29 novembro 2020

As Raízes do Severino


A Macaxeira - Aipim - https://youtu.be/YdHAHJJHXM4.

 Surprenda-se com as informaçôes do Prof. Fernando Lemos sobre as propiedades da mandioca e as doenças do intestino. Está no Youtube.

No dia 6 de Setembro de 2011, publiquei uma crônica no Blog  “Curta Crônicas” atendendo ao tema " Sabores" , proposto para aquela semana.

Dei-lhe o título de “Raízes” porque pretendia falar do aipim em confronto com a batata, na gastronomia, fruto de uma conversa que eu havia tido com uma colega durante o chopinho  que sucedia às nossas aulas. Para fazer graça, iniciei o texto falando das nossas raízes culturais  derivando, em seguida, para as raízes alimentícias. Como não tive muito sucesso na discussão com a minha colega, no meu empenho em defender a supremacia do aipim sobre a batata, na crônica resolvi carregar nas tintas invocando o meu amigo Severino Mandacaru. Escrevi:

 

“Severino aproveitou a abundância da safra de macaxeira para implantar uma fábrica de tapioca”... ... “Mandaria amostras para seus clientes na  Holanda, para onde já exporta a raiz “in natura”. Severino estava duplamente feliz: caso a oferta vingasse melhoraria sua renda e, consequentemente, o PIB do país, bem como aumentaria o valor agregado de nossas exportações”.

Para meu espanto, no sábado, dia 7 de Janeiro de 2012,  o  suplemento  “ELA GOURMET” de O Globo publica na capa, em página inteira:

 

“Mandioca levanta o PIB”

“Deu nos jornais: graças à mais popular e brasileira das raízes comestíveis do país, o Brasil fechou suas contas no azul. A Rainha do Brasil foi a salvação da lavoura”.

 

A matéria segue, na página interna: “O aipim, ou macaxeira  ...  recentemente se encarregou de dar um providencial empurrãozinho no PIB  brasileiro. Na última safra nacional, segundo dados do IBGE, a brasileiríssima mandioca puxou os dígitos para o alto. Foi, literalmente, a salvação da lavoura”

 

Transcrevo a crônica completa, para algum incauto leitor:

 

 

RAIZES

 

Nossas  raízes são a nossa cultura. Quero dizer, nossa cultura é produto de nossas raízes. Nossas raízes são o nosso caldo cultural. E é na sua base que tem origem a afirmação da nacionalidade. Através delas nos fixamos ao solo pátrio, fortalecemos nossa personalidade, garantimos nossa saúde e, imaginem, consolidamos a nossa economia, assegurando o equilíbrio da combalida balança de pagamentos do país. Nossos índios sobreviveram graças às suas raízes quando a pesca e a caça escassearam. Desculpem o  “pesqueacaçaescassearam”, mas não vou refazer isso.

 

Há poucos dias eu conversava com meu amigo Severino Mandacaru, que acabava de voltar de Cabaceiras, onde fora inspecionar suas plantações de macaxeira e inhame, raízes que lhe dão o sustento.  Voltou entusiasmado porque o inverno, este ano, havia sido generoso em chuvas, duplicando a sua produção. Severino aproveitou a abundância da safra de macaxeira  para implantar uma fábrica de tapioca, esse milagre sensorial  -  ia dizendo “organoléptico”, mas ele não iria gostar - , proporcionado pela exuberante raiz. Mandaria  amostras para seus clientes na  Holanda, para onde já exporta a raiz “in natura”.  Severino estava duplamente feliz: caso a oferta vingasse, melhoraria sua renda e, consequentemente, o PIB do país, bem como aumentaria o valor agregado das nossas exportações.

 

Falei de  “organoléptico”, e fiz muito bem. Porque um dia destes eu me envolvi numa acalorada discussão com uma colega que  se dedica à gastronomia,  explorando aromas e sabores com grande maestria. Estávamos num grupo de controlados abstêmios e tomávamos chá de cevada fermentada  quando minha colega, gentilmente, me ofereceu batatas fritas. Aceitei de bom grado, até porque gosto de batatas fritas mas confessei que preferiria aipim frito, para acompanhar a bebida.

 

-- Mas, por que aipim frito?

 

Expliquei-lhe que a razão da minha escolha era apenas um apego ideológico às minhas raízes.

 

--  Mas a batata é mais saborosa, disse ela.

 

--  Mas o aipim é mais saudável, retruquei. Não discutirei o gosto mas o aipim    é superior em tudo. Você sabia que a batata se decompõe a partir de duas horas depois de cozida? Faça uma experiência: Deixe uma batata e um aipim ao ar livre. A batata apodrecerá e exalará um odor insuportável. O aipim mumificará, esperando a sua consumação pelos tempos.

 

--  Mas a batata é mais versátil, atacou ela astutamente.

 

--   Se vamos falar de versatilidade,  o aipim ganha longe. Com a batata você faz um purê, essa mistura esdrúxula de amido e leite e, se você o comer, terá grandes possibilidades de passar o resto do dia aventando flatos alegremente. Com o aipim você também faz um purê, mas não precisa de leite para lhe dar consistência e sabor. Depois disso, além da pecaminosa batata frita, principal responsável pela maior parte da celulite das nossas donzelas, o que mais você pode fazer com a batata? Já sei, a batata rosti, esse repositório descomunal de gordura saturada, porque é feita com manteiga, do contrário não teria sabor. Das batatas ao vapor e das batatas coradas, versão lubrificada das primeiras, nem vale a pena falar. Ah!, sim você vai me falar da vichyssoise, mas eu pergunto: Vale a pena estragar um alho porró para fazer uma sopinha? Bem, agora você poderia me dizer que a fécula de batata é importante para engrossar o queijo do fondue. Certamente, mas ela é importante na  Suíça porque lá  só se planta batata. Aqui pode-se fazer isso perfeitamente com a goma de mandioca.

 

A essa altura, percebendo que minha arenga interminável havia impedido minha colega de se defender, comecei a me sentir mal. Mas,  ao fazer uma pausa, ela disparou:

 

-- Para, para .  Chega !  você está me embromando! Prefiro discutir isto diretamente com o Severino.

 

--  Isso. Isso mesmo, fale com ele. Ele vai lhe explicar as vantagens do aipim frito e as virtudes do purê de aipim, da tapioca, do polvilho azedo para fazer o pão de queijo e do doce para pudins, do pé de moleque feito com massa puba, que não tem nada a ver com pé de moleque do sul, feito de amendoim. E vai falar, também, da joia das sobremesas do Nordeste: o bolo Souza Leão. Severino lhe ensinará a comer farinha de mandioca com mel de engenho e lhe mostrará o montão de farofas que você pode fazer para o seu feijão. E a casquinha de siri? De que é feita além do siri?  Farinha de mandioca!  Isto sim, minha musa, é que é versatilidade.

 

E assim, após algumas taças de chá,  notei que o meu bolodório não a convencia. Ela me fitava complacente, sem bater pestana. Encarei-a com brio, mas não consegui articular palavra. Queria dizer-lhe que eu não estava ali defendendo sabores mas tão somente por fidelidade ideológica as minhas raízes. Levantei-me e me despedi com um beijo fraterno.

Assim que a encontrar vou pedir-lhe desculpas. E às batatas, também.

 

 


23 novembro 2020

O Resgate dos Sentidos


O título se justifica. Estamos perdendo nossa sensibilidade no contato diário com a vida. Os cinco sentidos básicos que nos ligam ao mundo exterior - Visão, Audição, Tato, Paladar e Olfato - estão sendo substituídos  por maquinas, aparelhos e programas de computador (atenção: não esqueça de atualizar os seus) que não só facilitam o seu trabalho de pensar como também o substituem, determinando como você deve comer, se vestir, ouvir, caçar e pescar e falar mal do Governo.

Não tente se opor a isso. Você será abduzido. O avanço tecnológico continuará em ritmo cada vez mais acelerado. Nos dias de hoje estamos automatizando tudo e, com isso, precisamos abandonar os velhos hábitos.  Melhor seria usarmos nossos sentidos tal como eles nos foram dados pela natureza.

Vou propor alguns exercícios: Andei garimpando pequenos trechos escritos ao longo das minhas crônicas, onde associo dois ou mais sentidos. São cenários simples, curiosidades banais, vivências da juventude.

Sem trocadilhos, vamos ler “saboreando as palavras”.  Vamos resgatar nossos sentidos !

 Visão e Olfato  -  O sabor das palavras

Um cenário pacato no Nordeste do Brasil. A conjunção entre um bairro de periferia do Recife e a cidade de Olinda. Um riacho de água lamacenta serve de divisa. Sobre ele, uma pequena ponte. Do outro lado, um velho edifício em estilo colonial entristecido pelo tempo, disfarça o tom ocre das cores que um dia o embelezaram. É a fábrica de doces. Descrevi a cena na  crônica  “O Coronel e Eu” :

“ Quem percorresse a pequena estrada de terra batida que ligava Recife a Olinda, chegando ao Varadouro, seria surpreendido pelo cheiro pungente de goiabas e cajus. Ali, bem cedo, caboclos curtidos pelo sol, sentados junto aos seus balaios, esperavam que a Fábrica de Doces abrisse as portas para entregar sua mercadoria. O amarelo vibrante das goiabas e o vermelho sanguíneo dos cajus lembravam um quadro de Van Gogh. O forte aroma das frutas na manhã úmida inundava o quarteirão e embriagava os sentidos para o resto do dia. Ao cair da tarde, um outro cheiro, ainda mais forte, emanava do prédio da fábrica indicando que a goiabada estava pronta. E este perfume, este sim, ficaria impregnado pelo resto da vida. ”

  Paladar e Olfato  -  O sabor oculto das coisas

 Em Novembro do longínquo ano de 2012 escrevi uma crônica com o titulo de  “O sabor oculto das coisas” onde comentava o sucesso, na época, dos restaurantes de cozinha molecular. E dizia:

“A cozinha molecular tem-nos revelado o que acontece dentro das panelas quando cozinhamos o nosso angu. O que se espera disso é que, sabendo o que ocorre com os alimentos sob a ação do calor, possamos aprimorar o sabor, melhorar a textura, despertar os aromas e iluminar a imagem visual daquilo que comemos”

 Aproveitei para mostrar minha admiração pelo trabalho que fazem os “sommeliers”, capazes de identificar as características de um vinho em seus menores detalhes. Descobri, na época, o livro do Hervé This, físico-químico do Laboratório de Química das Interações Moleculares do “College de France”, em Paris, sobre gastronomia molecular, onde, sob o titulo “O sabor oculto do vinho”, ele explica como os compostos voláteis aromáticos contribuem para a percepção olfativa. Com esta linguagem, certamente acessível a um enólogo, descreve as pesquisas que estão sendo feitas para desencantar os aromas escondidos no vinho:

“A última etapa da hidrólise dos glucosídeos devida aos glucopiranosídeos é aquela que limita a liberação dos torpenois da uva e do vinho porque as enzimas naturais agem muito pouco sobre os monoglucosídeos que têm, como parte não glucosídea ( chamada aglicone) alguns álcoois terciários ( linalol e terpineol). O betaglucosídeo das leveduras enológicas revela, no entanto, uma fraca atividade para o linalil beta-glucosídeo, um dos principais glucosídeos da uva. Além do mais, se  a uva for dotada de ...  ... ... ” e por aí vai”.

Certamente há um mérito indiscutível nesse trabalho, Mas, francamente, para nós que estamos aqui esperando o nosso copo de vinho você acha que vai fazer alguma diferença?

 “Por fim, será interessante ressaltar a discussão que trata  da capacidade dos degustadores e a possibilidade de criar meios artificiais de detecção de aromas. Em “O teleolfato”, no mesmo livro, This pergunta: “Quando alcançaremos esta nova forma de comunicação? Se fomos capazes de reproduzir imagens e sons, se conseguimos registrar as sensações tácteis, estamos em falta com o sabor e o olfato, para tristeza dos gourmets.”  Em seguida, explica o avanço das pesquisas que estão em curso para a criação de um nariz artificial: Um aparelho analisador criado no laboratório INRA, de Theix, França, foi capaz de identificar, pelo cheiro, a origem de uma ostra proveniente da costa francesa.” 

A gastronomia é fascinante, não é? A literatura também. Passaríamos horas falando do sabor oculto das palavras. E se você chegou até aqui, incauto leitor, saiba que conta com a minha compaixão. Agora relaxe, encha o copo e ... Saúde!

 Visão e Tato  -  Os conflitos internos de um adolescente

 Deixei o Recife aos 17 anos de idade, quando concluí o curso industrial básico  de Mecânico de Máquinas na Escola Técnica Federal do Recife, no Derby. Embarquei num DC3 cargueiro com destino ao Rio, numa viagem  que durou 8 horas. Eu havia sido contemplado com uma bolsa de estudos para fazer o curso técnico de indústria têxtil em outra escola técnica, a Escola Técnica Federal de Indústria Química e Têxtil. Fui alojado em uma casa em São Cristóvão, mais exatamente na Rua Bela, até que se concluísse o edifício da própria escola onde haveria um internato.

As aulas haviam começado. Minha mente mal podia conter o entusiasmo pelas aulas e meu corpo mal podia refrear os impulsos do desejo.

No percurso entre o alojamento e a escola, passávamos pela Avenida Brasil e, num quarteirão paralelo à Avenida, principalmente ao cair da tarde, eu notava um movimento inusitado de gente atarefada que parecia não fazer nada. Quando perguntei o que era aquilo responderam-me solenemente:

Aaa . . . a . . . a . . . aquilo é . . .  o Mangue !

 

O Mangue ?  O Mangue, a cidade proibida, a cidade do pecado...  

O Mangue fervilhava de gente vinte e quatro horas por dia. No Mangue não havia descanso. O Mangue não podia parar. O Mangue era a turbina que proporcionava a energia para o Rio funcionar. O Mangue aliviava tensões, apaziguava discórdias, equilibrava emoções, saciava desejos, alimentava sonhos. O Mangue fazia do carioca um ser equilibrado. O enorme gasômetro ao lado, com sua cúpula que subia e descia sobrepondo-se ao casario baixo da área, criava um cenário de atividade industrial. A sua população deslocava-se com rapidez como operários saindo das fábricas. Um delicado cheiro de gás ocupava todos os espaços, fixava-se nas narinas e no cérebro, e se tornaria, com o tempo, um eficiente afrodisíaco.

O Mangue! A cidade profana que não tinha dia nem noite. Ali aprendi muito. Na voragem do desejo eu via o sofrimento; na subjugação do sexo eu via a humilhação; numa palavra de carinho eu via o alento aflorar na expressão contraída de um rosto sem esperanças. No Rio de Janeiro, fora os estudos, minha ocupação era aprimorar minha  biografia com idas cada vez mais frequentes ao Mangue.

 Quando me desvecilhei de um casamento de conveniência contrário aos meus princípios, busquei guarida num barracão de pescadores na Praia do Ó, um local deserto  muitos quilômetros depois de Olinda. Ali fiquei, totalmente só, em recolhimento , até o fim das férias. E voltei ao Mangue aos prantos mas com a consciência tranquila de que não me havia aproveitado de ninguém.

 

 

 

20 novembro 2020

Eu fiz o meu papel

Decididamente, a Pandemonia sem acento está mexendo com a cabeça das pessoas. O isolamento rigoroso que nos  oprime vem afetando o comportamento das pessoas tornando-as irascíveis e intolerantes.

Na minha última crônica “Vida que segue” tive a oportunidade de abordar esse tema quando tratei do confinamento pandemonico sem acento. Escrevi o seguinte:

Dentro de casa, pais, mães, filhos, sobrinhos e netos, discutem por ninharias e brigam por coisa sérias. Perdem o bom humor e tornam-se grosseiros, quando antes eram alegres e delicados.

Acompanho esse quadro, abatido e consternado.  Não quero desempenhar esse papel. Dado o esclarecimento, chegou a hora de falar de “verdadeiros papéis”. E devo avisar aos meus, ia dizendo “incautos leitores”, como de costume, mas vi que aqui não cabe a advertência. Eles estão devidamente alertados. Vou tratar de papéis de verdade.

Eu fiz  o meu papel quando interpretei “O Diário de Anne Frank”. A peça foi montada no Teatro Santa Isabel do Recife. Fiz o papel de Otto Frank. Foi emocionante. O teatro estava apinhado e, quando caiu o pano, o público delirava. Aqui cabe uma inconfidência: Fiz o papel de Otto Frank vestido com um terno “risca de giz” emprestado pelo Coronel Arthur Lundgren, proprietário do complexo têxtil de Paulista, em Pernambuco.

Eu fiz o meu papel quando levei “A Pena e a Lei” de Ariano Suassuna, no Teatro do Parque. A peça foi dirigida por Hermilo Borba Filho que havia criado o Teatro Popular do Nordeste, juntamente com Ariano, Capiba, Chico Brennand e os própios atores, além de outros nomes ligados à cultura. Fiz o papel de Cheiroso, o dono do Mamulengo, que no terceiro ato se transforma no Cristo.

Eu fiz o meu papel quando interpretei “Três Anjos sem Asas” no Teatro de Arena, do Recife. Era um peça francesa que contava a história de três presidiários em Caiena, na Guiana Francesa. Eu fiz o papel de um mentecapto, papel que coube ao ator Peter Ustinov na produção francesa. O personagem era totalmente careca.

Eu fiz o meu papel no espetáculo da Paixão de Cristo em Fazenda Nova. Aquilo é que era teatro. Durante três dias, num cenário esculpido em pedra por artesãos locais, transcorriam os fatos efetivamente ocorridos durante os dias da Paixão: Sexta-feira Santa, Sábado e Domingo da Ressureição. Ficávamos hospedados na Fazenda do pai do Luiz Marinho que bancava o evento. Não se cobrava ingresso.

Os personagens coadjuvantes eram desempenhados pela população local, todos vestidos como na época. Eu entrei para fazer uma ponta: a cena do “Longuinho” o soldado romano Longinus, que era cego e participava da crucificação. Ele pediu a outro soldado que guiasse a sua mão pois queria espetar o coração do Cristo com a sua lança. Ao fazer isto, o sangue cobriu-lhe o rosto e ele recuperou a visão.

O espetáculo era dirigido magistralmente por Clênio Wanderlei. A mãe do Cristo era Ilva Ninho, que vi há um par de anos fazendo o papel de empregada numa novela da Globo.

 Atuei em Fazenda Nova três anos. Nós chegávamos na segunda-feira para os ensaios e voltávamos na segunda seguinte depois das comemorações. No último ano, o ator que fazia o papel de Caifás não compareceu na segunda feira. Terça feira . . . nada. Clenio entrou em pânico. Na quarta ele me chamou.

“Você vai fazer o papel do Caifás”.

Era um dos textos mais longos da peça. Eu sabia algumas falas do personagem. Algumas. Fiz o papel e o espetáculo se salvou. Mas para contar essa aventura eu precisaria de uma peça inteira.

 Aqui termina o meu papel. E não se fala mais nisso.

Absit injuria verbis.  Dominus vobiscum.

 


08 novembro 2020

Vida que segue

 

“Domine non sum dignus.”

Completados 90 anos, devo admitir que completei um ciclo de vida fecunda e modestamente prodigiosa e que deveria preparar-me para subir a Montanha de Narayama, assunto do qual já tratei, alhures, à exaustão.

No entanto, para não tropeçar no áspero caminho da subida e com isso irritar os deuses que até aqui me têm protegido, resolvi fazer isso com toda a calma e paciência que a provecta idade me recomenda.

Para tratar dessa narrativa resolvi dividir este ciclo em 10 períodos, o que daria 9 anos por período. Assim ficamos com números exatos - dos 9 aos 90 – quando enfrentei, criança de nove anos, à irrupção da segunda guerra mundial como súdito do Eixo e suas consequências. Tratarei disso a seu tempo.

 No último período, exatamente 16 de Setembro passado, minha família, carinhosamente, resolveu contemplar-me com a publicação do livro  “Memórias de um Vago” , um Blog no qual alguns incautos leitores garimpavam presepadas que cometi na minha infância e pior, na minha vida de adulto.

Reuniram-se filhos, netos, sobrinhos e correlatos e, junto com minha esposa, às escondidas, sem que eu suspeitasse, contrataram uma Editora e, no dia do meu aniversário, despejaram na minha frente quatro enormes caixas de livros, numa primorosa edição de 345 páginas, contendo 123 crônicas além de depoimentos de todos os participantes.

A surpresa, o espanto e a comoção foram enormes. Eu não acreditava no que via. Eu me sentia no deserto, vítima de uma miragem. Levei dias para convencer-me de que aquilo existia de verdade. Li as duas primeiras crônicas, tão remotas. Fiquei extasiado.

E tornei-me o maior leitor de mim mesmo.

Os dias foram passando. Dezembro está próximo e a Pandemonia sem acento continua distribuindo sua pestilência sobre nossas cabeças. Não podemos mais ver nossos amigos. Não podemos mais ir à padaria, à banca do  jornaleiro, ao culto da igreja, ao banco sacar uns trocados ou ao bar da esquina onde, nas tardes de fim de semana, nos encontrávamos para tomar um chope e chorar porque o nosso time havia perdido.

Dentro de casa, pais, mães, filhos, sobrinhos e netos, discutem por ninharias e brigam por coisa sérias. Perdem o bom humor e tornam-se grosseiros, quando antes eram alegres e delicados. Não entendem o porque do seu novo comportamento. Muitos perderam o emprego ou são obrigados a trabalhar diante de uma tela de computador sem ver a luz do dia sete dias por semana sem dar-se conta de que esse ambiente insalubre lhe afeta a visão e o cérebro, resultando em depressão grave.

Um castigo injusto para essa geração de jovens que nada tem a ver com as iniquidades e mal feitos cometidos pelos mais velhos, evidenciados pelo comportamento vergonhoso de certos líderes e subalternos de hoje, em todas as classes sociais.

 Diante desse quadro, no meu Castelo, sou um felizardo. Reduzido a uma vida monástica pela limitação da minha idade, consigo sobreviver graças a homeopática mesada com que o sistema oficial de previdência me contempla, mesmo depois de ter contribuído toda uma vida pelo nível mais alto dos rendimentos. Feitos os cálculos atuariais eu teria que viver 120 anos para recuperar o valor da minha contribuição!

Minha rotina é simples. Acordo com as primeiras luzes do dia. Ensaio um bocejo preguiçoso e faço meia dúzia de movimentos para ativar as pernas que insistem em continuar dormindo. Abro as janelas e escancaro a porta frontal, envidraçada, do Castelo. Dou bom dia aos sabiás, um cheiro no pé de alecrim e uma banana ao gambá. Tomo um copo d’agua. Como uma fruta. Com inveja do gambá, geralmente é uma banana.   Ou duas, se forem pequenas. O café é ralo e sem leite. O pão é de farinha integral e sou eu quem o faz.

 O resto do dia prossegue sem percalços. Divido com minha esposa as tarefas que entraram na minha vida por força das inovações tecnológicas que, por complexas, nunca me haviam chamado a atenção: fazer comida, lavar a louça, limpar banheiros, arrumar a cama, espanar moveis . . .  e, suprema função, acomodar o lixo da casa e dispô-lo na porta antes que passe o caminhão.

 Quando me ponho a meditar, analiso e concluo: Sou um felizardo !

E por isso digo

                             Domine non sum dignus”