica no Blog  “Curta Crônicas” atendendo ao tema " Sabores" , proposto para aquela semana.

Dei-lhe o título de “Raízes” porque pretendia falar do aipim em confronto com a batata, na gastronomia, fruto de uma conversa que eu havia tido com uma colega durante o chopinho  que sucedia às nossas aulas. Para fazer graça, iniciei o texto falando das nossas raízes culturais  derivando, em seguida, para as raízes alimentícias. Como não tive muito sucesso na discussão com a minha colega, no meu empenho em defender a supremacia do aipim sobre a batata, na crônica resolvi carregar nas tintas invocando o meu amigo Severino Mandacaru. Escrevi:

 

“Severino aproveitou a abundância da safra de macaxeira para implantar uma fábrica de tapioca”... ... “Mandaria amostras para seus clientes na  Holanda, para onde já exporta a raiz “in natura”. Severino estava duplamente feliz: caso a oferta vingasse melhoraria sua renda e, consequentemente, o PIB do país, bem como aumentaria o valor agregado de nossas exportações”.

Para meu espanto, no sábado, dia 7 de Janeiro de 2012,  o  suplemento  “ELA GOURMET” de O Globo publica na capa, em página inteira:

 

“Mandioca levanta o PIB”

“Deu nos jornais: graças à mais popular e brasileira das raízes comestíveis do país, o Brasil fechou suas contas no azul. A Rainha do Brasil foi a salvação da lavoura”.

 

A matéria segue, na página interna: “O aipim, ou macaxeira  ...  recentemente se encarregou de dar um providencial empurrãozinho no PIB  brasileiro. Na última safra nacional, segundo dados do IBGE, a brasileiríssima mandioca puxou os dígitos para o alto. Foi, literalmente, a salvação da lavoura”

 

Transcrevo a crônica completa, para algum incauto leitor:

 

 

RAIZES

 

Nossas  raízes são a nossa cultura. Quero dizer, nossa cultura é produto de nossas raízes. Nossas raízes são o nosso caldo cultural. E é na sua base que tem origem a afirmação da nacionalidade. Através delas nos fixamos ao solo pátrio, fortalecemos nossa personalidade, garantimos nossa saúde e, imaginem, consolidamos a nossa economia, assegurando o equilíbrio da combalida balança de pagamentos do país. Nossos índios sobreviveram graças às suas raízes quando a pesca e a caça escassearam. Desculpem o  “pesqueacaçaescassearam”, mas não vou refazer isso.

 

Há poucos dias eu conversava com meu amigo Severino Mandacaru, que acabava de voltar de Cabaceiras, onde fora inspecionar suas plantações de macaxeira e inhame, raízes que lhe dão o sustento.  Voltou entusiasmado porque o inverno, este ano, havia sido generoso em chuvas, duplicando a sua produção. Severino aproveitou a abundância da safra de macaxeira  para implantar uma fábrica de tapioca, esse milagre sensorial  -  ia dizendo “organoléptico”, mas ele não iria gostar - , proporcionado pela exuberante raiz. Mandaria  amostras para seus clientes na  Holanda, para onde já exporta a raiz “in natura”.  Severino estava duplamente feliz: caso a oferta vingasse, melhoraria sua renda e, consequentemente, o PIB do país, bem como aumentaria o valor agregado das nossas exportações.

 

Falei de  “organoléptico”, e fiz muito bem. Porque um dia destes eu me envolvi numa acalorada discussão com uma colega que  se dedica à gastronomia,  explorando aromas e sabores com grande maestria. Estávamos num grupo de controlados abstêmios e tomávamos chá de cevada fermentada  quando minha colega, gentilmente, me ofereceu batatas fritas. Aceitei de bom grado, até porque gosto de batatas fritas mas confessei que preferiria aipim frito, para acompanhar a bebida.

 

-- Mas, por que aipim frito?

 

Expliquei-lhe que a razão da minha escolha era apenas um apego ideológico às minhas raízes.

 

--  Mas a batata é mais saborosa, disse ela.

 

--  Mas o aipim é mais saudável, retruquei. Não discutirei o gosto mas o aipim    é superior em tudo. Você sabia que a batata se decompõe a partir de duas horas depois de cozida? Faça uma experiência: Deixe uma batata e um aipim ao ar livre. A batata apodrecerá e exalará um odor insuportável. O aipim mumificará, esperando a sua consumação pelos tempos.

 

--  Mas a batata é mais versátil, atacou ela astutamente.

 

--   Se vamos falar de versatilidade,  o aipim ganha longe. Com a batata você faz um purê, essa mistura esdrúxula de amido e leite e, se você o comer, terá grandes possibilidades de passar o resto do dia aventando flatos alegremente. Com o aipim você também faz um purê, mas não precisa de leite para lhe dar consistência e sabor. Depois disso, além da pecaminosa batata frita, principal responsável pela maior parte da celulite das nossas donzelas, o que mais você pode fazer com a batata? Já sei, a batata rosti, esse repositório descomunal de gordura saturada, porque é feita com manteiga, do contrário não teria sabor. Das batatas ao vapor e das batatas coradas, versão lubrificada das primeiras, nem vale a pena falar. Ah!, sim você vai me falar da vichyssoise, mas eu pergunto: Vale a pena estragar um alho porró para fazer uma sopinha? Bem, agora você poderia me dizer que a fécula de batata é importante para engrossar o queijo do fondue. Certamente, mas ela é importante na  Suíça porque lá  só se planta batata. Aqui pode-se fazer isso perfeitamente com a goma de mandioca.

 

A essa altura, percebendo que minha arenga interminável havia impedido minha colega de se defender, comecei a me sentir mal. Mas,  ao fazer uma pausa, ela disparou:

 

-- Para, para .  Chega !  você está me embromando! Prefiro discutir isto diretamente com o Severino.

 

--  Isso. Isso mesmo, fale com ele. Ele vai lhe explicar as vantagens do aipim frito e as virtudes do purê de aipim, da tapioca, do polvilho azedo para fazer o pão de queijo e do doce para pudins, do pé de moleque feito com massa puba, que não tem nada a ver com pé de moleque do sul, feito de amendoim. E vai falar, também, da joia das sobremesas do Nordeste: o bolo Souza Leão. Severino lhe ensinará a comer farinha de mandioca com mel de engenho e lhe mostrará o montão de farofas que você pode fazer para o seu feijão. E a casquinha de siri? De que é feita além do siri?  Farinha de mandioca!  Isto sim, minha musa, é que é versatilidade.

 

E assim, após algumas taças de chá,  notei que o meu bolodório não a convencia. Ela me fitava complacente, sem bater pestana. Encarei-a com brio, mas não consegui articular palavra. Queria dizer-lhe que eu não estava ali defendendo sabores mas tão somente por fidelidade ideológica as minhas raízes. Levantei-me e me despedi com um beijo fraterno.

Assim que a encontrar vou pedir-lhe desculpas. E às batatas, também.