28 maio 2022

OBRAS PRIMAS DA LITERATURA

 

 

Ou....Você já fez sua atualização hoje ?

 Diariamente, sou incentivado a atualizar minhas conexões com tudo o que existe neste mundo. Dos apps do Play Store, com sua infinidade de lojas comerciais até os sites de bancos, saúde, bibliotecas, compras, clima, comer e beber, entretenimento. . . a gota serena. Se queremos continuar existindo, temos que efetuar todas as atualizações, sem dúvida.  Portanto, a primeira coisa a fazer é atualizar a mim mesmo, do contrário, como poderia eu atualizar as outras coisas ?

E aí, modéstia à parte, devo dizer que isto eu já fiz. Lembram-se de quando eu escrevi, isso já faz muito tempo, que eu havia achado entre as ferramentas da roça um pacotinho de semente de rúcula, vencida há mais dois anos. Mesmo assim eu a plantei. E ela germinou. Porque eu ignorei sua data de vencimento. Nós também nascemos com uma data de vencimento. Eu ignorei minha data de vencimento. E me atualizei.

 Agora me encontro diante do vasto e complexo mundo da tecnologia que se atualiza vorazmente, atropelando os incautos seguidores que atingiram a idade provecta. Vejam, por exemplo, as redes sociais. A ramificação interminável dos seus tentáculos, com gugols, feicebuques, tuites, plataformas, alçapões, gaiolas, arapucas e o que mais se chamem, com seu universo de informações: painéis de publicidade, palestras educativas,  admoestações, piadas, filminhos, musiquinhas. Tudo ali, de graça, ao alcance dos dedos.

 Que inveja dos não provectos. Que inveja da juventude sadia e prodigiosa que, usando um aparelho inicialmente inventado para falar, agora pode consultar quem foi o poeta que escreveu “Visita à casa paterna”, quem foi Napoleão Bonaparte ou quando começou a Segunda Guerra Mundial.

E eu aqui com minha Enciclopédia Barsa tentando descobrir como faço o gambito de dama no meu tabuleiro de xadrez.

Bem lembrado! O jogo de xadrez! Você conhece alguém que joga xadrez? Acho pouco provável. Perguntei a um garotão o que era xadrez, e ele respondeu: É uma espécie de xilindró?

Os jogos de salão agora são todos digitais. Com uma metralhadora você destrói um inimigo imaginário, com uma espada decepa dez cabeças simultaneamente e com dois dragões horrendos soltando fogo pelas ventas você provoca o riso em crianças que outrora fugiriam de medo.

 O tempora! o mores !,” dizia Cicero, o Romano.

 -- Mas, afinal, onde estão as Obras Primas da Literatura ?

 -- Eitcha, eu já ia me esquecendo. Isso é uma crônica fake que eu ia escrever. Mas não se preocupem, não vou falar de política, não vou acusar ninguém nem difamar autoridades constituídas, coisas que se encontram nos jornais de hoje.  Vou apenas contar o que aprendi quando, ainda jovem, conheci o Giovanni Papini, de quem logo fiquei amigo. Ele era um escritor meio tan . . . tan, mas escrevia diabruras sensatas. Publicou um livro chamado simplesmente “GOG”, nome do personagem que atua como narrador ao longo do livro. Um dia o Giovanni me perguntou :

 -- De tudo o que você já leu, o que é que você consideraria uma obra prima?

 -- Não tenho a menor ideia. Já li um pouco de tudo, desde livros técnicos, religião, filosofia, todas as peças teatrais de Luigi Pirandello, Eugene O’Neil, Ariano Suassuna . . 

-- Pois eu vou lhe dizer: Escolhi 10 peças da literatura mundial que atendem a esse requisito. E consultei um crítico literário, que confirmou a minha escolha. Defini cada uma delas em duas ou três linhas. Cabe a você identificar o autor.

 1º “A viajem de um vivo na fossa dos mortos com o fim de falar mal dos mortos e dos vivos”.

2º “Um doido tísico e um doido gordo que vão mundo afora em busca de sovas.”

3º “Um pulha cujo pai foi assassinado e que, para vingá-lo, faz morrer a rapariga que o ama e outros diversos personagens.”

4º “Um diabo coxo que levanta os telhados de todas as casas para exibir as suas vergonhas”

5º “As aventuras de um homem de estatura média que se faz gigante entre os pigmeus e anão entre os gigantes sempre de modo inoportuno e ridículo.”

6º “A história ridícula de uma adúltera provinciana que se entedia e, por fim, se envenena.”

7º “Um rapaz pobre e febril que assassina uma velha e que depois, imbecil, não sabe aproveitar-se da coartada e acaba por cair nas mãos da polícia.”

8º “As sortidas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado de uma águia e de uma serpente.”

9º “As peripécias de um professor demoníaco servido por um demônio profissional.”

10º “A odisseia de um idiota que através de bufas desventuras sustenta que este mundo é o melhor dos mundos possíveis.”

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 Bem, vocês ouviram, né? Cabe a vocês identificarem o autor.   

 

 

    

18 maio 2022

 

“Faz escuro, mas eu canto”

 Esse é o título do poema de Thiago de Mello. “Porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro, a cor do mundo mudar, . .    Já é madrugada, vem o sol, quero alegria . . Vamos juntos, multidão,trabalhar pela alegria, amanhã é um novo dia.”

Lembrei-me hoje, quando acordei, do Thiago de Mello. Estávamos no Chile. Era o ano de 1965. Ele havia sido preso. Os tempos estavam escuros. Mas ele cantava e declamava. Eu havia recebido um convite para trabalhar num projeto têxtil das Nações Unidas e me mandara para o Chile. De um modo ou de outro, éramos todos exilados. As coisas no Brasil estavam medonhas. O medo morava em cada esquina. Bastava que alguém lhe apontasse o dedo: “Ele é um subversivo” e você desapareceria, nas masmorras ou no campo santo. Perdi amigos. Muitos foram torturados. Alguns perderam o juízo. Outros se acomodaram.

Aí chegou 1968, com seu fatídico AI 5. Em outubro voltei para o Brasil. Com a cabeça cheia de teares e filatórios, e tremonhas, nem me dei conta do que isso significava. E os tempos ficaram ainda mais escuros.

Passaram-se os anos. Muitos anos. Exatamente 57 anos. Trabalhei muito e não me arrependo de nada do que fiz. Vivi no Nordeste boa parte da minha vida, constitui família, viajei o Brasil inteiro a trabalho. Fui adviser da Unido – Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial – com missões no Chile, Mexico, El Salvador, Colômbia, Japão, Tailândia, Indonésia, Filipinas e Singapura.

Nos últimos anos, fixei residência no bucólico bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. E aí chegou a Pandemia. E os tempos ficaram novamente escuros. Muito escuros. Confinados, eu e minha esposa, no bucólico apartamento, descobrimos que a vida se transformaria em um cárcere privado. E procuramos um asilo para anciãos, instalado em um antigo hotel comercial, no bairro da Glória, que denominei logo, quem me dera, Motel dos Anciãos. Ali nos hospedamos, a título de experiência, 3 fins de semana. Foi muito divertido. Eu comecei a contar histórias aos hóspedes, que eu chamava de “meus pacientes”, os quais riam muito. Às vezes choravam.

Foi uma experiência. Logo percebemos que a convivência com as mazelas dos hôspedes (cadeira de rodas, alzheimer, enfermeira acompanhante, confusão mental, e outras quizilas) nos levariam a um estresse que redundaria em uma depressão incontrolável. E seria o caminho mais curto para subir a Montanha de Narayama.

Foi quando nosso filho nos convidou para ficar uma semana em sua casa, nas montanhas. Aceitamos.

- Vamos dar uma volta. Parou defronte de um pequeno chalé.

- Gostaram ?

- Adoramos.

Então esta é a vossa casa.

 E aqui estamos, com pandemia e tudo. E os tempos ficaram mais escuros. Tão escuros que desofuscaram os mais escuros. Quando contemplo o panorama politico do país, com seus 39 partidos políticos – o que torna qualquer país ingovernável – os conflitos entre os poderes, com  um Congresso de tamanho diluviano, com políticos, muitos deles de idoneidade duvidosa, me  pergunto : para onde estamos indo ?

Agora fala-se em “golpe de estado”, que comprometeria o próprio Presidente da República. Isso me leva ao ano de 1965 acima abordado. Hoje se sabe que o golpe de estado naquela época foi longamente estudado e avaliado entre os militares antes de ser aplicado, em Março de 1964. Outro fator a ser levado em conta é que a ditadura sofreu um confrontamento em forma de guerrilha, com sequestros, saques, assaltos, incêndios e outras coisas.

Isto tudo é para dizer que os militares de então não são os mesmos de agora. As pessoas mudam. As escolas mudam, os métodos mudam, os conceitos mudam. Nos debates sobre política as Forças Armadas já se manifestaram sobre a sua posição de respeito à Constituição.

E aqui caímos novamente no ponto de partida: a disputa entre os Poderes. Não sei para onde vamos.

 Sarava, meu Pai. “Faz escuro mas eu canto”.