16 outubro 2020

Setembro se foi

 

Eu fiquei. E comigo ficou a primavera com seu clima ameno e seu sol encabulado. Os sabiás com seu chilreado, não se cansam de cantar. Os saguis pulam, cada um no seu galho e tentam nos confundir com seus assobios disfarçados. A natureza penetra polos nossos poros e nos obriga a viver felizes mesmo contra a nossa vontade. Crianças alegres saltitam agilmente brincando de Amarelinha sobre os retângulos desenhados com giz branco sobre a calçada.

 “ Você tá variando, Galego. Amarelinha ?  Quem já viu criança brincando na calçada hoje em dia ? Pulando amarelinha, e com uma perna só, não é, Galego ? Também viu moleques no meio da rua jogando pelada com bolas improvisadas, feitas de meias velhas não é ?  Você tá leso, pirou de vez Galego. “.

 “ Ué, você táva aí, Severino ?

 “ Criança hoje só faz joguinho no celular. Está todo o mundo ali, com a cabeça mal espetada no topo do esqueleto, ninguém fala, olhar fixo na tela procurando adivinhar de onde vem a próxima paulada, facada, bomba, relâmpago, estrondo ou a suprema desgraça : a frase  “ game over ”

 “ Pera aí Severino, não é bem assim . . . o mundo de hoje . . . “

 “ Quer saber de uma coisa, Galego ? Vai jogar xadrez, vai ! “

 Setembro se foi. E foi um mês de muita felicidade e alegria. Foi um mês de comemorações, de festejos, de agradecimento a todos os membros da família dispersos por este mundo afora, separados por fronteiras que a Pandemonia, sem acento nem endereço, resolveu tornar intransponíveis.

 Foi um mês, também, de reconhecimento aos amigos, que nos acompanharam com sua presença, agora virtual, suas palavras de apoio e incentivo, sua contribuição na solução das mazelas quotidianas que nos alcançam na flor da idade, ou melhor, na idade provecta.

“Domine non sum dignus”.

Pois agora é preciso viver o Outubro e tudo o que vem pela frente: Consertar ossos quebrados, endireitar colunas tortas e desinchar os pés, cozinhar macaxeira e lavar as próprias panelas.De resto, pouco tenho a lhes oferecer. Fica pelo menos o consolo de que esta crônica saiu bem curtinha.

12 setembro 2020

Setembro chegou

 

Setembro chegou

 

Setembro chegou. E com ele a Primavera que explode em cores, sabores, aromas, sorrisos e murmúrios para as nossas almas trancadas por força do castigo universal que se abateu sobre nossas cabeças. Feliz apesar do castigo, sigo minha vidinha rica de surpresas, ao lado da minha companheira e dos entes queridos e abnegados que cuidam de nós cuidando, até o mínimo detalhe, para que nada nos falte.

Nada obstante, aproximando-me da chamada “provecta idade” estou consciente das minhas limitações. Entre estas, o uso de um implemento  que termina com  uma curva em forma de ganso invertida, e que se tornou o móvel mais importante da casa: a Bengala. Ontem mesmo, depois de saciar a fome com um prodígio culinário proporcionado pelo Bistrô Primavera, sentindo-me merecedor de um descanso reparador, também chamado cochilo, resolvi deitar-me na cama. Para tanto tratei de levar comigo a bengala já que precisaria dela para, depois, levantar-me.

Nada. Não a encontrava. Procurei em todos os recantos. Fui até a sala. Nada. Passei pela cozinha, pelo banheiro. Nada. Contrariado, fiquei enfurecido e disse: “Ah, é assim ? Então não vou dar cochilo coisa nenhuma, que se dane tudo. Eu vou pro meu computador que lá eu me divirto.”  Joguei a bengala em cima da cama e fui !

 

28 agosto 2020

Amar o Transitório




 Tristeza, dor, sofrimento, frustação, vingança, represália, abandono, traição, angústia.  Afinal, o que é que te sobrou ?  Nada.  O que é feito de tua vida ?  Nada. O que é feito dos teus desejos, da tua esperança, da tua alegria, do teu sorriso, dos teus sonhos ? Nada. Sobrou-me o vazio, o vácuo, a solidão ?
Não. Decididamente, não. Veja o que diz o Poeta:

 A Solidão e Sua Porta      
Carlos Pena Filho


Quando nada mais resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho nz batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo o que é insolvente e provisório
e  de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório 


Carlos Pena Filho, poeta pernambucano que encantou os jovens intelectuais do Recife com suas tertúlias no Bar Savoy, na Av. Guararapes, com os seus chopes: 

“São Trinta copos de chope,
São Trinta homens sentados,
Trezentos desejos presos, 
Trinta mil sonhos frustados" 

Carlos foi vítima de um  acidente  automobilístico em 1960. Tinha trinta anos de idade. Tive o privilégio de conhecê-lo quando eu frequetava o Bar Savoy, no início de 1959 e eu andava fazendo teatro, encenando a Paixão de Cristo em Fazenda Nova. Aprendi com ele e por isso ouso dizer que ainda me resta uma saída: “Entrar no acaso e amar o transitório”

E, antes de me despedir, queridos e distantes amigos, quero deixar-lhes a estrofe de outro grande poeta, Fernado Pessoa, com quem aprendi que

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A  dor que deveras sente”


16 agosto 2020

Sonhos

 

" Sonhos que fogem . . . e aos corações não voltam mais "



Minha alma vagava em desatino

 Negando-se a cumprir o seu destino

Mergulhar no Espaço Sideral que eterno dura

Onde pudesse iniciar vida mais pura

                                                                                                             

 

Esta semana visitei meu bambuzal. A neblina espessa, muito comum nesta época do ano, baixava sobre o Vale do Cônego, criando uma atmosfera de triste melancolia. Perfurando o lençol branco da neblina sobressaía, soberbo, o cocoruto do Chapéu da Bruxa.Foi nesse clima nebuloso que, saindo do meio das brumas, me deparei com o Severino Mandacaru.Mostrando uma expressão de espanto, Severino contemplava o Chapéu da Bruxa meneando a cabeça negativamente num sinal inconfundível de desaprovação.

 “ Galego safado, o que é que você andou aprontando? Todo mundo está se queixando de você.”

 “ Não sei porque, nem vejo motivo. Tenho prestado contas da minha vida com toda a sinceridade e cordura. Aos meus parentes, que me sustentam, aos meus amigos, que me apoiam, me prestigiam e me alegram e à Divina Potestate, segundo Dante, quando me for exigido. Por isso não vejo motivo para queixas.                                                        Ah! Se for por causa das minhas ideias políticas, fiquem tranquilos. Não tenho nenhuma. Resta-me agora cuidar dos meus fantasmas e dos meus sonhos.

“ Mas Galego, e que história foi aquela que você andou falando, de uma tal de Narayama, no topo de uma montanha que . . . . . . .”

 “ Metáforas, Severino ! Metáforas. Narayama existe e todos haveremos de enfrentá-la, seja na forma de Montanha ou de Abismo. Cada um poderá  escolher a sua forma ou entregar-se ao Destino, ao Sincro-Destino de que fala o poeminha do Sonho. Mas este não é o momento para tratar disso. Falemos de você. O que você tem feito?”

 “ Nada. Isso diz tudo. Com Pandemonia sem acento e sem endereço, como diz você, me vejo condenado a comer minhas próprias tapiocas. Também tenho sonhado muito Galego. Sonhado com um mundo mais decente, mais justo, mais equilibrado, o que quer que isso signifique. Um mundo sem preconceitos, sem ódio, sem guerras. Um mundo de paz no qual eu iria dormir com a certeza de acordar no dia seguinte feliz por fazer parte desse mundo. E por falar em sonho, como acabou aquele sonho que você teve em 2014 e  você narrou  num poema que mais parecia um necrológio ?”

 “ Bem lembrado, Severino, bem lembrado! Porque aquele sonho, eu tive, de verdade! Eu flutuava no ar, e me sentia feliz. Tanto é que termino o poema com um epitáfio à altura do evento. Chamei o poema de  “A Pena da Morte” , para não confundir com  “A Pena de Morte”, que seria só a condenação. Ali não. Ali, a morte era ao vivo. Quem ler vai entender.”

 Então, aqui vai:                    

 

A Pena da Morte

Eu tive um sonho

E no meu sonho eu morria

E morrendo eu não me via

Sofrer  como devia.

 

Porque sofrendo passei a vida inteira

E mesmo sabendo que a vida é passageira

Não me dei conta de que um dia eu morreria

 

De repente uma pena apareceu no espaço

Riscando os ares  rápida e matreira

E apontando  meu peito zombeteira

Disparou letras com desembaraço

 

A pena desenhava no ar letras  mal feitas

Que eu arrumava sem zelo em linhas tortas

Para que fossem consideradas letras mortas

 

E assim passou-se o tempo

Minha alma vagava em desatino

 Negando-se a cumprir o seu destino

Mergulhar no Espaço Sideral que eterno dura

Onde pudesse encontrar vida mais pura

 

Eu me deixava flutuar no ar disperso

Para não perder  as letras e desperdiçar o verso

 

Foi quando a pena, com sua ponta de platina

Tresloucada  insana  escreveu ferina:

     

“Aqui  jaz aquele que achava

Que em sonho morreria

Mas no seu sonho delirava

Porque morto  já estava e não sabia”

 

 

“ Galego da gota serena. Você  não toma jeito mesmo.  Onde é que já se viu brincar com um assunto desses. E ninguém,  ninguém   reclamou ? ”

 “ Sei lá. Foi há tantos anos. Naquele tempo não se discutia política como hoje. Se fosse hoje iriam logo dizer que sou conivente com o governo e, por isso, responsável pelas mazelas de todo mundo. Se eu disser que não apoio o governo vão dizer que não acreditam nisso que eu apenas estou fingindo que mesmo assim sou responsável porque não faço nada, que tem milhões morrendo de fome etc. etc.  E dizem isso a um pobre perneta que só está aqui esperando completar o seu primeiro século e dar um ciao. Dominus Vobiscum.”

 “ É, Galego, não se amofine. Faça como eu, vá cuidar de suas tapiocas. Mas você não veio aqui para falar de sonhos?”

 " É verdade, Severino. Sonhos. Só Sonhos. Você lembra do Raimundo Correia? Claro,  foi você que me recitou um dos poemas dele: “As Pombas”. Vou citar as últimas estrofes e depois me despeço. Com uma furtiva lágrima.

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

“Também dos corações onde abotoam

, Os sonhos, um por um céleres voam,

 Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam

Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,

 E eles aos corações não voltam mais...”

 


Em tempo: 

Eu havia preparado uma outra versão para o epitáfio, mais adequada ao "evento". Aqui vai ela:

Aqui  jaz o bobão que achava

Que em sonho morreria

E bobão ele era

Porque morto  já estava e não sabia”

 




 

10 agosto 2020

Um dia na Vida

 

“ Sozinho de noite, nas ruas desertas do velho Recife que atrás do arruado moderno ficou, criança de novo eu sinto que sou.”

 Os versos do Ascenso Ferreira se esparramavam pelo chão do meu quarto  como letras mortas. Caídos assim, perderam a voz mas não perderam o sentido. Desde os dias em que, ainda menino, sentado no Cais do Apolo, eu balançava as pernas enquanto contemplava   encantado a imensa lua de prata e seus reflexos na superfície da água. Desde então, muitos e muitos dias se passaram. E hoje posso dizer, seguindo o Ascenso: “Sozinho de noite, atento como um gambá, olhando o passado, pensando o futuro, criança de novo eu sinto que sou.” 

 Nas pequenas dimensões do meu grande Castelo, eu sinto a vida no ar gelado da madrugada, no sol tépido do meio dia e nas cores esparramadas no céu pelo sol do crepúsculo. Os pássaros cantam. As flores se abrem. Os saguis pulam nos galhos. Os cães latem. A neblina se dissipa aos primeiros raios do sol de outono. O alarido das crianças me avisa que a vida está apenas começando.

 O tempo passa. As baixas temperaturas na Serra convidam ao    recolhimento. Quando Setembro vier, o tempo será mais ameno e com ele chegarão as saudades. Saudades de tudo. Dos amigos que ficaram distantes e para os quais o tempo não passou. Saudades da escola e suas noites passadas em claro. Saudades das fábricas, das máquinas, do cheiro do algodão cru. Da vida proletária. Do silêncio das viagens a trabalho, longe da família. Do teatro e suas presepadas. Das noitadas cheias de poesia nas mesas do bar Savoy, no Recife.

 O tempo passa. Quando Setembro chegar, estarei ocupado e pedirei aos meus amigos que me perdoem por cumprimentá-los apenas com um aceno de mão. Estarei me preparando, em penitência, para corrigir meus erros, obter o perdão pelas iniquidades cometidas e preparar-me, sem pressa, para alcançar o topo da Montanha de Narayama.

 

 

25 julho 2020

No meu Castelo


Nota: Publicado sem revisão ortográfica

 E aqui estamos, instalados neste imenso castelo, com todas as comodidades que a vida principesca pode proporcionar.
Acordei cedo, hoje. Sentei-me numa cadeira do jardim e fiquei observando as gotas de orvalho depositadas sobre as folhas de um pé de fícus, bem próximas do meu nariz, que resistiam ao tênue sol de inverno. Algumas joaninhas se equilibravam entre as gotas, já que não podiam vencer a tensão da capilaridade do líquido. Dois colibris apareceram apressados, rufando as asas, sugando o néctar das flores ainda úmidas, e sumiram na imensidão do céu.
E fiquei pensando no que ainda poderia acontecer,  naquele dia, que pudesse perturbar tamanha quietude.  Nada !

Nada, a não ser o castigo imposto pela virulência dessa endemoniada Pandemonia sem acento que nos mantém aprisionados no mais severo confinamento, enfrentando com uma contraditória alegria e suprema felicidade estes dias tresloucados a que fomos condenados.
Para mim não foi difícil adaptar-me à reclusão monástica que a quarentena nos impôs.
Depois de fazer uma prudente reserva de vinho, aquele que os frades usam em suas celebrações, mergulhei com avidez no meu quotidiano menu de feijão com arroz, frutas, legumes, ovos e sementes oleaginosas. Para não falar da macaxeira e do pão integral que eu mesmo faço.

Não faltará como ocupar-me durante o dia. Basta olhar à minha volta. Na rua, no restaurante, nos ônibus e metrô, na sua própria casa. O que  vejo ? Um monte de gente ciscando freneticamente com um dedo sobre uma placa de vidro, produzindo letras, imagens e sons:  O Celular !
É isso mesmo. O celular, essa maquininha mágica que tantos serviços  inestimáveis nos presta e ao mesmo tempo imbecilizando boa parte da sociedade e desconcertando  o restante.

O celular tudo pode. Ele permite que se fale e escute contemplando a fisionomia alegre, ou triste, da pessoa com quem falamos e até o ambiente de onde está falando. Ele substitui o livro impresso, que ocupa espaço precioso em nossas paredes. (Quanto à qualidade da leitura, é outro assunto, há controvérsias). Ele também substitui o professor na sala de aula, ele substitui a velha máquina fotográfica., as festas de aniversário, a ida, para compras, ao supermercado e o que mais essa nossa tecnologia pródiga tenha inventado nas últimas 24 horas. Sou capaz de adivinhar que em breve não precisaremos mais de barbeiro nem  mecânico de automóveis.

Se por um lado a tecnologia nos facilitou essas tarefas quotidianas, por outro comprometeu o relacionamento humano. Os grupos sociais estão se esfacelando, o ser humano está se degradando e a própria família não tem mais aquele sentimento de unidade, de solidariedade e de afeto. Os princípios mudaram. Não estou inventando nada. Tudo isso foi estudado por sociólogos, sociólogos e outros especialistas provavelmente já substituídos pelo celular,
Até pouco tempo as pessoas se encontravam. Para discutir, trocar ideias, planejar, efetuar tarefas ou simplesmente falar da vida alheia. Agora não há mais encontros. Os encontros são feitos por via eletrônica. Nós vemos as pessoas. Vemos o seu rosto, vemos os seus olhos, mas não vemos o seu olhar, não sentimos a sua alma.

Repito: Eu não estou inventando nada. Isto tudo era assim antes da Pandemonia sem acento. Portanto, ela pode ter agravado, ou menos, o estado das coisas. Lembro-me de uma entrevista dada pelo meu coleguinha Veríssimo algum tempo atrás. (Perdoem a modéstia, chamo-o de coleguinha depois que conheci o Luiz Fernando Verissimo e de ter-me tornado um fanático leitor de suas crônicas – leiam “Os bondes do Verissimo” e “Mais bondes”, aqui mesmo, muitas paginas atrás).
 Perguntado sobre o que achava da tecnologia em nossos dias ele respondeu o seguinte: (estou citando de memória):

“ Quanto à tecnologia eu admiro o avanço, etc, etc, mas ao mesmo tempo me preocupo com a contribuição que ela está dando para a imbecilização do homem . . .” .
Assim é, e assim será. Embalsamado em meu casco, contemplando os jardins do meu Castelo, reconheço que sou um felizardo. E me auguro que, ao subir a Montanha de Narayama, os deuses me recebam com a complacência que eu merecer como pecador, ranzinza e . . . mandão.

03 julho 2020

VOLTEI AOS MEUS PAGOS




Severino Mandacaru emergiu dessa Pandemonia sem acento nem endereço e mandou-me uma mensagem digna de um escoteiro de Cabaceiras:
“ Seu galego bexiguento, você sumiu, onde você se meteu?”
Expliquei-lhe que havia subido a Serra a convite do meu filho, que queria tirar-me  desta solidão Pandemoniaca (sem acento nem endereço), deste confinamento cruel, desta solidão, desta imobilidade silenciosa e levar-me para um lugar que tem tudo isso mas a vida é diferente; é mais humana, disciplinada, alegre, festiva e em contato permanente com a natureza.

“Estou feliz, Severino, e pretendo ficar por lá o resto da vida. E você, o que tem feito?”

“Saí de Cabaceiras. As pessoas não comem mais macaxeira. Agora é só hotidogui, poteito,   . . . . e é tudo entregue no cangote de uma motocicleta. Vim pra Recife e estou pensando seguir o conselho daquele garoto, o neto do Haineken, lembra, que veio ao Recife e queria fabricar umas biritas com a mandioca brava? Estou pensando em fabricar cerveja . . . .
. . . . Ontem estive com o velho Ascenso. Encontrei-o, como sempre, na beira do Cais do Apolo. Ele mandou um abraço pra você.”

Veio-me logo à cabeça a imagem de Ascenso Ferreira sentado no Cais do Apolo disparando versos que ricocheteavam na superfície das águas para afundar, mais adiante, refletindo a luz prateada da lua cheia. E, quando vi a lua, não pude evitar de ouvir os versos de Carlos Pena Filho, o poeta do Bar Savoy.

 “Era uma lua tão grande
De tão vermelha amplidão
Que mesmo Ascenso Ferreira
Comendo só a metade
Morria de indigestão”

“Obrigado Severino, por me trazer essas notícias porque há bem pouco tempo andei relendo poemas do Ascenso e topei com aquele onde ele faz uma gozação aos gaúchos, lembra?”

 GAÚCHO
Riscando os cavalos
Tinindo as esporas
Través das cochilhas
Saí dos meus pagos em louca arrancada
== Pra que?
== Pra nada,

“Apois, quando eu resolvi subir a Serra me deu na veneta fazer uma paródia com os versos do Ascenso e, invertendo-lhe o destino, voltei aos meus pagos.

VOLTEI AOS MEUS PAGOS

Subindo a Montanha
Tremendo de frio
Cantando louvores
Voltei aos meus pagos
Em louca empreitada
--  Pra que?
--  Pra vida encantada

E foi assim que nos sentimos, minha esposa e eu, quando chegamos ao topo. Encantados.
Fomos alojados em um pequeno castelo, pouco maior do que cinquenta metros quadrados, na beira da estrada que atravessa o Mury em Nova Friburgo, cerca de cem metros do renomado Bistrô Primavera, onde o chef Flamínio e sua esposa Adriana encantam seus fiéis clientes com iguarias da cozinha internacional.

E o mundo Pandemônico em que vivemos hoje tomou, para nós, um outro sentido. Adeus solidão opressiva. Adeus angústia estressante. Adeus medos e suspeitas. Voltou a alegria, o bom humor e a tranquilidade. E a beatitude das almas ingênuas.





13 junho 2020

Meus Irmãos em Penitência



 Queridos irmãos.
Muito tempo atrás escrevi “O Colaminho”. Era a história de um casal que, por causa de um colaminho, meteu-se numa discussão inicialmente civilizada mas que, aos poucos, foi-se tornando cruenta, redundou em briga feroz e terminou em separação. E ambos foram infelizes para sempre. E tudo por causa de um colaminho !

Eu não vim aqui hoje recontar essa história, mas para   estabelecer um paralelo com os dias que estamos vivendo.
Em estado de contrição, engolfados nessa penitência austera que nos foi imposta pelas iniquidades que cometemos, nos arrastamos entre as quatro paredes que o destino, a nossa laboriosidade o nosso sacrifício ou a nossa ganância, nos reservou.
Apelei para o diálogo que levou à separação do casal para dar um exemplo de como as pessoas, sob o efeito dessa “Pandemonia” sem acento, perdem a noção espaço/tempo e embaralham seus sentimentos tornando-se impacientes, rancorosos, intolerantes, transformando-se em alguém a ser evitado. Um ser estressado e deprimido, esse é o protótipo para o qual tende o cidadão confinado de nossos dias.

ORATE FRATES. Orai irmãos é o que vos peço.  

E quem o pede é alguém que nunca orou. Deve ter sido erro de fabricação. Mas essa foi uma prática que eu nunca consegui incorporar e, para justificar-me, eu dizia que a minha oração era o trabalho. Com isso, fui engabelando os devotos amigos que me toleraram e, apiedados, certamente rezaram por mim.
Mas devo dizer que ímpio não sou. Porque um dia, muito tempo depois, para minha surpresa, encontro em um texto qualquer que lia por acaso, as seguintes palavras:  . . .  “a melhor forma de oração é o trabalho”.

Precisamos nos acostumar. O isolamento está aí e não sabemos quando irá terminar nem como irá terminar. Temos que
nos adaptar ao novo sistema de vida, limitado em sua amplitude e aliviado com os novos meios de comunicação – e aqui me refiro principalmente àqueles que ainda usam lápis e papel para se fazerem entender. Precisamos inventar o que fazer para dissipar esse tempo exasperador que se recusa a passar. É preciso criar,  fazer o bestunto funcionar para que possa inventar coisas.

E aqui uma delas já me vem à cabeça: o Silêncio.
Aprenda a ficar em silêncio!
Você não terá obrigação de responder perguntas e, mais importante, você não irá mais falar besteiras. Se for preciso pendure no pescoço uma plaquinha dizendo “Em Voto de Silêncio”. Mas, cuidado! Dependendo do seu temperamento o silêncio pode ser traiçoeiro, e você acaba ficando mais deprimido ainda. Então fale suas besteiras à vontade, e aguente as consequências.

Cabe-me agora uma digressão. Devo contar uma experiencia que vivi quando ainda era bem jovem, no meu amado Recife, e que tem a ver com o silêncio. Uma vez por ano eu costumava fazer um retiro espiritual. O período era o Carnaval ou a Semana Santa e o local mais importante era um convento de frades.
Outro local, usado no período de férias escolares, era uma barraca com teto de palha de coqueiro na Praia do Ó, a 13 quilômetros  da cidade de Paulista, um reduto onde morava apenas um grupo de pescadores de lagosta.
No caso que vou relatar eu estava no Convento de Frades. Creio que eram Maristas e ficava na Praia da Piedade, logo depois de Boa Viagem. O Convento estava plantado em plena praia, de frente para o mar. O retiro durava seis dias e obedecia à uma regra geral: Silêncio absoluto! Ninguém podia falar. Durante o evento eram proferidas palestras e prédicas religiosas, bem como orações, sempre por parte dos frades. Instruções ligeiras aos fiéis emanavam dos religiosos, de forma rápida e sintética. Não eram admitidas perguntas. Nas horas de folga era facultado o banho de mar, vigiado por um frade, para garantir o silêncio dos fiéis.
O resultado dessa experiência foi assombroso. Seis dias sem falar.
Ao recuperar a voz, eu tive a sensação de estar ressuscitando. Parecia-me descobrir um mundo novo. Ao despedir-me dos frades minha voz parecia estar descendo das nuvens.

Mas voltemos ao nosso trabalho: descobrir o que fazer e como fazer, para cumprir nossa Penitência.
Para completar fui à procura de métodos e sugestões e, não me avexo de confessar, andei fuçando nos livros de auto ajuda. Não vou conseguir citar as fontes, em primeiro lugar pela sua extensão e depois, porque não tenho certeza se elas vão auto ajudar mesmo. Mas fiquem tranquilos: estarão devidamente entre aspas.

“Cuide da postura corporal.
  Durma sem travesseiro.
  Experimente não usar o encosto da cadeira.
  Não reclame das contrariedades que ouve.
  Não assista TV.
  Fuja dos Tizapps e Facebuques.
  Pare de falar mal dos outros.
  Pare de falar bem de você.
  Coma muita saladinha. E coma sem tempero.”

Para concluir, devo dizer que estou cansado. Trabalhei muito na vida. Construí fábricas, dei aulas, dirigi empresas, escrevi teses e fiz teatro nas horas vagas. E agora, quando planejo o meu futuro, tudo o que tenho a oferecer é . . .  um passado.      





04 junho 2020

Domiciana - A Iluminada




Parece exagero, mas não é. O título é justo.
 Domiciana estava “acima do entendimento humano”.
Domiciana, negra, pobre, analfabeta, sozinha no mundo, tinha todas as características para ser vítima de todos os preconceitos do mundo. Mas Domiciana levitava sobre eles, singrando através  das núvens do Olimpo. Domiciana era pura.

Foi descoberta por Dorotéa, minha esposa, na fila de um Banco. Tinha ido fazer seu recadastramento no INSS, procedimento com o qual a burocracia, aliada à “inclusão digital”, maltrata o cidadão comum, ou seja, aquele ingênuo trabalhador que ainda usa lápis, papel e a voz humana, para se comunicar. Domiciana tinha que preencher um formulário, mas não sabia escrever. Dorotéa prontificou-se a ajudá-la. Enquanto trabalhavam, deu-se o seguinte diálogo:

- Onde é que você mora ?
- Eu moro na Rua do Catete. Divido o quarto com três amigas.
- E o que é que você faz ?
- Eu sou faxineira, trabalho na diária. Já tenho quase todos os dias ocupados, só tenho um dia livre.
- Não, você não tem mais um dia livre. Prepare-se porque você vai trabalhar lá em casa.

E assim foi. Depois de algum tempo cumprindo o seu dia semanal, Domiciana foi devidamente entronizada no Castelo do Cosme Velho. Ocupou seu quarto com banheiro privativo nos 107 metros quadrados que compõem o nosso apartamento, podendo usufruir da deslumbrante vista do Cristo Redentor e contemplar a horta de 2,2 metros quadrados que tenho pendurada em forma de jardineira, nas minhas janelas. Aí planto rúcola e ervas aromáticas para tempero.

Domiciana cuidava da casa, fazia limpeza, lavava a roupa e preparava os deliciosos pratos italianos que Dorotéa lhe ensinava, num verdadeiro sincretismo culinário afro-italiano.

Os anos passavam.  Do ano de 1997, quando a admitimos, já havíamos chegado a 2004. Nossa admiração por ela aumentava a cada dia. Duas qualidades, aparentemente conflitantes, em Domiciana, nos impressionavam: sua ingenuidade e sua sagacidade. O que vou contar explica bem isso.

Certa ocasião um primo meu, italiano, veio visitar-nos. Chamava-se Biggio, uma forma carinhosa de tratar os Luigi, comum na Itália. Muito brincalhão, ele tentava aprender com Domiciana algumas palavras em português. Mas ela não tinha paciência e preferia comunicar-se por meio de mímica. Para isso havia criado uma coreografia própria. Gesticulava tanto que parecia estar dançando um  Maracatu de Luanda.

Um dia tivemos que sair cedo, Dorotéa e eu. O Bíggio ainda dormia. Instruímos Domiciana para que lhe servisse o café da manhã quando se levantasse.
Assim que voltamos percebi que Domiciana, olhando-me de soslaio, atraia Dorotéa para um canto da sala. Afastei-me para não criar embaraço. Ela falava a meia voz:

- “Dona Dorotéa, esse primo do seu Luis é doido. Completamente maluco. Olha só, ele me perguntou se eu não tinha um burro! Eu não respondi, e ele ficou repetindo: Burro! Burro! Burro!  e me mostrava um pedaço de pão. Burro nem come pão. Como é que eu ia ter um burro aqui? E se tivesse, como é que ele ia subir no elevador?”
Burro, em italiano, é manteiga.  Ah, esses falsos cognatos !

Biggio encantou-se com a Domiciana e sucumbiu aos seus quitutes. Num almoço de sábado, em plena feijoada, ele resolveu elogiá-la:

-  “Tu sei brava, Domicciana” !
 E disse isso com o mesmo fervor com que teria aplaudido o Pavarotti no Scala de Milão.

-  “O que? O que que ele disse? Brava? Sou brava sim.”
-  “Come? Come?” repetia o Bíggio, sem entender.
-  “Sou brava mesmo. Eu sou fogo, Eu sou foguinho.
-  “Come? Come?”, continuava ele, atordoado.
Domiciana foi até a cozinha e voltou com uma caixa de fósforos. Tirou um palito e acendeu-o. O Biggio, fingindo-se     assustado, exclamou:
- “Vuoi brucciarmi ?”  (você quer me queimar?)  
Domiciana continuou:
- “Charme? Sim. Tenho muito, muito charme, olha,  olha”  E empinando a bunda, mãos na cintura, começou a imitar as poses da Carmen Miranda e a rebolar.
Foi muito divertido.

Tendo começado a trabalhar conosco em 1997, ao chegar Janeiro de 2004, Domiciana completava sete anos de bons serviços. Em Janeiro de 2005 quis o destino que fôssemos, Dorotéa e eu, morar em Nova Friburgo, com seu aprazível clima de montanha. Levaríamos  Domiciana, obviamente mas, para nossa surpresa, ela não aceitou. Explicou que não suportava o frio, que o lugar seria muito diferente, e coisa assim.
Dorotéa, preocupada, começou a procurar um lugar para alojá-la adequadamente aqui no Rio. Foi quando a Domiciana informou que tinha uma amiga que dispunha de um quarto para alugar. Dorotéa foi em busca da tal amiga. Dona Maria, de Mesquita, era uma ótima pessoa.  

 A partir de então, Dona Maria revelou-se uma excelente guardiã e protetora de sua inquilina.
 Domiciana foi instalada em um quarto externo da casa. Dispunha de banheiro, fogão e pia de modo que podia preparar sua própria comida. Dorotéa assumiu o aluguel e as despesas, bem como manteve o seu salário, para completar a mísera aposentadoria burocrática.

Embarcamos para Friburgo e começamos vida nova. Por volta de 2011, Dorotéa iniciou a busca de um lugar definitivo e adequado para hospedar Domiciana, a esta altura com quase 90 anos e precisando, já, de atenção e cuidados especiais.
Foi quando se chegou ao LAJE – Lar Abrigo Amor a Jesus, uma  instituição modelar de Nova Friburgo, dedicada  ao cuidado de idosos, mantida a custa de doações, eventos sociais de caridade  e. sobretudo, da abnegação e sacrifício dos seus funcionários e administradores.
Feita a inscrição, era preciso aguardar uma vaga.

Sempre que íamos ao Rio, fazíamos uma visita a Domiciana.
Era preciso prepará-la para a mudança. Dorotéa começou a explicar-lhe que se tratava de um  parque, cheio de árvores, pássaros, lugares lindos onde poderia passear e conversar com seus amigos hóspedes. Que havia um refeitório grande e confortável com cinco refeições diárias. Que havia uma enfermaria e médico caso precisasse. Que havia cabelereiro e manicure. Que havia um lavanderia que lhe restituiria suas roupas limpas e cheirosas. E que, acima de tudo isso, ela contaria com o cuidado, o carinho, o amor e a dedicação de todos os enfermeiros, assistentes, administradores e ajudantes daquele mundo complexo que, num  trabalho incógnito e desinteressado, cuidava de idosos.

Em 12 de Maio de 2012, Domiciana recebeu sua vaga. Era preciso transferi-la. Seria um dia muito especial. Sempre que a visitávamos, quando falávamos no assunto, podíamos notar uma mudança no semblante que denotava a nostalgia da partida. Eu temia uma reação descontrolada. Então, me preparei.
Fomos recolhê-la em Mesquita. A primeira coisa que fiz foi sentá-la ao meu lado no banco do carro. Dorotéa ficou atrás, evitando assim que uma conversa entre ambas viesse perturbar a concentração da nossa protegida. Partimos. Durante um longo percurso eu mantive um silêncio respeitoso. Eu espiava Domiciana com o rabo do olho e compreendia sua angústia. Ser extirpada do ninho, arrancada de suas coisas, sua cama aconchegante, seu fogão, e até sua frigideira preferida, era aterrador.
Quando alcançamos a subida da Serra, achei que era chegado o momento de falar.

- “Domiciana, você está indo para um lugar muito especial. Ali você terá todo o conforto e segurança, e  Dorotéa e eu estaremos por perto, visitaremos você e . . .  bla . . .  bla . . . “
Expliquei-lhe tudo o que eu escrevi aí acima. Domiciana não deu uma palavra. Ora olhava a paisagem, ora o teto do carro.
Foi então que resolvi disparar a flecha definitiva:

- “Domiciana, esse lugar que você vai é tão  bom, mas tão bom, que eu mesmo também vou pra lá. Já pedi uma reserva e . . .”
Não pude continuar.

- “É mesmo ? Então o senhor vai no meu lugar ! Não,  Não, o senhor vai no meu lugar, eu posso esperar . . . “

 Domiciana chegou, instalou-se e em poucos dias já era conhecida de todos, dava palpite em tudo e estava ajudando nos trabalhos da lavanderia. O primeiro socorro que ela recebeu foi a ajuda de um enfermeiro que teve que retirá-la de um barranco onde havia caído quando fora colher abacates.
Nós íamos visitá-la com regularidade e cada visita era um divertimento. Ela conhecia a biografia de todo o mundo. Um dia, estávamos conversando no pátio quando um enfermeiro passou.

- “Vocês estão vendo esse aí ?  Ele não usa cueca !
- “Mas como é que você sabe, Domiciana ?
- “Ora, não tá vendo a calça dele afundada no rego da bunda? Aquilo é falta de cueca.”

O tempo passava. Um dia Dorotéa precisou fazer uma cirurgia. Ficou internada apenas três ou quatro dias, mas precisou ficar em repouso um par de semanas, o tempo suficiente para que Domiciana notasse a falta das nossas visitas Assim que pudemos, fomos lá. Não pude estacionar perto da entrada principal, então pedi a Dorotéa que entrasse e localizasse a Domiciana. Quando cheguei, estavam ambas no pátio, conversando animadamente. Cumprimentei Domiciana efusivamente. E ela, com a solenidade de quem vai revelar o segredo do Santo Graal, disse:

- “Oh, Seu Luis, a Dona Dorotéa me contou que fez uma operação pra tirar os ovários. Então o senhor vai ter que cortar o saco.”

Domiciana ! Domiciana !


Chegamos a 2020. Mês de Maio. Dia 17 último, recebemos um telefonema do LAJE com a notícia  de que Domiciana  tinha sido internada para um tratamento intensivo. Durante os dias subsequentes, Dorotéa tentou falar com ela. Não conseguiu. Estava inconsciente. Ficamos em contrição.

 No dia 27 de Maio Domiciana nos deixou. Foi singrar entre as núvens do Olimpo.

Requiem aeterna
dona eis Domine
et lux perpetuam
luceat eis
requiescat in pace
Amen


Repouso eterno
Dai-lhes Senhor
E a luz perpétua
os ilumine
Descansem em paz
Amém